Eliane Colchete
filosofia da potência II
este espaço está sendo reutilizado, conforme o meu título atual sublinhado /// desde 07/01/2017
estou elaborando neste espaço trechos que se destinam a serem transcritos ao blog de minha autoria intitulado "filosofia da potência", porque a página daquele blog está sabotada por intervenção de "defeitos técnicos", não sendo possível utilizá-la para escrita.
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O meu estudo comparativo das posições de Nietzsche e Heidegger acerca do pensamento pré-socrático já mostrou que Heidegger não constituiu a sua sem que fosse já crítica e integradora da leitura que realizou daquela de Nietzsche. Mostrou também o papel histórico de Nietzsche como pioneiro na transformação da exegese dos pré-socráticos, introduzindo a consideração do entorno cultural e da linguagem como elementos importantes ao discernimento do sentido dos fragmentos que chegaram até nós. Essa transformação se tornou completa com Heidegger, e eis uma das razões pelas quais levantei a suspeita sobre o título da obra deste, "Nietzsche 2", em termos de enunciado de um segundo momento do que ele iniciara - Heidegger, o duplo de Nietzsche.
Mas a duplicação não é sem motivo. A crítica de Heidegger a Nietzsche, que incide a princípio sobre o juízo acerca do pensamento pré-socrático, é a sua chave interpretativa do nietzscheísmo assim como expresso em "Nietzsche 2". Porém se por esse viés temos apenas a total contraposição de um a outro, o cuidado com que Heidegger cercou sua interpretação, nada preconceituosa e bastante competente quanto ao seu objeto, limpando o terreno, por assim expressar, de juízos apressados já feitos até então, não é evidentemente o único fator que induz à suspeita.
O juízo de Heidegger sobre Nietzsche enuncia efetivamente que ele conduziu o pensamento até o cume, porém não ultrapassando o a priori metafísico que não permitiria descobrir que o caminho, iniciando-se antes com os pré-socráticos, poderia e deveria conduzir, inversamente, à clareira. O prolongamento de temas nietzschianos transformados por Heidegger como se retomados do ponto preciso onde o impulso metafísico sustou o desenvolvimento necessário, é o que precisamos então reconstituir pelo contraponto entre a inerência da interpretação da história do esquecimento do Ser e a descontrução heideggeriana da metafísica.
Estou colocando aqui o presente trecho, na subsequência à comparação dos textos sobre os pré-socráticos, exatamente para explorar a continuidade do aporte heideggeriano sobre Nietzsche incluso nas leituras de Heidegger sobre os pré-socráticos, e o "Nietzsche 2". Os meus trechos já compostos que desenvolvem outros motivos estão à frente, à espera de serem continuados a partir da cópia do meu manuscrito já existente e desenvolvimentos deste que completarão o presente estudo. Também não sendo previsível se poderão ser publicados na mesma página do blog "filosofia da potência" devido ao tamanho, espero ao menos que o trecho presente possa ser copiado lá.
Fica claro que neste resumo do que pude apurar para ser logo apresentado, estará constando o equacionamento do principal quanto ao escopo do estudo, as relações Nietzsche-Aristóteles naquilo que propus como tema da utilização comum do termo "potência". Pois, se Heidegger é o segundo Nietzsche, que de fato completou o percurso anti-metafísico que aquele iniciara como pensador do niilismo, esse fio condutor não é o menos relevante. E se começamos pela hipótese da "filosofia da potência" como algo que desacredita a anteposição radical de Nietzsche e Aristóteles, como demonstramos Aristóteles é de fato o pivô na exegese do heideggerianismo.
Minha crítica a tal horizonte teórico endereça-se como ao da diferença oligárquico-hierárquica, que só se pode escavar na teoria à sombra do hediondo banditismo capital-imperialista, que se antepôs brutalmente à organização da sociedade civil estabelecida entre a Revolução francesa e a época de Hegel. O que podemos designar o período nietzsche-heidegger, conjunto bastante homogêneo que abarca os cem anos aproximadamente, entre os anos setenta do século XIX aos do XX, foi o interregno pós-democrático que tem suas raízes já na época "positivista" de Comte e Marx.
Período que não obstante sua relação com os impérios neocoloniais, contaminou o pensamento socialista, por meio dos teóricos que o reformularam, tanto "funcionais" quanto "estruturalistas", tornando-o incompatível com as liberdades democráticas na acepção da autonomia da vida privada relativamente ao nível público político, isto é, em que se entretecem os parâmetros da legalidade civil. Incompatibilidade que nos anos setenta do século passado atingiu o auge com a consolidação de uma série de conceitos visando a redução do político ao ético, congruentes com a ambição do neoliberalismo econômico de neutralizar as garantias civis. O que resultou na invasão dos governos por banditismos conspícuos, como no caos da atualidade "globalizada".
A época da diferença oligárquico-hierárquica passou, assim como os "primitivismos" da "teoria" que a pontuaram. Mas a atualidade pós-moderna dessa superação é sempre mais "teoria", posto que a realidade limita-se ao imperial-capitalismo globalizado que como dominação "info-midiática" já não tem lastro teórico relevante. A urgência do combate à odiosa dominação da vida privada, a partir do monopólio eletrônico dos meios de escrita assim como das formas de cativeiro social do banditismo "info-midiático" aqui comprova-se não estar fora dos horizontes da "teoria" como aquilo de que ela se encarrega de denunciar. Não supomos que haja aí algo novo, conhecendo como todos nós as ambições psicóticas dos nazi-fascismos.
A "teoria" pós-moderna não ignora os aportes que à margem da corrente principal do período nietzsche-heidegger, prosseguiram a linha do desenvolvimento como independência da sociedade civil enquanto garantia da liberdade do sujeito privado. Aquilo com que lidamos retrospectivamente, em nossa tarefa de exegese que interessa à compreensão dos conceitos que nós mesmos utilizamos a partir do nosso diálogo com a tradição, assoma pois já não conforme a um todo coerente, que deveríamos reprovar ou adotar. Mas na limitação de premissas científicas que hoje também já foram ultrapassadas, conforme a uma heterogeneidade de motivos e interrogações relacionada a ambiguidades notáveis da realização conceitual, à qual apesar de tudo o amor à liberdade não havia sido estranho.
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A reconstituição da leitura de Nietzsche por Heidegger, como vimos pode ser iniciada a partir da exegese dos pré-socráticos. Aí, conforme demonstramos, Heidegger critica a oposição em que Nietzsche acreditara, entre pré-socráticos que professam o ser ou o devir. Para Heidegger, pois, não havia uma lógica autonomizada ou proto-metafísica em Parmênides, nem o pensamento pré-socrático que Heidegger estabeleceu em torno da a-letheia, separava o ser do devir, posto que sua questão não era a universalidade do atribuído e sim da atribuição, a qual não se abstraía do ser em sentido existencial, relativo às condições variáveis do acontecimento em que a atribuição de algo como o que é se origina. Estas relacionam-se ao homem como atribuidor, mas enquanto acontecimento é o que pertence ao pensar como ao Ser.
Inversamente, Nietzsche tratou os pré-socráticos em termos de uma disputa pelo sentido da existência, colocando de um lado a afirmação dela por Heráclito, por outro a negação parmenídica, tendo a existência o sentido apenas do devir. A negação se fez, na percepção de Nietzsche, a partir da condenação do mutável por ser ele mesmo anulador do que se põe a cada vez, desde Anaximandro a Parmênides, e subsequente a ela projetando-se a fantasia da permanência indeslocável como Ser contrário à aparência falaciosa do devir.
O que para Nietzsche se inicia com os pré-socráticos adeptos do Ser contra o devir, culmina no platonismo, como duplicação dos mundos da aparência e da essência. Já Heidegger trata o platonismo como início da metafísica que é porém, em oposição a Nietzsche, a oclusão da complementaridade pré-socrática entre o devir e sua atribuição como o que é. Assim o que Nietzsche designa "metafísica", a reificação do devir em ser, Heidegger trata como esquecimento do Ser que a complementaridade permitia pensar em termos do que não se reduzia a nenhum atribuído, ao dado =X atribuído como tal, neste ou no supra-mundo.
O Nietzsche 2 de Heidegger se inicia pois, nesse ponto, para mostrar como a partir desse juízo distorcido da filosofia grega antiga, Nietzsche permaneceu na progressão metafísica que se segue desde Platão à modernidade, como o momento culminante dela. O que é um projeto inteiramente coerente, se a distorção consiste na metafísica propriamente dita como a paralogia da separação do Ser que não obstante só é o Ser do atribuído, os sendos ou entes enquanto tais. O devir supostamente pré-socrático só poderia ser separado - para ser condenado ou valorizado - se ele fosse o conjunto dos sendos, ao invés do elemento em que o Ser - como o que se manifesta em sua atribuição - se torna o referencial verdadeiro do pensamento.
Tomada apenas formalmente, não considero essa crítica reversível. A real desconstrução da metafísica começa efetivamente com Heidegger, a partir dela, se não considerarmos por ora a revolução histórico-subjetiva do Romantismo. Porém se Heidegger mesmo estava agudamente consciente do que pode ligar a desconstrução da metafísica e a temática do niilismo como previamente conceituada por Nietzsche, precisamos hoje não apenas considerar como a crítica se estabelece e desenvolve. Mas como ela se situa na subsequência da profecia do criticado que já a esperava como descrédito moderno da metafísica e niilismo enquanto tal.
O Nietzsche 2 inicia-se com o que podemos considerar o resumo da crítica de Heidegger a Nietzsche quanto aos gregos. Esse resumo é feito de modo magistral, a partir da interpretação de Heidegger sobre o início do "Vontade de Potência", de Nietzsche, onde se trata do enunciado historicamente capital sobre a sobrevinda do niilismo como descrédito da metafísica, de modo que o objeto do descrédito é conceituado. Heidegger aproveita assim essa conceituação para repor a origem metafísica da concepção de Nietzsche, demonstrando o caráter axial do juízo sobre os gregos em qualquer estimativa contemporânea da filosofia e desenvolvimento do pensamento.
A partir daí, Heidegger estabelece o seguinte percurso da metafísica, no qual insere a filosofia nietzschiana. A metafísica se prolonga como fator de articulação da unidade cultural do Ocidente devido ao desdobramento histórico do recolhimento dos gregos pelos romanos, naquilo que foi o cristianismo medieval. A partir porém de Descartes, essa unidade se modula pela reinserção da questão da universalidade do atribuído. Ele se torna o correlato objetivo que é posto pelo Cogito, o sujeito suposto saber - assim reduzida a subjetividade, no momento mesmo em que se tornou primeiro pensada - ao intelecto universal.
Heidegger não considera o empirismo de Locke entre outros, como um movimento conceitual independente, apenas redutível à modulação cartesiana do sujeito-intelecto. Leibniz é que opera um novo aporte, ao interpretar o sujeito do Cogito em termos de força e apetição. Nietzsche seria, num primeiro julgamento, tributário da filosofia de Leibniz, apenas reduzindo a apetição ao conceito fundador, em termos de Vontade de Potência, redução da inteligência ao apetite como aos instintos.
Por outro lado, num segundo julgamento, teríamos que até Leibniz o fio condutor da metafísica havia sido dado pela pergunta sobre "o que" é o sendo ou ente - assim supostamente endereçada ao Ser, mas somente ao ser dos sendos. Leibniz opera pois uma mudança pela qual a pergunta se torna o "por que" da existência dos sendos enquanto tais - por que há o ser ao invés do nada?. É então que o alcance da interpretação de Nietzsche por Heidegger, como de modo algum fora da tradição metafísica, se demonstra.
As duas perguntas visam ao mesmo referente, o ente ou sendo, enquanto a essência ou ideia. Elas são de natureza teológica, e a metafísica é teologia, porquanto pressupõe que o ente "seja" somente nesse sentido de uma identidade ideal e invariável de si, independente da atribuição do que é, não obstante o que deve somente estar posto como atribuição de algo "ser". Mas desse modo, ao negar o ser reduzido à entidade do atribuído, Nietzsche praticou somente uma teologia negativa, permanecendo no limite metafísico definido por essa redução.
Porém é na consideração de Heidegger a propósito da Vontade de Potência, que a crítica do aporte metafísico do pensamento nietzschiano realmente deve justificar-se. A importância da estimativa de Heidegger torna-se de considerável magnitude devido à influência que Nietzsche tem exercido sobre o pensamento pós-estrutural. Ela deve, pois, interceptar o que tem sido estabelecido em termos de interpretação pós-estrutural do nietzscheísmo.
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Os referenciais utilizados por Heidegger a propósito do "Vontade de potência" (doravante citado "VP") não coincidem totalmente com a edição da Vozes que estou utilizando (2011), com tradução de Mario Ferreira dos Santos. O trecho que Heidegger trata como "seção A" nesta edição é o aforisma 5, até o quarto parágrafo. A "seção B" em Heidegger, aqui é a continuação do aforisma 5 e o 6. Ambas as seções Heidegger reporta como partes do "fragmento 12", escrito por Nietzsche entre 1887 e 1888. E o que Heidegger designa os trechos de números 9 e 37, correspondem muito geralmente ao aforisma 9, de 1887. Há ainda referência de Heidegger ao "fragmento 112", que corresponde ao aforisma 71. As demais referências não são totalmente identificáveis.
/// atenção a alteração do tamanho da letra na frase indica sabotagem do texto por bandidos desconhecidos, assim como intervenção de bandidos na conta de internet; não é questão da posição da frase na página, pois este aviso está na posição anterior da frase alterada todas as vezes que "atualizo" -
Para o escrito heideggeriano intitulado Nietzsche II (doravante citado N2) utilizo a edição da Gallimard, em tradução ao francês por Pierre Klossowski (1971). Recobre lições que Heidegger ministrou em sua cátedra de Friburg-em-Bresgau. Entre 1936 e 1940 produziu o texto das lições propriamente, e desde aí a 1946 tratou de enriquece-los com aportes mais elaborados, perfazendo assim a publicação que conhecemos. A referência às duas "seções" encontra-se à página 49, e aos trechos numerados à página 77 e 71.
Nas duas seções, Nietzsche enuncia o acontecimento do niilismo europeu ou o que reconheceríamos como a modernidade. Reporta assim em três momentos o descrédito que em cada um deles afetou um valor determinado como justificativa da existência. Niilismo a essa primeira aproximação, seria pois o correlato do descrédito dos valores até então constantes. Nihil sendo "nada" ou a negação em latim, trata-se pois da experiência de anulação dos valores até então considerados "supremos" - como Heidegger interpretou esse início do Vontade de Potência: "O niilismo é o processo de desvalorização dos supremos valores que tem prevalecido até agora." (N2, p. 35) Nietzsche os trata como três categorias: sentido ou finalidade, totalidade ou unidade, verdade ou mundo do ser oposto ao devir como falsidade.
Uma vez que Nietzsche se expressa em termos de "mundo-verdade" para a terceira, na interpretação de Heidegger, o ser é associado à segunda, na qual a unidade como agora o sentido, "age através do homem e fixa e assegura o fato de ser homem no seio do ente" (N2, p. 69). Porém é corrente que a estipulação de um mundo acima do devir (meta-física), é a expressão do Ser oposto ao devir. Também Heidegger coloca, antes, que verdade e mundo verdadeiro são "substituídos" pelo termo "ser", assim como "totalidade" e "sistematização" pelo termo "unidade", e "sentido" por "fim". Aqui o importante ao ver de Heidegger é o equacionamento por Nietzsche, de verdade e ser, como algo essencial para esclarecer a posição fundamental de que procede a experiência nietzschiana do niilismo (N2, p. 67) Porém ao menos na tradução de que disponho, Nietzsche não utiliza para a terceira forma e mais radical forma do niilismo, o termo "ser", apenas "mundo-verdade" além do mundo falacioso do devir.
O acontecimento do descrédito dessas "categorias" (VP, p. 144) que são definidas como " valores" (VP, p. 145), num dado momento histórico ou como atualidade não é a tônica do texto. Mas sim a sequencia de atitudes psicológicas que envolve a afirmação inicial e a subsequente negação das categorias de valor.
Não se trata de modo algum de algo como a proposição teórica de categorias filosóficas e a refutação delas enquanto obra lógica e científica. Não ocorre aqui a clássica história das ideias, em que um fator positivo, a ciência experimental, irrompendo na história a um certo instante, o Renascimento, o séc. XV ou Galileu, vem refutar proposições dispostas desde a Grécia Antiga, os séc. V e VI ac. como verdades (meta)-físicas. De modo que se descobre-se agora que o mundo não se comporta como previsto pela física coerente à metafísica antiga, então a metafísica já não é comprovada pelo mundo enquanto física. O niilismo não é a negatividade que porta sobre um dado, a partir da descoberta de outro dado. O "nihil" significando "nada", o "niilismo" é a anulação do valor possível. Ao menos por enquanto, naquilo que recobre a letra dos trechos considerados, não decorrem outros valores substitutivos.
Mas assim, se não se trata de refutação lógico científica, o que temos nesse trecho inicial do "Vontade de Potência" é o tratamento de um estado psicológico complexo, o "niilismo", composto por traços que recobrem tanto a afirmação quanto a negação dos valores, de que se deve compreender a consequência do trânsito de um a outro e a emergência deles, assim como o estado designado "niilismo", a sua psicologia.
Esta não é pois, a de um estado mental entre outros. É "a" psicologia da história, o que define o processo psíquico tanto em si mesmo, na subjetividade de si, quanto o que, em sendo assim, deveríamos esperar que fosse o que se manifesta como a história. Se é assim, não devemos considerar os valores que foram afirmados/desacreditados como quaisquer. Eles são apresentados de modo tal, por Nietzsche, que esgotam toda a caracterização de valor possível. Se eles são desacreditados, nada mais será objeto de crença.
Isso decorre efetivamente de que esses valores portam não sobre algo existente, mas sim sobre a existência ela mesma. Heidegger recolhe o sentido desse posicionamento, não só por considerar Nietzsche como verdadeiro "pensador", mas também pelo que enuncia em termos da descoberta historial, a saber, as "posições metafísicas fundamentais" de modo que "o niilismo determina a historialidade desta história" que é a ocidental. Sendo a ocidental, significa que ela é a "história universal", como da universalidade da estrutura psicológica do niilismo: "o niilismo é história". (N2, p. 76, grifo dele). O caráter efetivo do histórico, transposto à lei da psicologia, temos pois segundo Heidegger "a subjetividade na interpretação nietzschiana da história", (N2, p. 90) na qual podemos nós considerar que o homem ocidental ao mesmo tempo é o interpretado e o intérprete. Esse traço da interpretação heideggeriana contamina a própria caracterização da Vontade de Potência como necessariamente subjetiva, já que relacionada a um centro de força, uma individualidade. Nietzsche porém defende o ponto de vista objetivo, ainda que não naturalista no sentido da limitação do real ao factual (aforisma, 418, p.473; aforisma 429, p. 481). Essa questão será importante em nosso contraste das interpretações de Heidegger e Deleuze acerca de Nietzsche.
E Nietzsche é pensador, ao ver de Heidegger, os trechos ora examinados devem se considerar o "monólogo de um pensador", nem fragmento de uma obra destinada ao público, nem peça de exposição doutrinal, porque "ele não fala em nome do seu 'eu' ou de sua 'pessoa'", mesmo que por vezes se auto-referencie; "ele fala com o ser do ente na sua totalidade e assim do fundo do distrito do que já havia sido até aqui dito na história da metafísica" - "et cela du fond du disrict de ce qui avait été de já dit, auparavant dans l'histoire de la metaphysique, na tradução de Pierre Klossowski.
É só por penetrar "dans le district de la metaphysique", conforme a expressão de Heidegger traduzido por Klossowski, que os leitores de Nietzsche poderão bem pesar cada palavra do seu texto de modo a repensá-las em sua acepção conceitual e modificações introduzidas por ele (p. 67). Para Heidegger, um pensador é um ser solitário. Não que se possa escolher ser ou não pensador solitário, mas sim que o é aquele que tem esse destino e o assume.
Assim quando Arendt criticava Heidegger por não ser engajado politicamente, e nesse sentido ser "pensador", o que ela caracteriza como autoritário pretendendo estabelecer a verdade dos outros sem participar com eles da ação - desconhece aparentemente a meditação do destino que nesse locus entretece Heidegger. De fato seria estranho que alguém pudesse escolher nesse caso, e que o conceituar da ação fosse ao mesmo tempo o agir, lembrando que Arendt se considera a si mesma cientista política. Pelo modo como Kristeva, biógrafa de Arendt, trata esse item, Arendt pensava escorar-se em Nietzsche para acusar Heidegger de teórico avesso ao mundo da vida.
Essa dissenção devemos reportar já aqui, porque ela porta sobre a própria recepção de Aristóteles, que para Arendt é o pensador do mundo da vida, acusando Heidegger de platonismo, idealista meramente teórico - isso tendo o seu Aristóteles bastante influência do Curso que assistiu de Heidegger sobre o Sofista de Platão em 1924, e provavelmente não tendo desconhecido as lições sobre Nietzsche que Heidegger ministrou em sua cátedra de Friburg-em-Bresgau entre 1936 e 1940, como reportamos acima.
A posição arenditiana parece aceita por Kristeva e Cassin, porém mostra-se bastante criticável pela leitura de Martin Kusch a propósito de Heidegger ("Linguagem como cálculo versus linguagem como meio universal"), que liga de modo intrínseco a interpretação de Aristóteles por Heidegger em termos de superação da posição apenas "teórica" do platonismo ou metafísica. O Nietzsche 2 esclarece bem que é assim, como veremos à frente.
A oposição aristotélica de sophia ou teoria e phrônesis como sabedoria prática, é o tema capital que continua controverso, na elucidação dessa problemática. Pierre Aubenque fornece a aproximação mais acurada desta, e a interligação com a questão que a nós importa, a relação Aristóteles-Nietzsche, também nele encontra boa referenciação. A utilização do seu "A prudência em Aristóteles" como já mostramos e à frente desenvolveremos, enseja dessa nossa perspectiva um nosso juízo sobre a interpretação de Aristóteles nele apresentada.
Assim, em todo caso, o niilismo devendo incidir sobre categorias que enquanto objeto de crença eram tidas por apenas teóricas, impulsiona a mudança de perspectiva de que se trata na filosofia da potência, rumo ao mundo da vida. Já aqui podemos questionar se esse é o sentido que Heidegger concede ao pensamento de Nietzsche, o que seria uma consideração de que Nietzsche realmente superou o niilismo.
Ora, na progressão histórica do descrédito que acometeu a cada uma das três categorias de valor sucessivamente, o que se revela como "resultado" (VP, p. 145), é a descoberta anuladora dos conteúdos de valor, segundo a qual a causa do niilismo foi ter acreditado nas categorias que se revelaram porém relacionadas como agora se discerne "com um mundo puramente fictício". A "conclusão" porém é que é o importante aí, como o verdadeiro resultado que resume a perspectiva situada do pensamento existencial que discerniu a psicologia ou lei da história - ao invés de apenas ter recenseado fatos históricos.
A "conclusão', pois, a partir do descrédito como a constatação do caráter fictício do mundo suposto pelas categorias, foi que, como escreve Nietzsche: "sob o ângulo psicológico - todos estes valores são resultados de certas perspectivas de utilidade, estabelecidas para manter e aumentar as criações de domínio humano, mas falsamente projetadas na essência das coisas". (VP, p. 145)
Como Heidegger sublinhou enfaticamente, Nietzsche expressa aí, como conclusão ou descoberta do descrédito, a "ingenuidade hiperbólica" do homem que acreditou em si mesmo como "o sentido e a medida das coisas". Se Nietzsche não expressa nesse trecho, de fato podemos convir pelo subsequente conteúdo do seu livro, o que Heidegger estabeleceu sucintamente. Nesse resultado histórico, nesse destino de um trajeto, "é de um cálculo psicológico dos valores que se trata, no qual na verdade nós mesmos somos tomados em linha de conta. Pois pensar 'psicologicamente' significa 'pensar todas as coisas enquanto que estrutura da Vontade de potência..." (N2, p. 72).
Desse modo traduz-se a utilidade e o critério das coisas enquanto o de nós mesmos: "... calcular", prossegue Heidegger, " até que ponto os 'valores' são apreciáveis e de que maneira eles o são quanto à Vontade de Potência, assim averiguados em sua validez".
Nessa junção que simplifica consideravelmente as coisas, de modo que poupamos esforços na dedução de que se unem consequentemente a análise do niilismo como lei da negatividade na história e a positividade da Vontade de Potência, de fato uma complexidade se introduz. Ou melhor, ela assoma como uma estratégia para lidar com essa complexidade. Nietzsche não expressa de fato a interligação entre os valores que foram desvalorizados, como premissa, e a dedução posterior pela qual a Vontade de Potência é enunciada como a verdadeira "vida" (p. 150). Ou, ao menos, enquanto o critério e a medida das coisas, Heidegger tendo parafraseado Protágoras, de modo que a Vontade de Potência é o homem da célebre sentença sofística.
O que ele faz na sucessão das categorias desvalorizadas, conforme Heidegger mostrou admiravelmente, é um resumo da filosofia antiga, de uma origem nebulosa até Platão, tendo por segundo termo a Parmênides (N2, p. 70). As categorias se sucedem conforme a desvalorização de cada uma, o que engendra como recurso o apelo à outra. Por esse meio, Nietzsche torna indissociável tanto a criação de cada categoria, quanto sua negação, em termos dela enquanto traço componente do niilismo, e niilismo propriamente dito. Por fim, a terceira ou mais extrema forma do niilismo que seria o mundo meta-físico platônico distinto do mundo natural, se apresenta para ser negada - aqui, portanto, é indiscernível o niilismo extremo como afirmação desse mundo ou a decepção da crença nele.
Então o niilismo radical é por um lado, o não haver de valores restantes, pela decepção que obriga a reconhecer que todos os valores são apenas projeções úteis a nós, e sendo aqueles tais como eram, envolvendo o sentido, a finalidade e o ser do verdadeiro, nos permitiam pensar que o que nós criamos e fazemos é o mundo em si e por si, além de nós e imutavelmente. Porém o que se seguiria, na decorrência desse autoconhecimento? Não ocorre que Nietzsche considere que o que se segue é o ultrapassamento do niilismo. A negação consciente que incide sobre os valores, pelo contrário, é o niilismo radical, o budismo oriental ou a forma europeia do budismo que é a ciência moderna, negadora das causas finais. (VP, p. 148)
Assim Nietzsche se depara por um momento, com duas realidades designáveis o niilismo radical, o que Heidegger designa "niilismo clássico" (N2, p. 73). Tanto o que aí Heidegger define como esse momento da negação consciente, como a positividade do mundo desprovido de valores, "a existência tal qual é, sem finalidade nem motivos, mas repetindo-se sem cessar, de uma maneira inevitável, sem um desfecho em o nada: o 'Eterno Retorno.'" (VP, 148) Conforme Heidegger, o niilismo clássico é "a transvaloração dos valores até agora dominantes que deve se efetuar e se organizar a partir do mais alto grau de uma consciência particular à essência dos valores e sua instituição." (N2, p. 73).
Porém como vimos, Nietzsche não considera bem de modo positivo essa realidade desprovida dos valores que se provaram falsos. Ele a introduz desse modo: "Imaginemos essa ideia sob o mais terrível aspecto...".
De fato, o mundo foi desvalorizado irreversivelmente. Não é no mundo que reside qualquer valor: "Seria imaginável um panteísmo dirigido neste sentido?" - um panteísmo de nossas próprias mãos, conscientes porém de sua incessante criação de ficções? (VP, p. 149) Pois, sendo apenas a nossa utilidade o que está em jogo, Nietzsche desfez o correlato relacional de nós e do mundo em si na qual o "utilitarismo" clássico se reconheceria. "Vontade de Potência" quanto a isso é expressamente uma condenação do "utilitarismo", como a crítica de Nietzsche a Stuart Mill (aforisma 442, p. 487) assim como ao positivismo de Spencer (aforisma 422, p. 476).
É certo que na filosofia utilitarista Nietzsche critica a noção de ação mutuamente retribuível, o que criaria um direito igualitário - algo em contradição com o que ele considera um direito mais justo na condição do primitivo que só cultua um ídolo para dele esperar recompensas previsíveis. No positivismo, ele critica a redução da ação ao valor, mas considerado este já de um ponto de vista moral, evolutivo nessa acepção de uma otimização pré-estabelecida igual para todos - assim ele une Spencer a Rousseau. Porém o que está subjacente à crítica da ciência positivista como do utilitarismo, parece ser o credo naturalista do mundo redutível a leis factuais que a ciência empírica, fazendo conhecer, ao mesmo tempo forneceria o ajuste lógico dos fins aos meios também no concernente à ética - ou seja, penso que Nietzche respeita a cisão kantiana dos reinos da legalidade natural e da liberdade ética, mas como já vimos interpretando Kant de modo que, quanto à primeira, abstraindo o noumeno para restar somente as atribuições da nossa própria intelecção.
O pensamento de Nietzsche parece então lacunar. Por um lado, a existência sem sentido, individualidade totalizável ou verdade, mas não desprovida de ser ("tal qual é"), repete algo que é ela mesma indefinidamente. Por outro lado, o que se repete na existência engloba a única atribuição do que é como valores que nós mesmos inventamos segundo nossos interesses, que portam pois sobre o nada - a "natureza" (em si) não nos explica, não obstante a Vontade de Potência não ser nada além do que se opera num jogo forças naturais.
Mas logo a positividade parece recobrar os seus direitos, na assunção pela qual se ao atingirmos o niilismo extremo, só resta nós mesmos, então deveríamos gozar da existência, como de nossas ficções. É porém nesse ponto do gozo, em que "todo traço fundamental de caráter, formando a base de todos os fatos..." deveria impulsionar o sujeito "a aproveitar triunfalmente cada momento da existência universal", de modo que "esse traço fundamental de caráter produzisse em si mesmo uma impressão de prazer que o tornasse a sentir como bom e precioso", que novamente se reintroduz a negatividade. (VP, p. 149) Pois seria forçoso que o traço de caráter do gozo já fosse ele mesmo prazeroso para que produzisse essa impressão de prazer.
É na decorrência contrária, do fato existencial não ser prazeroso, quando ocorre o insucesso, que aparece a doutrina da Vontade de Potência como o oposto do que a consciência sofredora pode pensar.
As categorias são valor porque, como agora se as expressa, são o fundo da moralidade: "Ora, a moral protegeu a existência contra o desespero e a autodestruição entre os homens e as classes que foram violentadas e oprimidas por outros homens; porque é a impotência em face dos homens, e não a impotência em face da natureza, que produz o amargo desespero de viver". Mais simplesmente dito, "se o oprimido, aquele que sofre, perdesse a crença em seu direito de desprezar a vontade de potência, sua situação seria de desespero", a Vontade de Potência aparecendo pela primeira vez na redação do texto, como "o traço fundamental do caráter dos dominadores, sua vontade de potência" (VP, p. 150).
A inverdade histórica aqui é flagrante. A metafísica, se foi formulada pioneiramente por Platão, não é a criação de um pobre coitado, nem de um popular democrata interessado na tão odiada por Nietzsche "igualdade", mas sim por um nobre inimigo da democracia, e precisamente por julgar que nela se concede poder de decisão ao vulgo que não tem discernimento para decidir, ao contrário da aristocracia do sábio rei e seus guardiões.
É certo que o poder na metafísica estaria justificado por sua utilidade a todos, não obstante nesta vida eles não terem almas iguais, e sim divididas entre superiores e inferiores, e o que Nietzsche pretende é um império que não conservasse esse ideal de universalidade da utilidade mas - ao que parece - a frustração eterna dos inferiores que são desprezadores da Vontade de Potência. Ou que conservasse as consequências da excelência do mando a todos, embora partilhado só por alguns, conforme apenas a pertença nacional - ele instiga em Vontade de Potência, a nacionalidade como ideal belicista de raça e classe, algo que também não parece estranho a Platão. Não sabemos o que é projetado como um estado de coisas em que não existissem os fracos, já que os fortes o são por definirem-se como "senhores" - ou seja, como os que dominam sobre outros que os obedecem.
É verdade que o livro intitulado "Vontade de Potência" foi composto pela irmã de Nietzsche a partir de notas por ele deixadas, tendo ela intenção de distorcer aspectos do pensamento nietzschiano de modo a favorecer o belicismo nazista. Não obstante, o trecho que exorta ao nacionalismo belicista é bem coerente com o espírito da obra. Ora, a utilidade que o platonismo considera de todos, é na verdade não o que todos consideram como tal, cada um por si e ao seu, mas o que o sábio só atribui como o que ele é - a partir já da hierarquia das almas, pela qual alguns são destinados a obedecer como trabalhadores e outros à comandar como senhores. Não há muita distância entre o regime de castas do Manu, que Nietzsche elogia no Anti-Cristo, e as classes rigidamente segregadas por Platão na "República". O que poderia tornar irredutível Nietzche a Platão é o situamento corporal e passional da Vontade de Potência como elemento criador e atuante na existência.
Mas o que é criado - além do jogo de forças no terra a terra animal que não comporta obviamente criação alguma - são as formas simbólicas da idealidade, a cultura, a qual Nietzsche considera uma atividade genérica de adestramento e seleção dos fortes, portanto encerrando a necessidade de ser marcada por meios brutais na memória dos que devem obedecer, assim como marcada por meios igualmente brutais como prova de força dos que devem mandar e estarem conscientes de sua posição.
Sobre isso, Derrida, em seu estudo sobre Bataille onde esperou resgatar a este como nietzschiano apenas equivocado na sua concepção de estar sendo hegeliano, não hesitou em elogiar Nietzsche como a inversão da moral hegeliana do senhorio. Fica o situamento do senhor como aquele que está disposto a morrer na peleja pelo reconhecimento de si como sujeito. Mas se zomba da libertação hegeliana do que se torna escravo porque aceita render-se ao senhor para salvar a própria vida, por meio do trabalho. O trabalho, eis o avesso da liberdade... Porém não se coloca a questão de como se bem vive. Apenas se coloca a questão de como se goza.
Assim Derrida não aprofundou realmente, ao inverso do que fez Heidegger, o pensamento nietzschiano da justiça e do direito, expressos entre as páginas 251 e 266 do Nietzsche 2. Esse pensamento porta pois, não sobre o que Nietzsche considerou a moral do rebanho, ou a ideologia da justiça, mas o que seria justo e o que é o direito do ponto de vista da Vontade de Potência. À frente voltamos a essa consideração.
Por ora seria oportuno apenas a minha interpretação da ideologia em Nietzsche, pela qual ela não extrapola de fato os limites da teoria política clássica, como da noção de contrato social. Se o forte domina, o fraco inventa o direito ideológico na acepção da justiça transcendente, segundo Nietzsche. Mas se é assim, mesmo que Nietzsche zombe do direito igualitarista, ele mesmo concebe o estado anterior ao conflito como igualmente para ambos sem dominação. Mas é exatamente o que ele não quer conceituar, como um estado de natureza originário igualitário à qual qualquer dominação que pudesse sobrevir se contrasta como estado de guerra.
Aqui há a duplicação da moralidade em Nietzsche. Por um lado, enquanto "moral" na acepção de um ensinamento piedoso, ela é a reação dos fracos imaginando um mundo diferente deste, onde existiria uma justiça ideal condenando os opressores. Mas enquanto cultura, ela é a criação única dos fortes, a criação de ideais que é a força expressando-se por si mesma.
Quanto à caracterização da Vontade de Potência, Heidegger também considera que o elemento conceitual é platônico. Ele nota argutamente que a designação do "valor" é introduzida pioneiramente por Nietzsche na filosofia. Corresponde pois ao extremo na tendência que desde Descartes transpôs à subjetividade o elemento da representação do mundo. Porém enquanto tal o valor, que restringe toda atribuição ao interesse da Vontade de Potência, pode ser interpretado como a modulação subjetivada do Agathon platônico.
É certo que Heidegger não focaliza como deveria o traço pelo qual Nietzsche estabelece a vontade de potência como anti-humanismo, na medida que ela é o oposto de uma característica universal da humanidade como igualdade atribuível a todo ser humano. Ela é precisamente o que diferencia uns de outros conforme fracos ou fortes.
Porém Nietzsche também se contradiz aqui, já que os fracos não inventam do nada a piedade como justiça transcendente, mas sim é ela a expressão de sua vontade de potência - que nesta obra transparece com a maior nitidez conceituada como vontade de comandar e dominar nessa acepção - assim o aforisma 205 (VP, p. 290, 291). A crença na justiça transcendente se concretiza na prática do rebanho, o compromisso social pelo qual os fracos se tornando em maior número e agindo coletivamente, podem fazer frente aos fortes e dominar, porém sem nunca chegar a romper o limite da hipocrisia como compromisso ideológico de negação da Vontade de Potência e crença na transcendência.
Porém é algo não contestável que o valor que interessa à vontade de potência - deixando de ser valor na acepção do pressuposto existencial do valorado - é o calculável por ela como seu bem. Creio que por essa ênfase no cálculo como elemento da transvaloração - aquele que deslocou o antigo elemento da transcendência do valorado pelo niilismo - Heidegger não se manteve ingênuo quanto ao caráter prático em que Nietzsche situou a Vontade de Potência, ainda que assim explicando do mesmo modo à cultura.
Já o Agathon , em grego o "bem", das ideias conceituado por Platão como algo acima delas e que as dota de sua identidade própria, estaria para as ideias em Platão assim como o calculável como valoroso por e para a Vontade de Potência em Nietzsche. É interessante que este tenha designado a "hiperbólica ingenuidade" do homem dos valores transcendentes. Enquanto na República, por designar o Agathon como epekeina tes ousias, "além do ser" como das ideias, desperta Sócrates em seu interlocutor a exclamação de que se trata de uma "hipérbole fantástica" - daimoníaca, sendo daímon o termo grego para "espírito" na acepção religiosa de ser sobre-humano - e que como estudamos Derrida traduziu em "Salvo o Nome" por "hipérbole paradoxal". A figura da hipérbole, o que é desmesurado e acima do calculável serve a Platão para estabelecer o pensamento puro como elemento das ideias, como colocamos em nossa crítica a Derrida. As ideias não podem ser cópias das coisas. A Nietzsche ela serve para talvez criticar implicitamente o platonismo por conceituar o bem acima das ideias, e portanto um cálculo acima do calculável. Com efeito ele reduz as ideias a valores como ao cálculo do bem do sujeito do cálculo, a vontade de potência.
Considerando pois que Heidegger estimou validamente essa correlação de Agathon e valor, resta que o elemento do pensável ou ideal em que todo cálculo é estabelecido, se torna singularmente abstraído, ou a imagem do pensamento, como diria Deleuze, mudou. Assim porém entendemos que a correlação estabelecida por Heidegger se manteria mesmo que os elementos da Vontade de Potência comportassem o mal, a opressão e a destruição. O valor não é extrínseco à vontade como o cálculo de um e não outro valor. Mas que elementos compõem a vontade de potência? Podemos concordar que ela completa o movimento histórico que desde Descartes precipita a representação na subjetividade? É da representação que se trata ainda, ou se não, de que modo podemos purga-la dos fatores de cálculo?
Aqui já poderíamos fazer intervir a consideração de Deleuze a propósito do que poderia interligar o percurso do niilismo à doutrina da Vontade de Potência como transvaloração. Como espero ter esclarecido, o que constatamos em nossa leitura foi, inversamente, que não há mediação entre o enunciado do niilismo como descoberta de que os valores são nada, e a doutrina da Vontade de Potência como descoberta de que a vontade de potência existe por ser criadora desse nada - os valores; não existindo nada além de valores criados. E por aí, atingir o conceito nietzschiano do super-homem como o verdadeiro sujeito da transvaloração. Apenas devemos, para obter um contraste proveitoso com a perspectiva de Heidegger, a esta complementar por aquilo que mais nos interessa, a relação de Nietzsche com o pensamento aristotélico, tangenciada como o que responde à pergunta sobre o que significa a expressão "vontade de potência".
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A definição de Vontade de Potência segundo Nietzsche, conforme Heidegger comporta a princípio dois aspectos. Aquele que se relaciona ao valor, é o que insere o aspecto do cálculo assim como do número. E o que se relaciona à própria essência da Vontade de potência como o que nela é querido e desejado. O valor é estabelecido conforme uma perspectiva, ele se cinge ao campo visual e ao "ponto de vista". Valor significa quanto de valor, um grau quantitativo numa escala. O devir é anulado como Real, definido ao invés a este como Vontade de Potência (N2, p. 85), uma vez que se o devir é o conjunto do real (N2, p. 87), ele não teria qualquer valor em si. Mas se o real é a Vontade de Potência (N2, p. 85), o valor se torna mais que atribuível, a possibilidade da atribuição em geral. O valor é sempre valor de troca ("valeus de profit") (N2, p. 87) como de lucro, avaliar é calcular em proveito próprio, sendo o sujeito da avaliação a vontade de potência. Ora, a essência da Vontade de Potência é complexa e não simples, como o nome já mostra, sendo expressão composta.
Heidegger a princípio não visa como problemático a alternância possível da ênfase, entre vontade de (que quer a) potência, ou vontade de (que vem da) potência. Ele considera a complexidade da expressão apenas no primeiro sentido e assim relaciona Nietzsche e Leibniz. (N2, p. 85) A essência da vontade de potência é complexa porque ela não pode apenas querer a potência como o poder de ação, poder de fazer alguma coisa. Instaurada na condição de ser avaliadora, ela precisa querer mais do que obtem a cada vez. Ela precisa desejar duas vezes: o poder e mais poder, como a conservação ("conservation") em que se mantem como o seu poder, e o desenvolvimento ("augmentation"), aumento do seu poder. A avaliação visa o valor nessa duplicidade. Conforme a citação de Nietzsche por Heidegger: "O ponto de vista do valor é o ponto de vista da condição de conservação e de aumento relativa a formações complexas da vida de uma duração relativa no interior do devir" (N2, p. 87), mas assim, conforme Heidegger, "Só o que agora e sempre possui uma consistência, um fundo sólido, pode 'sonhar' com o desenvolvimento (augmentation) de si" (N2, p. 85).
As formações complexas que Nietzsche designa "estruturas de dominação", segundo Heidegger permitem porém definir a essência da Vontade de Potência de um modo unívoco, em termos do que este designa a "faculdade de ser senhor e comandar" (N2, p. 87) e o devir em que elas vicejam são "o conjunto da realidade" ("la realité dans son ensemble"), enquanto o caráter fundamental da Vontade de Potência (N2, p. 88). Assim as estruturas de dominação sendo as da Vontade de Potência, estas tanto são os valores quanto as estruturas elas mesmas enquanto de domínio como "Ciência, Arte, Estado, Religião, Cultura".
Aqui é importante sublinhar que os sendos, o ente ou a realidade, na sua totalidade ou conjunto não tem por si mesmo nenhum valor, assim como o devir ou o próprio valor, independente da Vontade de Potência da qual porém os valores são condições de conservação e desenvolvimento ou aumento. Conforme Heidegger, essa desvalorização é "a recusa mais nítida da crença em uma realidade intrínseca dos valores, a qual, além do ente na sua totalidade, seria válida para ele", e o meio de se conjurar a sua desvalorização é se descartar do "desconhecimento" (méconnaissance) de sua essência como vontade de potência. Por um lado, o conhecimento da essência garante evitar-se "um juízo depreciador do mundo". Mas independente da essência tanto se desvaloriza o mundo, "ele não tem nenhum valor", como se diz que não há um juízo possível a emitir-se sobre ele: "a totalidade do mundo é inavaliável". É necessário algo mais, que não está na totalidade por si, de modo que possa ser avaliável ("évaluable").
A meu ver, assim bem colocadas as coisas, o desejo nietzchiano é correlato do gozo como "prazer" ao invés de também abarcar o conceito de "fruição", a "jouissance" como a instância em que o olhar teria que ser pensado em sua condição de possibilidade de vir a ser avaliador, justamente, de algo como prazer e aumento de potência. Heidegger o pressente ao notar que os valores jamais são o incondicionado, eles são essencialmente condições da vontade de potência. Mas, circularmente, a vontade de potência, condicionada pelos valores, é a condição pela qual os valores eles mesmos valem e são avaliáveis. A vontade de potência que avalia pode ser ela mesma avaliável em função de quais valores ela faz valer. A teoria se limita ao nível do imaginário, como faculdade da ideologia que abarca tanto o desconhecimento como o saber. Se há por um lado valores do desconhecimento, os que foram depreciados como niilismo assim como a crença na justiça transcendente, que seria a crença num caráter avaliável do real em si, o conhecimento da essência permite apenas definir a cultura válida como autoconhecimento de si em termos de estruturas de dominação e vontade de poder. Não alcançando portanto o que designa Lacan o "simbólico" ou "legalidade", em termos da cultura como vida de relações, consciência da linguagem e da lei como relacional ao invés da instância da letra como signo puro, dever-ser condicionante do desejo despótico no inconsciente. Nietzsche teria feito assim uma primeira psicanálise ao ligar a cultura ao gozo como ao prazer de um dever-ser puro (uno) imperativo do inconsciente, mas seria preciso uma segunda psicanálise para ligar o prazer à consciência de relações (múltiplo). Uma vez sendo demonstrável a impropriedade da caracterização nietzschiana da justiça não subsumível à força como mera ideologia da fraqueza, e tendo por contraponto nada além da ideologia da força.
Aqui vemos que Nietzsche não se utiliza tanto da oposição individual-coletivo, como poderia parecer pela terminologia opositiva do gênio e do rebanho. Mas sim opõe tipos de coletividade. Ele não é indiferente à aporia do uno-múltiplo. Aparentemente ele seria o inimigo do uno. A Vontade de Potência não é subjetividade no sentido de algo uno senão por estabelecer-se como "estrutura" - ou seja, comportando a multiplicidade dos componentes ao invés de ser indivisível. Porém não é questionável que a estrutura produz o imperativo dominante uno e não relacional, ou melhor, que assim ela se produz enquanto "quantum" de potência. Heidegger bem o observou como algo decorrendo do viés leibniziano da doutrina de Nietzsche.
A citação do comentário de Nietzsche acerca da perspectiva ou ponto de vista poderia ao ver de Heidegger servir como comentário da mesma noção leibniziana. Em todo caso, perceptio e appetitus determinam a cada vez o impulso que corresponde a colocar diante de si da totalidade do real por um ente que por esse ato de representação a partir de si vem a ser o que ele é. Conforme Nietzsche: "É pelo viés do 'perspectivismo' (a constituição perspectivística do ente) que cada centro de forças", inclusive o homem, "constrói a partir de si mesmo todo o resto do universo, isto é, o mede a partir de sua própria força, o tateia, o modula..." (N2, p. 86) Não há aí contradição com o que Heidegger especifica mais à frente, que os valores "enquanto condições de aumento e de conservação são por essência relativos ao homem" (N2, p. 89). Aqui, não obstante Heidegger vir tratando a essência em termos de Vontade de potência, ele se expressa aparentemente visando o sentido da vontade de potência: "evidentemente os valores só poderiam ser condições da vontade de potência se eles tem por si mesmos um caráter de potência e representam desse modo os quanta de potência para calcular um acréscimo de potência a partir do exercício consciente da vontade de potência". Ele conclui então pela relação essencial dos valores ao homem - "Não a humanidade" em geral - acrescenta Heidegger utilizando-se da citação de Nietzsche, que assim especifica "o valor é o quantum da potência mais elevada que o homem possa incorporar".
A generalidade humana é meio e não fim, um "campo de ruínas" como de tentativa e erro até aportar ao "tipo" do homem na plenitude da vontade de potência. Assim não há contradição porque a "representação" dos centros de força como construção do real é apenas sua constituição dada como existência. Só o homem faz da "representação" a variação tipológica de si mesmo, por onde os valores se tornam a semântica da cultura. É desse modo que podemos compreender o termo "consciente" que especifica nesse trecho o exercício da Vontade de Potência. À página 100 isso é confirmado, tratando-se de resolver a aporia da "ingenuidade hiperbólica".
O que Nietzsche poderia ter expresso assim, se o que ela revela é apenas, protagoricamente, que o homem é o critério das coisas? Sendo-o, porém, àquilo que ele concede existência como algo torna-se o objeto de sua crença como esse algo. Então a "hiperbólica ingenuidade" seria um contrassenso: "a 'hiperbólica ingenuidade' consiste em não ser ingênuo em absoluto", por estar-se consciente da razão de ser da crença. Ora, se não devemos creditar tal absurdo a Nietzsche, algo mais está em jogo ao ver de Heidegger. É precisamente a consciência que, ao invés de ser a da própria ingenuidade enquanto o ato da crença, independente de conhecermos ou não sua origem como nada além de vontade de potência, torna-se o oposto da ingenuidade por esse conhecimento. A ingenuidade se confirma num status pejorativo ("s'avére defectueuse") apenas enquanto o que "se cumpre inconscientemente". E o status sendo pejorativo apenas num sentido aparente. Inconscientemente a crença permanece como nas coisas elas mesmas, mesmo que estejamos conscientes de que a origem delas é nós mesmos, como a vontade de potência.
O nós aqui, o correlato da "humanização" ("humanisation") do exercício da vontade de potência, decide pois do sentido mesmo da Vontade de potência. A ingenuidade nessa posição seria melhor expressa inocência, pois a potência como origem propriamente permanece oculta, não obstante ter vindo a coalescer com o aumento da potência, a consciência do que ocorre enquanto consciência do homem. Mas assim, conforme compreendo esse trecho difícil da exposição de Heidegger, o niilismo que desvaloriza os valores "em si" aportaria a uma consciência da insuportabilidade da consciência humana assim que aportasse ao seu máximo grau, tendo ela por correlato a desvalorização dos valores postos inconscientemente pela potência a cada vez que eles fossem postos. É por isso que Nietzsche desenvolveu a doutrina do super-homem, ao ver de Heidegger.
Não seria o caso, segundo este, de criticar a doutrina do super-homem nietzschiano por ser inconsistente dado o caráter inacessível da essência de um ser que estaria além de nós mesmos assim como de tudo que é já existente. Mas sim de observar que o super-homem é previsível como o resultado do aumento da potência relativamente ao grau já obtido pelo homem consciente da Vontade de potência - que a realizou, portanto, em seu sentido mesmo. Creio que a cultura como representação em um grau superior da percepção apetitiva, que atinge pois a criação de valores, por onde eles não são apenas a função reativa de ajuste do indivíduo à pressão do meio, é o que estrutura a evolução do homem ao super-homem na interpretação de Nietzsche por Heidegger. O super-homem é o homem que não sofreria a depreciação dos valores pela consciência, justamente quando superou todo o quantum de consciência até agora atingido relativamente à natureza destes valores residente unicamente em si. "O homem dessa soberania", a saber, o homem consciente da "ausência de finalidade que "decorre da essência metafísica da potência", que tem assim consciência da total "ausência de finalidade de sua própria soberania incondicionada sobre a terra" é o super-homem nietzschiano segundo Heidegger. (grifo meu, N2, p. 102)
Nesse ponto há porém uma bifurcação do pensamento heideggeriano. O enunciado de que "a metafísica é antropomorfia", definindo "o fato de estruturar e conceber o mundo à imagem do homem" (N2, p. 104), torna-se demasiado geral por poder designar dois rumos bem irredutível, o cartesiano e o de Protágoras. Porém a este segundo estabelecerá ao invés, coerente com a origem ante-metafísica do pensamento grego. Por outro lado, a questão importante aí é onde, entre ambos os rumos, situar Nietzsche. Questão que ao menos podemos justificar, conforme Heidegger, por isso que Nietzsche mesmo não saberia responder à pergunta sobre qual a origem do que ele mesmo introduziu na história da metafísica em termos da noção de valor (N2, p. 94). Que ela é metafísica, Heidegger estabelece por que endereça-se conceitualmente à totalidade do ente, mas que ela não se coaduna com o que a metafísica precedente já estipulara (N2, p. 93). Vimos até aqui, inversamente, que Heidegger inseria Nietzsche numa perfeita continuidade à história da metafísica. Não obstante "trata-se agora de demonstrar que a noção de valor é estranha à metafísica anterior, e assim permanece necessariamente pela razão de que esta metafísica não podia ainda conceber o ente como Vontade de potência."
Como já se deve ter percebido, Heidegger não mudará a posição de Nietzsche como pensador imanente à história da metafísica. Na sequência da exposição, trata-se para Heidegger de mostrar em que sentença de Protágoras difere do enunciado do Cogito cartesiano, primeiro na substância mesma do seu sentido, mas depois pela demonstração da inerência do Cogito aos tempos modernos da metafísica da Subjetividade. É então que se poderá compreender a dependência da doutrina da Vontade de potência a este priori da subjetividade que estrutura o pensamento na modernidade. Ora, nessa demonstração Heidegger repõe o que a metafísica instituiu, o caráter totalizante do ente em função de um pensamento humano intelectivo-reflexivo que possivelmente o atinge. O que não é metafísico, então, é qualquer suspeita relativa a essa possibilidade, que porém não anula o caráter de ser pensável da existência. Apenas o pensar não é totalizar o ser a partir da totalização do próprio ente.
Não é, ainda assim, que Heidegger não pense a semântica na linguagem em termos de totalidade da visão de mundo, ao invés da objetividade do atomismo lógico, por assim expressar - em que cada proposição se ajusta por si mesma à sua referência, de modo que poderia haver por exemplo um Descartes na Grécia antiga, ao invés de cada ajuste local ser apenas acontecimento da estrutura cultural-historial.
Mas sim que essa totalidade não é totalizante do homem, da história e do mundo, não é objetiva nesse sentido, mas relativa ao situamento existencial/historial que temporaliza-se como "Dasein", "uma" consciência historial. O que estaria expresso em Protágoras, posto que se ele já coloca o homem como o critério das coisas, não seria no sentido pelo qual as coisas objetivamente pré-existentes tem sua objetividade objetivada pelo critério da "correta" apreensão intelectiva do homem - isto é, correta porque adequada ao que preexiste: "Aí nenhum traço do pensamento de que o ente enquanto tal poderia se regrar sobre o eu posto em si enquanto que sujeito" nem que ao sujeito caberia o juízo sobre todo ente e o ser deste, ou que "em virtude dessa 'judicatura' poderia decidir da objetividade dos objetos com uma certeza absoluta ("une certitude absolue")" (N2, p. 114).
Se o ser humano é juiz apenas da atribuição do que é enquanto para ele é, em Protágoras, resta que ele atribui também o que não é - assim para Heidegger, do que ele está consciente de ter permanecido oculto, de assim dever permanecer, como o que pertenceria a outro modo de ver como de ser. Realmente o que a proposição protagórica expressa não é que se o homem é o critério, então a ciência é validável em si mesma - ao contrário do que na atualidade Ph. Meyer ("O olho e o cérebro") parece ter pressuposto - não obstante enquanto informação da neurociência atual tratar-se de um bom livro, e até mesmo a pressuposição constar aí como crítica da presunção de domínio do homem pelo homem a partir da ciência.
Mas sim, como temos informação do antigo pensamento sofístico, de que Heidegger considera Protágoras o dirigente, à p.
113, que a ciência objetiva é impossível. Se ela teria que ser "uma decisão quanto à presença e a ausência" do que é longínquo ou oculto para o homem que atribui o ser, como Heidegger expressa, tal decisão é o que a sentença protagórica considera impossível a qualquer um de nós.
Mas em que Heidegger não consideraria a partir daí, o Dasein como aquela mesma soberania sem arrependimento algum, que Nietzsche atribuiu ao super-homem como inteiramente consciente do caráter incondicionado da Vontade de Potência? Esse caráter contradiz o que acima vimos como o limite condicional dos valores enquanto elementos quantificadores da Vontade de potência, que por ela mesma é o cálculo do valor em termos de decréscimo ou acréscimo de si?
Não creio que seja assim, por isso mesmo. A potência é incondicionada apenas enquanto a origem dos valores, mas o que os valores implicam são práticas situadas, o mundo da perspectiva - portanto pressupondo o que é perspectivado. A anulação do noumeno não chega a algo coerente tal que não tivesse que prosseguir o raciocínio a partir dele mesmo pré-existente.
É o que parece também pensar Heidegger, uma vez que da Vontade de Potência decorre aparentemente o círculo hermenêutico heideggeriano, pelo qual um juízo só é possível a partir de uma visão de mundo interpretativa em que o próprio correlato do juízo é integrante e não independente, porém não de fato se a Vontade de potência totaliza previamente o ente enquanto valor. Assim ela não lida com a visão de mundo enquanto verdadeiramente incondicionada e independente, que teríamos conforme o caso ou que compreender como irredutível à nossa, ou reconhecer que não podemos compreender por ser irredutível à nossa. Mas sempre como caso de um cálculo de valor. Ela é uma "ciência" nesse sentido que só a metafísica pretendeu ser possível e que corresponderia a uma certa imagem da ciência atual, positivista.
Mas também por um outro motivo, além daquele dos valores construtores/constitutivos, podemos apreciar o limite metafísico da Vontade de Potência nietzschiana. É em que Heidegger conceituou a relação de Nietzsche com Aristóteles. Ou seja, agora visando a Vontade de Potência pelo seu caráter de força atuante, que Heidegger também designa como caráter "animal".
Prosseguindo o contraste de Protágoras e Descartes, Heidegger mostrou que somente neste o correlato do Cogito se torna ao mesmo tempo que a certitude ou certeza acerca do ser do ente, totalizando-o objetivamente, a posição de si como sujeito, "Cogito me cogitare". Ou seja, o correlato da "representação". Isso é fato conhecido sobejamente na história das ideias. Até a época de Descartes, a metafísica pensa a intelecção racional das ideias de um modo que não põe a questão de sua dependência factual a uma intelecção efetiva - de alguém, aqui e agora. Nessa época, pelo contrário, a intelecção das ideias se torna "representação" delas por um intelecto, ainda que não tenha resultado numa teoria do sujeito enquanto psicologia do eu, que só se torna pensável desde o Romantismo do século XIX. Então como vimos, Heidegger imbrica a subjetividade cartesiana ao empreendimento nietzschiano pela via da subjetividade, porém mais especificado nesse trecho como se Nietzsche prosseguisse o empirismo de Locke e outros, o qual é por Heidegger reduzido a uma versão grosseira do próprio racionalismo cartesiano, se apenas interpretado como filosofia da "representação". Este é o ponto mais obscuro do percurso heideggeriano sobre Nietzsche. Não há como negar que tanto o racionalismo das ideias inatas, quanto o empirismo das ideias provenientes da experiência e não inatas, pugnando entre si nas formas de que se revestiram entre os séculos XVII e XVIII, são igualmente "ideísmos", isto é, como tenho designado, redução do sujeito a sede das ideias. Por isso também poderíamos questionar, porém, que Nietzsche possa ser aí enquadrado, enquanto filosofia da representação. Uma vez que a partir do século XIX não se trata da "representação" ideísta, que explica o real enquanto universal, mas sim dela enquanto o que precisa ser explicado a partir da sua gênese num eu situado, biológica e histórico-socialmente. Assim o interesse da nossa referência a Meyer, que critica justamente que a neurociência possa dominar os processos cerebrais e por aí orgânicos, mas quanto mais o faz, menos compreende a subjetividade.
Assim ao que parece Heidegger confunde decisivamente o ego com o corpo, à página 150, posto que aí ele situa o deslocamento da alma pelo corpo como o procedimento nietzschiano, em termos metódicos inteiramente consoantes ao cartesianismo, pressupondo assim "a ego-idade" (la ego-ité) como o hypokeimenon, em grego o subjectum ou o que sustenta como base de tudo de que se trata de estabelecer possivelmente. Conforme Heidegger, Nietzsche atribui o "eu" (moi) e o sujeito a invenções da lógica, não obstante o pensamento de Nietzsche se concilia com a metafísica da subjetividade justamente porque, assim como na "posição fundamental de Descartes", é pela regra do método que devemos estabelecer algo como o subjacente, o hipokeymenon. Aqui há uma ambiguidade, entre a concordância de Nietzsche com Descartes a propósito do corpo como primeiro princípio, assim como colocado por Heidegger - ou porque também Descartes estabeleceu o corpo nesse caráter de primeiro observável ou porque Descartes estabeleceu o pensar submetido à regra do método.
Creio que do corpo em Descartes podemos deduzir o caráter indubitável da presença- que-pensa. Se não podemos duvidar de que somos nós que duvidamos se for o caso de duvidarmos de alguma coisa, esse nós não é tão inapreensível quanto os críticos de Descartes gostariam de fazer parecer, uma vez que não podemos duvidar de que somos nós que estamos neste corpo, neste lugar, pensando dubitativamente. Se é o método que decide, em todo caso, conforme Heidegger, "Que Nietzsche ponha o corpo em lugar da alma e da consciência, isso não muda em nada a posição metafísica fundamental estabelecida por Descartes", já que "pensar a partir do corpo" é conforme o imperativo de Nietzsche, do corpo se servir "como fio condutor". Para Heidegger, só o que ocorreu foi que ao estabelecer como base "as nossas paixões e as nossas cobiças", apenas "a metafísica de Nietzsche se desenvolve enquanto acabamento da posição fundamental de Descartes, de modo que (à ceci près que) tudo transfere, do distrito da representação e da consciência (perceptio), ao do appetitus, dos impulsos e àquele absolutamente concebido a partir da fisiologia da vontade de potência." (N2, 150, 151).
Mas é duvidoso que se possa realmente pensar a representação e a consciência em termos de fisiologia ou animalidade da força como Vontade de potência, confundindo assim ego e corpo. Ao tratar esse aspecto da doutrina de Nietzsche, com efeito, Heidegger tematiza Aristóteles, como veremos em seguida, continuando assim a história da metafísica por esse outro viés.
Ora, desde aqui podemos notar que o caráter da Vontade da potência não é incondicionado, dado que o "simbólico" não colocaria para sua emergência, a ideologia como o contrário de si - como faz Nietzsche a partir do rebanho e do que foi depreciado pelo niilismo. Ele o coloca ou como momento anterior necessário a si, ou como um aspecto pelo qual a potência ou inconsciente pôde apreender-se a um certo grau qualitativo e não quantitativo de sua constituição, ou melhor, a um certo estado do seu desenvolvimento. Mas assim o próprio desenvolvimento teria que ser interpretável em função do que se torna a plenitude do simbólico, a vida de relações em que a alteridade não é recalcada. Lacan fala assim do caráter singular do Édipo na teoria psicanalítica. A partir de certas ambiguidades de Freud, desenvolve-se com Melanie Klein e outros, de um modo que sempre mais ele deveu estar conceituado antes do seu próprio vir a poder ser enquanto o complexo propriamente atuado, assim sendo superado. Os conceitos psicanalíticos de Klein tornam isso bem evidente, pois os mecanismos de defesa que se originam nas pulsões deslocadas aos princípios da vida do bebê já envolvem posições edipianas. A questão não é pois, a inconsistência teórica que daí se poderia atribuir ter ocorrido, mas inversamente, como esse recurso apenas tornou mais consistente a teoria ao longo do percurso até Lacan. O que se demonstra pretende-se assim não só algo de verdadeiramente originário quanto ao sujeito, a sua necessidade de reconhecimento, que portanto já não deixa reduzir o inconsciente a um conjunto de funções fisiológicas psiquicamente traduzidas ou pulsões, mas também a própria coerência teórica que introduz o meio termo entre o inconsciente e o que ele explica, a consciência relacional. É algo interessante ver aqui, na progressão de que fala Lacan e nele mesmo enquanto o ápice a que ela conduziu, alguma influência de Heidegger. Por outro lado, se o pós-estruturalismo devia aprofundar a pesquisa justamente nesse rumo, ele foi pelo contrário, devedor expresso de Nietzsche. A questão relaciona-se pois à interpretação da Vontade de potência enquanto força reportando-se ao que Heidegger designou corpo e impulsão.
Até aqui, Heidegger reduziu a filosofia moderna, tratada como continuun desde Descartes a Nietzsche, a antropologia - o significado de "antropomorfia" (N2, p. 104). Mas assim decorrem ambiguidades consideráveis, que ora são oriundas do julgamento heideggeriano sobre a história da filosofia, ou o caráter historial do ser (e) do homem, ora da matéria mesma em questão, o pensamento nietzschiano enquanto a culminância desta história que define a, definindo-se como, metafísica. Uma primeira ambiguidade, devida à concepção historial heideggeriana ocorre entre metafísica e antropologia (N2, p. 160). Uma segunda ambiguidade é a que Heidegger atribui ao próprio Nietzsche, entre justiça e Vontade de potência. A interligação de ambas por Heidegger é o modo pelo qual ele resolve o problema da acomodação demonstrável, e não apenas por insight, da Vontade de potência na subsequência dos conceitos metafísicos, de Platão a aos tempos modernos, de Descartes e Leibniz a Kant. É nessa demonstração que intervém o tema das relações Aristóteles-Nietzsche.
O
meio termo aí, como o elemento que tornaria questionável o
mero insight e assim evidencia a necessidade da demonstração,
é o status carente ou ao menos questionável da
verdade reduzida ao interesse da Vontade de Potência. Quando se
trata da posição de Nietzsche na metafísica, a
carência parece óbvia, posto que na sucessão dos
conceitos metafísicos até aí sempre se tratou da
verdade numa relação essencial com a intelecção pura,
bastante estranha à passionalidade desejante e encarnada
da Vontade de potência. A metafísica conforme a
origem platônica, a propriedade do ser enquanto ideia, não é
revertida por Descartes mas sim corresponder à
sua "reinterpretação", na qual a ideia se
define em termos de perceptio e pensamento do ser como representação.
Em tudo isso, onde a certeza e a verdade são os referenciais da
metafísica por si mesma, "não há o menor traço da
experiência do Ser enquanto Vontade de potência" (N2, p. 187)
Ora, Nietzsche situa o projeto cartesiano como "vontade de verdade", segundo Heidegger, e assim uma metafísica da Vontade de potência ainda que inconsciente. Heidegger confirma essa ligação, como porém interior à metafísica e não como Nietzsche pretenderia, o ultrapassamento dela. Por que o projeto cartesiano reduz a verdade a uma relação do sujeito com o objeto, e é a mesma redução que Nietzsche radicaliza na Vontade de potência. Então Nietzsche mesmo pôde redefinir a verdade ao mesmo tempo como função do que a Vontade de potência determina na representação, reduzindo a determinação ao valor do representado para a Vontade de potência.
Nesse interim, entre Descartes e Nietzsche, Heidegger insiste no papel da vis primitiva ativa, de Leibniz, a substância enquanto mônada, força eficaz que representa o mundo - pela qual o mundo é a representação. (N2, p. 188) Já aqui Aristóteles se torna o pivô na interseção de vontade e representação para um aporte historial da metafísica possivelmente totalizada entre Platão e Nietzsche. A vis primitiva ativa, Leibniz mesmo considerou segundo Heidegger intimamente relacionada à "enteléquia" de Aristóteles - que como sabemos é a união de forma e matéria.
Anteriormente Aristóteles já havia sido relacionado a Descartes por Heidegger de um modo intrínseco, mas ao mesmo tempo sem que Descartes tivesse que deixar de estar falando de modo "propriamente moderno". (N2, p. 143) Aqui também trata-se do que é originário, vis primitiva, porém na forma conceitual que Aristóteles designou os primeiros princípios, os quais sendo absolutamente evidentes não requerem demonstração. Ele situa assim na física a essas realidades que considera à vista como os gêneros fixos dos seres vivos, por onde a animalidade genérica do homem assim como sua específica racionalidade. Também Descartes pretende que a metafísica decorra dessa clareza originária, mas nela pressupõe caber unicamente o Cogito.
Nesse ponto, Heiedegger insere o que podemos considerar a objeção fundamental à metafísica, feita porém já por Nietzsche conforme ele, e segundo a qual nem há relação assinalável entre as noções gerais que decorrem da certeza do Cogito e este mesmo, nem há qualquer coisa que as sustente fora da certeza atribuída à sentença Cogito ergo sum. Assim o que Descartes omite é que a sentença só usufrui desse caráter evidente enquanto já filosoficamente disposta, ao invés de por si mesma na ordem das coisas ela poder garantir ao mesmo tempo "o ser, a verdade, o pensar" como decorreria do caráter do princípio.
Mas se Heidegger parece estar concordando com Nietzsche na objeção deste a Descartes, o essencial é uma segunda objeção apresentada - não referenciando-se aqui o percurso inteiro desse trecho. Nesta, Nietzsche faz ver que o Cogito apresentado com o caráter de uma conclusão desde a evidência do princípio do pensar, na verdade é um pressuposto. Porém assim conforme Heidegger, a validável objeção volta-se contra o próprio Nietzsche. Este estaria ciente de que o empirismo já está incluso em Descartes que faz depender da subjetividade as representações objetivas e as noções gerais, apenas sendo o empirismo doutrina da qual "os conceitos de essência (categorias) resultam das associações e hábitos de pensar". Mas assim Nietzsche, seguindo o empirismo, transforma o inatismo ainda puramente metafísico de Descartes em psicologia: "Contudo, do fato de Nietzsche explicar ele também as categorias a partir do pensar, é nisso mesmo em que ele crê dever se opor a Descartes, que mais concorda com este". (N2, p. 146)
O que Heidegger omite aí, porém, é que o empirismo não apenas relaciona o objeto ao sujeito, como representação, mas muda relativamente a Descartes, a natureza do que significa pensar. Para Descartes, é a auto-apercepção de princípio, evidente por si, do "eu" que pensa, puro intelecto que se porta por princípio a ligação da evidência com o enunciado verdadeiro, é a sede das ideias gerais. Para o empirismo, inversamente, o intelecto apenas transforma a experiência das coisas em ideias. O sujeito não está no puro pensamento, e sim em sua experiência. É da experiência que decorre o pensamento, e se pode-se objetar que é assim em decorrência da natureza do sujeito enquanto pensante, essa natureza não pensa senão refletindo sobre a experiência. Ela não pensa "por si" - não há ideias senão como derivativo do que apreendem os sentidos físicos. O empirismo poderia, desenvolvendo-se, chegar mesmo à supressão das ideias por sua redução a percepções.
Ora, Nietzsche não deixa de ter interpretado Kant como uma forma extrema de empirismo - como já vimos em nossa comparação da interpretação dos pré-socráticos. Porém a partir do pós-kantismo a inserção empirista já é o materialismo, o que é possível desde a biologia evolutiva, resultando algo bem irredutível à análise ideísta do classicismo saxão. E de fato, se bem que seja necessário voltar a isso, desde já podemos observar como "representação" é bem irredutível a necessidade de "reconhecimento" como concepções de subjetividade, esta última sendo tema somente desde Hegel a Lacan.
Onde Nietzsche e Aristóteles são interligados por Heidegger, temos o móvel da omissão heideggeriana da irredutibilidade dos períodos canonicamente designados moderno (séc. XVII e XVIII) e contemporâneo (séc. XIX até agora) na história da filosofia - não obstante este segundo ser correntemente designado "modernidade". Até aqui, como vimos, Heidegger identifica a Vontade de potência de Nietzsche ao Cogito cartesiano. Por que Nietzsche "desconhece" a diferença de antiga substância aristotélica e sujeito moderno, assim como a identidade de originária "substância" e sujeito (cartesiano) apenas como "transformação" da primeira na segunda, ele procede a identificação total de ambas como se a substância que foi inicialmente pensada por Aristóteles fosse apenas o enunciado do sujeito: "Certamente o sujeito é conhecido doravante enquanto Vontade de potência: conforme o que a cogitatio é também outramente interpretada". (N2, p. 147)
A subjetividade contemporânea é para Heidegger possivelmente transformação da antiga substância metafísica, do que há motivos para questionarmos, uma vez que a forma substancial aristotélica não comporta a materialidade como natureza do fenômeno, mas inversamente, apenas a essência. É certo que a questão para Heidegger sendo a enteléquia, trata-se da união de forma e matéria, e um dos meios pelos quais podemos entender o que Kusch informou a propósito da interligação do próprio Dasein heideggeriano à filosofia aristotélica do movimento. Porém não seria válido omitir que a união só tem sentido em Aristóteles a partir da forma. Assim, quando Heidegger tematiza "a relação ("rapport") de essência historial entre a energia e a Vontade de potência" (N2, p. 189) , ele omite justamente o que nos interessa aqui, a coincidência terminológica da potência em Aristóteles e Nietzsche. Sendo porém que na verdade Aristóteles designa
dynamis, o oposto da energeia, assim como respectivamente opõe Aritóteles a matéria e a forma.
Mais uma vez seria do desconhecimento nietzschiano que se trata, pois Heidegger segue a história da tradução da energeia aristotélica conforme o termo canônico, o "ato", oposto à dynamis (potência) para mostrar que é percurso da distorção da intenção original do pensamento grego, que Aristóteles teria reposto na originareidade ante-metafísica, como uma exceção no percurso histórico de Platão em diante. Assim, após a tradução latina por "ato", a Vontade de potência novamente deturpa o sentido aristotélico por utilizar esse outro modo, corrente, de traduzir energeia por "energia".
Ora, pela coincidência do uso do termo potência, a imanência materialista permitira uma dedução da terminologia de Nietzsche como transpondo a potência aristotélica, enquanto o correlato da matéria, ao estatuto evolutivo em que se torna esta sede autônoma dos processos de sentido. Mas permaneceria questionável o uso terminológico, uma vez que primeiro pensada a potência precisamente como o inverso dessa autonomia - e de fato o termo "potência" guarda a irredutibilidade ao "ato" na linguagem corrente. Em todo caso, Heidegger inversamente desenvolve a relação Nietzsche-Aristóteles em termos da história da tradução do "ato" (...) ///(...) /continua/ texto em elaboração (...)
continuação
do blog "espaço texto" ]]] (...)
Mas
podemos questionar esse estatuto da inversão. O que significa ser
uma coisa o inverso de outra? A matéria em lugar do espírito, mas
que são matéria e espírito? Na altura em que nos encontramos a
pergunta soa ambiguamente, tanto a propósito dos termos conforme a
proveniência aristotélica que Heidegger está situando, como em seu
uso tal que esclarece o trânsito da presente inversão. Vamos
considerar inicialmente a questão conforme este segundo aporte.
Se
consideramos o corte epistemológico da "modernidade"
(período contemporâneo) a partir da emergência do sujeito
pensável, de modo que o "eu" já nem mesmo se limita ao
referencial da ideia lógica que totaliza a instância da
representação, rompemos com o limite da inversão compreensível
que persistiria em fazer da idealidade apenas essa instância da
representação, somente correlata a que restaria a objetividade.
Ao
invés disso, o "eu" integra doravante a complexidade que
a teoria do sujeito e as questões que ela coloca posicionam. A
terminologia aqui deve ser cuidadosamente definida. Termos como
"sujeito" e "eu" são intercambiáveis na
"modernidade" pós-cartesiana. Ambos tanto podem estar
designando essa complexidade que integram como não exatamente
sinônimos um do outro, como, inversamente, designar aquela ideia da
representação cartesiana a que ambos se opõem precisamente por não
se reduzirem à sinonímia. Aqui empregaremos o termo "sujeito"
designando a realidade complexa, a entidade psicossomática,
transitando num meio ambiente biologicamente integrado, cuja
existência comporta fenômenos do mundo histórico-social. O "eu"
é efetuado pelo modo como a entidade subjetiva produz efeitos de
auto-consciência e de auto-afetação.
Quando
Nietzsche se expressa em termos de vontade de potência, e Heidegger
mesmo situa a este conceito na proximidade do uso contemporâneo do
termo "energia", torna-se problemático apreender em que a
simples inversão da idealidade metafísica pela preminência da
matéria permitiria compreender o que decorre como um mundo dotado de
sentido. Pois, o correlato conceitual sendo a matéria, o que ela
coloca como a entidade psicossomática é uma pluralidade de
fenômenos. A tradução da ideia lógica do sujeito da representação
em algo conveniente ao apetite do ser material a cada instante do
voltar-se de sua atenção ao mundo material, parece insuficiente.
O
poblema na interpretação de Heidegger acerca da Vontade de
potência, que estamos considerando na abrangência da entidade
psicossomática da ciência contemporânea, evolutiva, pode ser
colocado do seguinte modo. Parece haver uma contradição entre duas
definições que ele apresenta da Vontade de potência. Por um lado,
como vimos Heidegger a considera um dos produtos do empirismo como
grosseira assimilação do cartesianismo. Por outro lado,
considerando-a um equivalente da subjetividade que desde o
cartesianismo teria transposto a idealidade na representação, a
trata como o incondicionado, ou seja, precisamente o que o empirismo
coíbe à explicação dos processos do pensamento a partir da
experiência.
Aparentemente o problema
deriva do anacrônico posicionamento heideggeriano da filosofia de
Nietzsche conforme ao a priori cartesiano da representação, quando
ela está bem estabelecida não só como pós-cartesiana mas já como
pós-positivista.
Uma
apreensão mais abrangente da contradição de Heidegger pode ser
facilitada por um exame algo aprofundado do empirismo, como, ao
inverso de assimilação, um pensamento anti-cartesiano. Como já
coloquei, a oposição do "empirismo" a Descartes em
particular e ao "racionalismo" que ele fundou em geral,
consiste em que Descartes supôs ter demonstrado o caráter inato das
ideias, enquanto o empirismo as faz efeitos da experiência sensorial
do sujeito em seu mundo, isto é, dependentes da apreensão dos
fenômenois pelos nossos sentidos físicos. Assim o racionalismo,
entre Descartes, Spinoza, Leibniz, Wolff e até Kant, deve explicar
apenas como as ideias se relacionam entre si constituindo o Real de
modo inteiramente autônomo. Enquanto a questão empirista que o
racionalismo nunca desenvolve, é como explicar a
ligação entre uma certa ideia e sua fonte, a apreensão perceptiva
material.
Ao
longo do período clássico, os séculos XVII e XVIII, essa questão
dependia da limitação epistemológica que Heidegger tratou como
generalidade da "representação", mas que devemos agora
aprofundar mais, como limitação pela qual independente da decisão
sobre a origem das ideias, elas estavam sediadas no "intelecto"
como instância racional da representação ideal. Mas o "intelecto"
deixou de ser o correlato da ideação desde o pós-kantismo dos
inícios do século XIX, e principalmente torna-se impossibilitado
como um correlato adequado da atividade pensante a partir do
positivismo de meados do mesmo século.
O
pós-kantismo ou romanticismo não é uma oposição empirista ao
racionalismo, e sim uma transformação epistemológica real, pela
qual o intelecto como relação entre as ideais e as coisas cede ao
Eu pensante e desejante, historica e socialmente situado, como origem
da atribuição fenomênica qualquer.
Ao
invés do intelecto como sede de ideias inatas, o Eu é o absoluto
inato das nossas faculdades espirituais, que não se esgotam na
atribuição das verdades de razão, mas criam as linguagens
tansientes nas culturas históricas, as quais expressam igualmente
fenômenos éticos e estéticos assim como volitivos e emotivos.
Situado, pois, não na indiferença do organismo, introduzindo-se o
coneito de entidade psicofísica ("sujeito") que o dualismo
clássico desconhecia por ter podido predicar uma materialidade
inteiramente desprovida de ação própria como era a do fixismo.
O
correlato do entendimento como exclusivamente racional torna-se a
inteligência, e até hoje usamos "intelecto" nessa
acepção, ao invés de reduzir a si tudo o que entendemos hoje como
"psique" .
O
positivismo, sim, constituiu um hiper-empirismo que operou a drástica
mutação objetiva de toda atribuição fenomênica.
Com
o positivismo os processos materiais tornam-se os únicos realmente
atuantes, em função dos quais o mundo do espírito é
epifenomênico. Ele é assim a condição de possibilidade de
qualquer ciência da estrutura e do inconsciente. Por isso os
radicalismos empiricistas do positivismo não poderiam dispor do
intelecto ideísta nem mesmo nesse status de correlato epifenomênico.
A diferença do empirismo clássico e positivista é bem nítida.
A
primeira concepção de "ideologia", já de todo desusada,
que foi a última conceituação do empirismo clássico, teve com o
positivismo justamente o locus de sua transformação histórica
naquilo que hoje ainda é tão importante, o correlato ideativo
dissimulado relativamente à sua causa material.
Na
primeira concepção, designada sensualista, de Condillac e Destut de
Tracy, "ideologia" é a explicação da atividade
intelectual de produção de uma ideia qualquer - por exemplo, a
ideia de rosa - a partir da fonte sensorial. Esse tipo de explicação
vinha se sucedendo desde Locke a Berkeley como proposições diversas
do mesmo problema, mas a solução dos "ideólogos"
sensualistas do Aufklaerung setescentista foi original na medida em
que abstraía qualquer atribuição de leis exclusivamente
intelectivas - como a reflexão do percebido criando ideias
aparentemente puras como substância e causalidade em Locke, a
atividade ordenativa do dado em Hume ou o grupamento de ordens
irredutíveis de sentidos físicos como tato e visão em Berkeley. Os
sensualistas posicionaram a questão um pouco ao modo deste, em
termos de proveniências sensíveis diversas, porém operando por
soma de estesias, procedendo aditivamente desde a sensação mais
simples como o odor da rosa, até a quantidade de sensações
suficientes para resultar na ideia unificadora. Marx, em pleno
positivismo, reempregou o termo "ideologia", mas já com
um sentido inteiramente transformado.
A
cisão de matéria e espírito agora operava com um correlato
imprevisível até aí, do homem como produto do meio, conforme o
adágio darwinista das espécies. Porém quanto ao homem, o meio
sendo definido pela nova ciência da Sociologia, que nesse início
significava a suposta descoberta de leis da evolução psicossocial
como o "motor da história", inteiramente material na
acepção da "produção" como o misto do trabalho e saber,
isto é, conhecimento técnico. Uma intercessão de Marx e Comte é
inteiramente possível do ponto de vista antropológico, já que os
estágios "anteriores" - mágico-religioso ou metafísico -
eram considerados epifenômenos da defasagem do conhecimento
científico, este que definia a era atual como da produção
industrial.
A
"ideologia" em Marx como as ideias ilusórias produzidas
por ignorância da causalidade natural, funciona pois como num
romance realista em sentido estrito, oitoscentista - o narrador é
oniciente porque como um cientista, conhece a lei determinista que
rege o comportamento previsível do personagem, digamos, os hormônios
sexuais que explodem na adolescência; mas o que ele narra é a
desventura de uma consciência enganada sobre si mesma, que vive na
"ideologia" ou crença de suas escolhas como testemunhas do
espírito, crente pois no amor romântico que destina as almas,
etc., restando porém que essas ideias ilusórias traduzem interesses
bem palpáveis, isto é, materiais - enquanto quem as personifica
supõe inversamente que atua conforme a livre escolha do pecado ou da
fé. A cisão de consciente e inconsciente material já está
delineada. O pós-positivismo a completará, tornando a ideologia
nesse sentido de dissimulação incorporada ao próprio modo de ser
da consciência, uma vez sendo-lhe sempre vedado o acesso direto ao
inconsciente profundo em que se resolvem os instintos em seu embate
sócio-adaptativo.
Assim
o positivismo pudera fazer do "eu" ora o correlato
desenvolvido da mente no sistema capitalístico-industrial, contra o
anárquico ser coletivo da horda primitiva, ora a ilusão da livre
iniciativa gerada por esse sistema, conforme o eu se limitava a
sujeito epistêmico ou agente "de classe" - ao mesmo tempo
ignorante dela como causalidade efetiva. Enquanto o pós-positivismo
torna o "eu" e seus objetos, a cultura, realidade psíquica
autônoma. Porém radicalizando a premissa do desenvolvimento, o "eu"
que emerge como autoconsciência na civilização ou "modernidade",
não sendo redutível ao meio como à técnica, tem sua natureza
mesma caracterizada em função desse seu processo de vir a ser
auto-consciente. Agora já não é o motor da história que,
explicando a esta, explica o sujeito, mas inversamente, é o sujeito
em seu vir a ser ego-lógico que explica a história.
Aqui
é importante termos consciência de que o corte epistemológico
contemporâneo, que impede o dualismo classicista de intelecto e
organismo - este incluindo o próprio cérebro - relaciona-se a uma
transformação do próprio correlato das ideias em termos de Real a
partir da Evolução. O intelecto (clássico) "representa"
um mundo natural fixista.
Até
a biologia evolutiva que vem dos princípios do século XIX, a
oposição de matéria e espírito era então, vindo desde Platão e
Aristóteles, a do incognoscível e cientificizável, este último
somente que corresponderia ao universo de um intelecto racional
ideal. O próprio real racional era povoado por entidades finalmente
ideais - que depuradas da aparência "física" em devir
reduziam-se ao ser essencial imutável. O trânsito de Platão a
Aristóteles como pensadores formativos da metafísica definida em
termos de ciência dessa e por essa oposição, mostra bem como
mudança de referencial das matemáticas à biologia, o que sedimenta
o Real dualista em termos de gêneros fixos de ser.
O
período clássico pós-feudal já havia deslocado o limite dessa
oposição dual de espírito e matéria pela introdução da ciência
experimental e o empirismo, a natureza material deixando de ser mera
aparência - as Américas e a irredutibilidade dos seus habitantes a
todos os padrões conhecidos da tradição europeia não são
logicamente dedutíveis, mas somente comprováveis na experiência -
e requerendo explicação científica.
Porém
o dualismo persistiu ainda não chegando-se à historicização do
mundo social. Já havia leis científicas a propósito dos
fenômenos, estes portanto já estavam considerados independentes em
sua autonomia cognoscível, porém a ciência deles ainda não era de
todo independente da explicação totalizante do Real como
metafísica.
O
evolucionismo implica um Real em devir, que não permite já reduzir
as ciências independentes ao conhecimento metafísico de uma
realidade unívoca; a independência das ex-colônias impede a
dicotomia dos estados em si mesmos a-históricos, de natureza e
sociedade; e a ruptura política de que se produz o mundo burguês
tem como correlato um direito cujo referencial é o sujeito da ação
e não o grupo de origem.
O
problema histórico que estamos enfrentando neste nosso estudo é
entender por que a transposição fundamental do Real ao mundo em
devir, ordenado entretanto por processos ao mesmo tempo empíricos e
cientificizáveis, resultou numa trajetória dos últimos duzentos
anos em que se espelha a sucessão de tentativas de restauração do
idealismo. Vimos com Abbagnano como até mesmo Aristóteles retorna
nos projetos de uma nova metafísica da evolução, e o próprio
Deleuze reconheceu o quanto Bergson deve a Platão.
Esse
fenômeno surpreendente traduziu-se numa nova dicotomia, do primitivo
e do civilizado como estados evolutivos psicossociais. O Ocidente
enunciava-se como o Sujeito da história da subjetividade em termos
de evolução psicossocial da modernidade na qual emergira a ciência
como auto-consciência. Aqui a Evolução já ultrapassa a oposição
de Abbagnano entre correlato da ciência biológica ou da filosofia.
Nós a captamos como o discurso metateórico das "ciências
humanas", o projeto de essencialização psicossocial evolutiva
como transcendental em relação à qual as outras duas são
categorialmente disponibilizadas em seu próprio discurso.
Perfeitamente independentes
entre si quanto ao objeto - não sendo de modo algum redutíveis a
uma antropologia filosófica ao contrário do que consideram
seus detratores - as ciências humanas são porém
epistemologicamente identificadas por um mesmo paradigma psicossocial
evolutivo que constituem na transdiciplinaridade de psicologia e
antropologia social. O
paradigma da auto-enunciação do Ocidente como Sujeito da
história ou "modernidade", é porém ele mesmo histórico
- mudando conforme as rupturas do Romantismo, Positivismo,
Pós-positivismo e estruturalismos.
Na
modernidade em geral, tanto mais as ciências tornam-se
independentes e não unificáveis, mais a "teoria"
humanística dobra metateoricamente a sua junção paradigmática, a
partir daquelas que se especializam em realidades do Homem, em termos
de sua epistemologia interpretativa de si como evolução civilizada.
Assim a independência das ciências humanas entre si, que seriam
pois ciências dos homens ao invés de qualquer correlato
hipostasiado, é ela mesma o objeto primeiro da dobra a que tenho
designado geo-ego-lógica como autoenunciado do Ocidente ou
modernidade.
A
paralogia geo-ego-lógica que dispõe os diagnósticos do normal e do
patológico enquanto definiendum do "desenvolvimento",
incide pois entre uma ciência da evolução psicossocial do Homem,
porém somente performatizada pela trajetória de uma cultura
particular e irredutível às demais. Cultura que assim está
pressuposta una, como o Ocidente, e relativamente a qual todas
as demais são postas na categoria de sub- (pré)-desenvolvidas. O
desenvolvimento é pois, essencialmente, a capacidade de produção
lógico-científica em que a essência do desenvolvimento é
desvelada.
Conforme
os paradigmas, essa essência é mutável. O Romantismo
pré-darwinista visava um primitivo que não era ainda horda
coletiva, o eu romanticista sendo universal. Desde Darwin em diante o
"eu" se torna a especialização de um mundo de moralidade
e legalidade, contra o fundo primitivo da pressuposta como tal horda
coletiva.
O
pós-positivismo, que aqui estamos tratando como o período
Nietzsche-Heidegger, não foge à regra de construção do discurso
da modernidade ou geo-ego-logia, apenas constitui um paradigma
autônomo em seu
interior.
Na
altura dessa grande época, cujos reflexos ainda nos atingem e que
subsume os derradeiros modelos metateóricos da "modernidade",
um por um dos fatores historicamente constitutivos da ruptura foram
subvertidos. O devir evolutivo que implicava a ação pensável da
natureza material, foi reconvertido em interpretações teleológicas
possíveis,
assim unificantes dos fenômenos numa totalidade de sentido
filosoficamente apreensível em termos de percurso
da inteligência. A independência das ex-colônias transmutou-se na
nova condição de dependência econômica, o imperialismo, enquanto
se inaugurava o
neocolonialismo em Ásia e África
e um verdadeiro "primitivismo" se possibilitava.
O liberalismo da revolução francesa era ultrapassado pela
conformação aristocrática
dos monopólios capitalistas característicos do empreendimento
neocolonial, entre o império inglês e o Reich alemão. A
fantasia da livre iniciativa smithiana
submergia perante as
evidências do capitalismo financeiro, o imperialismo e o domínio de
carteis, assim como as
possibilidades de interpretação romanticista do direito moderno
se tornava questionáveis pela figura da "pessoa jurídica",
o direito de grupos como empresas e instituições.
Minha
intenção não é resolver a questão do retrocesso "metafísico"
da modernidade como epifenômeno dos fatos de "história geral",
mas considerando que a separação objetiva destes fatos nessa
condição disciplinar não
elimina a pergunta pela complexidade do Real em que não estão
predeterminadas
as
fronteiras que os
separam, quase que inversamente compreender a intenção "metafísica"
- isto é, "evolutiva" - que conforma os fatos enquanto
autointerpretando-se em seu mesmo desenrolar em termos da
tessitura do "desenvolvimento".
Ou seja, do percurso histórico da humanidade rumo ao telos moderno
ocidental, que assim
mais do que o termo presente, é sua própria decisão como
futuro. E decisão
sobre seu significado em termos de modernidade, relativamente pois
aos povos como ao passado.
A
interpolação desses temas é necessária ao contexto, não algo
superficial se o viés evolucionista da nossa questão é intrínseco
à sua motivação. Podemos ver assim, além da preminência da
transposição psicossocial do evolucionismo a toda conformação do
pensamento contemporâneo, que o "ideísmo" clássico, em
termos de explicação do intelecto, foi comum a empiristas e
racionalistas, mas a forma em que essa explicação se resolve não
era de moso algum igual para ambos, de modo que inversamente a
Heidegger, a anterioridade cronológica de Descartes não basta para
reduzir os primeiros aos segundos.
É
fato que Heidegger considerou apenas o "ideísmo", que aqui
estipulamos como a reserva classicista do "intelecto", na
avaliação histórica da significação da "representação".
Nós o comprovamos nesse trecho em que Heidegger confunde Nietzsche e
o empirismo pré-kantiano: "O que Nietzsche crê dever produzir
como perspectiva pretensamente nova relativamente a Descartes, a
saber, que as 'categorias' resultam do pensamento, constitui
precisamente a proposição decisiva de Descartes mesmo. Certamente,
Descartes esfroça-se ainda por dar um fundamento metafísico
unitário à essência do pensar como cogito
me cogitare, enquanto Nietzsche, guiado pela brida
do empirismo anglo-saxão cede à 'explicação psicológica'.
Contudo, pelo fato de Nietzsche também explicar as categorias a
partir do pensar, é sobre isso mesmo, em que ele crê dever opor-se
a Descartes, que mais concorda com este". (op. cit. p. 146,
grifo dele).
De
fato o empirismo lida com leis do espírito, e assim aparentemente se
contradiz por admitir algo de coerente ao inatismo. Porém o
empirismo não se reduz à explicação psicológica que ele
colocaria em lugar de metafísica. A diferença aí é
justamente de lugar. O racionalismo visa a uma explicação unitária
e a preservação dessa unidade enquanto metafísica. O empirismo
lida com a psicologia enquanto uma disciplina separada, mas nem ela
mesmo suficiente para unificar os fenômenos materiais envolvidos
desde a biologia e a física, na intelecção a partir da compreensão
dos processos de sensação e/ou percepção.
Até
a época de Nietzsche, como vimos, o empirismo transitou do fixismo
ao evolucionismo, mas mantendo a linha da experiência explicativa
dos fenômenos espirituais e não o inverso. Se Nietzsche tem algo a
ver com o empirismo, deveríamos interceptá-lo na confluência
daquele momento histórico em que até mesmo o empirismo devia
inverter a linha.
Mas
de modo que a evolução da cultura subjetivada, agora explicando a
experiência e não restando a hipótese contrária, já não resta
ela mesma apenas "espírito" na acepção ideísta e
clássica do termo. A cisão de instinto e inteligência não permite
qualquer dualismo. É nesse ponto que se insere o papel do próprio
Heidegger como pensador da pre-sença, o Dasein ou consciência
situada.
Na
inversão do empirismo clássico na ambiência culturalista, o
contrário do incondicionado inatista não é o condicionado por
qualquer fator unitário. A
multiplicidade dos fenômenos que compõe um processo de sentido
exige uma epistemologia nova,
que Nietzsche alcançou na terminologia do "conceito de relação"
(Vp., op. cit., p. 370). Aqui podemos
considerar a formulação do real numa obra de psicologia algo
recente: "Estamos mergulhados num mar revolto de energias
físicas, que formam o nosso ambiente físico. As energias tomam
muitas formas - radiantes, vibratórias, químicas, térmicas,
mecânicas. Variam, incessantemente, quanto à concentração e à
intensidade. Somos instrumentos sensíveis, e nos locomovemos nesse
mar de energias. Quando as energias nos atingem, nós as registramos
e fixamos. Mas somos instrumentos extremamente seletivos, sensíveis
a algumas energias e não a outras; e mais ativos do que passivos,
procuramos informações
além de registrá-las". (D.
Krech e R. S. Crutchfield, Elementos de psicologia, São Paulo,
Pioneira, 1974, p. 57. grifo deles).
Os instrumentos vivos que somos merecem essa designação por
seu caráter interativo energético, cujo modo de ser semelha um
funcionamento específico. Uma onda de energia, digamos, luminosa,
atinge o olho de um cão tanto quanto de um homem, porém como
instrumentos diferentes, cada um deles captará uma
frequência específica da
onda luminosa, resultando em
fenômenos irredutíveis do ponto de vista da cor visível
por qualquer um deles.
Um não discene o que é possível ao outro. O mesmo ocorre com a
onda sonora, etc.
A
epistemologia se interessa aqui por essa
forma de raciocínio novo que
não permite reduzir os dados
interativos - a energia, os organismos e a frequência captável - ou
mais geralmente a dicotomia organismos/meio,
à oposição de condicionado
e incondicionado.
Como
podemos tematizar o modo de
pensar que atravessa a
oposição, sendo ele o da
ciência contemporânea? Se
temos razão em considerar o pensamento nietzschiano como a
transformação empirista do culturalismo, deve ser demonstrável que
os conceitos nietzschianos de
percepção e valor podem não ser redutíveis ao
"ponto de vista" ideativo como Heidegger pressupôs, de
modo que o mundo resultaria divisível em "pontos" como
átomos lógicos de um cálculo da sensível. É
evidentemente absurdo considerar que o cão ou o homem "calculam"
a sua frequência de onda...
Nietzsche
se expressa do seguinte modo,
para rechaçar a concepção metafísica de um mundo que existe tal
qual se o percebe, o que
ele designa "mundo-verdade", isto é, independente
do percebedor assim como das suas condições de percepção.
O que existe, inversamente, é apenas o "mundo
real, onde tudo se encadeia e condiciona..." (op. cit. p. 369).
Eis uma referência bem a
propósito do modo de pensar que acima exemplificamos
em Krech e Crutchfield.
Segundo Nietzsche, sendo
o mundo real o entre-encadeamento imanente
aos fenômenos,
suprimir qualquer coisa na imaginação é suprimir a realidade - e
conforme Nietzsche, "a
fisiologia demonstra isso
muito melhor!"
(op. cit. p. 370, grifo dele)
A supressão por excelência é evidentemente a que a metafísica
idealista faz do devir.
Assim
também, segundo Nietzsche,
"sustentar que as coisas
tem uma modalidade em si, abstração feita da interpretação e da
subjetividade, é uma hipótese
absolutamente ociosa;
esta suporia que o fato de interpretar
e de ser sujeito não é
essencial, que uma coisa afastada de todas as relações é ainda
coisa. Ao contrário, o caráter das coisas,
objetivo na aparência,
não poderia reduzir-se simplesmente a uma diferença
de grau em meio do
subjetivo?"(op. cit.
373, grifo dele). E se o "em
si" é apenas "uma concepção absurda", não obstante
o que vimos Nietzsche considerar do kantismo como o marco da
contemporaneidade, não é devido ao idealismo a priori das
categoris do entendimento, mas porque "o conceito de 'ser', da
'coisa', é sempre para nós um conceito de relação..." (op.
cit. p. 370)
Ora,
Heidegger não está de todo errado ao divisar na Vontade de
potência, apesar de tudo um conceito unificador,
e como já repetimos várias vezes, de fato Nietzsche não se detem
na exploração do que seria um pensamento por relações - que a meu
ver tem sua continuidade exemplar em Piaget. Ou
seja, como Nietzsche entrevê nessa parte da obra, um pensamento que
desafiaria o caráter
primordial da substância naquilo que de Aristóteles a Kant foi
aperfeiçoado como a tábua das categorias. De
fato Piaget demonstrou, na reconstrução da sucessão da aquisição
das capacidades ao longo do desenvolvimento infantil, que o objeto
não é primeiro, que a fixação da perceção de um objeto se
desenvolve gradualmente relacionada à percepção de lugar e
posição. Porém Nietzsche
objetiva, na subsequência à sua crítica pós-humeana da causa,
posto que já função da potência em vez da ordenação
intelectiva, na verdade uma
"concepção unitária da psicologia". Ele tem pois um
papel na transição do positivismo ao culturalismo, que não é só
o da inversão empirista da
explicação do espírito pela experiência sensível, mas também o
da regressão metafísica do evolucionismo.
O existencialismo pós-nietzschiano
foi crítico do empirismo, num ambiente de transformação conspícua deste. Houve primeiro a decomposição da filosofia nas duas disciplinas autoposicionadas como científicas, da sociologia comteana e da psicologia "associacionista" cara ao utilitarismo dos Mill. Que não houvesse qualquer corrente empirista da filosofia propriamente, nessa altura pós-romântica, é bem compreensível. Pois tratava-se nestes termos do pós-romantismo, da investida "realista" contra Hegel, mesmo que de "jovens hegelianos" que como Marx pretendiam conservar a dialética mas estar apenas invertendo as premissas do "idealismo", de modo que a marcha da história já não seria a das ideias mas das coisas como dos fatos, produtos da praxis. E aquilo em que a filosofia se decompôs, tratava justamente de demolir, no rumo da história ou do Homem, o interregno do passado imediato metafísico, para retomar, das fantasias plásticas mas tão concretas da magia primitiva, o impulso construtivo do Real que fazia deste o correlato da vontade do Homem capaz de anular as barreiras entre ele mesmo e o mundo.
Nesse sentido, cujo horizonte bem pode ser conotado pela temática do super-homem, Nietzsche é ainda um positivista. Há aí dois elementos importantes a considerar. Primeiro, a abertura ao futuro, filosofar, sim, mas com o martelo - como vimos, esculpindo o eterno retorno contra o aleatório ricorsi viquiano, transformando o círculo do infinito em linha reta do progresso, impondo, mais uma vez, um sentido unilateral ao devir, mesmo que pela compreensão deste como realidade última, destituindo-se toda idolatria do ideal. Porém o "simbolismo" nietzschiano - a tendência que sucedeu o "positivismo" - é nítido, já que, com o martelo, se trata novamente de filosofia. E, segundo, a centralidade do Homem, em que a agência da história se torna mais que o sentido da cultura humana, o destino das coisas elas mesmas. Mas aqui também o "simbolismo" já se institui, porque o homem nietzschiano é bem mais que o produto do meio. A crença spenceriana que Darwin incorporou, da evolução como seleção e triunfo do mais forte, já vimos que em Nietzsche se transforma singularmente, pois não se trata da mensagem da espécie que agora é apenas "o rebanho", e sim do gênio, a ponte para o super-homem que excederá a espécie existente. Pode ser que a ênfase de Heidegger na Vontade de potência como subjetividade incondicionad tenha aqui o seu pendant.
O "simbolismo" em geral e Nietzsche em particular não são ainda o "modernismo" pleno da época de Ser e Tempo. Neste as mudanças que o simbolismo introduz como pós-positivismo estarão realmente completas no sentido da temporalidade inteligível. O positivismo não é contraditório quando amalgama a supressão do interregno metafísico, interpretando ao invés a verdade do Homem pelo ser primitivo, com a abertura ao futuro. O primitivo mesmo, a magia como proto-ciência - proto-técnica - era essa abertura.
Mas Nietzsche, sim, na medida em que desde o "simbolismo", a cultura como linguagem do símbolo passou a ser considerada autônoma - não na acepção da legalidade lacaniana, mas do imaginário mágico-religioso. Ao invés de proto-ciência, atividade que se não com os mesmos meios, ignorando o verdadeiramente eficaz, é feita porém com os mesmos objetivos de obter controle sobre a realidade, o mito se torna considerado um meio de objetivos próprios, relacionados à autonomia do símbolo. Mas desse modo, na época de Heidegger e Freud é nítido que a inteligibilidade do tempo é voltada ao passado. O futuro será pois a realização da verdade do Homem na origem, se puder realizar-se pela evitação da catástrofe tecnológica que se conhecia agora como planificação do genocídio - dos campos de concentração ao domínio sobre o terceiro mundo, como Heidegger já denunciava. Heidegger parece ter compreendido a contradição da temporalidade nietzschiana expressa na temática do super-homem, mas interpretando-a como limitação da Vontade de potência em termos de subjetividade incondicionada - assim, um modo nietzschiano insuficiente de criticar a doutrina positivista do homem produto do meio. O percurso heideggeriano é então facilitado compreender-se. A crítica da metafísica torna-se crítica da própria ciência positivista como projeto de dominação tecnológica. A subjetividade incondicionada é a contradição metafísica, na medida em que um projeto de domínio supõe um sujeito, mas a mensagem da evolução como progresso técnico em vez de realização da essência requer a supressão da subjetividade pela posição da necessidade objetiva como absoluto.
Ora, entre Nietzsche e Heidegger, o empirismo nas formas da sociologia "positiva" de Comte e da psicologia utilitarista "associacionista" dos Stuart Mill pai e filho, encontrava uma barreira intransponível. A fórmula da psicologia que sintetizava as propostas de definição dos meios de transformação dos sentidos em ideias, estabilizara-se como associação de dados dos sentidos, formação de imagem e formação da ideia. Em laboratório, contudo, provou-se que não ocorre necessariamene formação de imagens entre a captação sensível e a ideia produzida. A tese da constância, fiel do objetivismo tal que tudo o que os sentidos podem captar preexiste no dado, foi também derrubada pela demonstração de efeitos óticos que requerem, inversamente, atuações do aparelho perceptivo exclusivamente - como o funcionamento do desenho animado, que hoje é de comezinho saber.
A sociologia comteana, compatibilizável com a premissa da antropologia positivista de gabinete, anterior ao trabalho de campo, tornou-se tão contraditada quanto Morgan e os demais positivistas que escalonavam as instituições sociais de modo determinista, conforme o grau de conhecimento técnico. As sociedades foram constatadas como todos de significado autônomo, independente de apresentarem níveis de conhecimento comuns, e inversamente, constante sociais como a proibição do incesto foram observadas mesmo em sociedades de níveis diferentes. Iniciava-se a sociologia na forma algo familiar ao que se pratica atualmente, desde a efervescência em torno de Weber e Durkheim.
Entre
o simbolismo e o modernismo,
o quadro é complexo. Várias
rupturas aconteceram, mal cobertas pela limitação a dois rótulos
somente. O início do
modernismo, coincidindo com a
morte de Nietzsche (1900),
permitia ainda a
perpetuação de parâmetros unicamente "positivos" -
pretensamente a-teóricos e
unicamente laboratoriais - na
psicologia, se não mais a do utilitarismo, aquela que surgia como
"behaviorismo".
A
sorte do "positivismo" voltou,
porém, aos caminhos do pensamento puro, abandonando
qualquer disciplina científica
específica, tornando-se
o termo sinônimo da
corrente epistemológica que defende a validez do conhecimento
experimental assim como definindo-o em termos de objetividade
universal. A
epistemologia assim limitada seria porém o viés de uma autêntica
"visão de mundo" cientificista, isto é, que confiava
unicamente na verdade como essa objetividade científico-experimental.
Com reservas importantes
relativamente à defesa oitoscentista
da experiência,
a corrente designada "neoempirismo", iniciando-se com
adeptos do Círculo de Viena,
protagonizou a nova filosofia
anti-metafísica - que porém
ao contrário da crítica heideggeriana era uma defesa da
racionalidade científica na ética e na política, acusando
a distopia do progresso como
irracionalidade.
De
fato, por menos que o universalismo possa reduzir a diversidade
cultural, historicamente os totalitarismos racistas
da primeira metade do século passado não eram positivistas, mas
tradicionalistas, contrários
a todo aporte cosmopolita da
ciência não "militante". Os totalitarismos estavam ao
par da antropologia nova das origens, crescendo na pesquisa in
loco de cientistas europeus
em Ásia e África , pela
requisição dos governos neocolonialistas,
porém interpretando os dados
de modo distorcido para
sugerir a competição racial como superioridade do mito ariano.
Paralelamente,
entre 1900 e a altura da
transição dos anos vinte a trinta, o behaviorismo já estava
bastante matizado por
evidências da necessidade - ou da preexistência - da teoria em
construtos laboratoriais. Além disso, também a interveniência de
um fator mentalista ou organicista entre estímulo e resposta
ambientalizados, para efeitos de elucidação dos comportamentos ,
fazia-se sentir. Na altura
dos anos trinta já se
tornara coisa feita a mudança da preminência na psicologia, do
comportamentismo
ao "gestaltismo",
este veementemente contrário
à preponderância do dado, e inversamente comprovando leis a priori
da percepção como determinismo do todo sobre as partes.
Aqui
porém o racionalismo
inatista, já
convertido em fenomenologia, também
se transformava numa espécie de nova razão prática
"existencial", para
a qual a contribuição de Heidegger foi tão grande que poderia
resumir o seu papel histórico. Se
a mecânica quântica rompeu
a unidade objetivista nas ciências pela bifurcação notável das
perspectivas epistemológicas de Einstein e Heisemberg et alii, o
determinismo do todo era comum aos teóricos da incerteza e aos
psicólogos gestaltistas, mas
o todo aí já não se reduz a ideias residindo na mente, e sim
designa o campo dos efeitos que implicam tanto sujeito quanto objeto
na realização do significado.
Os
caminhos desse processo que
em termos de pensamento se traduzem no existencialismo, porém,
resultam igualmente num objetivo unitário -
que numa escola ainda
ulterior ao gestaltismo, a
psicologia humanista, existencial, como de Laing e Cooper entre
outros como Carl Rogers,
se traduz na concepção unívoca de "pessoa",
o auto-conceito de si como
segredo da normalidade subjetiva.
A
metafísica exclusivamente intelectiva estava descartada em prol do
situamento sócio-histórico do sujeito, porém numa unidade
compreensível que por um lado dispensa de todo a ambientação
fisiológica, por aí sendo
um inatismo;
ao que alguns poderiam
objetar como simplesmente o ser-aí na existência, as pre-condições
da pre-sença atravessando a oposição do inato e do adquirido. Mas
por outro lado, reproduz a ambição unitária da metafísica, em
termos do discernimento de algo na existência
que
fosse o determinante como o transcendental.
A escolha sartriana, o Ser
heideggeriano, o ouvir dizer
situado (narrativa)
arendtiano, o Rosto ou Outro
em Lévinas, a consciência
de classe em Lukács ...
A
crítica existencialista pós-nietzschiana do empirismo tornou-se
tipicamente voltada, a partir dos anos trinta, contra o neoempirismo,
como a uma metafísica
equivocada sobre si mesma - por interpretar-se como anti-metafísica
- uma vez que dispondo alguma razão de ser unívoca
como a objetividade universal "experimental",
restaurou portanto,
contraditoriamente a inteligibilidade do treanscendental
ideal.
A
trajetória dessa oposição de hermenêutica e neopositivismo, é
interceptada na altura dos anos cinquenta pelo estruturalismo, que
restaurou os direitos de cidadania da parte sobre o todo, como
determinantes seletivos
deste - ou seja, como partes
deste todo, não generalizáveis. De fato uma espécie de inversão,
em nível de dedução, do
que o próprio gestaltismo fornecia à base de leis perceptivas
ao nível de premissas. Aqui
o percurso da psicanálise nesse ínterim é decisivo, mas Heidegger
e Nietzsche vem a ser o pivô
da controvérsia que se seguiu na imanência
da corrente estrutural. A partir daqui espero relacionar mais o que
estamos examinando destes pensadores, com os rumos dessa
problemática. Paralelamente
a pesquisa empírica na sociologia e demais ciências humanas,
conforme parâmetros que recusavam metodologias abrangentes
de princípio, revelou
crescente incompatibilidade
também com as premissas
universalistas do
neopositivismo. O material
que permite hoje falar de um pós-modernismo
pelo agudo contraste a premissas anteriormente consideradas,
é oriundo dessa pesquisa,
estando em processo de equacionamento numa perspectiva epistemológica
e que
que possa convergir
as descobertas das várias áreas
numa visão coerente.
Prosseguindo em nossa
inquirição dos motivos da regressão metafísica do que designei
culturalismo, o período pós-positivista como um todo e algo que se
entretece privilegiadamente entre Nietzshe e Heidegger, vemos que a
razão pela qual podemos de um certo modo falar de inatismo
existencialista se esclarece nesse ponto mesmo em que estamos, como
da crítica de Heidegger à Vontade de potência como subjetividade
incondicionada. Por aí o motivo de costumar parecer tão impreciso o
locus exato da diferenciação de Heidegger ao nítido inatismo
racionalista de Husserl. Aparentemente nada mais oposto do que o
universalismo categorial da fenomenologia deste, com relação ao a
priori heideggeriano da diferença historial. Mas em nosso exame da
crítica de Heidegger a Nietzsche, o que fizemos observar foi que a
oposição do inatismo ao empirismo estava mal colocada, não
obstante ver-se nitidamente Heidegger defendendo o primeiro.
Ora,
se consideramos errado subsumir o empirismo ao inatismo, enfatizamos
que aquele não permite restar qualquer unidade explicativa da
experiência. O caráter
supra-científico, na acepção moderna do termo ciência enquanto
disciplina separada, especializada, é
vedada à inteligibilidade do sentido pelo empirismo. Assim
até mesmo a prática cotidiana é científica, se ela está pautada
pelos simples afazeres objetivos, ainda que não se eleve ao estatuto
de um conhecimento das "causas" - isto é, da natureza
subjacente às interligações
do processo visível
unicamente conhecido, que é
o das ciências especializadas.
Mas
Heidegger está, ao mesmo tempo que criticando a meta-physis
como o postulado de existência da unidade explicativa
do devir ou physis pré-socrática, recusando
que esse pensamento primeiro dos gregos,
nesse sentido estrito,
é um empirismo.
Inversamente, ele quer aproximá-lo da apercepção culturalista de
que não há prática cotidiana orientada exclusivamente, em termos
de "manualidade" instrumental, que
não esteja ao mesmo tempo relacionada a preconcepções de mundo
estritamente interpretativas
da existência como um todo, seja ela mítica, religiosa ou
científica.
Assim
ele não critica a metafísica por ter totalizado o Ser como a
estrutura a priori da preconcepção do sentido, mas
sim por tê-lo totalizado como ser dos entes
dados a partir do que se torna então impensável como apenas o
correlato possível de certa preconcepção. Pela
metafísica, os entes já não
são "dados" por nada além deles mesmos
e constrangem portanto o Ser dizer o que é,
a questão da preconcepção contextual desaparece.
Ora,
a confusão aí é inevitável
de certo modo ao ver de Heidegger. Uma vez que o saber
da physis passa a existir
com os pré-socráticos,
ainda que como variação estrutural pre-concebida do Ser, deixando
pois de restar unicamente
pre-concebida, a partir de um saber, este possibilita
a surgência de uma meta-physis como saber desse "saber",
que o interroga quanto à sua
pretensão de "saber",
etc.
Mas assim Heidegger aporta a
uma situação difícil em
sua crítica da metafísica
que resulta numa crítica ao
empirismo,
pois o seu pensamento da
variação deveria apenas
radicalizá-lo. Ao invés, o
que ele quer preservar é a totalidade subjacente da
pré-compreensão, o que é por si mesmo o correlato de uma unidade
- portanto metafisicamente - explicativa. É
pois a inteligibilidade da relação que ele está recusando
desenvolver.
A
concepção nietzschiana de Vontade de potência pudemos ver
criticável, ou ao menos questionável,
não como Heidegger a
posicionou, ao modo de uma unidade de razão cartesiana, apenas
invertida como unidade de vontade
"empírica" agora na acepção do corpo físico.
Mas sim quanto ao fato de ser
ao mesmo tempo a inteligibilidade "fisiológica" da
multiplicidade relacional,
e a proposição de
uma "concepção
unitária da psicologia" (VP, p. 386, af. 302).
Do mesmo modo que Heidegger, um empirismo radical que se recusa em
seguida como desenvolvimento do pensamento relaciona, regredindo ao
invés ao horizonte
metafísico da totalidade.
Devemos examinar esses dois fatores cuidadosamente.
Conforme
o primeiro, a "relatividade"
(VP, p. 374, af, 294),
inteligibilidade fisiológica ou "conceito
de relação" que
desloca o de ser ou de coisa
(VP, p. 370, af, 289) ,
Nietzsche riposta
convenientemente a redução metafísica que Heidegger fez de si.
Nietzsche nega
aí ao "ponto
de vista do valor, como das condições de conservação e aumento em
relação às
formações complexas de duração relativa da vida dentro do devir",
que sejam "últimas
unidades duráveis, nem átomos, nem mônadas".
Portanto não é da unidade
leibniziana que se trata
na Vontade de potência. (
VP, p. 386, af.
301). Nem mesmo
deve conservar-se
a terminologia da "vontade" nessa
a acepção de um referencial
imutável: "Não há vontade, há projetos de vontade"
aumentando
ou perdendo
incessantemente uma
quantidade de potência,
conforme encontrem boas ou ruins circunstâncias de nutrição.
O valor é aí definido como
determinante das possibilidades de perda ou aumento, quanto
à potência, mas "em
si" ela continua sendo
variação de graus que
informam os
projetos enquanto visando,
mais que a conservação e ao contrário da perda,
o seu acréscimo.
Assim
a negação de que a Vontade de potência possa se reduzida à
mônada. O que é
compreensível porque na mônada estão dadas as condições de
conservação, mas não aquelas em que Nietzsche coloca a
preponderância, a saber, as condições de "aumento"
da potência - como o próprio
Heidegger considerou - porém que são pensadas do mesmo modo como de
"mutação". É o que Nietzsche faz ressaltar
logo a seguir, embora
Heidegger não o tenha de
modo algum observado, como sua crítica a Spinoza:
"A proposição de Spinoza concernente à conservação de si
mesmo deveria, em suma, impedir a mutação: mas a proposição é
falsa, o contrário é que é verdadeiro...". Sendo este assim
definido: "É precisamente em qualquer ser vivo que
se pode mais exatamente mostrar que ele faz todo possível não para
conservar a si mesmo, mas para tornar-se mais do que é..."
(p. 387, af, 302)
Entretanto
os
seres
vivos,
também designados
"centros
dominadores"
ou "formações
múltiplas",
não existindo a unidade na natureza do devir
(pgs. 386, 387), que se conservam,
precisa para isso, necessariamente - conforme a "uma das
necessidades indestrutíveis da nossa conservação" - da ilusão
do unitário e durável - "sob o prisma relativo podemos falar
de átomos e de mônadas..." mas estes são correlatos dos
"projetos
de vontade",
não a vontade ela mesma.
Assim
como Heidegger, Nietzsche justifica a metafísica, ainda que não
pelo seu caráter de verdade. Em Heidegger, por um movimento interno
ao saber, subsequente à sua autonomização. Em Nietzsche, por uma
utilidade na duração - ao
inverso do utilitarismo de
Benthan e dos Mill, a
teoria da felicidade
individual como
fator quantificável da felicidade do todo.
Bem
inversamente, a perspectiva de Nietzsche hostiliza a articulação do
todo pela parte, a inteligibilidade possível da parte. O
tradicionalismo resulta
tacitamente um
critério da força, como tudo aquilo que dura.
Explicitamente é o sistema, a ordenação da multiplicidade, que
deve deslocar o conceito da ação a partir de uma unidade - por aí
a crítica de Nietzsche à ideia clássica de sujeito, conforme o
aforisma 278 (VP, 353). A
inteligibilidade aí criticada é a da causa, assim até mesmo
postular o átomo é pensar em termos de uma causa unitária - as
coisas não exercem ação, não existem independente da aparência,
o que atua é um sistema de forças (VP. p. 383, af. 298)
A
esse propósito, Nietzche pretende
a superação do
"ideísmo" mesmo na interpretação associacionista ou
sensualista do empirismo - se
é dos sentidos que se faz a ideia,
que se bem que dependendo destes e não de algum real em si, lhes é
adequada, não é necessário crer nos sentidos.
Até
aí o próprio empirismo ideísta descrê na possibilidade de
demonstrar a realidade em si. Mas Nietzsche não coloca na atividade
racional o ônus da transformação dos dados sensíveis em ideias.
Pelo contrário, o
processo da significação em que os sentidos mesmos atuam, já é
apenas a extensão da vida,
por um lado o "meio do subjetivo",
por outro, o sistema de forças como o que viceja. Estas não se
conceituam como a subsunção
de uma coisa a uma regra de comportamento, mas um confronto entre
quantidades de força tal que resulta uma hierarquia instituída
entre elas, por aí a crítica
ao mecanicismo (VP, aforismas
290, 291, 297). Em todo
caso, não se segue a oposição ser/não-ser, ou mesmo do real, a
vontade de potência,
e os supostos objetos em si
como "sendos". Ao
invés de oposição, eles são relacionados necessariamente pelo
aspecto conservador da vida
atribuído como ilusão do
ente ou aparência na
duração.
Independente
do tradicionalismo e da
perspectiva do todo,
pós-positivistas, até aqui
a mutação
e o desejo de
mudança podemos compreender
como modos de referenciar o evolucionismo.
Os organismos já não são considerados gêneros fixos que se
conservam na natureza - de modo que se atribuímos a eles uma
intenção consoante sua natureza, como em Spinoza esta seria o
conatus, a vontade de se conservar; mas sim tendo por
natureza a mutação.
A "adaptação" ao
meio darwinista torna-se interpretada de um outro modo, porém, como
acréscimo.
Assim
a mutação
é filosoficamente orientada
como aspiração a poder mais,
em vez de só como variação biológica conforme as mudanças
aleatórias do meio. Já
vimos que o raciocínio de Nietzsche a propósito do eterno retorno é
infinitista. Tudo volta a
ser devido ao infinito do tempo, mas sabê-lo introduz uma mudança
pela qual uma mutação dentre outras mutações se torna ordenável
como desejada. O eterno
retorno se torna a possibilidade do super-homem
e o saber introduz essa mutação do pensamento que é o filosofar
com o martelo, ordenando a composição futura das forças.
O caráter aleatório da
adaptação biológica é convertido num critério axiológico da
natureza. A contradição
aqui parece nítida, pois ao contrário da negação nitzschiana da
teleologia, não há meio de evitar a interpretação teleológica a
partir do critério.
A
ambiguidade histórica de Nietzsche se
mostra nessa mensagem bem positivista da vocação das raças fortes
ao domínio - independente
do seu "simbolismo'.
A aspiração a querer mais
é antropomorficizável como vontade de
se tornar senhor
(VP, p. 379, af. 296),
e se no próprio referencial a
aspiração não consta,
então a força é fraca ou denenerada
assim como as raças que não
são dominadoras. Porém
assim a vocação imperialista não resulta de um mecanismo
adaptativo
como no positivismo típico.
É o que vemos pelo segundo fator considerar.
Pela
"concepção unitária
da psicologia", esse
segundo fator,
porém, são as forças, o
que vimos Heidegger tratar como correlato da energia
em termos de uma das traduções correntes da energeia
aristotélica, que se tornam
imperiosamente unificadas sob um só conceito. A
aspiração da potência como a um acréscimo da potência
é "a forma primitiva das paixões", o
que segundo o andamento do aforisma (302) coíbe
a ideia da unidade também na
origem e condiciona as
paixões que possam parecer destoantes das primitivas como apenas
formas derivadas.
Mas
o que se segue a partir daí,
mediado pela definição do prazer como epifenômeno de um acréscimo
obtido, ao invés de um objetivo por si, é
a redução de toda força à vontade de potência: "não há
outra força física, dinâmica ou psíquica..."
A consideração das
forças qualificadas
sem a unidade conceitual da vontade de potência as reduziria à
igualdade rigorosa entre si enquanto quantidade disponível de força:
"de cada lado há a mesma quantidade de força".
Inversamente, a natureza da
força como vontade é a aspiração à mudança para maior
quantidade da força, tendo
que haver, pois,
diferença reconhecida para que se siga o prazer relativo
à obtenção do que se aspirava
- a saber, o aumento
da força. O
contrário, a redução da força, resulta na dor.
Ora,
como já sublinhei, nem todos os fenômenos testemunham tendência
para a mudança quantitativa
- sem falar que o efeito do imperativo natural da mutação e do
querer mais é, sim, o conservar-se na duração atribuível
como um "sendo".
Ora,
como explicar que estes
fenômenos que não revelam a vontade de dominar,
sendo relacionados
à fraqueza, não componham porém um sistema hierárquico em que há
sim um mecanismo atuando na
multiplicidade das forças, de modo que elas ou resistem às que lhe
querem dominar, ou são estas que aspiram ao domínio? Seja
como for, a ausência dessa explicação supre a crítica
nietzschiana ao
liberalismo político,
que se baseia na igualdade dos direitos de
cidadania a partir da
igualdade do fato da existência. Não
ter a vontade de dominar, para Nietzsche é ser dominável
por um lado, numa composição natural das forças, ou ser fraco, por
outro lado, como fenômeno da degeneração da força.
O
que Heidegger não comenta é que Nietzsche
não foi apenas
o pensador do niilismo europeu, foi
também o da "decadência"
como o que se segue na modernidade
a seu ver, não
já da desvalorização das
até então supostas supremas verdades metafísicas, e sim do que se
valorizava agora
em termos de liberalismo. Tudo
o que Nietzche mais odeia e ao que chama "mulher", como o
humanitarismo, a caridade, o amor abnegado,
a afabilidade, etc.
A
decadência é de fato
noção decisiva na história
após Nietzsche, mas
com um sentido diferente, entre
a problemática política suscitada pela Vanguarda
estética nas
esquerdas, desde os
efeitos dramáticos da
censura na política
sovieticista até a teoria de
Lukács e o que ela
representou como tentativa de renovação da esquerda após o
stalinismo. É de se considerar porém o parentesco dessa noção no
uso stalinista com o de arte "degenerada" que serviu à
censura nazista.
A
vanguarda, como o alvo desse rótulo, era então já o contrário do
liberalismo e bem aproximável
a temas nietzschianos.
Considero que Virmaux está mais certo que Deleuze
ao tratar o teatro de Artaud de modo irredutível à
interpretação dionisíaca de Nietzsche, porém a vanguarda lidava
do mesmo modo que este, com o real em termos de forças primitivas,
ambiguamente tratando a
consciência - assim como a legalidade - aparência necessária e
desprezível. Mas
quanto à rotulação da
vanguarda como decadência, não
podemos obviamente designar qualquer
regime de
atividade censória como "liberal".
O paradoxo é apenas
aparente.
Nietzche condenava a democracia, mas sua condenação dela
como regime instituído não
poderia ser expresso
fora dela -
ou do seu equivalente como
tolerância do Reich que
antes das duas guerras
respeitava ainda os ideiais da "civilidade"
constitucional.
Vemos
que tanto Heidegger quanto Nietzsche lidam com a predicação
objetiva de algo como ="x" ao modo de dissimulação, ou
ao menos do que é deslocado relativamente ao núcleo do
acontecimento real.
As
concepções de Inconsciente e de pré-compreensão, como estrutura
cisória necessária do real e da aparência, assomam de fato
como os grandes unificadores do sentido, na dispersão das ciências
e do campo estético relativamente ao senso-comum, que da época de
Nietzche à mecânica quântica se tornou crucial.
Ora,
a função unificadora do Inconsciente e da pre-compreensão era na
verdade a forma de evitar não tanto a universalidade puramente
objetiva - que por outro lado estava problematizada pela dispersão
em tela. Da descoberta de Carnot introduzindo a termodinâmica como
correlato da entropia, a Cournot e Boutroux que entre outros
recenseavam o caráter ilógico ou não-kantiano de processos
naturais no limiar dos comportamentos de campo, até o princípio da
incerteza, eis a problematização da universalidade que o Círculo
de Viena jamais tangenciou, na medida em que todos esses elementos
não formam uma unidade com a mente kantiana apropriada aos fenômenos
na escala visível comum. Embora Heidegger tenha sido admirador de
Heisemberg, o que pretendeu não foi algo parecido com o popular
Fritjof Capra...
Além
disso, o neopositivismo conservou a hierarquia entre a mente
primitiva e civilizada, como entre magia e ciência, não obstante a
identidade de aspiração ao domínio prático do real. A função
unificadora do inconsciente e do pré-compreensivo serviu do mesmo
modo a essa hierarquia. O que deviam estipular era a subsunção
do percebtível atual ao a priori do estágio evolutivo psicossocial.
O
preenchimento da função unificadora do sentido, nas dispersões da
pluralidade cultural oriunda da pesquisa de campo já não permitindo
a linearidade simples do positivismo, e das linguagens científicas,
dependeu de dois componentes. Eles definem a epistemologia do
culturalismo enquanto a inteligibilidade que podemos agora designar,
enquanto produzindo-se na teoria do inconsciente e da
pré-compreensão, do "latente" - relativamente a que o
"manifesto" não é diretamente o efeito, mas indiretamente
a dissimulação. Um deles como já observamos, é a transposição
do progressismo linear do positivismo, ao passado como temporalidade
originária do sentido. O passado não de um acontecimento
determinado, mas ontológico assim como o tempo do mito fundador na
linguagem do signo inconsciente/pré-compreensivo. O segundo elemento
importante que daí resulta, é a unificação do Ocidente, o da
modernidade ao seu passado. Mas agora visando-a não pelo que já
referenciamos, a perspectiva do mito (ariano/ indo-europeu), que logo
se revelará política, entre o anarquismo e o nazi-fascismo. E sim
pelo que podemos demonstrar estar se realizando entre Nietzsche e
Heidegger, na perspectiva da própria ciência. A crítica
pós-positivista da metafísica tem isso de curioso. Ela não é a
liquidação do passado imediato, pelo que o positivismo entendeu a
"modernidade", nisso não inovando desde os tempos de
Galileu e a ruptura experimental de todo aparato epistêmico já
conhecido. Pelo contrário, ela é o enunciado da unidade profunda
dos tempos modernos à antiguidade clássica, e por aí o recuo da
origem pré-socrática, ao mesmo tempo o início e o correlato da
dissimulação "ontológica" de Sócrates em diante. Essa
unidade não é de modo algum constatável antes, repetindo. O
Renascimento, a reforma do entendimento classicista, o Aufklaerung, o
Romantismo, foram todos enunciados da Modernidade como ruptura
decisiva relativamente o passado metafísico pré-"científico".
O ecletismo romanticista não desmente o ethos intrinsecamente
revolucionário da auto-atribuição romanticista em termos de
"modernidade". Ele já instaura, é verdade, o saber na
historicidade, mas é a própria novidade da História como saber na
história efetiva dos homens, que instaura a atualidade como ruptura
profunda. O ocidente é a modernidade, não ainda de todo a Grécia
antiga, e tanto mais porque já não resiste aos conhecimentos
históricos a falsificação anacrônica que fazia crer numa unidade
cultural greco-romana. A mnodernidade é a auto-descoberta do "eu"
que assim pode rememorar os seus produtos na anterioridade radical do
conhecimento de Si. Por isso o ecletismo moderno é de todo
irredutível ao antigo.
É
interessante observar que na acomodação recente do cânon em
história da filosofia, há uma anomalia em torno de Galileu, como
podemos constatar entre Sciacca e Bréhier
Aparentemente seria um
despropósito julgar o "Renascimento", que como o próprio
nome indica seria a retomada do passado clássico após o interregno
da censura feudal, uma auto-compreensão da modernidade como total
ruptura relativamente ao passado. Porém de fato o Renascimento é
uma ruptura assim, relativamente ao passado feudal - e uma ruptura
como nunca houve antes, pioneira do sentido de "Modernidade"
que o ocidente, essa realidade geopolítica que só compreendemos a
partir do mundo que emerge das Grandes Navegações, introduziu como
agente destas. Surge a noção de um passado radicalmente oposto ao
presente, o medievo como a idade das trevas, o império da
superstição, avesso portanto ao conhecimento real que iria
desmistificar a autoridade ilegítima da fé sobre a razão... Porém,
aparentemente, apenas para restaurar a continuidade com o passado da
razão - a descoberta ainda greco-romana
da filosofia. A verdade é bem alheia a essa fábula do
Rissorgimento.
O
que ressurge se designa a autonomia da razão, e com ela o livre
exame de todas as escrituras - as do passado clássico bem como a
bíblia reformada; mas não o conteúdo delas. Mas já há um hiato
considerável entre uma coisa e outra, o que o anacronismo do tempo
elide. À antiguidade pode ter sido familiar a segunda, mas a
primeira era justamente o que estava em causa entre o leigo sofista e
o teólogo-metafísico. Entre as pesquisas engenhosas de Da Vinci e
a obtenção do primeiro método experimental por Galileu, seja como
for, temos uma marcha de fatos bem irredutível ao conteúdo das
teorias propostas pelo pensamento antigo.
A
fidelidade à fábula é o que gera a ambiguidade no cânon. Como
conciliar a total novidade do método de Galileu, com a versão do
Renascimento como a continuidade da filosofia antiga? Bréhier evita
de todo a aporia, simplesmente instalando Galileu no período
pós-renascentista que começa com Descartes. Ou seja, na ambiência
do século XIX, conhecida como "período moderno", do
absolutismo monárquico bem inverso do ambiente ainda meio teocrático
renascentista. Sciacca é ambíguo. Galileu é renascentista porque
este tem duas exigências fundamentais a filosófica e a científica,
a segunda somente a que ele serve transpondo toda a ciência antiga,
que era das qualidades, ao elemento da moderna que é o das
quantidades. Porém mais à frente, Sciacca concebe que Galileu não
"contrasta" a ciência e a filosofia, apenas as distingue:
"a ciencia considera as relações, a filosofia os valores"
- conforme Sciacca, pois, Nietzsche não é o primeiro a pensar em
termos de valor. Contraste que será conspícuo na continuação do
empirismo incontestado de Galileu relativamente ao conhecimento dos
fatos, na era das Luzes, quando a filosofia na acepção de
metafísica começa a ser demolida para efeitos de validez do
conhecimento.
Na
altura do pós-positivismo, pois, assistimos a inversão da tendência
construtiva do discurso do Ocidente como unidade apenas da
modernidade em geral. Entretanto, continua a ser essa unidade
o que se torna ampliado na retrospecção do seu passado absoluto. O
método experimental já não explica, é o que tem que ser explicado
na história, mas seja qual for a explicação, ela já pressupõe
ser a da estranha unidade do latente ao manifesto, do passado ao que
se produziu "como" presente, ambos as faces da mesma
moeda ocidental.
Em
Nietzche, como vimos, isso era ainda, como no positivismo,
propaganda do "progresso" -isto é, da ocidentalização
(imperialismo) como universalização da ciência ocidental cujo
efeito a partir da descoberta da Vontade de potência seria a
superação do niilismo como interregno de liquidação dos valores
metafísicos e a integração anti-oriental e anti-cristã do
super-homem como ser dos valores novos. Não obstante a liquidação
da metafísica ser possível apenas pela rememoração dos gregos em
termos não somente de Sócrates e Platão, mas da descobeta
hieraclítea do devir. Heidegger estava bem ciente dessa índole
ainda positivista do pensamento nietzschiano, ao referenciar o
prognóstico deste: "Tempos virão em que se travará o combate
pela dominação da terra - ele será conduzido em nome das doutrinas
filosóficas fundamentais" (N2, p. 265). Vemos assim porém que
o retrocesso da decisão histórica à filosofia, desde o
cientificismo em curso, é algo singular, que Heidegger não
considerou como devia.
E
Heidegger considera indubitável o prognóstico, mas porque o
projeto dessa dominação estaria esquematizado desde Platão como o
autêntico niilismo - ao que parece, o pressuposto da certeza quanto
ao ente que assim permitiria anular toda crença oponível. Mas é
ambíguo se essa posição de Heidegger é de fato contrária a este
outro (do) esquema, pelo qual a certeza na modernidade é desde
Nietzsche anuladora da posição do "sendo" qualquer
enquanto tal.
Sem
dúvida ele considera que a conversão do objeto em aparência cuja
essência nada é além da vontade, instrui toda a modernidade como
apenas desdobramento metafísico do platonismo. Nietzsche, nela,
apenas inova pela introdução do complemento da potência, mas a
conversão voluntarista viria possibilitada especialmente do
romantismo em diante. Porém, se não é de fato assim
conforme Heidegger, exceto por uma totalização indevida a partir do
ente em vez de a partir do Ser, por onde a vontade é apenas um outro
ente, de direito o que a metafísica da vontade anuncia é o
que deve se cumprir.
Se
a metafísica é a essência do niilismo, velado em Platão e
desvelado em Nietzsche mas não porque este o teria ultrapassado pela
doutrina da vontade, "Eis aí tão estranhas proposições. Pois
a metafísica determina a história da era universal do Ocidente (N2,
p. 175).
Ou
seja, a era da dominação universal-ocidental. Mas como vimos, pelo
viés da vontade o que Nietzsche realiza é a axiologia da
potência, uma moralidade da força, pela qual decorre a
transformação do evolucionismo em filosofia como programática do
futuro estado universal da sobre-humanidade como espécie, ainda que
conforme a biologia, a mudança da espécie é feita pela mudança do
indivíduo e não o contrário, o que Nietzsche traduz pela
preminência do Homem ao invés da humanidade.
Ora,
o aristotelismo da "potência" como destinação
aristocrática do movimento parece ser o liame da preservação
terminológica do conceito, não obstante a crítica nietzschiana da
causa e da substância. Em nosso estudo da axiologia aristotélica,
verificamos a mesma dobra da cultura pela natureza ato-potencial que
porém, como doutrina filosófica, é a função do inverso, dobra da
independência da natureza pela hierarquia supostamente instituída
pelo modo de ser da cultura enquanto ética da phrônesis - ao mesmo
tempo o pensamento sem conhecimento da finalidade, que é o dos
homens por não serem deuses, e garantia da moralidade da ação
resultante da deliberação prudente, uma vez que a finalidade é
simulada pelo princípio ético de imitação da perfeição divina.
Mesma inteligibilidade de simulação que fecha a brecha cisória da
essência, na metafísica, entre o ato e a potência, do ponto de
vista do conhecimento humano possível.
Na
Cidade ou política, a Polis, afinal, a ação moral recupera a
clareza de sua atribuição ética, não obstante as miríades de
circunstâncias que deveriam relativizar o juízo. A recuperação é
devida à conveniência da ação à posição social, e esta é
função da natureza dos papeis sociais de modo que a dominação do
senhor economicamente preponderante, ou seja, marido, pai e
proprietário do escravo, é natural do mesmo modo que a destinação
de cada um dos papeis na produção e reprodução. O pobre, o fraco
e o feio, assim como o escravo, estão fora das possibilidades de
realização estritamente moral da ação, mesmo que ajam bem na sua
esfera de competência. Quanto ao escravo, um vez que ela depende da
liberdade de bem deliberar com vistas à felicidade possível. O
escravo é instrumento, não pessoa. Com relação aos demais, a
ação é moralmente louvável quando todos a consideram assim - isto
é, resultando uma reputação firmada. Para Aristóteles, ninguém
considera o pobre ou o feio felizes, e se Nietzche foi crítico da
concepção de felicidade, a exterioridade dos mesmos elementos
relativamente à realização da potência é expressa, por
serem eles a denotação da impotência.
Ao
invés de questionar essa junção de Nietzsche e Aristóteles, que
imbrica a natureza ao senhorio, Heidegger procede pela separação
de Aristóteles relativamente ao todo da história da metafísica. O
que importa a esse procedimento heideggeriano é não questionar a
necessidade da metafísica como da dominação manifesta desde
o que subjaz na latência do saber - ao invés de posicionar apenas
a motivação aristocrática comum ao desejo, como moralização da
potência em termos do simplesmente disponível e/ou heterogêneo, de
Nietzche e Aristóteles.
Sem
deixar de estar Heidegger atento à junção, porém, constroi um
aristotelismo em paralelo ao real, que seria a distorção histórica
sobre a qual Nietzsche trabalha a continuidade conceitual. É
interessante a propósito que sendo para isso necessário o exame da
coincidência terminológica, como vimos Heidegger a faz incidir
sobre o ato ao invés da potência. Mas assim, a nosso ver, ele
traduz a ambiguidade da Vontade nietzschiana que sendo "da
potência" - a dynamis aristotélica como poder-ser - é porém
do mesmo modo vontade de agir, do ato já feito correspondendo
antes à energeia em
Aristóteles. Eis porque, como ressaltei, a inversão
nietzschiana do espírito em matéria é uma interpretação
questionável nesse caso.
Mas
já examinamos a ambiguidade aristotélica da potência como
poder-ser enquanto conceito construído na polêmica anti-megárica.
O poder-ser não pode não-ser enquanto ser outro a partir do que
ele necessariamente pode; assim não é o não-arquiteto aquele homem
que projeta casas, quando está de folga ou quando está ainda
aprendendo. Porém não sendo necessariamente o que ele pode, se
impedido de agir por uma circunstância alheia a um certo poder, de
modo que não é porque alguém é homem, tendo a capacidade de ser,
que ele será necessariamente arquiteto; assim não é verdadeira a
tese que nega a contingência dos futuros sob o pretexto de que do
contrário haveria contradição entre as proposições que afirmam
ou negam que algo ocorrerá.
Aqui,
repetindo o que vimos, Aristóteles decisivamente nega o seu próprio
assim designado princípio de contradição, apenas demonstrando
porém que a formalidade lógica não apreende o inacabamento do
mundo pela distância sublunar relativamente ao ato puro que é Deus
motor-imóvel.
O
problema, que desenvolvemos em nossa leitura de Aubenque como
intérprete privilegiado desse "inacabamento" em termos do
mais autêntico ao aristotelismo, podemos agora enunciar com maior
clareza pela indagação de se ele é físico ou metafísico. Para
Aubenque, ele é a princípio metafísico, mas de fato humanístico,
de um modo porém que faz da metafísica não tanto a verdade do
ente, mas a condição pensável do ser. Assim se Aubenque não
concorda com Heidegger em que a metafísica - o termo que surge na
história através da recepção da obra aristotélica - não é
teologia, por outro lado ele é bem heideggeriano se para Heidegger
Aristóteles não é metafísico.
Para
ambos, pois, a condição pensável do ser enquanto a ontologia
aristotélica, não é puramente a "teoria" na acepção
antiga e platônica de "contemplação" das ideias enquanto
essência certa e indubitável dos entes. Justamente por depender do
movimento como da potência, a predisposição do modo de
vida, ainda que aparentemente "vida" seja o universal
comum a todos os gêneros dos entes.
Mas
assim, mais uma vez, deveríamos ter desvelado a motivação da
coincidência terminológica da potência, em Nietzsche e
Aristóteles, em termos de dynamis - a
sede do movimento como intervalo da essência, entre o
que ela é e o que ela pode, neste mu ndo sublunar. Isso, em
vez de "ato", do contrário devendo nós desmentir a tese
do inacabamento do mundo pela conversão do acaso em mero variante da
necessidade como da teleologia - anulação
de qualquer caráter pensável do movimento por sua redução a
simples circunstância
física, posicional, do afastamento do motor.
Foi bem o que fizemos em nossa leitura crítica de Aubenque, e o que
encontramos do mesmo modo como a contradição de Nietzsche entre o
infinitismo e a evolução orientada ao super-homem, por um lado;
entre o pensamento por relações e a qualificação da força
dominante, por outro.
blog em elaboração, continua ...
///
A
questão que emerge a partir do que estabelecemos como ambiguidade
da teoria da potência, entre natureza e cultura, liberdade e
predomínio, é sobre sua repercussão naquilo que estamos tratando
como o período Nietzche-Heidegger. Repercussão abrangendo
especialmente os movimentos populistas radicalizados, do anarquismo
aos nazi-fascismos, típicos do cenário dos totalitarismos
envolvidos nas duas guerras mundiais, e movimenos que apenas
expressam na feição extremista o que assim indagamos se não é a
expressão daquela ambiguidade. Na hipótese de ser essa expressão,
deveríamos encontrar a mesma ambiguidade generalizada nas tendências
políticas convencionais que se banham nas controvérsias teóricas
do tempo.
Como
já sublinhei, esse período se estende até a atualidade, ainda que
o pós-modernismo que se estabiliza desde os anos oitenta seja a
crítica que vem evoluindo do que o caracterizava. Não obstante o
estado caótico da enunciação das questões inicialmente, em que
detratores como Eagleton e Jameson e defensores como Hutcheon nem
mesmo falavam sempre do mesmo referencial na sua ainda assim
apaixonada controvérsia, o pensamento pós-moderno vem se afirmando
em torno de núcleos ligados à superação do primitivismo, assim
como do a priori totalizante, hermenêutico ou estruturalista, das
mentalidades. Não houve regressão à ingenuidade do dado imediato,
mas sim uma complexidade maior envolvendo o conceito de História -
além, é claro, da soma de revoluções científicas que se operaram
nesse ínterim.
Nessa
altura em que nos encontramos, seria oportuno relacionar a ruptura
antropológica que reportamos ao que afeta de modo mais íntimo os
quadros da mobilização política. A tônica dominante do que há
alguns anos designei "a absoluta ambiguidade" em um estudo
sobre o "simbolismo" como a chave mestra que abre todas as
portas de acesso ao "modernismo", é o que mais tardiamente
se expressa em torno da new left. Ou seja, a impossibilidade da cisão
público-privado nas caracterizações do pensamento ambíguo do
significante passional.
Assim
como Nietzsche só lida com atuantes (forças) dominantes ou
dominadas, há impossibilidade de considerar efetiva a consciência
relacional legal, pelo que o nível público da igualdade de status
político apenas salvaguarda o nível privado da liberdade da
diversidade de costumes e personalidades. A igualdade é apenas o
contrário da diversidade, sem diferenciação de níveis a partir da
redução ao passional (forças) de toda atuação fenomênica. E a
diversidade é a ontologia hierárquica do dominante e dominado. Se
os movimentos passionais visavam a liberdade, não a atribuíam a um
estado de legalidade, mas à supressão dela para expressão das
forças "livres". A ambiguidade incide pois, sobre o
destino das forças - a liberdade era o limite do slogan, as
garantias civis eram impensáveis a partir do desejável como apenas
da supressão de um domínio da letra, que não era a expressão das
forças autênticas, do proletariado ou do inconsciente, etc.
Impossibilidade do privado que
se traduz em praticamente todos os componentes históricos do
período, e na new left ou "teoria crítica" tendo alcance
na epistemologia. Uma compreensão de que tal impossibilidade foi o
obstáculo epistemológico e político do passado recente, de modo a
emergir uma autêntica defesa da privacidade como plataforma
adequada, é o que a meu ver define a convergência das descobertas
teóricas pós-modernas com a orientação política.
Os
críticos da "teoria crítica", como Apel por exemplo, não
chegaram ao que se torna importante na visibilidade da nossa
hipótese, como a dificuldade de diferenciar a tese "new
lefter" do engajamento do saber e o discurso da universidade
nazista na Alemanha, contra a ciência não militante. Conhecendo-se
a história, compreende-se a abrangência da nossa hipótese em
termos de um verdadeiro a priori históricoepistemológico - dado que
a "teoria crítica" tem início como um dos mais
importantes referenciais anti-nazistas, a partir de Benjamin, Adorno
e outros. Aqui não consideramos, porém, o a priori histórico
epistemológico uma necessidade universal, mas sim uma decorrência
do discurso geo-ego-lógico ocidental numa fase determinada,
neocolonialista, do imperialismo.
Ao
que devemos estar atentos hoje é algo por equacionar, a saber, o
fenômeno pelo qual a ruptura dos anos oitenta relativamente ao
cenário "new lefter" dos sixties conhece uma reversão
notável na segunda metade da década de noventa. Até aí, os
caminhos que conduziram à estabilização do Welfare State contra os
passionais adversários da legalidade reformista estavam bem
alicerçados. Traços da ambiguidade podem ser recuperados mesmo no
modo de condução das políticas reformistas, não obstante serem
então os alvos das mais duras críticas dos "revolucionários".
Porém o decisivo aí é a tendência que acompanhou o pós-guerras,
de modo que a tese do Welfare State, que proporciona grande autonomia
aos sujeitos privados ao contrário da acusação de clientelismo
político, pode se desenvolver.
Desde
a segunda metade dos anos noventa, pouco depois da queda do muro de
Berlim e da dessovietização da Russia, a designada "globalização"
planetarizou o nefasto "neoliberalismo econômico" que
significa a reposição dos aparatos de dominação da economia por
aristocracias que configuraram os totalitarismos.
O
neoliberalismo econômico neutraliza a legalidade do Estado liberal,
que havia sido vencedor da guerra anti-totalitária, em sua
responsabilidade policial de coibição do abuso econômico. Desse
modo, o neoliberalismo econômico solapa o compromisso social dos
Estados constitucionais, tornando os cidadãos de todos os países
escravos do abuso econômico de modo que os contingentes
populacionais não alocados pelos interesses dos carteis
("multinacionais", capital do primeiro mundo) são
eliminados, compactando esses interesses a eliminação também da
mente individual pela redução totalitária à massa submissa aos
ídolos do capital agora info-midiático - e antes, da estetização
midiática nazista.
Coincidentemente, desde a
segunde metade da década de noventa, o new lefter Habermas torna-se
vedete, assim como Aronowits e similares nele inspirados, tendo por
alvo de sua rejeição tudo o que contribuíra nesse ínterim para a
ruptura pós-modernista como reinterpretação da legitimidade e
reposição do split público-privado na ordem da compatibilidade com
qualquer política em prol dos direitos humanos.
É
sintomático que num livro recente sobre a influência do
pós-estruturalismo de Derrida, Deleuze e Foucault nos USA, da
autoria de Cusset, conste a teoria crítica entre os Stars de Campus
ilustrativos, listando-se Seyla Benhabib e o movimento narrativista
da universidade de Cornell. Por outro lado, a reassimilação de
Habermas, em Benhabib, Aronowitz e outros, carece igualmente dos
cuidados de interpretgação que ainda caracterizam estudos como o de
Eagleton a propósito da crítica ideológica. Lembrando que não
obstante a inflexão platonizante de Gadamer como a princípio
discípulo de Heidegger, exemplificando as mudanças que viriam, a
corrente hermenêutica que conduz a Habermas e ao próprio Apel é
ainda originalmente heideggeriana, enquanto o pós-estruturalismo é
a convergência de Nietzsche na teoria freudiana do inconsciente.
Como
verificamos pelo texto de Aronowits, a passionalidade disruptora da
legalidade como garantia da privacidade em prol de um coletivismo que
agora se considera privilégio político do "baixo" - sem
desfazer a oposição - vem sendo propugnada como uma "nova"
universalidade habermasiana da razão comunicativa depurada de
interesses. Enquanto a new left dos sixties de fato ainda era ao
menos a coerência da impossibilidade justamente de se depurar os
interesses.
A
coerência, ainda assim, desaguava na ambiguidade a partir do ponto
em que a multiplicidade dos interesses se pretendia o limite ético
da militância, sem poder demonstrar a impossibilidade da legalidade
do político e ao mesmo tempo propugnando-se como o contrário da
desonestidade da dominação.
No
entanto, essa ambígua universalidade do discurso é agora defendida
como a mesma do primitivo que se reveste, como a "mulher"-narrativa
de Benhabig e Gilligan, o negro originário da cultura de Diopp, o
religioso étnico ou tradição de Gadamer, etc., do status da
verdade da inteira raça humana. A ambiguidade retorna, pois, nisso
pelo que o primitivo na sua particularidade passional, é ao mesmo
tempo o universal.
A
sério isso não pode já ser considerado pensamento atual, e o que
ocorreu foi a transposição a estereótipos "globalizados"
da dominação info-midiática, desses tipos massificadores. A
ambiguidade afinal se torna manifesta, a passionalidade da própria
dominação. Não obstante, como desde os inícios do período a
"mulher", o "negro",, etc., que não confirmam o
estereótipo primitivista da "teoria" a propósito de si
deixam de ser considerados pelos "militantes" mulheres,
negros, etc., como "mulher", negro, etc.
Porém
"atualidade" se declina em vários sentidos, e o que
estamos considerando inatual do ponto de vista do estado dos estudos
a propósito daquelas realidades da antropologia, sociologia,
psicologia, e outros ramos de pesquisa, em que pensam amparar-se os
"novos" na sua distorção dos dados, é o cotidiano das
mídias neofascistas.
A
propósito dos caminhos que contrariamente aos impulsos do sintoma,
constituíram o Welfare State como um pioneiro status de legalidade
real na história ocidental, há igualmente considerável
complexidade. Os fundamentos conceituais não ultrapassavam ainda os
limites do período Niezsche-Heidegger, vindo porém a um novo
momento histórico após as duas guerras, e já delineando-se nas
políticas de enfrentamento bélico anti-nazi-fascista. Nesse momento
ocorre a eclosão das guerras de descolonização afro-asiática, que
coincidem com um estado de coisas já industrializado em países do
terceiro mundo descolonizados porém sob dependência econômica do
imperialismo, como a América Latina. A industrialização incipiente
deveu-se à suspensão do poder imperialista durante as duas guerras,
ocupada a indústria dos países centrais com produção
armamentista. Agora configurava-se pois uma classificação de países
"em desenvolvimento", que induzia a revisão dos
primitivismos. Porém a retomada do domínio sobre o terceiro mundo
compactou políticas intervencionistas tanto nestes países quanto no
cenário da descolonização afro-asiática, e na atualidade está
reconfigurado no planisfério do conflito norte/sul. Nessa
reconfiguração, em que novamente só são classificáveis países
desenvolvidos e sub-desenvolvidos, o que ocorreu foi a culminância
do processo de domínio imperialista, com as "multinacionais"
apossando-se das indústrias estatais de setores estratégicos, além
dos setores novos como telecomunicações, por meio de compra - que
considero inteiramente ilegítima; em todo caso, configurando
recolonização quase-neoescravista.
O
rise estruturalista e o desdobramento pós-estrutural, foram
coerentes com aquele então novo momento, o pós-guerra, na medida em
que houve uma atenuação do coletivismo. Não confundimos aqui
pós-estruturalismo com pós-modernismo. Porém a princípio temas
pós-modernistas que visavam enfatizar que a construção dos
discursos é bem mais intertextual e multicultural do que previa o a
priori da totalidade, foram desenvolvidos por empréstimo de temas
oriundos da crítica estrutural à metodologia "existencial"
do todo. Essa crítica radicalizou, de Lacan a Derrida, o ponto de
vista do signo, porém, de modo que como já sublinhei, apenas
perseguiu o objetivo da totalização discursiva por um outro meio.
O
essencial até o pós-guerra vinha sendo a caracterização da
generalidade coletivista originária, que seria o estado ainda típico
do animal do rebanho em Nietzsche, o
homem da massa de Freud ou o Das Mann heideggeriano. Na altura das
duas guerras já estava estabilizada a noção de "sociedade de
massas" para caracterizar a modernidade.
A
ambiguidade é máxima em torno desse núcleo do homem da multidão,
que inspira o modernismo à exemplo de Joyce e Kafka. Por um lado, o
autêntico coletivo, de que se deveria refazer a trajetória ao
autêntico desenvolvido, de modo que a tajetória efetiva da história
se denunciava como apenas o desvio - a metafísica em Heidegger e
Nietzsche, em ambos desdobrando-se na ciência moderna ignorante da
diferença, ou as neuroses da vida cotidina em Freud. Por outro lado,
o contrário da diferença, a anulação do singular. Entre estes
três, Nietzsche é talvez o menos ambíguo pela sua distinção
nitidamente adjetiva entre ativo e passivo como qualidade dominante
ou dominável da força. Seja como for, entre a boa e a má
coletividade, Gramsci, Sorel, e outros produziam o neomarxismo
transpondo a objevidade da "classe" à passionalidade
mítica do "grupo".
Freud
criticou o conceito de "gregariousness" ou "instinto
de rebanho", que atribui porém a Trotter, como suficiente para
explicar a psicologia da massa - que no entanto ele está criticando
do mesmo modo. O fenômeno em si, conforme Freud, seria a regressão
ao estado psíquico primitivo, do selvagem aborígine e da criança.
Freud
acompanha Le Bon na caracterização do indivíduo na multidão: sem
iniciativa ou autonomia pessoal; forte afetividade mas ligada aos
demais, não pessoal; imediatismo da ação, aversão a refletir;
desinibição incontrolada; fraca inteligência. David Rieman, mais
tarde, o caracterizou em termos de indivíduo "alterodirigido",
aquele que se pauta pela opinião do grupo, em contraste ao
"autodirigido' típico da primeira revolução industrial que
Marx tematizou como o sujeito da livre iniciativa e produto da
burguesia.
Vimos
ser "instinto de rebanho" já a expressão de Nietzsche na
sua crítica da legalidade e do Estado como ignorantes da diferença
das forças, Nietzsche definindo a verdadeira justiça ao invés como
Vontade de potência, domínio dos mais fortes ou, em todo caso,
expressão da força e não da consciência dos "direitos"
de todos. Freud considera que o insuficiente na explicação do
fenômeno de massa como "instinto de rebanho" é que não
equaciona o principal, a existência do líder - como Freud fez ver,
só existe rebanho com um pastor.
Assim
ele redefiniu o comportamento da multidão em termos da habilidade ou
carisma de um líder que substitui simbolicamente o pai no
inconsciente de cada um que integra assim a adesão passional a ele.
É o mesmo fenômeno de um fã clube relativamente ao ídolo. A
mecânica da substituição vem de que ela alivia a tensão oriunda
da rivalidade dos irmãos competindo pelo amor dos pais. Aqui a
substituição, numa circunstância em que o parricídio da horda
originária é impossível, funciona como acordo entre todos sobre
sua condição de igual impossibilidade de ser o único preferido,
tornando-se assim todos igualmente o grupo liderado. O que acontece,
na concepção de Freud, com as moças de um fã club relativamente
ao galã que elas adoram.
Na
posição de Freud a propósito do fenômeno de massa, ao mesmo tempo
que a suposta dualidade originária ativo-passivo se universaliza em
termos da dinâmica de forças do inconsciente ou libido, a conversão
na dualidade masculino-feminino sutiliza a tradução niezschiana do
suposto fenômeno primitivo em termos de dominante e dominado.
Sem
dúvida a posição é a mesma entre Freud e Nietzsche - o modo como
o dever-ser da autoridade incondicionada é quase-naturalmente
atribuído, isto é, não por um mero impor da força física, mas,
junto a ela, pelo reconhecimento a partir do próprio desejo. Além
da depuração do aspecto sádico da dominação na terminologia
nietzschiana, em Freud a trajetória das forças deve coincidir com a
emergência do ego pensável, isto é, como sujeito epistêmico,
aquele que realiza não apenas o estado atual da objetividade
científica, mas a partir deste o seu devir. A dinâmica do
ativo-passivo que implica o dever-ser como reconhecimento desejante
da ordem, deve sublimar-se pela consciência relacional que desloca a
dominação pela legalidade.
A
ironia é que onde a "diferença" - restrita primitivamente
à oposição ativo-passivo - subsiste nos termos do que ela é
primitivamente, ela não é pensável, o que decorre é a imposição
passional do "ativo", como no comportamento inconsciente da
criança. E ao coalescer o ego, onde a diferença é pensável, de
modo que compreendemos que não há "ativo" sem "passivo"
e atribuímos como legitimidade a igualdade ou reciprocidade de
direitos e deveres, então a diferença não substiste, sendo ela
signo puro, não articulado, da passionalidade.
Assim
vemos que o Édipo, ou a libido objetal que primitivamente investe as
figuras paternais, é a orientação numa trajetória, da
multiplicidade das forças passionais a princípio conceituadas por
Nietzsche e por ele vetorializáveis em ativas e passivas enquanto
dominantes e dominadas.
Que
existe esse requisito epistemológico anteriormente ao que seria
apenas o prospecto da escuta "clínica", podemos constatar
na análise do Homem dos Lobos. Freud se expressa aí como se a
relação da criança com os pais fosse a atualização ou
revivescência do que ele pressupõe - a partir, certamente, da
antropologia - relação originária, passiva-masoquista, da horda
primitiva com o pai coletivo. Não o contrário, pois, como se fosse
daquela relação que ele constroi a hipótese de como deve ter sido
originariamente com relação à espécie.
A
projeção freudiana de Totem e Tabu, como a resolução do mistério
antropológico da horda primitiva em sua destinação ao
desenvolvimento como à sublimação dos instintos até a autonomia
da inteligência atuando em conformidade a uma moralidade, é a
aplicação da teoria vetorializada e dicotômica das força. É a
classificação ativo-passivo que compõe aquilo que Freud designa "a
libido" em termos de natureza da energia psíquica, e a razão
dela ser energia sexual.
A
necessidade de ser dominado pelo pai ou "amor" promovido
pela libido objetal-parental, integra a organização do
deslocamento que se segue, da imeditez da sexualidade promíscua da
horda primitiva, pelos acontecimentos repressivos que iniciam o
conflito entre o ideal do Eu (o pai) e o Eu em desenvolvimento, como
o da criança (Édipo).
Claro
está que o modelo do inconsciente freudiano é a sexualidade do
menino, com um percurso próprio relativamente à "inveja do
pênis" própria à menina.
A
razão é que toda a causalidade psíquica é impulsionada pela
centralidade da força ativa (gênero masculino). O conhecimento
realizável pela trajetória do desenvolvimento, é então a
epistemologia implícita na psicanálise, isto é, conhecimento do
objeto à Kant, um =X. Ainda que quanto mais a ciência progride,
mais se relativiza como efeito da multiplicidade de regras
sistemáticas ou linguagem, a própria mente teria que funcionar de
modo platônico, por uma idealidade decisiva que demarca a sublimação
a partir do que antes eram impulsos contraditórios, a fantasia
ilimitada do objeto mítico, assim como a ilimitação do próprio eu
da criança que não se distingue dos demais.
Em
nosso contexto, o importante é que a sobreposição do que seria a
trajetória antropológica originária à trajetória da libido
subjetiva na clínica, funciona para Freud como a utilização de
esquemas de ação da espécie na decorrência da incerteza
quanto a um curso de ação pessoal, em termos de recurso
possível à psique do homem. Vemos assim que ele inverte o
referencial de Nietzsche, que é o da exceção individual.
O
Inconsciente (Ics) como sede dos impulsos ou forças pulsionais, em
si mesmo, é definido por Freud do seguinte modo: "O conteúdo
do Ics pode ser comparado a uma população aborígine da psique."
O homem, tendo "formações psíquicas herdadas, algo análogo
aos instintos dos animais, então isso constitui o âmago do Ics".
Assim
Freud instrui a historicidade como trajeto da sublimação dos
instintos, até a legalidade constituída em que eles são
convertidos em atribuições afetivas socializáveis.
Porém
mesmo conservando a preminência da espécie, Freud conserva a
ambiguidade pela qual, inversamente à antropologia na qual se
baseava a teoria pioneira do liberalismo constitucional, a autoridade
legitimável pela racionalidade em termos de reciprocidade de
direitos e deveres não é essencialmente se não um deslocamento ou
dissimulação sublimada do desejo pelo ordenamento despótico na
origem como testemunharia o estado sub-desenvolvido e coletivo do
aborígine. De fato ainda que Freud não seja francamente
aristocrático, a sua noção de ego é expressa como rei à inglesa,
isto é, atuando cooperativamente ao seu parlamento, como ao Id e o
Superego. Em outros trechos ele considera inversamente que o ego não
domina na sua própria casa, onde tem que enfrentar as exigências do
Superego e as pressões do Id - ou seja, a ideia de autoridade única
agora relacionando-se ao Superego.
Na
época de Freud se intensificavam as pesquisas de campo em Ásia e
África. Na teoria liberal, produzida a princípio pela visibilidade
do aborígine americano então recém-descoberto, inversamente, a
consciência "natural" do homem é da igualdade de direitos
e deveres, como do fato comum de existir. Essa consciência é pois
originariamente da individualidade de cada existente.
O
que implica a mudança são vários fatores, especialmente a
antropologia de campo. O mito de etnias africanas geralmente exibe um
componente despótico ausente na antropologia conhecida de aborígines
brasileiros - de fato quanto a estes, formam uma aporia aos
intérpretes ocidentais, pois o chefe é atribuído porém não tem
autoridade de tradição sobre os comportamentos exceto em caso de
guerra, ao contrário do que ocorre geralmente em tribos na África e
impérios asiáticos.
Porém
a centralidade da pesquisa sobre o indo-europeu, ainda na época do
positivismo, enquanto referencial do primitivo, tem um papel
importante na universalização do predomínio autoritário como algo
originário. Como vimos, nessa época também ocorria a mudança para
o darwinismo na teoria da evolução, assim como a mudança da
concepção do indivíduo para o da horda na origem.
A
produção da teoria das forças em Nietzsche ocorre pois consoante à
inspiração do mito indo-europeu e do darwinismo, ainda que
criticando a este pelo aspecto ordinário da adaptação como
fenômeno do maior número, em detrimento das excessões. Como
estamos propondo, é essa teoria das forças que atua como o esquema
subjacente na decorrência da antropologia nova, subsequente ao
positivismo.
Na
verdade a crítica de Nietzsche a Darwin é algo confusa - pois, como
vimos, o próprio darwinismo instrui a mutação pelo indivíduo. O
que importa a Nietzche é que o conceito de "adaptação"
diz respeito à espécie enquanto o que ele mesmo pretende como
"evolução" conservaria a perspectiva do indivíduo de
exceção. Mesmo assim a ambiguidade permanece, se o super-homem não
é sujeito, mas tipo. O que é coerente com o aspecto não egológico
da sua doutrina francamente aristocrática das forças.
Na
atualidade, como vimos em nosso estudo sobre a Evolução,
lamarckismo e darwinismo tornam-se aspectos de um questionamento mais
complexo. Voltamos a considerar também como ressaltei, a autonomia
subjetiva. A construção discursiva da antropologia do
primitivo está em xeque.
Como
já obsevamos, a interpretação da teoria nietzschiana das forças
em Heidegger coincide com a intenção de Nietzsche de ser a
superação da metafísica enquanto estruturação do objetivismo.
Mas Heidegger não se posicionando senão como crítico de Nietzsche
em termos de alguém que não obteve a almejada superação do
niilismo, o julgamento de Heidegger abrange o conceito da inversão
operada por Nietzsche em termos expressos de dessublimação. A
princípio, devemos apreender como Heidegger implicou a concepção
do ato aristotélico na concepção nietzschiana da Vontade de
potência de modo a prejulgá-la como metafísica também enquanto
correlato pulsional - isto é, não como vinha fazendo até aqui, em
termos de redução dela à subjetividade cartesiana.
Mas
desde já devemos notar que na gênese psicanalítica do conceito de
sublimação, uma oposição nietzschiana ocorreu, protagonizada por
Oto Rank, segundo Deleuze em seu estudo sobre "Nietzsche e a
filosofia" (Rio de Janeiro, editora Rio, 1976, p. 95). Rank
teria pretendido "apoiar-se nas forças ativas do inconsciente
desconhecidas pelo freudismo" como teoria da sublimação. A
transmutação nietzschiana, ao invés, seria o objetivo como
adequado à "vontade criadora e artista", julgando que o
conceito de sublimação devia-se a que Freud não teria "sabido
liberar a vontade da má consciência e da culpabilidade".
Deleuze apoia Rank, ao que parece. Ele introduz o comentário da
dissenção de Rank relativamente a Freud, tomando partido pela maior
irredutibilidade possível entre este e Nietzsche. Não só, pois,
que Freud não teria mentido ao negar, segundo testemunhos, ter sido
inspirado por Nietzsche. Mas principalmente, Nietzche teria detestado
o freudismo como concepção "reativa" - ou seja,
degenerativa do ponto de vista da força, assim como a moral do
rebanho - do inconsciente.
Deleuze
suaviza bastante a concepção do "reativo" como
degeneração em Nietzsche. Inversamente à opinião expressa da
irredutibilidade de Nietzsche ao freudismo, seu livro se esquematiza
por uma série de paralelismos em que se trata de ler Nietzsche
conforme as funções do inconsciente freudiano apenas roubando a
cada uma delas a destinação edipiana, ao invés da reconstituição
do intertexto nietzschiano, a psicologia como fisiologia e a teoria
da evolução. Assim a força reativa resulta numa categoria
quase-fisiológica paralela à noção freudiana do recalque, como
fixação de traços mnésicos inconscientes, que entretanto não
são de todo reprimidos como deviam e assim atingem a consciência na
forma de reminiscências sintomáticas. Como deviam, isto é,
justificadamente ao invés do contrário, por culpa dos pais ou
idiossincrasia da personalidade da criança.
Conforme
Deleuze neste trecho, em Nietzsche o "homem do ressentimento"
é o "tipo" que encarna a ação das forças reativas.
Assim ele só investe o traço inconsciente fixado do seu recalque,
não pode orientar-se pela percepção atual, só pela memória dessa
fixação inconsciente. Um "tipo" é aí definido como "uma
realidade ao mesmo tempo biológica, psíquica, histórica, social e
política". Quando Freud fala de "tipos", trata-se
apenas de constantes comportamentais esperáveis.
Mas
a verdade é que Nietzsche se pronuncia a propósito da degeneração
ou reação de modo bem violento, tendo por exemplo o cristianismo,
não por desvios da mensagem da caridade, mas por esta mesma, na
conta de "raposa" astuciosa almejando nada além que poder,
sendo a democracia a forma natural do cristianismo - menos mentirosa
apenas por ser abertamente uma propaganda política; e também
"movimento de degenerecência composto de elementos excrecentes
e do rebotalho de toda classse". A ambiguidade aí é que por um
lado se trata de doença ou fraqueza, mas por outro poder real
obtido, e como um Weber poderia expressar, o maior poder
possivelmente obtido do ponto de vista político. Porém Weber, ao
contrário de Nietzsche, enfatiza a ambiguidade desse poder, pois
sua forma é essencialmente racional, e, assim, não o tipo de
dominação cega dos regimes supostos primitivos. A ambiguidade da
sociologia weberiana persiste, ainda assim, como é típico do
período.
Em
Nietzsche a contradição é manifesta entre, mais geralmente, a
verdade, a lógica, a estabilidade do "sendo", da "coisa
que é", e "o mundo metafísico" da "coisa em si"
como a necessidade vital e produto necessário da vontade de
potência, conforme o aforisma 280 (VP, p. 357); e todos estes
fatores como produções do niilismo enquanto sintoma da degeneração
da força, falsidade do "mundo-verdade" que "foi até
o presente o mais perigoso atentado contra a vida", conforme o
aforisma 289 (VP, p. 371), "crença de improdutivos" como
de uma espécie "sofredora", "fatigada da vida"
conforme o aforisma 285 (VP, p. 363).
Assim
como Platão na República propugnava uma ditadura dos fortes onde os
fracos não teriam medicina por julgar que seria inútil - ao invés
de como é óbvio ser bem o contrário - Nietzsche condena no
cristianismo a mensagem da igualdade dos homens perante Deus, de
modo que conforme sua interpretação, "o degenerado e o doente
('o cristão') devem ter o mesmo valor que o homem saudável ('o
pagão')", o que para Nietzsche "significa impedir a marcha
natural de evolução e fazer da contranatureza uma lei..." (VP,
247, af. 150). Cristianismo é segundo Nietzs che a religião que os
indo-arianos esperariam do chandala, a casta dos párias (VP, p.
248). Se há um fraco bom, é o que esconde sua fraqueza. O
budismo é superior ao cristianismo por isso, porém assim o "tipo"
budista é apenas "a vaca perfeita" (VP, p. 305, af. 219)
Claro
está que para Nietzsche tudo isso é o oposto do platonismo enquanto
metafísica, para ele o cristianismo sendo platonismo para o povo -
não obstante, como vimos, ter mudado de concepção depois, por
reputar incompatível afinal as totalidades culturais grega e cristã,
recuando da posição de Sócrates como inexplicável no contexto da
Grécia.
A
propósito, a crítica de Scarlet Marton sobre o uso deleuziano do
termo "reativo", porque de fato não se encontraria em
Nietzsche, não se justifica, posto que o termo se encontra, sim, em
Vontade de potência. O aforisma 74 designa "reações"
aos métodos que, como as psicologias que conservam a moral, se
produzem em conformidade com o sintoma quando o necessário é
eliminar a doença. Aqui Nietzsche torna à terminologia da causa. O
niilismo não é a causa, mas sim é ela a decadência - eis a doença
dos nervos, como fraqueza, a debilitação oriunda do rebanho: "a
massa sendo a totalidade dos fracos" (VP, p. 199). Reativo é
portanto o mesmo que a ausência da ação independente daquilo sobre
que ela atua, como ação adequada à vontade do agente. Pseudo-ação,
que reflete passivamente o objeto fixado, e uma vez que o ãmbito da
ação é o da vontade, trata-se da degeneração da vontade como das
forças que a compõem. Porém aqui mais uma ambiguidade, que já
notamos antes. A vontade de potência é interpretada por Deleuze
como se vontade não fosse o mesmo do que a compõem em termos de
potência: a vontade é o que quer, a potência é o que pode (op.
cit. p. 41), assim a vontade decide sobre o destino da potência, mas
são as forças que se distinguem em reativas ou ativas conforme
inferiores que obedecem ou superiores que comandam (p. 33). Ainda,
por outro lado, "o poder não é o que a vontade quer, mas
aquilo que na vontade quer" (p. 167).
É
certo que à página 375 da "Vontade de Potência", o
bastante obscuro aforisma 295 utiliza os termos ação e reação
como complementares, porém não se define como se situam - eles
apenas são o estofo do mundo real, contrariamente ao que pretende a
fórmula do "ser" diverso, verdadeiro ou essencial. Em
Deleuze "reagir" também pode ser usado apenas como um
modo de interagir com o objeto, mas numa acepção que é contrária
ao estado "reativo" da força, que como na referência de
Nietzsche, implica a impossibilidade de atuar de modo autônomo. As
forças reativas compõe o tipo que interioriza o sofrimento ao invés
de enfrentar a causa, assim é o tipo do ressentimento cujo sintoma é
a "impotência a reagir' na acepção contrária à do vetor
reativo da força. Sem a concepção do vetor ativo, não seria
possível porém caracterizar a negatividde do reativo, uma vez que a
consciência é o esquema reativo por excelência. Ao que parece, não
apenas como Gewissen, o termo alemão para a consciência moral, mas
a própria Bewustsein, a consciência como estado de captação
perceptiva da vigília. O verdadeiro locus das forças é
inconsciente, instintivo. A crítica de Nietzsche a Darwin aqui
assume-se lamarckista, segundo Deleuze (p. 35). O primordial é a
atividade, a aptidão transformadora - o que Deleuze considera algo
singelamente traduzir bem o que Nietzshe designa como funções da
força ativa: "tender ao poder. 'apropriar-se, apoderar-se,
subjugar, dominar"" (p. 34)
Não
considero ocioso de todo um paralelismo Nietzsche-Freud. Mas ele
deveria valer mais para as antecipações de Freud em Nietzche do que
o contrário, a esquematização do nietzscheísmo a partir das
articulações do inconsciente freudiano. As noções de castração
e facilitações antigas são já constantes em Nietzsche, apenas
suscitadas com um sentido diverso. A seguir examinamos cada uma
delas.
Em
Freud a castração é a percepção da diferença anatômica sexual
da mulher, pela criança, na altura da resolução do seu complexo
de Édipo - o equivalente na menina é apenas a frustração de
constatar que seu clitóris é menor que o que ela descobre ser o
masculino pênis, por onde ela desenvolve a inveja inconsciente. Para
Freud, pois, ainda que por razões diversas, menino e menina até
uma certa idade pensam que o homem e a mulher são iguais, ambos
possuindo pênis. A feminilidade assoma sempre como a impressão de
que a mulher é castrada.
A
castração como a relação de duas coisas diversas - a feminilidade
e a masculinidade - não é interiorizável pelo inconsciente cujo
significado é a passionalidade "ativa", porém. Acontece
assim a clivagem do consciente. A onipotência infantil é desse modo
ela mesma castrada, o estado somente inconsciente da criança agora
se torna inacessível ao estado consciente, e ela se torna
quase-adulta, o processo da genitalidade em que ela assume seu gênero
sexual, o que caracteiza a personalidade do adulto, completando-se na
adolescência.
Em
Nietzsche a coalescência consciente é castração, mas como o
resultado da debilitação das forças ativas a partir da
generalização da moral do rebanho na história, subsequentemente às
dominações primitivas dos fortes povos conquistadores. O sentido
é o mesmo que em Freud, porém não havendo a teoria da trajetória
edipiana como sobredeterminação do desenvolvimento psíquico pelo a
priori do gênero sexual. O que para Freud é assim o reflexo da
natureza na mente, para Nietzsche é o "antinatural", e se
a marcha da história o favoreceu, em termos de "castratismo
moral", como "negação da natureza" implica apenas
que "o antinatural subiu ao trono" (VP, p. 300)
A
moralidade em Nietzsche é introduzida pela ficção da justiça
divina que punirá os que dominam pela força, deus cujo fiador é o
sacerdote - assim, para Nietzche, trata-se da "implantação de
uma 'consciência' que estabelece a falsa ciência no lugar do exame
e da experiência: como se o que se deve fazer e não fazer tivessem
sido determinados com antecedência - espécie de castração do
espírito que busta e aspira ao progrtesso". Mutilação grave
na concepção de Nietzsche, ali onde inversamente se diz ter
realizado o "homem bom" (VP, p. 215)
Facilitações antigas é a
expressão de Freud que designa o que acima vimos em termos de
esquemas de ação inconscientes, como composição de traços
mnésicos da espécie e/ou do indivíduo. Em Nietzsche, a memória é
o que faz uma excitação dos centros nervosos associar-se à
imaginação de uma causa que espelha apenas, contudo, experiências
anteriores. Falsa causa, portanto, "o hábito de interpretações
antigas" é em Nietzsche como em Freud o esquema de associações
fixadas, porém para Nietzche o fixao desemodo é o espelhamento da
excitação pela causa imaginária. (VP, p. 344)
Nesse
sentido Nietzsche não é kantiano. Embora ele possa concordar que a
perceção sensível é a priori de um certo modo, esse modo não é
o esquematismo objetivo que Kant supõe universal. Compreender, para
Nietzsche, é traduzir o novo pelo antigo, e os esquemas não são
fixos por si mesmos. Quando se pode vir a expressar que se sente mal
ou bem, já existe um grande neutralidade da parte do observador,
pois o homem simples diria apenas que algo externo lhe fez mal ou
bem.
O
julgamento de Nietzsche sobre a história não é assim uma filosofia
da história a mesmo título modo que os juízos emitidos por Marx e
Heidegger. Ele tem uma concepção unitária do processo como
degeneração ou niilismo - assim repetindo o que já vimos, quanto a
este tanto é a criação dos valores metafísicos e religiosos,
quanto a negação deles na era moderna uma vez que da negação
não se descobre nada além do nada, a refutação não conduz por si
só à transmutação. Porém essa concepção não traduz algo
necessário. Pelo
contrário, que a história
tenha sido o interregno do niilismo é
o antinatural, o estranho ou absurdo domínio do fraco sobre o forte.
A ponte para o super-homem
como a "gaia ciência" da natureza é o fim da história,
não impulsionado por por si mesmo pela causalidade histórica
- senão, talvez, porque fosse da natureza do que é débil perecer.
Sem que saibamos como poderá
vir a existir comando puro,
sem comandados.
Inversamente,
Deleuze considera
que Heidegger atribui a Nietzsche
o conceito de niilismo como "processo fundamental apenas
reconhecido nos destinos dos povos do Ocidente" (op. cit. p
28)
Aqui Deleuze apoia o que a seu ver é a posição heideggeriana, por
esta considerar que "o niilismo não é, portanto, um fenômeno
histórico entre outros, ou uma corrente espiritual que, no quadro da
história ocidental, enconta-se ao lado de outras correntes
espirituais". Deleuze
se esmera por demonstrar que para Nietzsche o niilismo e suas formas
- o ressentimento, a má consciência e o ideal ascético - em
conjunto o "espírito de vingança" não é
"determinação
psicológica",
nem
"estruturas
metafísicas"
e muito
menos
se
reduz a "acontecimentos
históricos ou a
correntes
ideológicas".
Ora,
sobre o que é o niilismo positivamente, Deleuze se limita a informar
que é "o
princípio de que depende nossa psicologia",
em vez de ser ela própria. (P.
29)
Aqui
temos mais uma contradição. Conforme Deleuze,
destruir o niilismo como o objetivo de Nietzsche seria libertar o
homem da doença do ressentimento, porém "devemos compreender
que o instinto de vingança
é o elemento genealógico do nosso
pensamento, o princípio transcendental de nossa
maneira de pensar."
(grifo
dele) No
fim da história, "nem mesmo sabemos o que seria um homem
desprovido de ressentimento. Um homem que não acusasse e não
depreciasse a existência, seria ainda um homem, pensaria ainda como
um homem?" O
niilismo é pois
toda
a história enquanto a
do homem. Nietzshe
sendo o único a insurgir-se, por ter descoberto a verdade da
vontade
querendo-a; Ele
"é o único que não geme sobre a descoberta".
Esta
é portanto o enunciado distinto do homem, "quase o
super-homem" - e quanto ao próprio, é
quem deverá realizar a descoberta num mundo pós-histórico por vir.
Estranha
indagação
porém,
a meu ver, se
Deleuze escreve seu trabalho sobre Nietzsche ainda
num contexto bem ligado ao
existencialismo,
em 1962
- e sendo o existencialismo a absolutização da "existência",
sem qualquer alteridade de valor ou de essência instituível além
de si.
Aparentemente,
esta é uma grande crítica à corrente existencial. Em
todo caso, Deleuze está assim mais uma vez deliberadamente
ignorando
o intertexto antropológico nietzchiano
para além da
história,
o que faz
da
história para
Nietzsche o
inessencial quanto
ao ser - isto é, a Vontade de potência em
devir.
A
descoberta de Nietzsche foi por ele atribuída expressamente a uma
realidade pre-histórica, o
primitivo
conquistador
está
fora da história
como
é canônico na antropologia moderna,
e
se colocamos aí o complemento não é porque houvesse uma antiga,
mas porque há uma pós-moderna.
Porém desde o ante-sacerdotal, o ante-niilista da antropologia
nietzschiana vai
do primitivo até
a Pérsia, Roma
e
a Grécia.
O início
formal
do niilismo
é a Judeia, tendo
por continuação o budismo e o cristianismo, mais formas associadas
do orientalismo.
Por
outro lado,
como pensador autônomo
Deleuze radicalizou a duplicidade que Nietzsche discerniu
entre os pré-socráticos. Deleuze não considera a história
cultural reduzida à metafísica,
mas sim a coexistência conflitante de duas linhas, a metafísica e a
de fuga, protagonizada esta por pensadores e
criadores que
como Nietzsche
foram críticos da má consciência, engajados em modos de
articulação ao devir. A
contradição
porta pois, sobre o caráter do novo que
importaria a pós-história
como ao super-homem.
Ele não é já o que desde
agora está definido como Vontade
de potência
- e como vimos, por uma concepção da
natureza,
ao invés do que deverá sobrevir
somente num radical após de tudo?
À
frente retornaremos a essa questão.
Quanto
à
concepção deleuziana da estimativa de Heidegger
sobre Nietzsche enquanto crítico do niilismo,
por
certo
o Nietzsche 2 é
mais consciente que
Deleuze a propósito do
intertexto nietzchiano, se bem que não faça
do intertexto propriamente tarefa
de reconstituição.
Ao
invés de um fim da história,
para Heidegger
o super-homem, ao mesmo tempo negação do "super" sobre o
homem
e
afirmação
da Vontade de potência, é "a afirmação negativa" que
"decide metafisicamente a conversão da história
da humanidde em uma nova história".
Mas
eis
porque "Zaratustra". Conforme Heidegger, Nietzsche
homenageou o persa porque se o super-homem é o sentido da terra - a
dominação dela,
na interpretação de Heidegger - os
persas foram
conforme Nietzsche
"os primeiros a pensar
a história em grandes linhas e na totalidade."
(N2,
p. 235)
Ora,
enquanto
sujeito dessa
nova história
- entretanto anunciada por todo discurso já existente da totalidade
- conforme Heidegger o
super-homem nietzschiano
permanece
negando o homem do niilismo de
um modo niilista.
Isso,
se a negação visa o que distingue o homem até aqui, a razão. A
contradição nietzschiana é desconstruída por Heidegger nos
seguintes termos
- mas a
partir do próprio nietzscheísmo, se
neste a razão e a metafísica são a mesma coisa.
Na
concepção que Heidegger apresenta como exclusivamente sua, a
essência metafísica da razão consiste em que, ao fio condutor da
representação, o ente em sua totalidade se projeta e se interpreta
enquanto ente,
independente do ser, a cada vez a representação sendo
para si somente do ente
- e assim é tudo o que se pode dizer da Vontade de potência em que
se realizaria porém
como tal o
super-homem. Ela já
está essencializada para si como ente, apenas transpondo o pensar
enquanto Ratio
ao elemento de cálculo dos valores como o Vontade de potência
: "A negação
niilista da razão não exclui porém o pensamento (ratio), mas a
retoma ao serviço da
animalidade".
(N2, p. 236)
Se
Nietzche visa ultrapassar o niilismo da razão, ele porém chega
apenas à metafísica
da vontade - não obstante para ele a metafísica ser
o mesmo que a razão. Para
Heidegger do mesmo modo o é, porém visando a metafísica como algo
mais amplo que Nietzsche, este
não
teria alcançado
justamente o sentido da história como
metafísica - o
esquecimento do ser pelo projeto totalizante do ente.
Independente
da inegável simplificação heideggeriana do conceito de vontade de
potência de Nietzsche como derivado cartesiano, essa crítica é
justa. Porém
Heidegger também assim espera reduzir a história a
um
motor, "toda
a historia propriamente existente"
(N2, p. 309)
seria apenas a história do Ser como do esquecimento do Ser. Não
obstante os pré-socráticos terem descoberto a hermenêutica, ao que
parecem eles também foram capazes disso por
sua originareidade, seu status primitivo.
Na
antropologia heideggeriana contudo, a originareidade grega
ante-histórica não se confunde com o estado de selvageria
pré-histórico. Em Ser e Tempo os estágios são bem discernidos.
O primitivo selvagem
não-ocidental
corresponde ao mundo da magia.
A Grécia,
segundo momento,
é o pioneiro pensamento
que autonomiza o Saber.
O
historial como motor da história
ou
Ocidente, em
termos das mutações internas à metafísica,
inicia-se pois na Grécia, mas após o pensamento originário
pré-socrático, não sendo portanto o historial em si a separação
do Saber, apenas decorrendo dela. A técnica ou modernidade
como terceira
estrutura de referência, circunvisão ou mundanidade, antecede a
clareira constituída pela descoberta da Verstehen, a
(pré)-compreensão do Ser,
Dasein ou hermenêutica contemporânea.
A
Verstehen hermenêutica não
é
a superação factual da técnica, mas está
para ela, creio, assim como Nietzsche se colocou frente ao niilismo
no
seu
"esboço de um prólogo", em
"Vontade
de potência",
informando tratar-se aí de sua narração da "história dos
dois séculos que virão". Porém
ao
mesmo tempo um "evangelho do futuro",
situado pois num passado relativamente a ele
como uma espécie relativamente à sua evolução.
Heidegger
não estava já tão otimista. Contentando-se
com o
descerramento da clareira, realmente crendo no fim da metafísica,
entretanto a forma modificada dela em função da técnica
dominante
em escala planetária não
era previsível
quanto ao pathos da superação em termos de uma pós-história.
Aqui há uma indefinição, já que formalmente história é
metafísica, e lembrarmos nós do Ser significaria a superação,
não obstante ninguém considerar assim ao
estado de coisas imperialista
que vem se seguindo.
Kostas
Axelos
em
"Introdução
ao pensamento futuro"
desenvolveu
uma
reflexão a propósito da
perspectiva heideggeriana como
abertura de um projeto político existencial visando a transformação
da técnica. Uma convergência com o marxismo tornava-se então
entrevisada.
Eis
porque, de qualquer modo, Nietzsche não teria segundo Heidegger
ultrapassado a metafísica assim como ao niilismo. A
resposta
a pergunta sobre tal ultrapassamento soa
estranha: "Nós dissemos contudo que a metafísica de Nietzsche
seria
autêntico niilismo. Em que se diz assim que o niilismo de
Nietzsche não somente não ultrapassa o niilismo, mas não poderia o
ultrapassar jamais". (N2, p. 273)
Mas
a compreensão é
clara. Segundo o
próprio Nietzsche, o pensamento da vontade de potência vota o Ser
a um nada, "um nihil"
(N2, p. 271)
A
propósito dessa mesma contradição, Deleuze considera que se o
niilismo se deixa vencer, deve ser por ele mesmo. Mas
se assim há apenas a negatividade radical como niilismo acabado,
converte-se porém em algo ulterior ao niilismo. Aqui devemos
considerar que Heidegger parece ter sido um dos primeiros a designar
Nietzche um
pensador sistemático,
o que Deleuze confirma.
Até
hoje há muitos que consideram isso
impossível,
Nietzsche sendo ao
invés o aguerrido
inimigo dos sistemas
como da filosofia metafísica.
Contudo, Heidegger supõe que a despeito da fórmula do niilismo como
negação histórica
dentro do sistema, das
várias formulações do niilismo que constam na problemática
publicação da Vontade de potência
a partir de um acúmulo de notas esparsas,
não há um resumo
possível.
Deleuze,
inversamente, considera
que Nietzsche escalonou
três tipos de niilismo, negativo, reativo e passivo. Afirmação da
vontade de nada, isto
é, a adoração de
Deus, ao invés da vontade ativa; depois
o ultrapassamento da fé pela razão, mas de modo que se colocou ao
invés da religião a ciência reativa em vez da potência
liberada; e, afinal, a
vontade de nada, aquela
que quer o impoder e
que é a causa eficiente dos momentos anteriores,
se libera ela mesma inspirando o
gosto pela auto-anulação.
É
nesse ponto que o super-homem se torna pensável como negação do
homem desejada pelo
próprio homem, como por Niezsche-Zaratustra, mas
não como o fim da Vontade.
Pelo contrário, seria o início da liberação real dela
como da verdadeira existência.
(op. cit. p. 145)
Assim segundo Deleuze,
o niilismo só será
vencido de fato
pelo super-homem - não por Nietzsche, de acordo com o próprio.
Só quando o homem
estiver superado, o niilismo poderá
ser igualmente superado:
"Zaratustra quer dizer: amo aquele que se serve do niilismo
como da ratio cognoscendi da vontade de
poder, mas que encontra
nesta uma ratio essendi na qual o homem é superado e, portanto,
o niilismo vencido". (grifo meu)
Porém
desse modo, Deleuze está
implicitamente
concordando
com Heidegger sobre que Nietzche não sai do elemento da Ratio.
Ora,
sobre as relações
Heidegger-Nietzsche, a posição de Deleuze
não se restringe ao que já citamos.
Mas transita a uma
crítica pela qual
Heidegger, ao atribuir à "doutrina do eterno retorno e do
super-homem" a "determinação 'da relação do
ser com o ser do homem,
como relação deste ser com o ser'",
apenas interpreta Nietzsche conforme o seu róprio pensamento. Pois
aquilo que Nietzsche rejeita é justamente "toda concepção da
afirmação que encontra seu fundamento no ser e sua determinação
no ser do homem".
(op. cit. p. 154)
Nesse
trecho trata-se para Deleuze, de opor termos como Ser ou Real ao
significado de Vontade d epotência ou afirmação. Esse significado
seria "vida", mas já de todo definida: vontade do falso,
função da avaliação,
isto é, de "mentiras".
Mas como o entenderemos, e se ele se endereça enquanto
"doutrina" ao
nosso entendimento
como verdade?
A
pergunta pertinente
aqui é pois sobre o
que entrelaça verdade e pensamento, se o enunciado da
potência afirmadora da
vontade os define a
ambos como enunciado verdadeiro do pensamento, mas fazendo do
pensamento tautologicamente a potência afirmadora do falso
enquanto função avaliadora da vontade.
Além disso, o
enunciado se dirige ao nosso entendimento, porém na verdade como
a mensagem da nossa voluntária auto-anulação,
filosofia do niilismo passivo, sucida radical,
uma vez que a potência afirmadora na plenitude não dirá
jamais respeito ao homem: "afirmar em todo seu poder, afirmar a
própria afirmação é o que ultrapassa as forças do homem".
Nessa
crítica a Heidegger, a
princípio, Deleuze não o
questiona a propósito
da representação como elemento do pensamento de Nietzsche, citando
ao invés o
texto da Vontade de Potência: "o ser: dele não temos outra
representação" que "o fato de vivermos". Mas
se o entendimento pleno da afirmação é e não é dirigido ao homem
como a nós mesmos, ao
presente de Nietzsche ou aos dois séculos posteriores, etc., não
seria difícil reconhecer
que na mentira como avaliação aquilo de que se trata é a
instituição de algo
"como"
ente, a partir de uma
tradução heideggeriana do nietzscheísmo, ainda que o próprio
Heidegger estivesse interessado inversamente em negar a Nietzsche a
antecipação da Als Struktur.
Porém
Heidegger estaria certo ao menos nisso pelo que, em sua própria e
explícita formulação da "estrutura como", o que ele está
escavando como numa
arqueologia é o Ser
não esgotado nas
representações
do sendo, ainda que
elas sejam todas cegas umas às outras de modo que não lhes seja
solicitado interrogar pelo Ser,
o que seria o mesmo que interrogar sobre a
sua própria validez
enquanto representação.
Quanto
a Nietzsche, independente da fórmula deleuziana
que lhe atribui
apenas a negação formal do Ser,
o que enuncia é a ambiguidade máxima
entre a negação do Ser
como metafísica oposta ao devir, assim como Parmênides
versus Heráclito;
e o
correlato do Ser como
afirmação do devir,
conforme o aforisma 286 do Vontade de Potência: "Imprimir
ao devir o caráter do ser
- eis
a mais alta vontade de potência".
(VP, p. 365 grifo
dele).
O
que se
imprime, contudo? Aqui, a convergência dos dois focos nos quais
Nietzsche decompõe a
vontade de potência
como sujeito do verbo "imprimir":
"Dupla falsificação, uma tendo sua origem nos sentidos, outra
no espírito, para conservar um mundo do 'sendo' , da duração, da
equivalência".
A
decomposição reproduz,
com efeito, o
enunciado da moderna
filosofia da subjetividade,
como queria Heidegger.
A divisão de percepção
e intelecção. Porém,
podemos duvidar que para Nietzsche a Vontade de potência em
si seja o
correlato
do
"eu" como "ente"
ideal abstraível
do devir. O aforisma
278, intitulado
"dedução psicológica
de nossa crença na razão" o expressa bem.
A
subjetividade aí
é o fundamento, como
"sentimento do 'sujeito'" mas
ao mesmo tempo "nós" e o que "partindo de nós"
é interpretado como "eu",
de que por sua vez, de modo inteiramente "sensualista",
primeiro se faz a noção de causa una,
agente, "a causa de toda ação";
depois, ainda, se
produz as
ideias
de causa em si, de
realidade, de ser. Processo assim resumido
em seguida: "
todas as nossas categorias da razão são de origem sensualista:
deduzidas do mundo empírico. A alma, o eu - a história desses
conceitos demonstra aí também a mais antiga divisão", a saber
de alma e corpo "('sopro, vida')".
Ou
seja, a questão para Nietzsche
a meu ver, inversamente a Heidegger e a Deleuze,
é o elemento ausente na
filosofia da
representação, como
na própria, seja como verdade ou ficção. O
"sentimento",
desejo e volição,
que não é ideia nem
percepção. Esse
elemento não foi Nietsche quem inseriu na
história do pensamento, mas o
Romantismo.
Aqui
é necessário a ressalva que coíbe confundir o papel do desejo
romanticista, com a "moral do sentimento" aufklaerung
ou mesmo pré-romântica
e até cartesiana como correlato da "moral provisória",
atinente às paixões úteis à vida.
Quanto a estas, estão
fora do intelecto, ainda que dentro da representação. A arte
kantiana, imaginação divorciada do conceito...
Trata-se do sentimento
como correlato objetivo de necessidades físicas,
universais, na limitação da parte sensível de nós que abrange
ainda a
percepção. Parte,
pois, oposta ao puramente inteligível e ideal.
E do que a burguesia
seria a exigência de
satisfação universal.
A
arte romanticista, ao contrário, só deve ser
avaliada conforme
o conceito de
arte que
ela atualiza em sua manifestação. Esse
é apenas um exemplo. Em geral, desde o romantismo as esferas
estética, axiológica e conceitual já não estão separadas. Nossos
conceitos são histoticizados e não puramente categoriais, mas a
mediação histórica é a cultura, em que tem trânsito as
esferas em que se dotam
de sentido
as ações relacionadas ao passional tanto quanto o ideal.
Assim
não podemos considerar que
Nietzsche mesmo se
limita ao sensualismo ante-contemporâneo,
mas como vimos, produz uma teoria do inconsciente em termos de
dualidade de forças ativa-passiva, que
se traduzem em tipos da vontade. O
situamento pós-positivista tem aí sem dúvida um papel. A
tradução nietzschiana do inconsciente-cultura romanticista, como
clivagem de dominantes e dominados, não é tanto Platão quanto
Hegel invertido, porém o que assusta Nietzsche não é tanto
o
sujeito
realizado no
fim
da dominação,
como
preconiza Hegel, mas
ao que parece aquele outro modo de inverter Hegel que praticou Marx.
Pois neste outro modo é que podemos constatar o que Nietzsche
realmente atribui ao cristianismo como a moral do rebanho - não
apenas o direito igualitário, mas o desejo de ser senhor.
Essa
contradição nietzschiana é o que já vimos acima como indeslocável
do próprio modo como ele concebe a justiça em função da vontade
depurada como sempre
de domínio - e
ao mesmo tempo, moral aparente
do assujeitamento como da caridade cristã. Resta
que colocar o proletariado, então conceituado como
Sujeito da História
na Alemanha, nesse lugar que Nietzsche nomeou apenas
"cristianismo"
tornaria mais compreensível o
motivo da
contradição.
Ou
seja, não é a atribuição da racionalidade e existência em
geral,
o liberalismo nacional hegeliano, o que Nietzsche realmente está
confrontando, ao
modo de um positivista. Mas
já
a decomposição classista operada pelo
positivismo materialista
dialético
- como entre o produtivo e o ideológico.
O
limite positivista não foi até hoje removido: a
possibilidade de uma aristocracia às avessas,
ainda
que seu
liame dialético seja
a
denúncia da inversão pela qual o produtivo e ativo como o
proletariado é ideologicamente o passivo dominado na história, mas
a dominação nada é além da passividade da ideologia como o
contrário da produção.
O
que explica o limite é pois o que se introduziu após
Hegel
como totalização da história
por um Sujeito atribuível que não pode já ser a subjetividade em
si
possivelmentre atribuída
na origem
como da história.
A
totalização não é já a história desenrolando-se, mas uma ação
conceituada atuando em toda ela. O sujeito da ação deverá realizar
não a
própria como sujeito agente daquilo que ele realizará,
mas a subjetividade em si, universal,
assim que desfizer
a ideologia da
subjetividade originária
em geral.
O
capitalismo o fez em parte, mas o proletariado da história é o que
somente poderá fazê-lo no todo. A história totalizada não é a
história toda vivida. Pelo contrário é a possibilidade do futuro
como o todo
que subsume qualquer inteligibilidade da parte.
O
fim da história como da ideologia, é
o enunciado
de que a história como
produção real ainda
não começou de fato
porém
quando começar então é
por ter ela
se
completado.
O
que subjaz à oposição do produtivo e do ideológico é portanto um
passado impensável, o fora da história como o primitivo,
uma vez que a agência do Sujeito da história só se torna pensável,
embora não de fato atuada plenamente, desde
o capitalismo e o que ele gera dialeticamente como o enunciado da
História real
(a
produção/ o proletariado).
O primitivo
ou sub-desenvolvido
é o sem-sujeito, o mito
coletivo;
mas a ilusão do sujeito mítico, hegeliano,
é a
ilusão da história
ora
vivida (a ideologia/
a burguesia).
Resta
que essa fantasia é odiosa mas é a necessidade pela qual somente o
proletariado resulta como auto-cons-ciência da História.
Assim
quando Nietzsche inicia
seu ataque à possibilidade da aristocracia invertida
pelo proletariado como Sujeito da história, ele
permanece
na clivagem contemporânea da causalidade ideológica, o inconsciente
dissimulador para si na consciência ilusória do ente em si,
que legitima como totalidade
da história a ação dominadora do Sujeito.
Que
não é porém, ao contrário do que parece supor Heidegger, a ideia
cartesiana do "ego".
Mas
aqui ele já não deixa o passado na categoria do impensável.
A ideia lógica da subjetividade é ultrapassada não pela ação de
classe, mas pela
atribuição do ativo/dominante, que é o
critério da própria origem das
forças.
Ora,
o
super-homem é algo complexo de entendermos, mas logicamente decorre
da oposição entre "forças" na origem e "ego"
idealizado. Ele será
a realização das forças na história, mas como auto-cons-ciência
de si.
Resta
pois, que mais uma vez a origem não tem consciência de si, embora
não se confunda com a metafísica como falsa consciência de "um"
si. O
paradoxo
que impede a história
no tempo
presente se instala entre a necessidade da
ficção do ente, entre todos o "si"; e a afirmação como
da pura ficcionalidade do "um".
A
ambiguidade da era pós-positivista é típica nesse ponto, pois
diversamente do positivismo,
ela deixa a
pergunta a
propósito da inteligibilidade do futuro, em que porém está o todo,
sem
resposta.
A ideia do sujeito correlato da representação é o que Nietzsche está atacando como o que é falsamente colocado na condição de princípio. Inversamente, sem o sujeito, "faltam totalmente as condições para uma "substância", mas o sujeito do Cogito é ele mesmo substância, ideia de si. Enquanto na verdade "nosso grau no sentimento de vida e de potência... dá-nos a medida do 'ser', da não-aparência". (VP. p. 352, af. 277) Essa medida é pois a força da nossa crença no mundo que nós mesmos criamos, de que fala o aforismo 286. A propósito, se a história do futuro como agência do super-homem é o correlato do pensamento evolutivo, vimos que a aristocracia das forças em Nietzsche implica que o conceito
A ideia do sujeito correlato da representação é o que Nietzsche está atacando como o que é falsamente colocado na condição de princípio. Inversamente, sem o sujeito, "faltam totalmente as condições para uma "substância", mas o sujeito do Cogito é ele mesmo substância, ideia de si. Enquanto na verdade "nosso grau no sentimento de vida e de potência... dá-nos a medida do 'ser', da não-aparência". (VP. p. 352, af. 277) Essa medida é pois a força da nossa crença no mundo que nós mesmos criamos, de que fala o aforismo 286. A propósito, se a história do futuro como agência do super-homem é o correlato do pensamento evolutivo, vimos que a aristocracia das forças em Nietzsche implica que o conceito
Na
interpretação de Heidegger coincidem dois polos de essencialização
da Vontade de potência. A animalidade e a subjetividade da
representação. Ele parece ter suposto que a medida da vontade sendo
o valor, Nietsche teria apenas feito do sujeito da representação o
animal da apetição. É assim que, simplificando a teoria pulsional
nietzschiana formalizada na duplicidade ativo/passivo, Heidegger
ignorou a formalização e a filosofia da história subjacente, para
lidar com a Vontade de potência apenas em termos de instintos puros
que ultrapassam porém o limite do animal enquanto noção oposta ao
homem inteligente, uma vez que podemos interpretar a apreensão de
Heidegger nos termos da pulsão freudiana. A animalidade torna-se o
"corpo 'corporante', isto é, rico de suas impulsões próprias
e impondo a todas as coisas o seu impulsivo élan" . (N2, p.
236)
Por
onde a concepção do nitszcheísmo como empreendimento de
dessublimação, já que o próprio Heidegger chega à "aufzuheben"
(sublimação) como o termo que Nietzsche está invertendo na
imanência de um pensamento que
já inclui o caráter pulsional,
que Heidegge atribui nessa altura a Hegel
(N2, p. 242).
Heidegger
não mais ignora que há algo além de instintos puros naquilo que
designou primeiramente como inversão nietzschiana do Cogito pelo
Corpo na economia da Representação. Ao caráter condicionado da
corporalidade, pela mesma inversão a partir da qual nada resta como
outro transcendental, é preciso atribuir um caráter de
incondicionalidade, e é o que Nietzsche faz ao tratar a legislação
da Vontade de potência sobre todos os demais entes em termos de
valortes, em seguida como necessariamente auto-legislação.
Mas
é assim que uma segunda inversão se opera, pela qual vem a
necessidade do super-homem. A dessublimação operada pela
auto-legislação enquanto, ainda, da Vontade de potência - ao
invés da intelecção - não é conceituada como inversão
diretamente do Cogito cartesiano. Para avançar na crítica da
Vontade de potência, a inserção histórica de Heidegger torna-se
mais complexa, abrangendo a inserção contemporânea de Hegel.
Assim
a primeira inversão, como inserção do corpo de certo modo já
havia sido antecipada. Até Fichte a certeza do ato de representar
permaneceu "limitada à representação do cogito sum humano,
que enquanto humano é apenas criatura e portanto condicionado."
Hegel elaborou a subjetividade da razão até sua incondicionalidade,
mas assim devendo ter feito a inclusão do componente do desejo:
"Enquanto que subjetividade do incondicionado ato de representar
[a metafísica de Hegel] sem dúvida reconheceu a certeza sensível
e a consciência de si mesmo corporal, mas unicamente para os
sublimar (aufzuheben) na incondicionalidde do espírito absoluto e
assim negar a elas simplesmente toda possibilidade de uma primazia
incondicional" .
É
sobre o espírito absoluto de Hegel que a segunda inversão, a agora
atribuída propriamente como nietzschiana, opera, colocando ao invés
a Vontade de potência: "Pela inversão da subjetividade do
incondicionado ato de representar em subjetividade da Vontade de
potência arruina-se a primazia da razão enquanto via e instância
diretiva para o projeto do ente". Ao ver de Heidegger, a
inversão nietzschiana da sublimação realmente a caba a metafísica,
na acepção da completude relativamente a algo até aí inacabado.
A
subjetividade do saber absoluto ou razão hegeliana, Heidegger também
a considera consoante ao ensinamento cristão do ser humano como
criatura, isto é, sendo Deus o criador. Mas assim a criatura como
subjetividade do espírito absoluto "é sem dúvida
incondicionada mas também e ainda uma subjetividade, por essência,
inacabada". Ao invés, para Heidegger, "a ruína da razão
que (se) re-presenta responde à essência metafísica deste
acontecimento" que Nietzsche designou o fim da dominação teológica-metafísica sobre a ciência.
A
interpretação da dessublimação é justa, sem dúvida, e vimos que
seu enunciado recobre o fato histórico da recusa da sublimação
conceituada por Freud a partir do nietzscheísmo de Rank retomado
depois por Deleuze e o pós-estruturalismo. E a partir da
dessublimação, que corresponde à destituição final do puramente
ideativo como instância do incondicionado para aí estipular a
passionalidade da Vontade de potência, o que decorre é o
super-homem, como correlato do acabamento da subjetividade
incondicionada.
O
essencial aqui do ponto de vista ontológico, isto é, da história
da metafísica, pois, é que o conceito de subjetividade passional e
autolegisladora precede Niezsche, já tendo havido o equacionamento
do corpo desde Hegel na concepção da pessoa humana. Repetindo o que
vimos, porém a subjetividade do homem só se compreende como
pensante, e que conforme seu pensamento dota-se de sentido para si. A
subjetividade do homem é de modo que se coloca a questão do sentido
em si, mas encontra assim, desde a conversão cristã da antiga
metafísica grega, a resposta a partir da pergunta já
assim pre-estabelecida sobre o sentido como o dispor do ente,
resposta que será Deus como onipontência.
Conforme
Heidegger, a sublimação da matéria em espírito como Saber, em
Hegel, é subjetividade absoluta, porém, ainda inacabada na medida
que Deus permanece criador, ou o espírito absoluto que desvelando-se
na história vem revelar-se afinal na auto-posição do homem como
sujeito do pensamento histórico. O saber absoluto é pois o saber da
subjetividade absoluta do criador dos entes e do seu sentido
evoluindo na História até a auto-revelação como subjetividade do
pensamento que ocorre na filosofia hegeliana enquanto realização
história do "para si" humano. Em Nietzsche, portanto,
decorre da dessublimação o deslocamento do estatuto do criador
absoluto, de Deus ao próprio homem, sendo a dessublimação a
derrubada do ideal pela Vontade de potência como instância
criadora, mas Vontade já concebida desse ser compósito de corpo e
capacidade de pensamento. Esta capacidade se torna pois, em
Nietzsche, a subjetividade acabada na acepção de auto-legislante
sem outra dimensão que a Vontade de potência ela mesma, que assim
não se confunde com apenas o corpo. Porém se aparentemente
transforma a concepção sobre o que significa pensar, como exercício
da Vontade de potência ao invés de ideação, na verdade, conforme
Heidegger faz ver, conserva-o na consistência metafísica, posto que
ainda é resposta à pergunta sobre o sentido como incondicionado
criador do ser dos entes.
É
por isso que, sendo a resposta uma essência,
a da Vontade
de potência como suprema criação enquanto autolegislação
incondicionada, ela é tanto a do homem como a necessidade do
super-homem, aquele que deverá
vir enquanto quem abandonou
realmente - na efetividade de
sentido como era - as
precedentes formas de escamoteação da absolutez
da Vontade
correlatas às respostas da metafísica
como do niilismo.
Heidegger,
como Deleuze, trata o conceito nietzschiano do super-homem imbricado
necessariamente à era
da filosofia niilista da
história. Mas a era por vir
do super-homem não é o
simples fim do niilismo, nem
decorre da filosofia nietzchiana como se ela fosse esse simples fim,
mas o niilismo totalizado na
negação de tudo além de si mesmo
como Vontade de potência
absolutamente criadora. Inversamente
à interpretação
de Deleuze (op. cit., p. 154), contudo, Heidegger não supõe
que o super-homem, por ser a subjetividade acabada como a
auto-realização da essência do homem, esgote a determinação do
ser no ser do homem. O que ele afirma é que o super-homem para
Nietzsche é - será - o ser de Deus transposto a uma
espécie materializada por vir.
O
ser de Deus é metafisicamente a essência do "supremo ente
(summum ens)" enquanto "o Criador" ele mesmo de
todo ente. Na era cristã da metafísica, a totalização
tautologicamente metafísica do ente havia chegado à fórmula de um
supremo ente Criador. Assim, conforme Heidegger, ao colocar a Vontade
de potência num estatuto totalizante do ato qualquer de criação,
realizando a " inversão da subjetividade da incondicionada
razão em incondicionada subjetividade da vontade de potência",
Nietzsche "transpõe no mesmo lance a subjetividade na
onipotência ilimitada do desenvolvimento exclusivo da sua própria
essência". (N2, p. 242)
Já
nada resta de supra-sensível na criação embora de todo ente,
incondicionada e continuando a ser subjetivada, isto é, relativa a
um summun ens criador. O que requer que o "supremo e único
sujeito" da Vontade de potência "enquanto que
subjetividade acabada" seja o homem "que está além de
todos os homens até agora", o super-homem enquanto deus,
criador onipotente, porém não supra-sensível. (N2, p. 243) A
resposta de Heidegger portanato, é que a morte de Deus propugnada
por Nietzsche é somente do Deus supra-sensível, que deve
ceder à concepção liberada do Deus materializado em sujeito da
Vontade de potência, este que será o super-homem, como podemos
compreender se o homem é função da evolução da espécie e esta
perfazendo a história do niilismo na era da metafísica. Conforme
Heidegger, pois, "o super-homem não é um ideal suprassensível:
ele não é tampouco um personagem a assinalar-se num qualquer
momento da história nem surgindo de qualquer parte", mas sim
"enquanto supremo sujeito da subjetividade perfeita (accomplie)
o puro exercício da Vontade de potência". Aqui, pois,
Nietzsche ele mesmo não é criador do conceito na acepção
arbitrária do termo criação. Antes, "Nietzsche se submete à
necessidad eessencial da subjetividade acabada, isto é, a última
verdade metafísica enunciada sobre o ente enquanto tal".
É
assim que encontramos aqui a relação de Nietsche com a virada
filosófica do evolucionismo, que como ressaltei na altura da
descoberta de Darwin havia suscitado ao contrário, o positivismo
radicalmente anti-filosófico. Pois o super-homem em Nietsche, se ele
é o além do homem como história definidora da espécie, torna-se
um conceito teleológico explicitamente do sentido da espécie
biológica. "Não a humanidade, mas o super-homem é a
finalidade (le but)". Ou seja, não se trata porém da evolução
que explica apenas as determinações biológicas da
espécie como do que ela precisa para conservar-se. E se não
há um meio termo entre evolução e história, ou entre a
conservação biológica e a superação metafísica em
Nietzsche, quanto a
esta a inteligibilidade da "evolução"
realmente não é "das espécies", mas da finalidade do
motor inteligível de toda inteligibilidade possível quanto a
indivíduo e espécie enquanto faces da mesma moeda da criação,
o outro nome da
Vontade de potência. O próprio Nietzsche militou contra a
limitação suficiente dessa oposição de indivíduo e espécie
A
doutrina do super-homem explica a do eterno-retorno, que Heidegger
tratou como eterno-retorno do mesmo. A propósito, não só Deleuze
mas vários comentadores apontam o que seria o erro de Heidegger, na
medida que o eterno-retorno em Nietzsche não seria do mesmo, mas do
que difere. Assim como a langue retorna na forma de suas
regras constantes, mas em acontecimento sempre outros da parole .
Ocorre que o "mesmo" a
que heidegger se refere não é outro que a Vontade de potência, e
segundo ele o que Nietzsche define é o eterno retorno como de tudo
aquilo que a Vontade de potência criou. Ou
seja, não necessariamente o mesmo de uma parole, mas o mesmo da
Vontade de potência enquanto instância criadora da langue
que é abertura dos acontecimentos renovados.
Nesse
jogo de palavras sobre o mesmo e o outro quanto ao retorno, creio que
Heidegger está mais certo.
Sua interpretação realmente
contem gênio, alcançando o
objetivo de elucidar a filosofia de Nietsche, assim definindo-a como
metafísica. Ela é além disso uma crítica implícita à
ambiguidade do que é dado
como suprema razão, acima de qualquer explicação regional,
especializada, como crítica
da metafísica.
Ao
inverso de Deleuze,
que embarcado na teleologia nietzschiana travestida de transmutação
radical dos valores e da finalidade entre eles, foi
emendar, entuasiástica e não
criticamente,
em Nietzsche o bergsonismo,
Heidegger mostra como a
criação da Vontade de
potência, ironicamente
é o assujeitamento rigoroso de uma filosofia
à necessidade do inteligível
metafísico. Por este entendendo-se contudo apenas a
veleidade da totalização do ente.
Porém
como vimos, Heidegger não tratou a teleologia nietzschiana como
fizemos aqui, de um modo tão nitidamente aristotélico - se
teleológico,
com vistas a um motor finalístico do inteligível enquanto
tal, isto é, enquanto a posição do "como"-ser de
qualquer ente. Ao invés, o
Nietzsche 2 critica Nietzsche utilizando-se de Aristóteles
como de um pensamento não-metafísico, e de acordo com a
anterioridade pré-socrática que instruiria fora da veleidade da
totalização a verdadeira ante-posição
da physis. Mas qual a razão dessa estanha comensurabilidade de
Nietzsche e o Nietzsche 2, situada
em Aristóteles?
Como
vimos em nosso estudo de Abbagnano, o conceito explícito
pelo qual Aristóteles retorna como modelo explicativo daquilo mesmo
que seria o horror no
seu pensamento, o
evolucionismo, é a
entelequia -
que é ao mesmo tempo o ser e o destino do ser.
Uma vez que, repetindo, o "evolucionismo" nessa acepção é
a metafísica pós-positivista da Evolução exclusivamente biológica
que não autoriza nenhum conceito finalístico,
a qual se encarregou de reintroduzir o componente teleológico,
vemos
que Nietzsche implicitamente
antecipa Driesch,
que em 1908 utilizou-se do termo aristotélico entelequia para
definir uma
função finalística,
ordenativa, da construção
do organismo. E
essa seria do mesmo modo, como
vimos expressamente,
a função unificadora da Vontade de potência contra a autonomia
qualitativa das forças
múltiplas.
A
teleologia,
como vimos em Abbagnano,
retorna como filosofia da evolução
desde a conservação do
vitalismo como um modo de preencher a incerteza que a biologia insere
entre o fator evolutivo - quer seja a adaptação ao ambiente
lamarckista ou a seleção natural
darwinista - e a evolução
da vida. E conforme Abbagnano,
em seu Dicionário de Filosofia (verbete "evolução") :
"O finalismo, que é estreitamente vinculado à doutrina da
estrutura substancial do mundo, isto é, à metafísica aristotélica,
é a parte mais dura de morrer dessa metafísica".
O
finalismo compacta
efetivamente a filosofia original
de Bergson e o recurso a
Aristóteles de Driesch,
segundo Abbagnano.
Porém
a teleologia revela muito
mais quanto à nossa mentalidade contemporânea - o que já se mostra
pela complexidade tal que o
próprio Abbagnano,
que distingue os dois verbetes "evolução" e
"evolucionismo" como respectivamente conceitos científico
e filosófico, acaba por tratar
a filosofia evolutivo-finalística no primeiro.
Ora,
a entelequia, a união de
forma e matéria como a petição de princípio que define a
entredetestinação de ato e potência, visada
por sua transposição possível à obra humanística do Estagirista,
pelo meio termo do De Anima, seria
em que reconhecemos o Dasein heideggeriano.
Martin
Kusch ("Linguagem como
cálculo versus linguagem como meio universal") documentou
suficientemente o
reiterado testemunho de Heidegger sobre
a orientação aristotélica do seu pensamento desde o início,
à qual se deveu
todo o seu
interesse por Husserl e sua
interpretação deste.
A princípio,
a orientação do aristotelismo
como física, da physis,
em termos de filosofia do movimento - logo, da potência;
mas especificamente em torno da obra humanística e o De Anima,
Heidegger testemunhou a sua concepção de Dasein.
Se
o vitalismo parece o fator comum entre Nietzsche e Heidegger, vemos
que não obstante este radicalizar o desmantelamento da metafísica
enunciada como tarefa por Nietzsche, para manter o acontecimento do
ultrapassamento de Deus como instância da Razão na representação
no âmbito da metafísica, isto é, conforme Heidegger o âmbito que
diz respeito ao Ser enquanto as mutações operadas ontologicamente,
portanto ao que parece para ele também de modo incondicionado,
Heidegger não equaciona o referencial da transformação na
cultura. O que seria
necessário, se a compreensão
da Vontade de potência por Nietzsche não foi um enunciado do
ultrapassamento das metafísicas, mas sim de toda
metafísica possível. Na recusa do limite biológico da
inteligibilidade do real evolutivo, não obstante não haver outra
fonte quanto a esta como fator de ruptura secular no Saber, vemos o
recuo do pensamento ocidental frente à tarefa do pensamento relativa
à concepção de ação material. Uma
vez instalada a dicotomia metafísica aristotélica
de ativo ideal e passivo
material, compreendemos que na modernidade quando foi preciso pensar
a ação material ou se idealizou uma filosofia da evolução ou se
inverteu o princípio
unitário da causalidade ideativa na matéria como fez o positivismo,
assim caindo no epifenomenismo da consciência. Em
Niezsche o pós-positivismo
parece poder se compreender
como se a criação em nível de Vontade de potência traduzisse a
autonomia das culturas
que é a marca distintiva do período "culturalista" como a
questão principal. Ora,
desse modo poderíamos
entender o pathos da
superação qunto ao
super-homem - que assim é obviamente relativa ao Homem
como à sua essência,
sem o inconveniente pelo qual aí se limitaria o
determinável quanto
à evolução
- em termos da liberação
na cultura por vir, a
partir da meditação do fim da filosofia ante-culturalista e como
tarefa do pensamento prenunciar. Liberação
pela qual já não haveria ulterior fonte do sentido que o plural
cultural. Porém não
obstante parecer ser essa mesma a mensagem do existencialismo
em geral e de Heidegger
em particular, o problema da "visão de mundo"
na crítica heideggeriana é
coerente com o fato de Heidegger não buscar o a priori histórico
cultural subjacente à transformação conceitual nietzschiana da
corporificação da pessoa
pelo romanticismo, e sim
somente estabelecer Nietzsche
na transcendentalidade metafísica de todo pensamento real enquanto
atuante de mutação
historial. A propósito dessa
dificuldade, como da ausência
de relação entre metafísica
e cultura na apreensão
heideggeriana do nietzscheísmo,
um exame mais acurado a propósito faz-se importante, como o
que poderia também esclarecer sobre o liame profundo e nela
inexpresso de Nietzsche e Heidegger.
///
O
que implica a mudança na concepção da pessoa humana a partir do
Romantismo, é primeiro como já vimos o evolucionismo que impede a
dualidade clássica de corpo e espírito, na medida que a matéria se
torna ela mesma sede da ação inteligível. A noção complexa que
temos hoje de organismo, ao mesmo tempo integração mente/cérebro e
psicologia pode ser explicada assim. Mas a transformação na cultura
dificilmente poderia se limitar ao que Heidegger posicionou, a
saber, o fenômeno do acabamento da metafísica que mais tarde ele
irá tornar expresso de acordo com o que já está subjacente mesmo
aqui, em termos da autonomização das ciências empíricas - ainda
que o enunciado não seja bem o mesmo. Fazendo pois como se o
acabamento fosse apenas transformação interna da mesma coisa, e
sendo esta a metafísica, seria ela mesma a causa de qualquer
ulterior mudança histórica.
Ora,
o que parece-me importante observar é inversamente, que a
transformação na cultura importa à antropologia do
primitivo - embora ela não estivesse ainda formalizada como
disciplina. Na teoria política clássica do liberalismo, entre Locke
e Rousseau a visibilidade do que hoje consideramos a cultura
aborígine, devido à irredutibilidade flagrante dos costumes para a
qual nada na tradição conhecida preparava, foi inversamente
considerada estado de natureza, ausência de cultura/sociedade. A
cultura era pois a posse das noções de Deus, Rei e Lei, uma vez que
nada nos costumes do antropófago americano semelhava a definição
europeia dessas noções. O dualismo classicista é a meu ver
esquematizado por essa dicotomia dos estados de natureza e cultura,
cuja inteligibilidade é a mesma da repartição cartesiana dos
atributos extensão (matéria) e pensamento. A loucura realmente era
tratada aí de um modo exclusivista relativamente à razão - em
Hobbes por exemplo, especificando-se ser o problema era considerável,
visto não se poder compreender uma desordem na razão, que é
a ordem em si, a solução é o próprio enunciado da dualidade. A
loucura era afetação do cérebro e não do intelecto, perturbação
do corpo e não do espírito. Este continuaria imperturbável, apenas
não teria, em caso de loucura, o instrumento físico pelo qual se
expressa na experiência.
Não
creio pois na hipótese derridiana de que em Descartes o sonho é o
retorno da loucura, expulsa como explicação suficiente de um estado
de total engano a propósito da experiência. A loucura é
insuficiente porque ela não afeta a idealidade na economia dualista
do classicismo, e é a idealidade que precisa ser objeto da dúvida
para que uma possível certeza seja efetiva, isto é, a propósito
do ideal, o intelecto.
Ora,
se o sonho não afeta a idealidade, ainda assim não é o mesmo que a
loucura por não ser um estado que
classifica o homem que sonha
como incapaz da idealidade,
um puro estado natural ainda
que de algum modo
degenerado.
Consoante
o classicismo, nisso igual a Aristóteles, a história como ciência
é impossível, visto que na história decorrem apenas acontecimentos
fortuitos conforme o encontro das paixões
naturais. O homem que vive no
fortuito está em estado natural, e se há cultura/sociedade é por
exercitar-se o intelecto, mas
o exercício do intelecto não dá a história, e sim a constância
das instituições imutáveis.
Na
"teoria
política",
o estado natural permanece
como do fortuito, porém aqui a universalidade da autonomia
existencial torna-se o
importante, demonstrada
supostamente pelos aborígines
americanos,
um século e meio depois do "descobrimento"
e quando já havia informação suficiente para considerar que
viviam de modo estável. O
"estado natural" era o da adaptação natural
agora na acepção de originária,
como do corpo são atuando na
natureza. Um estado pois de
quase-animalidade, somente havendo o componente humano atribuível
ao aborígine por sua
semelhança física com o europeu de modo a poder ser o
componente a virtualidade do
progresso mental que se atualiza na sociedade europeia.
A sociedade como instituição
ideal viera como progresso após o
que era então pressuponível como alguma
perturbação do estado natural,
por degenerados (Locke) ou pressão grupal (Rousseau),
designada "estado
de guerra".
O
escravismo, a monarquia absolutista e privilégios de grupos eram
considerados agora variantes do estado de guerra, de modo que a
sociedade existente era um estado intermediário já socializado mas
ainda não totalmente racional, o que seria o progresso
a esperar
da conversão do Estado à
igualdade do contrato social, o que mais tarde se aperfeiçoou na
ideia de constituição
nacional - não um contrato,
mas o que rege a forma de contratos quaisquer.
Ora,
a partir do evolucionismo
do século XIX, o homem
torna-se uma "espécie" definida por sua racionalidade em
função desta como adaptação
irredutível às demais espécies animais. Não podem
subsistir pois estados diversos da mesma espécie quanto ao critério
de sua adaptação, uma vez
que é ela que define a espécie. Mas isso apenas resultaria na
universalização do ideal
do que decorreu, pois, a
autonomia das ciências humanas,
porém como o inverso da extensão possível dos métodos das
ciências naturais aos fenômenos humanísticos.
Ou
seja, a universalização do status pensante não correspondeu à
universalização da cultura.
Portanto há mais fatores
envolvidos que apenas a
mudança na biologia, e o
exame das ciências humanas
nascentes a partir da
História esclarecem bem que
o acontecimento de sua gênese está relacionada
à
independência das ex-colônias americanas.
Agora o homem americano já
se comprovava historicamente
agente
de sua nacionalidade. Mas assim a irredutibilidade cultural
permanecia, pois a agência
histórica não tinha relativamente à
Europa o mesmo passado.
Ou
seja, ao invés de uma natureza do homem que abrangendo conforme sua
adaptação o pensamento, se
universalizara, o que ocorreu foi a atribuição da particularidade
das culturas conforme as
línguas, vindo a emergir o conceito atual de nacionalidade
- bem oposto principalmente por essa via ao de contrato social.
O
positivismo darwinista,
ao renunciar à diferença metodológica das Humanities
por uma generalização do objetivismo da Science,
não recuou quanto ao
axioma da irredutibilidade
cultural, apenas,
por
via da sociologia então nascente, importou
a inteligibilidade evolutiva como componente explicativo da diferença
cultural num momento de grande euforia
decorrente do enunciado da Revolução Industrial.
Se
o Romantismo eclode confrontando a distopia paradoxal do "terror"
na França e
da resistência dos impérios
contra a Revolução anti-monarquista
Francesa,
o positivismo da Revolução
Industrial é inversamente utópico
- aqui utilizando-se critérios diferentes do marxismo.
O
conceito primeiro positivista de evolução psicossocial não
afeta o conceito de espécie, mas como vimos, ele já estava clivado
pela cultura como não-generalizável
da espécie. É pois
sobre uma realidade exclusivamente "humanística" -
conceito ulterior ao de
apenas "humano"
enquanto biológico - que se
requer a inserção de um modo de explicar a pressuposta
variável do "progresso".
Não
pretendo aqui fazer como se o dualismo classicista e a filosofia da
história fossem totalidades a priori, valendo por si tão somente na
ausência de provas em contrário. Além do mais provas que não
poderiam ser encontradas por um sujeito que não as pudesse buscar já
que totalmente convencido dos fatos consoante ao a priori.
A
descontinuidade histórica do que seriam então estruturas lógicas
autônomas não é tão prejudicada pela exigência explicativa das
"transições" - de fato ela nem mesmo as admite
propriamente - do que pela concepção das totalidades em termos de
paralogias. Ora, o problema assim afeta a própria concepção de
totalidade.
Foucault
por exemplo, que apreendeu eficazmente o dualismo classicista
enquanto a priori do Saber, não podia proceder senão como se ele
instruísse do mesmo modo as práticas do Poder, por outro lado
seccionando destas a "disciplina" que designou "análise
das riquezas", mais simplesmente o mercantilismo, por limitá-lo
a enunciados teóricos. O que ele nunca equacionou, foi a prática
mercantil colonial-escravista.
Porém
a explicação da prática mercantil pela "representação"
na teoria mercantilista deixa de ser consistente, se equacionarmos o
colonial-escravismo como a economia do período, e assim veríamos,
conforme Dobb, que ao invés da equivalência rigorosa das palavras e
das coisas - a bela ingenuidade clássica - o que ocorria era bem
inversamente o jogo da astúcia e da trapaça que já desde o
Renascimento assinalava a quase-escravização do trabalhador
europeu, por meio da legislação de tortura física dos desocupados,
paralelamente à expropriação de toda posse não capitalizável
pela burguesia monopolista de que resultava precisamente a
desocupação dos servos agrícolas do mesmo modo legislativo
impedidos de permanecer nos campos.
Foucault
propagandeava assim em escritos de índole política, que o "antigo
regime" era muito tolerante com os pobres e os camponeses, ao
contrário do que perseguia apenas como o tipo desordeiro do
extravagante ou do desatinado. Isso para cometar o erro crasso de
atribuir a criminalidade ao status da pobreza de modo que a burguesia
é a grande culpada de inculcar no proletariado a fantasia da
diferença entre pobre e criminoso comum, por outro lado sendo
"burguesia" o regime de aversão aos pobres e vagantes. A
sociologia empírica já demonstrou que pelo contrário, a taxa de
crimes é protagonizada pela firma americana e não por pobres, e que
o tipo de delinquência juvenil de favelados é a mesma que tem por
praticantes jovens ricos.
"As
palavras e as coisas "é menos sensível ainda que "A
História da Loucura" para a paralogia implícita em todo
dualismo clássico, que difere do pensamento antigo-medieval pelo
fato de ter que conceituar positivamente a "natureza"
material - isto é, sem a redução psicótica à khora/potência. O
empirismo epistemológico e a prática de ciências empíricas, assim
como das Navegações correlatas à realidade do Novo Mundo, são a
exigência dessa positividade. Assim no dualismo, há duas
realidades, matéria e espírito, a mesmo título, porém sendo ambas
expressões ou criaturas de Deus, de fato Deus é apenas espírito.
Ora, na contemporaneidade a evolução psicossocial é paralógica na
medida em que instrui um processo universal cujo Sujeito porém é um
atuante específico da cultura ocidental. Agora o processo é porém
o próprio desenvolvimento como economia dos países integrados pela
Revolução Industrial. Além da paralogia suscitar uma tarefa de
totalização da história que é ao mesmo tempo da unificação do
Ocidente como um processo de Saber e de Poder, como neurose (social)
ela cega para a efetividade do processo que é de interdependência
de dominantes e dominados a partir da realidade da Revolução
Industrial como Imperialismo.
As
teorias da evolução psicossocial, que informam como a priori toda
economia política, psicologia, sociologia, formulam pois teorias do
capitalismo das quais se depura qualquer papel do imperialismo, de
modo que enquanto significado da Revolução Industrial ele não
possa ser nunca uma crítica da expropriação de classe sem ser ao
mesmo tempo o do desenvolvimento psicossocial - quando na verdade o
capitalismo é ativamente anti-revolucionário-industrial quanto às
economias dependentes, e o inverso da democracia enquanto dominação
do mercado, logo, da sociedade.
A
paralogia resulta pois em discursos de ciência que sobredeterminam
os resultados da pesquisa empírica dos quais o que se depreende é a
pluralidade não inteiramente unificável das culturas e da história.
Foucault
por exemplo, mantem-se segundo o imperativo da unificação
desenvolvimentista do qual decorre a classificação unívoca do
moderno-ocidental relativamente ao qual o outro qualquer é o
ante-moderno-ocidental. Não obstante sua propaganda da aristocracia
absolutista, por sua anulação da democracia contemporânea como
efetividade pelo que seria apenas uma sociedade de encarceramento
clássica modulada numa sociedade de identificação seletiva
contemporânea, pelo que as identidades são subsumíveis a destinos
de rotina administrativa conforme juízos pre-concebidos quanto ao
normal e o patológico, ele tratou a modernidade ocidental como o
abrandamento das penalidades.
Assim
como Spencer, manteve a dicotomia do primitivo como gozo sádico
instintivo e civilizado humanitário. Apenas, seguindo Nietzsche,
dessublimando a conversão do instintivo em formação social, isto
é, parâmetro de justiça, não é que não subsista a conversão,
mas sim que ela é expressão de um poder ao invés do progresso do
espírito ao prazer da legalidade como decorreria da sublimação -
uma vez que nesse caso o gozo teria se especializado em sexualidade
normal (heterossexual), não havendo gozo diverso.
Ora,
sendo o poder de que se trata segundo Foucault, o da burguesia, ela
mesma bloco saber-poder, decorre que o abrandamento das penalidades,
o sistema penitenciário do qual se baniram as legislações de
tortura física, como critério absoluto do moderno-ocidental, não
seria nada de humanitário, mas apenas um outro modo, mais
abrangente, de obter domínio na forma da conformação subjetiva.
Não considero assim de modo algum, porém aqui não sendo oportuna a
discussão da filofia do direito moderno, cabe ressaltar a
contradição de um discurso que ao mesmo tempo define a identidade
e a diferença do passado e do futuro - se a distopia burguesa apenas
perpetua a "representação" nas ciências humanas, quando
para o mesmo Foucault, a ciência pós-clássica em si estrutural,
não é "burguesa" não tem "representação"
metafísica possível.
Ora,
como ressaltei, o que estamos constatando não é a modernidade como
arcaísmo da representação clássica dissimulada no discurso das
ciências humanas - como ocorreria na medida que elas pudessem se
definir como ciências da hipóstase Homem. Se assim fosse, Foucault
seguiria Heidegger, apenas traduzindo o que este designou em termos
de metafísica da representação na forma do que não se subsume à
metodologia estrutural.
O
que estamos constatando ao inverso de As palavras e as coisas, é a
modernidade como enunciado da autonomia das culturas feito, bem
inversamente a Foucault - que dessa autonomia deduz a desipostasiação
necessária como método científico real enquanto já não clássico
-, pelas ciências humanas e equivalendo à regra de sua própria
autonomia epistêmica.
A
oposição estrutural/humano também consta em Heidegger, na medida
em que no Niezsche 2 ele estabeleceu a metafísica como estrutura a
quatro elementos e a designou como não-humana. Nesta estrutura
subjaz o impensável do ser enquanto não subsumido pela determinação
de ser do ente, que entretanto a metafísica designa em termos de
pensamento do ser. Resta que o impensável do ser na estrutura é a
subsistência do ser em todo pensamento do ente. Assim a estrutura
metafísica contem algo da necessidade do pensamento que Heidegger
alhures considerará autêntica em termos de Als Struktur, a
estrutura "como" em que o ser do ente é "como"
ser coerente à atribuição. E que remete mais propriamente à
Austrag (diferença) ontológica - referenciada pelo Nietzsche 2 como
a "ontologia" do "fundamento" tratado já em Ser
e Tempo (N2, p. 167).
Ora,
se na Austrag reconhece-se na terminologia do Dasein (pre-sença) a
Gewissen - o termo alemão para "consciência" cujo sentido
é porém a moralidade - vemos assim aí a pluralidade cultural, a
cultura na sua autonomia relativamente às demais. Resta que o "pré"
da presença, pelo que os tradutores intentam captar o sentido
heideggeriano do Dasein como não precisamente presença fora da
Austrag, como ser simplesmente dado, o sentido da entelequia que
pertenceria à pre-sença como autonomia do seu movimento possível
viria antes que somente da "física" traduzida por
Aristóteles como as possibilidades da alma (vegetal nutritiva e reprodutiva,
animal sensível e motora, humana volitivo/apetitivo ou prática e intelectiva ou teórica), mais precisamente da
cultura como aquele todo que antecede, está antes, de
qualquer determinação de sentido localizada provinda da presença
e como ela mesma possibilitada. A pre-sença como consciência
(Gewissen) é pré-compreensão.
Consciência aqui não
significa pois o dado perceptivo sempre atual. Freud quando designa o
sistema da Consciência ou Cs, o trata por sistema
Percepçaõ-Consciência ou Pcp-Cs. É nesse sentido que ele é
oposto ao Ics (inconsciente). Porém está claro que Freud pesquisa
como inconsciente a construção do vir a ser do signo, enquanto
Heidegger lida com o já construído em termos de significado - não
obstante este não ser o dado perceptivo mas o que coalesceu na
palavrização ou estipulação dos costumes, como dos papeis
pessoais, por uma comunidade localizada espacial e temporalmente,
trazendo consigo as características de suas funções relacionadas à
localização. Aparentemente Heidegger se interessa pelo que Freud
designou o pré-consciente (Pcs), onde este instalou também a
linguagem como ponte entre o Ics e o sistema Pcp-Cs.
Porém
Heidegger critica a noção de Weltanschauung como adequada à
Gewissen. Estaria ele criticando assim que os acontecimentos
fundadores naqueles tempos tremendos das palavrizações fossem
reduzidos a meras operações mentais, ao invés de envolvimento
profundo dos agentes engajados nas problemáticas quanto às suas
próprias possibilidades de sobrevivência? Ou pelo contrário, ele
criticava o limite antropológico - e por aí "cultural" na
acepção do correlato científico que a "antropologia"
estuda - da Weltanshauung enquanto não alcançando necessariamente o
determinante para discernismos o nosso próprio situamento presente,
onde faz-se urgente, face à hecatombe com que nos ameaça a
dominação total da técnica?
Nesse
discernimento o que vislumbramos segundo Heidegger é a tarefa do
pensamento futuro - paralelamente ao que Niezsche dispunha como
pensamento do super-homem. A tarefa do pensamento futuro instrui
contudo, o a priori heideggeriano do Historial - ou seja, o
determinante sendo não a antropologia, mas o desvelamento da
metafísica, do começo até o fim na era da ciência, que é porém
não um fim de cessação, mas de perfeição.
É
nesse a priori que compreendemos o que havia ficado em suspenso como
o aristotelismo comum a Nietzsche e Heidegger, se o Ser quer e não
quer ser chamado "cultura" - assim como Heráclito dizia
que Deus quer e não quer ser chamado Zeus - mas por um motivo tão
bem metafisicamente definido que encerra a razão da metafísica
mesma ou Ser como a priori do que se desenvolveu acima das culturas,
o Historial, até o desvelamento delas mesmas como o limite
ontológico: Austrag. Se diferença ontológica, na verdade diferença
cultural.
A
teleologia, como dissimulação finalística do processo de
excentramento em função do qual interpretamos a emergência das
ciências humanas, serve pois à neurose social da unificação do
Ocidente para efeitos de único sujeito do desvelamento e onde ele
vem a ser, expresso porém esse devir não na atualidade da percepção
em que a ciência o anuncia, do outro da cultura, na antropologia,
mas na história da metafísica, isto é, história do Saber que se
inicia na Grécia como origem do ocidente e se desenvolve enquanto
pensamento ocidental. Ora, o saber também não se origina de si por
si, como qualquer saber que pudesse se contentar com preexistir aqui
e ali, mas se ele é "algo" de não outro, eis a origem da
metafísica como a precedência dela com os pre-socráticos.
Além
disso, porém sem que se perceba bem por que do ponto de vista dos
saberes, Heidegger proscreve qualquer suficiência imanente à
história dos saberes. Toda suficiência inteligível reside antes na
teleologia do Ser, ou seja, na metafísica grega-ocidental. Assim, no
texto bem ulterior ao Nietzsche 2, intitulado "O fim da
filosofia e a tarefa do pensamento", embora se faça alusão à
obra precedente, já não se trata da Vontade de potência de
Nietzsche como fim da filosofia no modo de sua alcançada perfeição,
mas sim da era da ciência.
O
Nietzsche 2 já havia atingido o nível da pergunta sobre o
sentido da démarche cujo destino se detem nesse ponto de
inversão do incondicionado que enuncia o super-homem. O que está
por trás da metafísica é ou não legítimo do ponto de
vista do inteligível?
Mas
a retomada desse tema na publicação de 1966 do texto da
conferência "O fim da filosofia e a tarefa do pensamento"
contem remanejamentos importantes que devemos considerar agora.
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A resposta à questão da
metafísica, ainda no Nietzsche 2, é solenemente afirmativa. Aqui a metafísica
da qual se indaga já está encaminhada como "dupla relação" da verdade
enquanto justiça: verdade do ser na totalidade, logo, "verdade enunciada
sobre o ente, porque verdade que retira sua origem do Ser do ente"
. (N2, 265)
Se assim é, Heidegger se
pergunta: "essa origem da essência da verdade diz alguma coisa quanto à
verdade mesma? É ela, enquanto (ainsi) originária, em si não historial? Essa
origem da essência da verdade não diz no mesmo lance alguma coisa da essência
da metafísica"?
Ao responder "assurément",
sim com toda certeza, Heidegger ajunta curiosamente: "e notadamente iso,
que seja dito de saída (d'abord) para sua preservação". Com efeito é algo
curioso que o fim da metafísica, que se
anunciará logo após, seja então introduzido como o enunciado da sua
preservação.
Nesse trecho que finaliza o
capítulo sobre "A metafísica de Nietzsche", a metafísica aparece como
algo que não é "fabricação do homem", o que explica porém por que
existem pensadores. Estes, dentre os quais Niezsche não é qualquer excessão,
não fabricam a metafísica que é enunciado sobre a verdade do ente na
totalidade, mas "se situam a princípio na desocultação a que se habilita o
ser do ente ", desvelando assim "o traço fundamental da história da
época". Eles revelariam portanto, como diferença historial, da época a sua
ontologia.
Mas se ao ver de Heidegger a partir
do acontecimento que pertence à grecidade, da autonomia do saber da physis como
possibilidade de enunciação da verdade ou aletheia, foi posteriormente
inevitável o desdobramento do saber em metafísica, vemos que, conforme nossa
própria terminologia, a diferença ontológica
redefinida como historial é uma classificação antropológica evolutiva das
culturas. Entre pré-gregas e grecidade, depois entre pré-metafísicas e
metafísicas assim como se poderia dizer, entre
pré-gregas e cientificizáveis tanto como científicas. Em suma, entre
não-ocidentais e ocidentais.
Se o enunciado de Nietzsche é a
Vontade de potência, então ela revela a essência dos Tempos Modernos como a
época da soberania do homem sobre o planeta, definindo-se pois como
ocidentalização. Não importando que o enunciado nietzchiano não disponha apenas
o planeta ao domínio do homem, mas principalmente "enquanto domínio de
matérias primas e para a utilização sem fantasia do 'material humano' a serviço
da Vontade de potência se autorizando acima de toda condição
(incondicionellement), a manifestar sua essência fundamental." (N2, p.
266) Como sublinhamos antes, é nesse ponto do seu texto que Heidegger
referencia o vaticínio nietzschiano de que os tempos por vir são aqueles em que
se travará o combate pela dominação da terra em nome das doutrinas filosóficas.
Fazendo assim, porém, a metafísica como verdade do tempo não
significa ao ver de Heidegger que para
Nietzsche esse combate seja o futuro de uma nova filosofia conveniente de algum
modo à Vontade de potência, seja por que a esta conceitua ou apoia. Mas bem o
contrário, conforme Heidegger, "é de se presumir", a saber " que
a filosofia desapareça enquanto doutrina ou formação da cultura e que ela seja
suscetível de desaparecer, porque na medida em que foi autêntica já nomeou a realidade
do real, isto é, o Ser, pelo qual somente todo ente é chamado a ser o que ele é
e como é".
Aqui, portanto, encontramos a chave de
comunicação entre o Nietzsche 2 e a conferência intitulada "O fim da
filosofia e a tarefa do pensamento", se nesta Heidegger especifica a
atualidade como esse tempo ulterior à filosofia, qualificando a ulterioridade
não como cessação, suspensão, mas cumprimento, uma vez que é o tempo da autonomia da ciência exatamente
como efetivação da possibilidade
metafísica de domínio absoluto.
Os nossos são os tempos da civilização
planetária, domínio do mesmo regime
científico-tecnológico sobre todo o planeta que até aqui vinha sendo o
habitat da diferença cultural - mas que Heidegger trata por
"ontológica" - dos povos
autônomos.
331/340 A referência ao Nietzsche 2 na
conferência de 1966 é bem ligeira, porém bastante esclarecedora a propósito do
que podemos designar o ponto de certeza do pensamento heideggeriano - como
acima vimos, em que ele expressa-se com segurança a propósito do enraizamento
da metafísica na ontologia da verdade.
Na conferência, Heidegger chega a
essa referência após um questionamento em regra da contemporânea filosofia da
subjetividade, de Hegel a Husserl. Não obstante salientar que "ambos os métodos são radicalmente
diferentes", o que eles tem em comum é historicamente essencial:
"Visto a partir de Hegel e Husserl, a questão da filosofia é - e não só
para ela - a subjetividade". Como sabemos que Husserl antecede diretamente
a Heidegger, aqui basta a referência a este para situar o ponto a que Heidegger
quer conduzir.
Nestes últimos duzentos anos a
evolução dos conceitos que se sucederam em torno da subjetividade fizeram
apenas estabelecer, para a filosofia, nesta a sua questão, de modo que
um questionamento a propósito se tornasse inviável. Desde Hegel ".. o que é a questão da Filosofia"
já se deve acatar "por decidido previamente". Assim a referência
definitiva é o "princípio de todos os princípios" que Husserl
enunciou em "Ideias para uma Fenomenologia Pura" (1973) do seguinte
modo: "Toda intuição que originariamente dá (é) uma fonte de direito para
o conhecimento de tudo que se nos oferece originariamente na Intuição (por assim
dizer em sua realidade viva) (deve) ser simplesmente recebido como aquilo que
se dá, porém, também somente no interior dos limites nos quais se dá...".
Ora, se aí mesmo nos apressássemos para reconhecer a própria objeção
heideggeriana à metafísica, logo Heidegger esclarece com precisão por que esse
não é o seu princípio. "'O princípio de todos os princípios' contem a tese
do primado do método", a saber, o método da redução transcendental, que de
qualquer modo "exige como questão da filosofia a subjetividade absoluta".
(op. cit. p. 76)
Tornando ao que vimos pouco antes,
na classificação heideggeriana consta, pois, a subjetividade absoluta
historialmente na região do cientificizável, sendo elemento na história da
metafísica (filosofia) ou Ocidente. Ao que parece Heidegger não considera
Husserl se não cronologicamente após Nietzsche - o fim da filosofia não é a
fenomenologia, mas a Vontade de potência, enquanto enunciado da própria
história da metafísica que então se transmuta na era da ciência.
Porém o enunciado nietzschiano não
seria ruptura historial nisso pelo que desde Descartes, com a inflexão
hegeliana que já examinamos, trata-se para Heidegger dos Tempos Modernos como
mutação da metafísica em método a partir da conversão do Ser em Subjetividade,
visto porém sempre como a instância da verdade quanto ao ente. Repetindo,
Heidegger considera a Vontade de potência como subjetividade absoluta, mudando
apenas para o corpo, sua animalidade, a imediatez impulsiva do seu elã, a sua
essência.
O nexo com a subsequência a Nietzshe
da era da ciência, mais do que
convivendo com o exercício da filosofia, reunindo agora em si tudo o que nela
podia antes se fazer, parece ainda algo obscuro. Mas podemos considerar que o corpo,
ao ver de Heidegger, não é relacionável à verdade como physis ou metaphysis,
mas sim só às ciências especializadas. Essa seria ainda uma crítica mais
radical ao projeto nietzschiano do super-homem, ou a conjectura de que o
próprio Nietzsche apreendeu a verdade da ciência como o futuro da metafísica.
Em todo caso, Heidegger considera que
na inflexão contemporânea que desloca desde Hegel a filosofia para o que seria
"a sua questão" - expressamente a subjetividade ao invés da
substância - nenhum avanço resta ainda possível.
A partir daqui Heidegger
convoca pois à ruptura para com qualquer tentativa ulterior nesse caminho. Ao
invés disso, devemos "perguntar pelo que permanece impensado no apelo 'à
questão mesma'".
Heidegger envereda a partir
daqui pela elucidação do seu conceito de
"clareira" (Lichtung) como o "lugar" da proveniência de
qualquer acontecimento. Assim a relação da intuição originária ou a priori,
mesmo espácio-temporal, com o que ela possibilita, guarda certamente
ressonância com a relação do lugar com os acontecimentos que nele decorrem. Mas
expressamente Heidegger salienta que a clareira não é a intuição originária e
sua evidência, mas sim que mesmo estas dependem "da abertura que já
impera, a clareira".
Tanto o a priori kantiano quanto a
intuição originária (Husserl) ou a dialética especulativa (Hegel), já pressupõe
todo decorrer como "evidentia".
( p. 77, 8) Se a peça central do Nietzsche 2 como não apenas a
interpretação heideggeriana da Vontade de potência em termos de filosofia
nietzschiana, mas de uma meditação do historial, localiza-se na tradução da
"energeia" aristotélica, na conferência de 66 o mesmo viés da
inadequação historicamente fundadora é exemplificado pelo curso do termo grego
"enárgeia" .
Mais pelo que conceitualmente os
termos vieram a significar, em Nietzsche 2
Heidegger reprova a tradução da "energeia "na imanência da
utilização de Cícero, em termos de "existentia", conforme o que também se empregou
"actualitas". (op. cit. p. 330, 1). Não é porque Cícero enfatizou o
"ek"- o fora - na formação da palavra (ek-sistência), que ele teria
alcançado a significação que Aristóteles convocou para situar a "coisa em
si" relativamente ao pensamento. Nem essa exterioridade teria sido
alcançada como o ser que se furta à ocultação, apenas por ser
relativa o que se mostra enquanto o que
está exposto.
A ênfase do que designei o
nível conceitual da crítica aqui é o
importante porque de fato não há
diferença entre desocultado e exposto como inverso de interno. Mas a diferença em que Heidegger insiste poderia
assim ser neutralizada. É em que a inadequação relativa agora à
"enárgeia" na conferência de 66 apenas repete a intenção do
Nietzsche 2, de demarcar a irredutibilidade entre o pensamento da physis e da metafísica.
Se Heidegger noticia, na conferência, que Cícero traduz "enárgeia" por evidentia,
ele introduz, na palavra grega para o
que brilha ou se expõe à luz, o elemento de ver (videre) que nela mesma não
consta. Heidegger quer especificar desse modo que a clareira não é o claro. É o
lugar. A clara luz se mostra na clareira, não antecede a clareira mas depende
dela para mostrar-se, e, mostrando-se,
permite que se veja tudo o que aparece ou que se desvanece como o que se
aproxima e o que se afasta: "da clareira,
todavia, a Filosofia nada sabe. Não há dúvida que a Filosofia fala da
luz da razão, mas não atenta para a clareira do ser."
Creio que por isso o que Heidegger
está afirmando é que a Filosofia teria que colocar em questão a sua própria
possibilidade de vir a ser. Mas assim ela não poderia se interpretar como já o
seu exercício, pelo qual ela indaga, digamos, quanto ao preenchimento ou não de
uma pretensão de validez, ou se é possível em geral a validez. Ela teria que situar
claramente que práticas, que linguagem e que pressupostos a estão constituindo
tal que seu exercício é este ou aquele.
Seja como for, é nesse ponto que
Heidegger referencia o seu Nietzsche 2, salientando porém que não poderia
desenvolver na conferência o que lá foi tratado como algo que corresponde ao
que está em questão agora. A luz da
razão não constitui a clareira, só ilumina a esta que necessariamente lhe
preexiste. Mas se a luz da razão necessita da clareira para iluminar o que
nesta já se encontra, não é somente o método, mas também a questão mesma da
filosofia, a presença do que aí se encontra
como o que se "presenta", que já dependem do que preexiste
como o lugar.
Heidegger se indaga então: "em
que medida também já na subjetividade é sempre pensado o subjectum, o
hypokéimenon?" (p. 78) Ou seja, indaga-se aí sobre como podemos interpelar
o discurso da filosofia do sujeito a partir de sua dependência à história da
metafísica, sabendo porém que o discurso é a latência que tem por função
ocultar algo na filosofia que se
manifesta precisamente a relação historial, tendo o discurso da
modernidade por função o esquecimento dessa dependência. O elo, contudo, é
manifesto de modo magistral por Heidegger na imediata apreensão pela linguagem
que mostra a relação entre as palavras (sujeito/subjectum tradução latina de
hypokeimenon).
A referência é pois ao Nietzsche 2
para o entendimento desses termos esquecidos na filosofia da subjetividade, o
subjectum e o hypokeimenon, entretanto
componentes dela na raiz mesma da palavra "sujeito" que a orienta.
E vimos que o Nietzsche 2 trata os dois termos, assim com a sua relação
de tradução entre o grego e o latim, como as peças fundamentais da história das
mutações que perfazem a Metafísica como ao Ocidente histórico.
Porém logo após a breve referência,
Heidegger enfatiza que aqui sendo impróprio desenvolver o lá tratado, o que ele
deseja agora que se torne objeto da atenção é o tema da dependência da presença
ao que preexiste, a clareira. Mas podemos indagar, porque é ele algo de outro
relativamente ao Nietzsche 2? Por que deveria ser "outro", se
está oculto aqui, mas subjacente ao que se constitui agora? Será mesmo
"outro"? Ou se trata apenas de um modo de passar por alto o assunto
em que, precisamente por não ser nada de "outro", apenas seria
demasiado insistir, e tudo bem compreendido,
resta agora apenas recolher as consequências? O que nos revela o texto
na subsequência permite a alguma resposta ser, como a de Heidegger a propósito
da originareidade do co-pertencimento de metafísica e verdade, no Nietzsche 2,
dada com toda certeza, "assurément"? Sim, sem dúvida. Aqui, mais do
que um remanejamento, se poderia falar de ruptura.
Aparentemente trata-se, rigorosamente,
do mesmo que em Nietzsche 2: a Aletheia, o originário. Em que porém o caminho
do pensamento, provindo do tema da clareira, mudaria alguma coisa, se o tema a
que este conduz permanece a Aletheia? Ora, Heidegger muda muito, se o Nietzsche 2 tratava o originário como o
fenômeno da verdade. E sendo por isso que respondia "assurément" à
indagação sobre se a metafísica, não obstante a história das traduções
distorcedoras, era enraizada na verdade a partir da origem grega pré-socrática
da filosofia, em que se tratava ainda da
Aletheia.
Nesse trecho do Nietzsche 2 a
verdade expressa como Aletheia é
expressamente relacionada à indagação da metafísica, na frase em que Heidegger recenseia os dois itens, a aletheia e a
vontade de potência que, já desenvolvidos, importariam à interpretação de que
em Nietzsche a essência da justiça é "o traço essencial da verdade",
de modo que contra todos os hábitos, vem a ser lícito erigir a "'justiça'
em noção capital da metafísica de Nietzsche. (op. cit, p. 64)
O problema aqui, do qual decorre a
omissão dos intérpretes pré-heideggerianos,
é que para o próprio Nietzsche, isso, a centralidade da justiça em seu
pensamento, não estava claro a princípio. Heidegger cita um prefácio de
1885/1886 para "Humano demasiado Humano", de 1878, em que Nietszche
se queixava de não ter ainda a reflexão oriunda de alguma "vasta
perspicácia" que lhe permitiria ultrapassar o estágio de mera relatividade
perspectivística e irreflexão a propósito daquilo sem o que a vida não seria
"suportável", a saber, a justiça.
Mas já na segunda das "Considerações Inatuais", sobre "Da
vantagem ou desvantagem da história para a vida", Heidegger observa, uma luz se projeta, Nietsche substituindo a
"objetividade das ciências hsitóricas" pela "justiça".
Mesmo que ainda sem que fique claro a relação do termo substitutivo com os dois itens acima mencionados, de modo
a comprovar ipsi litteris a
interpretação heideggeriana da verdade, enquanto essência da justiça, como o
essencial para classificar Nietzsche como metafísico, a Heidegger basta que os
dois ítens já estejam admitidos em tudo o que precede para que a classificação
proceda. Ou seja, estando assentado que a Vontade de potência "seja
compreendida como subjetividade incondicionada e, porque invertida, então
somente acabada" e que "a essência esquecida da verdade metafísica
seja re-lembrada ("res-souvenue") enquanto desocultação do que está
oculto (αληθεια)." Assim, se a metafísica é a verdade do ente enquanto tal
na sua totalidade, a m etafísica da subjetividade incondicionada e acabada
pensa, sem o dizer, a essência dela mesma, notadamente a essência da verdade
enquanto justiça, (p. 265). O acabamento nietzchiano da metafísica pois, é aqui
a Vontade de potência enquanto perfeição de toda filosofia da subjetividade, o
que define a modernidade. Segue-se a indagação que já citamos sobre se sob a
dupla relação que define a metafísica,
da verdade sobre o ente originando-se porém como enunciado do seu ser, a origem da essência da verdade expressa algo
da própria verdade. O sim, o ponto da certeza, estabelece pois a relação a
ser ela mesma desocultada, da verdade
metafísica com a "verdade" originária, "Aletheia" - o termo
ele mesmo na origem do pensamento grego.
E aqui, na conferência de 66, pelo
contrário, Heidegger aporta ao seguinte
estabelecimento: "Seja como for, uma coisa se torna clara: a questão da
Aletheia, a questão do desvelamento como tal, não é a questão da verdade. Foi
por isso inadequado e, por conseguinte, enganoso denominar a Alétheia, no
sentido da clareira, de verdade." (op. cit. p. 80).
É nesse ponto que se revela a tarefa
do pensamento nesse ambíguo fim da filosofia. Ambíguo, pois Heidegger já não
considera que o ocultar da Aletheia pela metafísica ou filosofia
deva ser considerado caso de perda, negligência ou falha fundamental da filosofia ou metafísica.
Mas se "assinalar o que ficou impensado na Filosofia" não é crítica a
ela, "caso se torne necesária uma crítica", eis a retomada, agora,
não do "Nietzsche 2", mas sim do que "Ser e Tempo" segundo
Heidegger já havia posto em questão: há uma tarefa do pensamento no fim da
filosofia? Qual seja esse fim, não
obstante, o tornar a expressar-se a palavra Aletheia na tessitura da
filosofia, como por um pensamento que
não pode ir além da rememoração desta última.
Aletheia não significa qualquer dos
termos que na filosofia traduziram o termo "verdade". O pensamento após o fim da filosofia, só pode
ser encaminhado por uma rememoração dela. A tarefa pois, se expressa. Se
Aletheia já não se põe como "verdade" , não sendo o teor de qualquer
dos termos que conceituam a "verdade" na "tradição" - como
na filosofia cujas mutações historiais operam contudo a conformação dos entes a
que se designa "história" ainda que por meios que continuam obscuros
- o que a Aletheia é?
Já definida como clareira ou
desocultação, resta porém a tarefa de elucidar a questão sobre se a Aletheia, é
menos ou mais que a verdade como "concordância posta à luz ao nível do
ente" em termos de "adequatio" ou como "certeza do saber a
respeito do ser", em termos de "certitudo. Menos, como o que
"ainda não é a verdade", ou
mais como o que "somente possibilita a verdade" definida como
adequatio e certitudo.
A tarefa do pensamento
pós-filosófico que se mantém porém, agora de modo bastante compreensível, como
rememoração da filosofia, é pois responder a essa pergunta sobre o menos ou o
mais da Aletheia relativamente à verdade que veio a ser na história unicamente como produto
igualmente único da metafísica.
Ora, o nexo rasurado entre o
Nietzche 2 e a conferência de 66, parece ser o deslocamento do conceito
heideggeriano de origem relativamente à Aletheia. O locus da rasura é
precisamente a referência da conferência ao Nietsche 2. Ali, a transformação do
hypokeimenon em subjectum se precede pelo acontecimento essencial
da tradução da energeia em actualitas, como a precipitação
metafísica na história do homem.
O que sofreu transformação, a Aletheia,
o termo pré-socrático da verdade cujo significado porém não corresponde a nada
na tradição ocidental, sendo desocultação, institui-se nesse trecho do
Nietzsche 2 como o En, na origem pré-socrática, que se traduz por
unidade ou um. A tradução de energeia por actualitas foi a condição de
possibilidade da interpretação metafísica do pensamento de Aristóteles como
tendo por eixo a aitia - a causa. De modo que Aristóteles seria então possivelmente compreendido como desdobramento
do platonismo, a aitia apenas redesignando a centralidade do agathon. Mas ambos
- se interpretado Aristóteles nos entido de Platão - ou em todo caso Platão, vem a ser pois, a
oclusão da multiplicidade na origem - o que pode permanecer oculto, como
possibilidade, naquilo que por um certo ângulo desvela-se como isto" ou
aquilo. Assim a desocultação entende que mais possibilidades permaneçam
ocultas, não sendo possível esgotar-se o Ser.
Nossa reserva a essa intepretação
heideggeriana é somente que a heterogeneidade que ele tangencia de modo
bastante meritório, por que certamente é a ovelha negra do pensamento grego que
a metafísica pretendeu elidir, ele mantem na universalidade do "ser"
atribuído, como estrutura proposicional. Ou seja, a unidade ao mesmo tempo é
efeito de linguagem pensado como tal na Aletheia, e causa do pensamento
ser como é limitado à atribuição a
"um" sujeito da proposição. Ela é a fantasia denunciada como tal
pelo pensamento e a verdade do pensamento em seu limite atribuidor.
Mas é precisamente o que Gorgias em seu
tratado do não-ser parece questionar como a fantasia parmenídica, e o que em
todo caso fica como apenas pressuposto a partir da posição necessitarista
quanto à metafísica.
Heidegger é mais tributário da
modernidade do que parece querer que se considere. Nesta o equacionamento de
ser e pensar se desloca pelo absoluto do pensamento, e é por isso que a questão
se torna o sujeito que pensa. Assim surge a noção de causalidade mental - a
estrutura, como a clareira que precede qualquer acontecimento que por ela vem a
ter lugar. A clareira conceitual que nomeia a estrutura não é como a clareira
linguística que se consideraria denotação, posto que nesta não se diria
"por ela" mas sim somente "nela".
A atribuição do predicado a um
sujeito, (S é P) é a estrutura como causalidade mental, assim também para
Lacan, e Deleuze repete essa mesma assunção heideggeriana quanto à origem
grega, somente deslocando Aristóteles pelos Estoicos em "A lógica do
Sentido", de modo que o sujeito vem
a significante do seu significado predicado como duas séries separadas de causa
e efeito, sendo a atribuição movida pelo verbo. O crucial, pois, é a
diferença das séries sujeito e predicado
articuladas pela estrutura, que repete a diferença estoica da causa corporal, a
mistura efetiva dos componentes de um acontecimento, e o efeito intelectivo, incorporal como
conceito atribuível enquanto de algo como o acontecimento .
Barbara Cassin ("Ensaios
sofísticos") considera Heidegger um sofista, já que um pensamento reduzido
à "logologia". Porém os sofistas não deviam ser assim subsumidos, a
meu ver, já que o "Tratado do
não-ser", de Gorgias, de modo algum endereça a junção de pensamento e
linguagem. Bem pelo contrário, os separa radicalmente em sua mera
possibilidade de ser, e precisamente porque o significado do termo é um,
mas o pensamento é múltiplo assim como já os sentidos físicos que o sujeito
pensante utiliza para realizar a ação da linguagem.
Não parece que Gorgias suponha aí que
a unidade do termo seja o a priori do pensado ainda que ele diga que a
não-coincidência de ambos seja porque o
pensado pode ser outro termo. Ele parece referenciar antes a polissemia que não
pertence ao termo, mas ao pensamento, e é nesta que Heidegger instala a
poblemática do ocultante-desocultar inerente à etimologia da A-letheia.
Nenhum pensamento antigo realiza a
"logologia' que depende daquilo que na Antiguidade jamais se realiza, a
saber, o a priori do pensamento relativamente ao Ser, e por aí, a
subjetividade. A retórica não é esse a priori, mas sim a consciência do hiato,
então suposto intransponível, entre a semântica e a pragmática, como arte que
troca uma pela outra, artifício que lança a ponte entre as duas - para o bem ou
para o mal, mudando o pensamento pragmático pela manipulação cuidadosa da semântica da língua,
para vantagem ou desvantagem do receptor. Isto é, para induzi-lo a uma
pragmática transformada que vem ou não ao encontro dos seus interesses próprios interesses puramente pragmáticos.
Mas Heidegger lida com a emergência
do sujeito pensável como ainda uma transformação da metafísica. Ele
ambiguamente condiciona a subjetividade à anterioridade dos tempos modernos, e
sabe que ela não existia antes destes últimos.
A transformação pois, da metafísica
desde o pensamento pré-socrático,
desloca a Aletheia pela aitia e agathon. O pensamento pré-socrático entende a
multiplicidade do possível, a unidade metafísica a elide ao fazer intervir a causa
de ser isto ou aquilo, e entre as quatro causas, a causa formal, a essência,
seria assim como em Platão suposta
garantida em sua identidade única pelo agathon ou bem. Se Aristóteles foi
distorcido como pensador da causa, ele se tornou então um platônico na tradição.
Ora, a unidade segundo Heidegger é
em que a metafísica apenas modifica o que já estava na origem como Aletheia,
mas não que a unidade de uma atribuição ali devesse ser exaustiva: "O En,
em que repousa a essência do Ser, tem o caráter do ocultante desocultar, do
recolhimento que a partir daqui mesmo ("d'ici même") convem
meditar." Assim, "A unidade do Um, se mostra ao longo de toda a
metafísica em estruturas a cada vez diferentes, cuja diferença procede da
modificação da essência da Aletheia, da ocultante desocultação". (op. cit.
337)
Na conferência de 66, a sugestão
da unidade permanece, mas não nomeada. O desocultar da Aletheia sendo agora a
"clareira", eis um termo que também não consta no Nietsche 2, não correspondendo tampouco, enquanto Lichtung,
a um vocábulo grego. Mas se é o mesmo conceito pré-socrático, Heidegger na conferência fazendo alusão à
Parmênides, a ênfase agora não é nomeadamente a "unidade" e sim o
"caminho". A única referência ao "um", na parte da conferência
em que se define a tarefa do pensamento, é indireta: "O desvelamento é
como que o elemento único no qual tanto ser como pensar e seu comum pertencer
podem dar-se". Esta é a explicação heideggeriana do Poema de Parmênides,
como o que não seria de modo algum oposto ao Logos de Heráclito. A ênfase do
caminho, é bem destacada: "A clareira garante, antes de tudo, a
possibilidade do caminho em direção da presença e possibilita a ela mesma o
presentar-se. A Alétheia, o desvelamento, devem ser pensados como a clareira
que assegura ser e pensar e seu presentar-se recíproco". (op. cit. p. 79)
Se o termo Alétheia já não é
"verdade", nem mesmo se pode dizer que Heidegger apenas achou um novo
modo de traduzir a palavra grega para "verdade". Ele decisivamente recua até Homero para advertir
que mesmo os gregos antes de Sócrates já haviam restringido o uso de Alétheia
ao " conceito natural" que corresponde ao da tradição, tal que em
Homero a palavra é ja "sempre usada com os verba dicendi, com a enunciação,
e por isso no sentido da certeza e da confriança que nela se pode ter, e não no
sentido de desvelamento." (p. 80) Ao que parece, Heidegger aqui quer
destacar os pensadores pré-socráticos como já não apenas refletindo sobre uma
pré-concepção linguística, mas engajados em decisões puramente
conceituais.
Assim "nem os poetas, nem o uso
ordinário da linguagem", como muito menos a filosofia", alcançaram a
relação da verdade em termos de retitude da enunciação, como o que a garante
como preexistente "elemento da clareira da presença".
A tarefa do pensamento pós-filosófico
na era da ciência, pois, é a indagação reiterada dessa origem. É a indagação
dela sempre que se trata daquilo que por ela é originado. Por exemplo, "de
onde recebeu a determinação platônica da presença como idéia sua legitimação?
De que ponto de vista é legítima a explicitação aristotélica da presença como
energéia?" (p. 79)
Ou, mais precisamente, "Se
perguntarmos pela tarefa deste pensamento
[fora da distinção entre racional e irracional, científico ou não,
pós-filosófico], então será questionado primeiro, não apenas este pensamento,
mas também o próprio perguntar por ele."
Aqui, pois, Heidegger pode ter
situado a justificativa de seu direito a se colocar numa posteridade
relativamente ao a priori do sujeito como da modernidade, pois já entendemos
por tudo que precede, que esse perguntar não seria pelo sujeito que questiona,
mas pela história do Ser que preexiste.
Porém de fato o sujeito não foi
elidido de todo da tarefa de um pensamento que é de si mesmo enquanto
pensamento: " Pois ainda não se decidiu qual a maneira por que deve ser
experimentado aquilo que não necessita de prova para se tornar acessível ao
pensamento... Aqui a decisão só pode vir da maneira de ser própria daquilo que
antes de qualquer outra coisa reque r que lhe deixemos livre o acesso" -
não é este "aquilo" o pensamento, como o lugar, a clareira que
preexiste ao pensado? Mais recentemente o epigrama de Mark Taylor, entre o
inglês e o alemão, citado por Derrida, parece condensar o limite do
questionamento presente: "What is the Ort of the Wort?" - qual é o
lugar da linguagem? ('Salvo o nome', Campinas, SP, Papirus, 1995,p. 40).
Onde também Derrida suspeita de que
Heidegger pensa o Dasein, como um "além do presente disso que é
"apenas relativo à totalidade do ente, "e não como além do própro
ser, no sentido da teologia negativa" exemplificada no poema "O
peregrino querubínico" de Angelus Silesius. ( p.49) Assim situando Derrida
o além heideggeriano no epekeinas tés ousias platônico, o que não me parece bem
o caso.
Além disso, Heidegger parece lidar
com o super-homem e o niilismo nietzschianos em termos, precisamente, de
teologia negativa - aquilo que não se
pode dizer de Deus, não sendo porém a transcendência dele, mas a pre-existência
da Vontade de potência como o lugar da proveniência de toda atribuição.
Porém o limite metafísico de
Nietzsche sendo ainda que a pre-existência é totalizada como Vontade. A unidade
está subentendida como ser possível da atribuição, de modo que o niilismo que
desvaloriza os valores até agora supremos, os subentende como unidade, e se é a
Vontade que valoriza ou desvaloriza, ela é a unificação que porta confiança e
certeza quanto ao unificado: "é preciso que a desvalorização em si una
incondicionalmente e que ela restitua todo ente na unidade original. A unidade
originalmente antecipadora e unificante constitui contudo a essência da totalidade.
Nesta unidade reina, desde a aurora ocidental, a determinação do En
impregnando o Ser." (N2, p. 223) Vimos pois que o En é duplo
enquanto a entredestinação do Ser e
Pensar: unidade da Aletheia polissêmica ou unidade da Ideia
Metafísica.
Mas parece-me que se puder ser
demonstrado que o pensamento nietzschiano do corpo não é cartesiano nesse
sentido pelo qual não pressupõe uma unidade (cogito ou alma), Heidegger teria
que ser revisado nesse ponto. Em todo
caso, ele realmente questiona de modo válido a Vontade de
potência em termos de unificação.
É interessante que quando se fala
da kehre heideggeriana, como ruptura que se assinalou numa altura de sua
carreira, pensa-se na posterioridade de Ser e Tempo. Seria a mudança de uma confiança
inicial na possibilidade de estruturar a semântica pela totalidade do sentido
proveniente do Dasein como um modo de vida, para um lidar com o significado já
sem esperança de qualquer unificação conceitual da proveniência, voltando-se ao
invés para uma indagação da arte como da saga da linguagem. Entretanto, na
conferência de 66 a ênfase é na retomada da continuidade ao Ser e Tempo. Se
existe um vezo desse retorno, a ruptura que assinalamos relativa ao regime da
Alétheia na economia da obra heideggeriana, antes Verdade originária, agora
origem ou destino da Verdade, assinala-se paradoxalmente como um enunciado
subjacente de um reencontro da obra com sua unidade profunda.
Se retrocedermos ao teor da
referência da conferência ao Nietzsche 2, lá onde o "outro" da
conferência é o "mesmo" do
texto e nele manifesto, descobrimos algo importante que ocorre no interior da
"romanistas", que não se limita ao fato em si da tradução
distorcedora do termo grego energeia, a qual parece instrumentar todas
as demais distorções de tradução relativas aos outros vocábulos relacionados ao
contexto da filosofia, especialmente a do hypokeimenon citada. Trata-se da
origem da ciência, que já não se desdobra automaticamente da objetividade da
ideia transformada pelo Cogito cartesiano, naquilo que é disponível, como o que
está defronte, a um Sujeito. Aqui há uma inflexão pela qual é o cristianismo,
pela interpolação da ideia de Deus criador na metafísica da causa,
possibilitada como interpretação romana da energeia como
"actualitas", que se torna o
referencial da mutação decisiva. É algo notável que naquilo que Heidegger
considera sua recuperação da originareidade de Aristóteles, não conste
referência alguma ao motor imóvel, assim como tampouco à matéria. Aqui, sua
colocação da introdução do criacionismo cristão na metafísica da causa, ressoa
singularmente como o que é em geral atribuído ao conceito aristotélico do motor
imóvel: "O caráter causal do Ser enquanto realidade se mostra com toda
pureza neste ente que em sentido supremo preenche a essência do Ser, uma vez
que ele é o ente que não poderia jamais não ser. 'Teologicamente' pensado, este
ente se nomeia 'Deus'. Ele não conhece jamais o estado de possibilidade porque
neste ele não seria ainda qualquer coisa.
Neste não-ainda reside uma falta de ser nisso pelo que o ser é caracterizado
pela consistência. O supremo ente é pu ra realização, constantemente cumprida, actus purus". (N2, p. 333) Em que Heidegger considera a
energeia aristotélica, a entelequia, algo
irredutível ao ato puro? Sem colocar em causa o motor imóvel do sistema físico
de Aristóteles, Heidegger privilegia apenas a formação da palavra, en/ergeia,
cujo sufixo vem de "ergon", trabalho, sendo "en" nesse
contexto partícula de lugar, "interior". A palavra significa
literamente, colocando de forma algo tosca, aquilo que há dentro do trabalho.
Assim como termo en/árgeia seria aquilo que há dentro do que brilha, por
onde argeia designa em grego prata - o que faz brilhar. Heidegger pensa, pois,
a energeia aristotélica como o que tem a natureza do produzir, assim não sendo
"ato" na acepção do
instantâneo surgir ou consistir, como a forma pensável independente da potência
como o que implica o trabalho em que a forma se produz.
O ato na acepção de forma pura seria
pois apenas um outro modo de manter a
"doutrina platônica da verdade", a saber, o agathon, "o aspecto
que se manifesta torna o ente a ser presente enquanto isto ou aquilo".
Assim, segundo Heidegger, a tradução da energeia em ato permite manter a
homologia ato/existência/quod est, e potência/essência/quid est. (p. 332)
Assim colocada a equivalência porém,
Heidegger na verdade está invertendo a correspondência costumeira do ato com a
essência, e da potência com a existência na acepção da materialidade.
Aristóteles pode realmente, assim como Platão, não ter realmente pensado o
existente como o passageiro, variável ou sujeito a mutação. Na imanência grega
antiga, somente o haver de algo que se furte a todas essas condições de
instabilidade poderia ser considerado objeto de conhecimento.
Muito anacronismo tem resultado de
aproximações apressadas dos pensadores antigos, todos porém facilmente identificados pelo traço comum da
ignorância desse traço básico da problemática grega antiga. Saber que para uma
pessoa doente o mel não é doce, mas para uma pessoa sã, é, não constituía
conhecimento na acepção de ciência. Pelo contrário, era a impossibilidade da
ciência porque provava que aquilo que havia para saber, o que a docuça é, não
podia ser alcançado por não residir em qualquer dos objetos da experiência que
implicavam o que, caso existisse em si como objeto de conhecimento, seria
o "quid", a essência
("doçura").
Parece haver um avanço considerável
na controvérsia quando Aristóteles responde que de qualquer modo estamos
pensando em "algo", quando dizemos que o que a pessoa sente é ou não
é doce, mas isso não resolve a questão da coisa em si, o objeto além da
experiência, sendo porém esta relativa à heterogeneidade das pessoas em
situação. Como vimos, na Metafísica ele apenas elimina prontamente toda a
possibilidade de por a questão, argumentando que se alguém sente de modo
diverso do que o habitual é por estar doente, e não porque o objeto não tem -
ou não é - em si a essência. Mas esta é
uma posição de princípio, e quanto à sua prova ou demonstração, Aristóteles apenas considera que não é
necessário, porque daquilo que é em si, sendo o dado imediato da experiência, é
o evidente primeiro e dele não pode haver demonstração, por isso mesmo que é em
si. A sustentação dessa indemonstrabilidade da essência que é contudo em si
existente, Aristóteles apenas emenda ao princípio de contradição: quem pensa ou
fala, pensa ou fala "algo",
portanto não ao mesmo tempo outra coisa.
Na obra humanística aristotélica, a
heterogeneidade das pessoas não pode ser porém abstraída, do contrário
Aristóteles teria que, como Platão, pensando que as essências não compõem as
coisas enquanto objetos da experiência racional, mas existem à parte de tudo,
admitir que aquele que possui ciência de uma essência possui a de todas e deve
governar. Mas a heterogeneidade da humanística aristotélica é apenas a função
dos papeis sociais pre-determinada pela
natureza enquanto circunstância da produção econômica (senhor/escravo) e da
reprodução material (marido/esposa; pai/filho).
O que é virtude não é conhecimento
comum a todos, mas próprio a cada um, que assim deve agir e ser julgado quanto
ao valor moral de sua ação, apenas de acordo com o seu papel. A ética do
senhorio aristotélica é nitidamente oligárquica, não obstante na Política haver
um elogio da democracia cuja ambiguidade é porém constatável, podendo denotar
elogio ao senhorio grego.
A solução aristotélica introduziu o que poderíamos designar um
funcionalismo na controvérsia social antiga. Até aí havia duas posições. Por um
lado, o empirismo da heterogeneidade sofística, em que os papeis enquanto
sociais (nomos/lei) justamente não são naturais (physis). São pois produtos de
convenções éticas ou políticas, mesmo o papel de escravo, que portanto pode ser
revogado como condição legalmente atribuível.
Por outro lado, na contestação
socrático-platônica a sofística e democracia,
o rígido idealismo do "sábio" rei - aquele que se lembra do
mundo das ideias, isto é, que se lembra que o conhecimento é essa lembrança
cujo conteúdo é o escalonamento a si mesmo, como da classificação das
defasagens à sua lembrança perfeita, a qual legitimiza a pertença às demais castas elas mesmas divididas em
superior (guardiãos) e inferior (trabalhador braçal). Essa opção platônica é
pós-sofística porém na verdade obviamente a expressão na filosofia das
pretensões do partido aristocrático, na Grécia democrática na oposição, mas antes
da democracia tendo sido o regime dominante dos nobres.
Na solução aristotélica, pós-platônica,
a heterogeneidade não é suprimida pelo
supraordenamento de um sábio que identifica os outros, mas deslocada pela
hierarquia. Os papeis sociais da teoria aristotélica são hierarquizados conforme a inerência do
mando: o marido, sendo o senhor, manda na esposa, no filho e no escravo, mas
conforme a especificidade de cada uma dessas relações. Como um tirano (grego),
ao escravo (não-grego); como um aristocrata em acordo com o outro, à esposa,
sendo a esfera do senhorio da esposa porém apenas a dos assuntos femininos; e
como um monarca ao filho. A ética aristotélica é a do "homem livre",
mas o significado dessa expressão é o senhor de escravos como referencial do
cidadão da Polis.
Na antiga história das ideias,
gênero em que se destacam criticistas como Sexto Empírico e Diógenes Laércio, a
petição de princípio aristotélica era bastante motejada. Sexto registra que a
definição por evidência do homem como "animal racional" era
especialmente desacreditada, pois "animal" é o contrário de homem
quando se trata de definir a este como quem requer definição de si, e
"racional", por um lado não é atributo de "animal", por
outro lado não especifica "homem" por que os deuses também são
racionais. Se não por Sexto, a obra socrática foi recebida entre os demais
historiadores mais como cética - na acepção da "nova academia" de
Carnéades e Arcesilaus, que assim como
Nietzsche não apenas suspende o juízo, exceto quanto à sensação própria e ao
acordo mútuo, à exemplo dos "céticos" pirrônicos, mas nega a
possibilidade de conhecer. Platão era
cético se discípulo de Sócrates, mas se teórico das ideias, independente
dele.
Heidegger mantem-se na petição de
princípio aristotélica, ao citar, na conferência de 66, a Metafísica, onde se
lê: "ésti gàr apaideusía tò mè gignóskein tínon dei kaí zeteím apódeicsin kaì tínon ou dei":
"é falta de disciplina não ter olhos para aquilo com relação a que é
necessário procurar uma prova e com relação a que isso não é necessário".
Em Sexto Empírico, o uso de
"apaideusía" não é tradutível por "disciplina", mas por
"cultura", o conhecimento do que acontece efetivamente assim como dos
usos e costumes correlatos. O que abrange conhecer aquilo que os homens
pretendem estar veiculando como disciplina científica, assim pretendendo-se
doutos.
Ao que parece, Aristóteles está de
fato confundindo as duas coisas na "apaideusía", ciência e cultura,
mas intencionalmente pretendendo restringir o
conceito de "culto" ao de "douto", versado em alguma
ciência. Em todo caso, a tradução da frase por Heidegger é feita visando
finalizar a tarefa do pensamento, definindo a sua significação. Se a palavra
citada de Aristótles "exige uma cuidadosa meditação", isso é porque
"ainda não se deciciu qual a maneira por que deve ser experimentado aquilo
que não necessia de prova para se tornar acessível ao pensamento". (op.
cit. p. 81)
Com efeito, mais pode ser relacionado,
como intenção de aumentar a margem de indefinição quanto à essência em
Aristóteles, além de ressituá-la como potência. O Nietzsche 2 registra como a
crítica de Heidegger à tradução latina: "A actualitas não conserva, além
da relação indeterminada à obra ("à l'ouvre"), muito menos qualquer
coisa da essência da ènérgeia." (op. cit. p. 332) Que significa aqui a
indeterminação? Como a essência pode ser de algum modo indeterminada?
Em Aristóteles, conforme
habitualmente se reporta em história das ideias, essa noção é relacionada bem
nitidamente à matéria, isto é, à potência. Não é criação tomista, mas
interpretação de Aristóteles por São
Tomás, a explicação das variações de um gênero conforme aos indivíduos pela
matéria, sendo o gênero invariável: o ser humano é sempre racional, tendo
funções próprias, mas este ou aquele homem é branco ou negro, alto ou baixo,
gordo ou magro, etc. O pensamento aristotélico não é de fácil apreensão, assim
o escravo não é de fato homem, enquanto escravo é instrumento,
irracional. Resta que ser escravo é ser oriental, não grego, isto é, não
intrépido conquistador mas lânguido apto
a ser conquistado, etc.
Porém como a indeterminação, na
interpretação de Heidegger, se reporta à essência? Ora porque a essência em
geral é visada como potência, ora porque, quando se trata da energeia, a
essência desta é o que porta a aptidão de realizar trabalho, produzir uma obra. A energeia ou entelequia,
para Heidegger, é pois produção, ao invés de imediatamente produzido. Heidegger
nega expressamente a possibilidade de ser interpretado de modo materialista
quanto a isso.
Ele comenta acidamente essa
interpretação materialista como possivelmente aristotélica. Por ela,
"Aristóteles faz descender de seu 'lugar supraceleste' as ideias" aí
flutuando livremente", isto é, as ideias platônicas, para as situar
"nas coisas reais". E "desse modo Aristóteles repensou as
'ideias' para convertê -las em 'formas' e essas formas, ele as concebeu
enquanto 'energias' e 'forças' que habitam no ente". Porém, indaga-se Heidegger, "como
deveria ele [Aristóteles] chegar ao conceito da presença do real particular, se
a princípio ele não concebe absolutamente o ser do ente, no sentido da essência
inicialmente decisiva do Ser, a partir
do ser-presente até o estado de não ocultado (jusqu'a l'état non
occulté")?" (N2, p. 328)
A resposta parece-me a chave do
pensamento heideggeriano que relaciona Ser e Tempo. Negando que Aristóteles
transplante as ideias - "como se elas fossem coisas" - nas
coisas consideradas isoladamente, o que ele faz a princípio é pensar "o
que é a cada momento isolado enquanto o mesmo
do que é a cada momento, enquanto o presente do eidos, até a extrema
presença do indivisível aspecto (atomon eidos)", isto é, que já não extrai
de nada além a sua origem.
A irredutibilidade entre Platão e
Aristóteles em Heidegger é pois relativa ao entendimento do tempo. Platão pensa
o presente, como Ser presente, a partir do que é comum, koinon, na ideia. O comum segundo Heidegger aí parece
ser a reunião de compreensão, o
conceito, digamos, de cadeira, e extensão, as coisas, nesse exemplo, as
cadeiras que possam materialmente existir.
Heidegger enfatiza nesse conhecido
nexo lógico de compreensão e extensão, contudo, o aspecto temporal que por ele
estaria subsumido ao ser presente como ser comum. Ao invés, "a mesma
essência de Ser, ser-presente", segundo Heidegger "Aristóteles
concebe para o Tóde ti, enquanto enérgeia", ao contrário do ser comum em
Platão sendo em Aristóteles o que é tomado isoladamente.
Assim, ao ver de Heidegger,
Aristóteles é mais "grego" que Platão, no sentido de fidelidade às
origens pré-socráticas. Porém, seu pré-platonismo é também pós-platônico, de modo que "é por oposição à ousia enquanto
ideia que Aristóteles pode pensar por sua vez
a ousia enquanto enérgeia". (p. 329) Ou seja, "o ente é
enquanto érgon, o que se presentifica ("presencifie") em sua própria
com-posição" (p.331) Ora, na com-posição, enteléquia dos entes, o que poderia restar indeterminado? Já
sabemos contudo que ela não se limita "ao opus do operari, ao factum do
facere, ao actus do agere". Bem inversamente, essas são as dimensões
apenas metafísicas que tencionam reduzir Aristóteles a Platão. Porém é nelas
mesmas que caberia, como início da metafísica,
o ergon como o que se presentifica em sua com-posição, se o ergon não é
"o que é deixado livre no aberto da presença", como
"produção" ("ouvréité", "Werkheit").
A ruptura que inicia a metafísica
como ditorção relativamente ao verdadeiro início do pensamento enquanto grego,
é radical ao ver de Heidegger. Pois, importa à irredutibilidade no seio da
humanidade. De modo nenhum podendo-se
aceitar que o termo latino ex-sistere conserva algo da "acepção helênica
da relação ao Ser", assim como tampouco actualitas relativamente a
enérgeia, "na verdade ela [a palavra ex-sistere] porta ao nivel da palavra
do Ser precisamente uma outra transposição, e assim igualmente a partir da
reclusão do ser, a transposição de uma outra humanidade na totalidade do ente.
O caráter da quoddidade e do feito que ("fait que"), se torna
um outro (un autre)".
A indeterminação parece pois ser
inerente ao produzir-se como o verdadeiro Ser enquanto tempo em que decorre o
presente do eidos nesse extremo de si que é o aspecto
"indivisível" - "atômico" em sentido estrito conforme o
termo grego, "atomon eidos".
Heidegger não pensa pois a relação de
energeia e dynamis em termos de atualização, instantaneidade, impressão da
forma na matéria, etc. Mas sim como a produção, artesania da entelequia que
não comporta a variação fora de si - assim ele silencia completamente
quanto à questão aristotélica da
matéria. Na produção mesma consta a indeterminação que só é porém relativa a si
enquanto finalização de si.
O presente é pois não o tempo
independente, como o da coisa que aí está, mas o desenrolar-se da pre-sença,
como o que pre-cede todo agora, desenrolar-se da obra como de uma finalidade,
"ser para a morte", conforme a terminologia de Ser e Tempo. O que o
Nietzsche 2 permite recuperar como o pensamento aristotélico-heideggeriano da
produção (energeia) em termos talvez, de processo - em todo caso
orientada ao próprio "extremo acabamento".
Em Ser e Tempo, a pre-sença (Dasein) mais do que apenas o
indivíduo dado num espaço e tempo físicos, são as suas decisões enquanto cada
uma temporalização como produção nesse sentido da finalidade, a perfeição.
Especialmente o terceiro capítulo do segundo volume é a propósito conclusivo:
"Com o fenômeno da de-cisão (Entschlossenheit), colocamo-nos diante da verdade
originária da existência. Decidida, a pre-sença se desoculta para si mesma em
seu poder-ser de fato de maneira a ser este desocultar e estar desocultado.
Pertence à verdade um ter-por-verdadeiro que sempre lhe corresponde".
(adaptado da tradução de "Ser e Tempo, Petrópolis/RJ, Vozes, 1989, v. 2, p. 99).
Em Ser e Tempo, a coordenação da
Presença se estrutura em função de termos nos quais podemos reconhecer o
traçado fundamental que em Nietzsche 2 articula a interpretação heideggeriana
da ontologia aristotélica, entre a produção (enérgeia) e o fim ou perfeição
(entelequeia). Enquanto produzindo-se nas decisões que comportam as
estruturas de um ser-no-mundo, como da historicidade ou efetividade que
informam qualquer situação, a pre-sença é assim interpretada em Ser e Tempo:
"na pre-sença enquanto ela é, sempre se acha algo pendente , que ela pode
ser e será. A esse pendente pertence o próprio 'fim'". (p. 11)
O ser para a morte não é pois, o
ser sucidário, mas o termo "morte"
é comum ao significado de "fim" relativo a qualquer processo
dado, que portanto se configura no acabamento da coisa desde que já feita - e
não simplesmente inexistente. O já feito é contrário pois de nunca feito.
Assim qualquer pre-sença enquanto
ontológica, ou realidade, não se dá desde sempre mas se temporaliza em seu vir
a ser orientado decisivamente a um fim: "O fundamento ontológico
originário da existencialidade da pre-sença é a temporalidade". (p. 12)
Quando a pre-sença é porém o sentido
próprio do ser-no-mundo situado, o ser humano, "o testemunho de um
poder-ser próprio é fornecido pela consciência (Gewissen)". A
interpretação genuína da Gewissen deve reconstituir o seu sentido independente
do sentido do ser para a morte - cuja interpretação genuína foi já referenciada
conforme apenas destinação processual,
finalidade.
Nessa independência, a consciência é
"poder-ser próprio da presença" que reside "em seu querer-ter
consciência". (p. 12). As decisões que orientam a temporalidade da
presença não são fechadas como aplicações de um sistema de regras conforme se
decidisse qual a adequada ao caso presente, essa sendo ao invés a interpretaçaõ
da "filosofia analítica", ainda que Heidegger não o referencie. Mas
sim instauram-se como transcendência, a consciência enquanto moralidade são as
estruturas do mundo histórico, a cotidianeidade, assim a decisão é relativametne
em que "est á em jogo o seu próprio ser" porém como ser-com, ser em
meio aos demais, por onde não obstante sua independência, a Gewissen in
terpenetra o finalismo como para sua "determinação existenciária'.
Enquanto solicitada a decidir-se a
pre-sença se expõe como
"clamor", atravessa uma
crise. Mas se a temporalidade é recuperada na consciência como modo próprio do
ser da presença, então a consciência do fim como esse modo próprio de vir a ser
é a Cura, e se finda a crise: "Se a temporalidade constitui o sentido
ontológico originário da pre-sença, onde est á em jogo o seu próprio ser, entaõ
a cu ra deve sempre precisar de 'tempo' e, assim, contar com 'o tempo'. Ou, de
outro modo: "A totalidade das estruturas do ser da pre -sença articuladas
na cura só se tornará existencialmente compreensível a partir da
temporalidade" como do ser-para-a-morte.
A angústia e o clamor não são portanto, acidentais, mas momentos do vir
a ser próprio da pre-sença enquanto modos da decisão no seiuo da consciência
que é sempre, não "de" isto ou auquilo ao contrário do que supõe a
fenomenologia de Husserl. Mas a estrutura semântica total que ao que parece,
não pode ser nunca independente da
pragmática, se é "moralidade".
Essa interdependência, porém, implica
que a "moralidade" em termos de consciência, está sendo interpretada
num sentido existencial conforme ao círculo de clamor e cura, ao invés de
apenas consciência moral "dos deveres e das obrigações". Assim se
expressa Márcia Cavalcanti, a tradutora
de Ser e Tempo ao português. Ao invés desta "designação corrente",
que segundo ela, "Ser e Tempo questiona", Heidegger procede aí
"aprofundando os fundamentos ontológicos da ética, da moral e de qualquer
obrigatoriedade. Uma vez que toda forma de consciência supõe e provém de uma
experiência originária de saber (wissen), atingindo a esfera da convivência e
co-pre-sença em que os homens realizam a sua existência comum e individual, o
aprofundamento da consciência se articula com os existenciais" (p. 257).
Isto é, as estruturas que Ser e
Tempo atribui inerentes ao vir a ser da decisão como da pre-sença que, autenticamente, vive sempre
na pendência de ser-toda, o finalizar-se final conforme o que podemos aqui
sugerir como paradoxo da temporalização
que esquiva o fim final com cada fim decidido "afinal", cura.
A Gewissen, só realizo como
consciência moral na transcendência, elemento em que ligo à minha
decisão o destino alheio, se ela é verdadeiramente consciência de mim
mesma, do meu modo de ser temporal, situado, histórico existencial. O paradoxo
então é duplo. O saber finalístico é transcendência da consciência moral
(social) desde que autoconsciência (pessoal); e a autoconsciência de si como
finitude ou ser para a morte é a impossibilidade da presença morrer
concretamente "para -si", como
conteúdo do seu saber de si.
O termo Dasein vem desde Kant
traduzindo o latim "existência", mas o uso heideggeriano o amplia à
pre-sença nesse sentido da autonomia do "pre" da presença, a partir do significado conceitual que o uso
assinala, e que aqui podemos apreender pela designação aristotélica de entelequia
e enérgeia, respectivamente a pre-sença e a existência que é
produzir-se. Ambas aquilo mesmo que, como processo orientado ao acabamento
próprio, tem na perfeição deste o que é transponível ao estatuto transcendental
como Aletheia, a essência enquanto possibilidade seletiva que assim como abre o
processo, encobre o não-selecionado; ou desvirtuado pelo transcendental como
Ideia, a fixidez do produto como totalidade objetiva da Razão.
A história do Ser como do longo
desvirtuamento das origens, conduzindo até o acabamento da Metafísica como
dessa distorção, não é nada diverso de tudo que é vindo a ser. Como vimos,
Heidegger salientando que o desvirtuamento não é mero acidente como o que
poderia não acontecer, mas possibilidade posta pelo próprio Ser na origem do
cumprimento de sua destinação ao Pensar em termos de autonomia do saber no
horizonte da Alétheia. O acabamento da Metafísica, anunciado como o zênite e a
perfeição do seu percurso, eis todo modo
da "pre-sença" ou entelequia possível - ao invés de algo singular.
Processo, pois, da temporalização
que por ser produção, relacionada à concretude dos elementos com que se produz, é do mesmo modo "espaçamento"
- conforme se poderia referenciar
segundo o aporte heideggeriano da Escritura em Derrida
("Gramatologia"). Aqui tudo o que vimos da transposição heideggeriana
da entelequia aristotélica em termos de produção e perfeição pode ser aplicado
ao conceito de Escritura, porém esta sendo a explicação material do vir a ser.
A produção não é atualização de algo
fora do tempo, uma vez que ela é a abertura ontológica do espaço e do tempo, é
nela, em seu produzir-se que se espacio-temporaliza o Real. Assim a produção
não é o Ser do ente que deve
fazer-se, e sim o Ser-como da produção que em sua operosidade concreta -
a partir dos significantes/meios de que se desenvolve - inscreve a
espácio-temporalização (do) que produz.
Mas desse modo não se trata da
concretude como do intervalo empírico do antes e do depois, ao longo do
desenvolver-se de uma fabricação. Derrida a propósito, afirma estar
"tomando de empréstimo" a Heidegger a crítica ao que este designou em
Sein und Zeit "conceito vulgar de tempo".
Conforme Derrida, em Heidegger to
conceito vulgar de tempo "designa, ao fim de Sein und Zeit, um conceito de
tempo pensado a partir do movimento espacial ou do agora, e que domina toda a
filosofia da Physica de Aristóteles à Lógica de Hegel. Este conceito, que
determina toda ontologia clássica não nasceu de um erro de filósofo ou de uma
fal ha teórica. É interior à totalidade
da história do Ocidente, ao que une sua
metafísica à sua técnica." ("Gramatologia", São Paulo,
Perspectiva/Edusp, 1973, coleção Estudos, v. 16, p. 88).
De fato, como vimos não se trata do
que Heidegger pensa de Aristóteles no exterior da tradição que a seu ver o
distorce. Na Gramatologia, Derrida se utiliza de Heidegger contra Aristóteles
como platônico que, na teoria da linguagem como fonologia, expressão pela voz
do que está antes conhecido como tal na alma como o que é sua experiência em
si, não pode ver no signo como na escritura
nada além de artifício que desvirtua essa origem.
À luz de nosso exame da enérgeia,
seria melhor grafar escrituração - porém não porque se
trate de um agir, um fazer, mas porque se trata da repetição, "brisura" da sistema da
escrita (língua) em seu acontecimento
gráfico, assim como do signo (significante) e sua ordem (igualmente
significante) de leitura (ao invés da oposição significante/significado). (op.
cit. p. 80 e segs.) Eis porque se trata
de um passado absoluto que não pode ter com o presente vivo nada em
comum.
Ora, conforme o que vimos, o que Heidegger de fato assim assinala em
Ser e Tempo, é que inversamente ao conceito vulgar, "o tempo originário é
finito", ekstático enquanto composto por estases (passado, presente e
futuro) que na verdade são um só movimento de temporalização em que ocorre o
projeto do futuro na decisão, pelo vigor de ter sido do passado, sendo o
projeto o sentido presente como o modo de ser da pre-sença. O sentido
finalístico-ontológico aristotélico não abole a transcendência em que decorre a
história na intersubjetividade como presente vivo, sobretudo se é irredutível
ao tempo técnico do relógio, abstração não-decidida.
Para Derrida, não há
presença originária que se pudesse "reanimar" por um agir localmente
instituído. A produção mais liberada, relativamente ao seu recalque
metafísico pela idealidade como pela voz, é apenas essa "passividade
fundamental que se denomina tempo", que nenhuma fenomenologia da
consciência poderia reconstituir já que o sistema de signos, como o Ser heideggeriano, passado absoluto, não é
apreensível pela consciência - é inconsciente ou pré-compreensão.
A passividade fundamental do nível
fônico- temporal não abole porém a
oposição ativo-passivo. Impresso sob o presente vivo o tempo puramente passado age
como a "forma geral de toda
presença"- a atividade sendo porém s inscrição do originário espaçamento
que é o vir a ser da cadeia gráfica.
Espácio-temporalização, articulação
dos níveis fônico-temporal e gráfico-espacial, é então a forma geral prévia da
presença, como "arquiescritura", a qual não corresponde a um conjunto
de regras mas ao movimento de possibilidades de diferenciação. Também a
oposição de transcendental e derivado é conservada. O tempo vivo das cronologias
é derivado desse espaço/tempo do signo
transcendental.
Contudo parece algo duvidoso que
Heidegger pensasse o tempo desse modo oposto à vivência como ao possível,
se o passado absoluto nele é pensado em termos de "vigor", e desde o
início da carreira a sua relação essencial com Aristóteles se reporta do núcleo
conceitual do "movimento", conforme Martin Kusch ("Linguagem
como cálculo versus linguagem como meio universal"). Bem inversamente,
mesmo não se tratando das protensões e retenções à Husserl como o que Derrida
efetivamente está criticando, Heidegger sempre reúne a Aletheia como interação
possível ao invés de realidade única da coisa, à concepção pré-socrática de physis
como aquela "imanência do independente" - para utilizarmos a
expressão de Santayana - visada em termos de "vigor", do que brota,
conceitos bem opostos ao estado inanimado do significante à Derrida.
É o conceito de Rastro - indiferente
ao vigor como signo, mas que institui arbitrariamente "uma certa estrutura
determinada do como-tal" - que
Derrida utiliza para o tempo do signo que escava o acontecimento enquanto
significante, objeto de arqueologia antes que interpretação. (57) Esse conceito
de Rastro, o vir a ser do signo a partir do que se inscreve como
"diferência", a própria estrutura vulgarmente designada psíquica,
complementa o de "grama" (letra) como a "marca" assim
resultante e que num tempo imemorial foi incorporada como poder-ser de um sistema
de possibilidades instintivas de ação.
Sobre o "conceito de grama",
Derrida expressa: "este é irredutível e inexpugnável", de modo que
dele depende o mero podermos pensar a história do homo sapiens. O
"grama" abole a diferença de humano e animal, uma vez que é a unidade
de pro-gramação como o que informa tanto o instinto animal quanto a
inteligência apenas dos seres humanos que se tornam irredutíveis aos animais
porém apenas pela complexidade dos programas que permitem ao ser humano o desenvolvimento
da linguagem. Mas coíbe a generalidade
do humano, pois os programas em sua
singularidade são o referencial irredutível, ao invés da taxinomia ordinária.
O modelo do grama Derrida utiliza do
que Leroi-Gourhan registra em termos de
"liberação da memória" (p. 105). Uma vez que Derrida fala aí do
"programa" como o conceito importante de Leroi-Gourhan ("Le
geste et la parole"), podemos conjecturar na leitura deste, que o grama primitivo seria resultado do
acoplamento da mão e da pedra que a esta tornou o primeiro utensílio. O
utensílio humano é pois projeto, sistema de signos. Há aí um cálculo além do dado, o que a pedra
pode fazer, o que ela pode atingir e modelar no espaço externo, independente da
concretude dela, da mão e das coisas mesmas. Assim, alguns animais tem
utensílios, mas não como base do desenvolvimento de outros utensílios e do
grafismo.
A liberação originária que
possibilita a memória como projeto e assim o caminho até a escrita, é pois da
face que fala em relação à mão que manuseia e escreve. O movimento evolutivo do
homo sapiens principia pois com a
posição ereta que empurra os dentes para trás e projeta o cérebro para a
frente, assim como a liberação da mão que se torna independente do andar. Mesmo
o símio mais desenvolvido tem apenas parcialmente liberada a mão relativamente
ao andar.
Os sistemas de escrita são pois
integrantes da história da vida, e
conduzem à escrita fonética que carrega em si a possibilidade evolutiva
"ocidental", isto é, o recalque metafísico do signo,
"preconceito teológico" , ou "o logos como sublimação do
Rastro". Eis a crítica de Derrida a Levi-Strauss, na Gramatologia -
prolongando a de Rousseau, o mestre straussiano. Supõe Strauss, juntanto Marx e o Buda, que o
mal da história foi a sua própria origem, a invenção da escrita, que permitiu a dominação burocrática do
palácio. Porém, argumenta Derrida, não é a liberação a democratização do saber,
da escrita à invenção da imprensa? E se não há nenhum passado sem
"escrita"? Sendo a linguagem, que por ela agora se define, sistema de
signos qualquer? Mas o argumento de
Derrida na Gramatologia, como vemos, não é tão oposto a Strauss como gostaria
de fazer crer, uma vez que a linearização da escrita é sim o móvel da
distopia metafísica, percurso da ocidentalização. O argumento pois é que se não
houve um momento da invenção da letra, toda violência já é a letra e não há
nenhuma fora desta. À frente retornaremos a isso.
Se a palavra Rastro é emprestado
agora de Lévinas, Derrida ressalva: "colocada aqui... de acordo com uma
intenção heideggeriana", porém Derrida consciente de que "por vezes
para além do discurso heideggeriano" (p. 86) Derrida com efeito pensa
estar explicando a Als struktur (estrutura "como") de Heidegger, a
partir do signo.
Em Heidegger como vimos, a pré-compreensão é o prévio sistema da
"Gewissen", uma "moralidade" que é ao mesmo tempo modo de
ser decisivo da pre-sença, sempre movimento situado rumo à perfeição. Ela não
comporta cálculo, como do que Heidegger tratou em termos nietzschianos de
"valor", mas significação que destina os próprios agentes de cujo
acordo sobre si mesmos ela decorre. Mas
se Derrida espera assim depurar o componente "psíquico" como oposto
ao "sistema", no inconsciente freudiano, o que ele desenvolve em A
escritura e a diferença, Heidegger
também não pensa em termos de psíquico na acepção de uma passionalidade
fundadora a partir só de si (psicologia), e sim em termos de Ser (ontologia).
Ora, podemos considerar que em todo
caso, a incorporação da marca como poder-ser (de um sistema significante) é
acontecimento passional que decorre alguma vez na infância, e se é imemorial,
isso se deve a que o teor mesmo do acontecimento implica a necessidade de uma
repressão, um recalque para que a consciencia seja intersubjetividade,
moralidade. Este teor é pois da ordem dos instintos e não das significações.
Na acepção freudiana, o que escapa à
repressão é da ordem do sintoma, não da libertação. Mas assim, não apenas por
ser um programa, conjunto de operações que rege todo o possível, que não acede à consciência, sendo esta
sempre limitada a isto ou aquilo. Repetindo, não acede à consciência por ser da
ordem puramente passional dos instintos.
Derrida moteja precisamente esse sentido
finalístico dos atos psíquicos em Freud, porque ele se justifica devido ao que
seria a necessidade de evitar o dispêndio suicidário da energia psíquica. Mas
essa evitação, ao ver de Derrida, sendo portanto de ações que não visam um fim,
eis o próprio fim por outros meios. A economia da vida, seria a economia da
morte, etc. O programa ou Escritura não é evitação psíquica, nem finalidade, é
apenas mecanicismo que integra todos os componentes de um ato possível.
Porém de que modo Derrida espera assim
estar sendo heideggeriano, e mais, não-aristotélico? De que modo essa
arqueologia da marcação não deve escavar o que seria uma linguagem da alma? O
decisivo para Derrida, não é pois o acontecimento, mas a marca a que ele serve. Na origem estaria um cálculo
ao invés de um modo de ser. O desejo é o efeito do signo, não o inverso,
Não obstante a depuração, que atingiria
o próprio Heidegger, Derrida com efeito se expressa em termos bem
heideggeianos, explicando o Rastro como o
que é preciso pensar "antes do ente. Mas o movimento do rastro é
necessariamente ocultado, produz-se como ocultação de si.".
Sem ser teológica esta formulação,
"o 'teológico' é um momento determinado no movimento total do rastro. O
campo do ente, antes de ser determinado como campo de presença, estrutura-se
conforme as diversas possibilidades - genéticas ou estruturais - do rastro. A
apresentação do outro como tal, isto é, a dissimulação do seu 'como-tal',
começou desde sempre e nenhuma estrutura do ente dela escapa".
Antes de ser desenho representativo,
as inscrições nas cavernas primitivas foram símbolos, ao contrário do que se
acreditava até agora. E se com o
grafismo rupestre o que se inaugura é a imotivação (arbitrário) do signo como
efetividade da linguagem do homem, "o movimento da imotivação"
transita "de estrutura em estrutura quando o signo atravessa a etapa do
símbolo." (p. 57).
A humanidade é pois, variação
programática inerente, ela não faz "um". Ao que parece, Derrida é heideggeriano nisso
pelo que a diferença ontológica e as possibilidades encobertas na Alétheia é o
que ele quer referenciar na terminologia da "diferência", as vidas
que se expressam em programas semióticos.
O percurso em Leroi-Gourhan que
Derrida utiliza é do grafismo ao
mitograma - as escritas não-lineares - até essa possibilidade da representação
pura, ou depurada, que é a escrita fonética. Nessa história da vida, ou
evolução, que conduz à inevitabilidade
da metafísica ou logocentrismo, a partir da escrita fonética como linearização
do signo, o momento ulterior é a
modernidade como palco do encontro de culturas - por onde a ciência linear teve
que pensar a irredutibilidade dos sistemas de escrita.
Mas o logocentrismo científico imprimiu
apenas uma sequência de disciplinas redutoras da irredutibilidade à
universalidade fonologocêntrica da representação, sendo contudo inevitável que
em algum momento a irredutibilidade se
tornasse pensável: Gramatologia. Ou seja, o recalque deixa de estar na origem
do Inconsciente, para se colocar apenas como possibilidade a partir da
linearização. O recalque é lido à Nietzsche antes que a Freud, não decorrendo
senão como um tipo de potência negadora de si mesma como daquilo que realmente
a compõe. Assim o logos nega o signo, e este é o recalque fundamental que como
nas neuroses, origina uma fantasia em lugar da verdade a propósito de si mesma.
Contudo, se Derrida pretende deste
modo criticar as valorizações do primitivo muito ambíguas, como o que atribui
ao paternalismo de Levi-Strauss, de fato não obstante todo elogio das escritas
não-lineares, cheyenne, oglagla, asteca, maia, chinesa, etc., ele registra não se dever tratar a Gramatologia em termos de
"regressão" ao "mitograma"... (p. 109). As escritas
não-lineares são e não são o desempenho saudável do signo.
Já a utilização de Leroi-Gourhan
por Derrida é ambígua do mesmo modo, já que este não é exatamente um prosélito
da escrita como verdade da fala. O que Derrida faz é traduzir por Escrita o que
Leroi-Gourhan trata em termos de programa ou sistema, mas não se compreende bem
porque Derrida é tão crítico de Saussure por agir desse mesmo modo. Ou seja, ao
mesmo tempo tratando de sistema porém não vendo que um sistema é uma escrita e
portanto que esta é, como ele, transcendental à fala. Quando se trata de
Saussure, a lacuna resulta numa política de exclusão disciplinar da escritura -
isto é, como requisito do entendimento da langue.
Derrida não trata do mesmo modo
crítico a Leroi-Gourhan, entretanto considerando este que a evolução até a
escrita linear pressupõe um futuro ágrafo. Derrida transcreve o prognóstico
gourhaniano, da grafia fonética substituída por aparelhos de impressão
automática da voz (p. 108), sem qualque crítica a propósito. Os livros assim
produzidos sem grafia, estariam disponíveis numa vasta "magnetoteca"
que recuperaria qualquer título requerido ao apertar de um botão. Delírio
perfeitamente fantástico, se a ciência é sempre mais função do cálculo, não
havendo possibilidade de algoritmo e esquema falado.
Referenciando Derrida, ainda,
conforme Gourhan : "uma humanidade anodonte e que viveria deitada,
empregando o que lhe restasse dos membros anteriores para apertar botões, não é
completamente inconcebível". (p. 106) Sobre tão curiosa noção de evolução
que se poderia apreender? A espécie humana é o produto da liberação da mão e
dos dentes desde a postura ereta, e se a redefinição do homem assim concebida é
inteiramente relacionada à "escritura manovisual" o homem futuro
teria que ser caracterizado por estruturas irredutíveis ou não seria nova
espécie. Mesmo assim a inteligibilidade da evolução gourhan-derridiana
permanece ambígua: um futuro ser humano que já não seria propriamente humano
(p. 105).
O essencial a Gourhan não transparece
no referencial da Gramatologia, assim permitindo supor alguma eletiva afinidade
entre ambos, desde o gosto comum pelo emprego do paradoxo.
Não obstante o constraste já
visível, entre o prognostico gourhaniano recalcador do corpo e a reintrodução pós-estrutural do que a
ortodoxia estruturalista abstraiu como toda inserção pulsional prévia ao jogo
do signo. Em Derrida, a partir
justamente das escritas não lineares, que colocam em primeiro plano a
gestualidade e tudo o mais do Rastro que nelas se conserva visível, a
dissimulação semiótica do estímulo como transformação de signo a signo.
Ora, é essencial a Gourhan essa
contrariedade à recuperação pós-estrutural do corpo, atuante e expressivo. A
"estética funcional" de Gourhan (Le geste e la parole, V. 2, cap.
XII) o demonstra, sendo tão estritamente funcionalista que nos faz lembrar a
Bau-Haus. Assim supondo ele que o moderno desornamento total dos utensílios é uma verdadeira evolução, produto da
"lei da evolução funcional" relativamente à característica de todas
as referências antropológicas que consiste na dependência dos mesmos ao que
designou "envelope" semiótico,
como algum tipo de ornamento - quanto mais primitiva, mais uma cadeira deve ter
a madeira lavrada com símbolos mil.
A lei enuncia contudo que o
"envelope" tem por si a função do situamento cultural, pelo que
reconhecemos a proveniência ética e epocal da cadeira, e o homem conserva seus
esquemas adaptativos pela linguagem ao invés de pelos instintos. Mas o
projeto de todo utensílio repete a regra da bau-haus. A forma segue a
função. Eis porque pode haver critério de progresso técnico em estudos de
culturas diferentes. A forma do utensílio já é vista como solução do problema
colocado pelo objetivo de melhor servir à função, uma vez que esse objetivo é a
norma na mente dos seus criadores. O pogresso máximo, podendo então configurar uma evolução como superação
de algum obstáculo comum a todas as
soluções anteriores, é alcançada na técnica moderna, que projeta seus motores e
suas máquinas com formas exclusivamente adaptadas à eficácia funcional.
Evolução universal, mundial, a uma civilização técno-científica
"ocidental" já não divorciada da arte, como não seria estranho a
qualquer "futurismo" ou "cristal" modernista, conceituado
projeto de emancipação tecnicista à Subirats.
A mesma eficácia que Baudrillard (O
sistema dos objetos") criticou, já em pleno estruturalismo lacaniano, como
projeto realizado porém na forma da nova lógica social do capitalismo tardio,
por onde a indústria se depura num sistema "secundário" de objetos.
Ou seja, a eficácia funcional "primária" dos mesmos, nesse novo
momento em que a universalização da
mercadoria subsume toda trajetória da inteligência como evolução na forma da
sociedade industrial, vem integrar um nível de expressão "secundário"
como uma nova estética dos aparelhos conjugados à publicidade, que resumiu na
mercadoria toda arte possível, toda mensagem da subjetividade concebível.
A crítica de Baudrillard atinge pois a
ambiguidade do "humanismo" funcionalista, projeto revolucionário que
conduziu a nada além de uma nova servidão. Mas não se sabe bem a que conceito
de emancipação serve a crítica baudrillardiana.
Feita em nome do signo como a verdade por trás da suposta natureza da função,
almeja ela o retorno da mercadoria desornada como verdadeira realização da
objetividade - e nesse caso ela não
seria totalmente independente do seu
criticado? Ou pelo contrário, que o signo se libere da subsunção publicitária
"burguesa" de que o fim foi atingido, sendo a bela mercadoria
agregada de estilo, linhas e cores, apenas totalmente a realização de sua
função?
Mas de que liberação se trataria, se
Baudrillard quer ver longe, como o exótico inominável, aqueles objetos que
povoam o mercado europeu alternativo, a cerâmica de povos indígenas e as
"antiguidades", todos esses outros obstáculos fetichistas à
objetividade do seu Édipo normal?
Na conferência de 66 Heidegger já
compreendera a integração tecno-científica, a que designou cibernética, da
arte. Assim ele se expressa. Se as "modernas ciências que estão se
instalando serão em breve, determinadas e dirigidas pela nova ciência básica
que se chama cibernética", uma vez
que "esta ciência corresponde à determinação do homem como ser ligado à
praxis na sociedade" sendo "a teoria que pr emite o controle de todo
planejamento possível e de toda organização do trabalho humano",
entãotransformando a cibernética a linguagem "num meio de troca de
mensagens", segue-se que "as artes tornam-se instrumentos controlados
e controladores da informação". (op. cit. p. 72)
Porém também aqui caberia indagar a
propósito do papel dessa teleologia -
ocidentalismo - como a priori da
interpretação evolutiva. Se a metafísica é o inevitável, ao ver de Heidegger, e
não apenas um projeto unilateral do
Ocidente, ou do que nele atua como algo entre outros e em conflito.
O pensamento pós-metafísico heideggeriano
não é a utopia do desvanecer da técnica, não tem qualquer missão salvadora
nesse sentido que conviria a uma mensagem contrária à previsão da
dominação planetária do Ocidente como civilização nova, evolução técno-científica.
É, primeiro, uma violenta
circunscrição do campo da "filosofia" universitária, à
"rememoração" da metafísica tautologicamente ocidental. Rememoração
que não poderia pois encontrar qualquer
traçado conflitivo na história do pensamento ocidental como tal, nem os
motivos da heterogeneidade cultural que transbordam um projeto da razão
imanente ao ocidente.
Heidegger não vê, é certo, qualquer
sentido positivo na dominação planetária-ocidental cuja essência é a
modernidade. Não vê, aliás, sentido algum: " É na época da perfeita
ausência de sentido que se cumpre a essência dos Tempos Modernos" (N2, p. 23). Estes que, independente de
qualquer situamento histórico, para uma "reflexão historial"
se especificam em função de dois traços fundamentais: o homem como sujeito da
dominação do mundo conforme o objetivo de sua preservação; e o mundo,
totalidade dos entes, sendo o correlato da representação do homem que
subsume os entes ao que é fabricável e explicável.
Ora, poucos discordariam dessa
colocação, porém seria preciso observar que a ausência de sentido na e como
a modernidade, só vem a ter qualquer relevância se a esta
correspondeu alguma consciência de si como precisamente a descoberta do
sentido. Pois, se bem que a escala quantitativa seja efetivamente
superior, não há muita distância entre
um qualquer projeto de dominação planetária da técnica moderna ou dos Darios,
Alexandres e Calígulas antigos.
Em todo caso, uma vez que há sem
dúvida uma tal consciência de si na modernidade, a colocação conserva enorme
aplicabilidade naquilo que vemos todo dia, especialmente se Heidegger tem o
cuidado de ressalvar que essa "subjetividade do subjectum" que na
modernidade é designado unicamente o humano "não tem nada em comum com a
singularidade do eu" (N2, p. 25). Bem inversamene, "a extrema
subjetividade" nesse sentido pejorativo do subjectum da
planificação totalizante moderna, "é atingida quando se fixa a
aparência de que os 'sujeitos'
desapareceram em proveito de uma qualquer 'sujeição' (sujétion) invasora".
Mas o problema é que se o acabamento/
perfeição dos Tempos Modernos, a seu ver, tem na "maquinação" cuja
especificidade visa a redução de todo ente ao maquinável, isto é, sempre
ao superável, o tipo exemplar, este se personifica na Ciência da
História "que é a mema essência da técnica".
Nesse trecho a crítica da história
não é a crítica da ideologia que a distorce numa versão unilateral dos acontecimentos tal que deles
só se pode dizer o progresso técnico e nada dos horrores que daí decorrem a
partir da destruição ambiental e do imperialismo que significa a escravização e
consequente miserabilização de metade do planeta, para que a outra metade
esteja igualmente desumanizada como mera besta do açoite. Se fosse uma crítica
assim, ela seria procedente à Historia como ciência, ou seja, o avesso da
ideologia.
Mas Heidegger pratica antes a
circunscrição presente da História a mero gênero textual pró forma encarregado
pelo consenso do subjectum - bem longe de qualquer relação com o ser do
que quer que seja - dos acontecimentos.
Nesse início do Nietzsche 2, o acabamento dos Tempos Modernos é o
"horizonte do absurdo" que conjuga todas as assim listadas
"potências da Maquinação que se funda sobre uma posição de potência do
homem", a saber, "a caculabilidade (calculabilité) a organizabilidade
(organisabilité) de todo vivente, na rationalitas da animalitas" na qual o nietzschiano "superhomem
encontra sua essência".
Pode-se objetar que está em questão
assim não a História, que precisamente é o que Heidegger estaria praticando em
sua crítica, mas aquilo que se etiquetou como tal visando impedi-la. Se fosse
só isso, restaria a questão de como a crítica ainda poderia estar sendo feita.
O que ocorre porém é efetivamente a oposição heideggeriana à história como
ciência independente, a partir do que seria a unidade do "historial"
em termos de causalidade metafísica, transcendental, que daquilo com que se
ocupa os historiadores não se produz, mas sim do que alhures, na ontologia, se
poderia descobrir.
Com efeito, Heidegger
circunscreve toda a multiplicidade metodológica da História -
conforme o que está em questão, a partir da tarefa da rememoração da
metafísica, isto é, a "história da filosofia e das ciências morais" -
assim como toda problemática que lhe é inerente, a nada além de dois
erros de princípio. (N2, p. 23)
As posições metafísicas fundamentais
que perfazem o "historial" heideggeriano como história do ser ou,
tautologicamente, metafísica, não são na "história da filosofia" as
"impressões conceituais dadas tardiamente ("aprés coup") à
história". Esta poderia seguir seu curso independente das posições. Além
disso, as posições metafísicas não são vistas como "doutrinas previamente
estabelecidas, de cuja aplicação e realização teria decorrido a história dos
Tempos Modernos". Assim, conforme Heidegger, na história da filosofia que
não se realiza como reflexão historial, "a verdade metafísica que funda a
história é pensada de maneira muito exterior e muito imediata, em sua ação e
precisamente, ao capricho de tal depreciação ou tal encarecimento, igualmente
subestimada, porque essencialmente incompreendida."
Porém do historial, com relação não a
uma posição da filosofia mas à História,
o que decorre é o fechamento de uma das vias de exame dos textos. A
saber, aquela que, precisamente, relaciona a produção conceitual com os
acontecimentos históricos, mas de modo não pre-determinado por uma mera posição
de princípio tal que estes seriam necessariamente epifenômenos daquela, posta
numa posição - ainda sugerida como não-, pré- e pós-metafísica - de
incondicionado.
E, segundo, no pensamento
pós-metafísico heideggeriano, enquanto "pensamento" o que retorna na "rememoração" à origem
da auto-determinação para si do "wissen", o determinante
incondicionado, só pode ser puramente grego (ocidental). À técnica, é preciso
"deixar" desenvolver-se até os últimos frutos, e se o pensamento
fecunda, não é a resistência, mas um outro caminho da teleologia a partir da
revivescência da origem, grega.
A pluralidade que designamos
cultural, por trás da apreensão heideggeriana da Alétheia como pluralidade de
sentidos, ora porque é a pluralidade mesma, ora porque "antes" da
ciência e da história, a suposta como tal pré-lógica poética do mito compreende
a polissemia, é encoberta pela inteligibilidade grega como único referencial da
abertura "antropológico-cultural" além de si. Tudo mais, apenas o
antes ou o depois, pelo referencial transcendentalmene determinados.
A inserção funcionalista de Gourhan
parece bem típica. Se desde o simbolismo ao funcionalismo, como cenário
pós-positivista, não se ignora a dependência do significado ao signo que o constroi
em sua "lógica" estritamente "simbólica", este não se
converte nunca em "programa" como funcionamento autônomo, unicamente
semiótico. Mas existindo pela necessidade da significação relativa à função
está preso ao seu destino de significar. Bem inversamente ao que Derrida supõe
como evolução "gramatológica", o signo por si para Gourhan é
verdadeiramente "molesto". Assim como toda independência do corpo à
estrita razão de sua funcionalidade universal.
É talvez compreensível que Derrida tenha referenciado o prognóstico
de Leroi-Gourhan, se neste a ciência não desaparece com o fim da grafia,
conforme cita Derrida: "O pensamento científico é antes
molestado pela Necessidade de estirar-se na fieira tipográfica, e é certo que
se algum procedimento permitisse apresentar os livros de modo que a matéria dos
diferentes capítulos se oferecesse simultaneamente sob todas as suas
incidências, os autores e os usuários encontrariam nisso uma vantagem
considerável". Somente a filosofia e a literatura são mencionadas como
tendo que ver "suas formas evoluírem". Mas assim só constatamos o
delírio estritamente logocêntrico no
sentido do que Derrida critica: o de um
pensamento científico que não se expressa pelo cálculo, este que não se faz
senão em alguma "fieira tipográfica". (p. 108)
Já o
que Derrida almeja é justamente "o fim do livro", porém como
condição de uma escrita limitada às condições da linearidade. Mas assim Derrida
trata o fim do livro como "o começo da escritura" precisamente ao
inverso de Gourhan.
Resta que para bons derridianos aí
poderia se encontrar a pedra de toque. A "escritura" que para Derrida
deve começar, não é a que Leroi-Gourhan
considera vir a ser "verossimilmente convidada a desaparecer
depressa". Uma vez que Derrida opõe a Escritura como programa à escrita
notacional como a representativa. Assim, qualquer povo tem escrita, como
sistemas gráficos, mesmo que não possuam escrita notacional. Mesmo nessa
interpretação, não se compreende bem como a
aversão gourhaninana do cálculo simbólico, como a algum ornamento
puramente instrumental em vez de meio do sentido, não parece a Derrida a
fantasia de uma voz sem signo, inteligibilidade sem letra.
Derrida considera que a ciência
tratada por Leroi-Gourhan em termos de "programa" deve se entender
"certamente, no sentido da cibernética." (p. 104) Mas a seu ver, não
é apenas "difícil, em todas estas descrições, evitar a linguagem
mecanicista, tecnicista, teleológica, no momento exato em que se trata
precisamente de reencontrar a origem e a possibilidade do movimento, da
máquina, da teckné, da orientação em geral". Ocorre que isto é não apenas
difícil mas "por essência impossível." (p. 105)
O elogio do transcendental como Ser
heideggeriano, relativamente aos entes, que consta no estudo derridiano de
Lévinas, em A escritura e a diferença, não expressa a irredutibilidade do
"pensamento" heideggeriano à toda compactação cibernética.
Aliás, Derrida está contra,
decisivamente, a pertença mesma do "pensamento" à tarefa de que se
trata na Gramatologia como futuro da ciência positiva. Como ele
se expressa: "Fora da referência econômica e estratégica ao nome que
Heidegger justifica dar hoje a uma transgressão análoga mas não idêntica de
todo filosofema, pensamento é aqui para nós um nome perfeitamente neutro, um
branco textual, o índex necessariamente indeterminado de uma época por vir da
diferência". (p. 118)
Como se poderia assim conservar alguma
estratégia de uso ao nome de Heidegger?
Voltando à citação da página 105, deveríamos sublinhar
enfaticamente o termo
"teleológica". Trata-se da linguagem que desencava as origens. Porém
se é impossível evitar a teleologia
quando se trata da arqueologia, também o é "para todo discurso". A
explicação derridiana nesse trecho parece endereçar-se à metodologia de Gourhan
sem qualquer extravasamento relativamente a ela, e ao mesmo tempo apelando a
algo da heideggeriana linguagem como a morada do ser.
O que diferencia um discurso de outro
é e só pode ser "de modo de habitação no interior de uma
conceitualidade" a que corresponde porém não a fixidez mas a
transitoriedade: evolutiva ou dissimuladora. É tendo a conceitualidade por
matéria, mas para apreender o espírito, que "deve-se tentar aqui re-aprender
a unidade do gesto e da fala, do corpo e da linguagem, da ferramenta e do
pensamento" - porém ao ver de Derrida, tudo isso "antes de
articular-se a originalidade de um e de outro e sem que esta unidade profunda
dê origem ao confusionismo."
Porém parece lícito indagar se é a
tal "originalidade" que tende a teleologia de Gourhan, ou se bem
inversamente, a unidade não se coloca entre dois polos senão para abstração de
ambos naquilo que a unidade representa, a saber, a razão objetiva como lei da
eficácia. Eis porque pode não se tratar de rigoroso paralelismo nas séries
disjuntivas. É a ferramenta que está do lado da fala e da linguagem como o
lado da razão científica. O pensamento, a conceitualidade, na ambiguidade
do termo que extrapola a razão, está do lado do gesto e do corpo, do signo como
o lado do "envelope" cultural.
Compreendemos a estratégia derridiana
quanto a Gourhan, se a razão puder ser de todo depurada a uma programática, e
eis a cibernética - assim como o branco do pensamento. Porém para Gourhan a
cultura é o que deve desaparecer na evolução, enquanto que para Derrida é o
contrário, a programática não vai se unificar na redução funcionalista radical
do aparelhamento mundial, uma vez que
seu nome é "gramatologia", a sanidade do signo em seu vir a
ser próprio imotivado.
Se aquilo de que se trata em Derrida
é pois a defesa da pluralidade da Alétheia em Heidegger, como lugar originário da descoberta
orientadora do futuro, a irredutibilidade dessa perspectiva a Gourhan é total.
Por outro lado, se a programática gramatológica coloca a imotivação do
signo em lugar do pensamento como
caminho da Alétheia, a irredutibilidade do pós-estruturalismo a Heidegger é que
vem a ser completa.
Mas o que parece reunir de algum modo a esses
múltiplos fios é a identificação em todos estes horizontes, do projeto do Homem
com o percurso do Ocidente. Aqui Nietsche se torna importante ao
pós-estruturalismo, sendo também como podemos entender ao locus histórico do
próprio pensamento nietzschiano, na medida que essa identificação é feita por
meio da ética do senhorio - que vimos iniciada por Aristóteles.
Em todos os referenciais que
examinamos, a vocação do Homem é sempre o domínio do meio. Assim como no
medievo cristão, o princípio da equivocidade do ser coibia que se atribuísse
algo a Deus e aos homens num mesmo sentido do termo atribuído, a adaptação como noção evolucionista não é um
conceito unívoco em se tratando do homem e dos demais seres vivos. A
extrapolação ética do evolucionismo como vocação do homem ao domínio planetário
tem pois um momento pioneiro e privilegiado em Nietzsche.
Em "A escritura e a
diferença", a estética que Derrida elogia sendo a de Battaile, o pivô é justamente
a rejeição a Hegel a partir da inversão nietzschiana da dialética do senhor e
do escravo.
A extrapolação ética do
evolucionismo depende pois de uma
liberação contraditória do corpo, de modo que a valorização da pluralidade de
sua expressão e modos de vida é apenas pretexto da reunificação intelectiva pelo julgamento,
como se sob "novo" critério, da força ou fraqueza no próprio elemento
da "potência".
A própria estesia (percepção) é negada por Derrida em Papel
Máquina (São Paulo, Estação Liberdade, 2004), ressoando com o descrédito
relativamente à percepção que ele enuncia na conferência do colóqui de Baltmore
em 1966 ("A controvérsia estruturalista"). O que é coerente com a
recusa da "estética" não apenas na acepção da beleza mas como relação
do que antes de designava arte com a percepção. A teoria freudiana dos traços
mnésicos determinantes da percepção é aqui
o fundamento.
Em Papel Máquina, a recusa da
"estesia" é bem explicitada, como o que, estando do lado organicista
que opõe o acontecimento à máquina, impede pensar "a novidade mesma,
um acontecimento, o único e o primeiro
acontecimento possível, porque impossível". A saber, o acontecimento/máquina como
tranformação do modo mesmo pelo qual "pensamento", "conceito",
"lógica", etc., viriam a se tornar pensáveis (p. 37).
Ora, o que se enuncia tão
pomposamente como a ultrapassagem da oposição
entre duas totalidades, organismo e máquina, orgânico e inorgânico,
etc., na verdade é apenas reducionismo mecanicista do orgânico ao inorgânico,
como da explicação da primeira pela segunda das partes da mesma disjunção.
Pois como se diz logo à frente, do
que se considera monstruoso como a superação da oposição: "mas tal supermonstro acontecimental
[événementiel] seria, dessa vez, pela primeira vez, também produzido por
máquina" (p. 38). A agregação ("também") faz porém um estranho
círculo. O raciocínio, por um lado, define como modo de pensar superado, a
oposição de acontecimento e máquina enquanto impossibilidade de pensar o
acontecimento além da produção/recepção pelo orgânico, intencional, vital. Mas
quando se produz a transformação, vai se pensar o acontecimento como podendo
ser produzido pela máquina, assim propriamente produzido por ela. De
que modo ocorre superação da disjunção?
Uma vez que aparentemente não ocorre,
vejamos como Derrida pensar desconstruir a oposição. Ela dependeria da
psicologia da percepção, cada parte oposta à outra o seria pelo princípio
interno da "forma total de organização" (p. 37). Mas não se poderia
mostrar que a desconstrução procede pois, da própria psicologia? Uma vez que é
ela que demonstra que a percepção é submetida a leis externas ao que de fato a
possibilita, a saber, não traços de memória a que se reduziria, mas a receptores
corpusculares sensoriais, pontos especializados, localizados
corporalmente conforme a área de afetação do estímulo de que se trata, os cinco
sentidos mais os de enteropercepção, propriopercepção e sinestesia.
Parte do fenômeno perceptivo é orgânico e
se deve ao modo de ser dos receptores - assim a distribuição dos corpúsculos na
pele implica que nem todas as áreas da
derme são de fato sensíveis a qualquer estímulo, havendo ligação, entre os
pontos perceptivos, que alteram resultados de percepção. Parte do fenômeno é
ambiental, externo ao organismo pois inerente ao percebido, mas formando tendências que afetam igualmente aos
sentidos, como leis de assimilação e
contraste, governadas porém pela organização estruturante do todo, conforme
variáveis de contorno ou fronteira, culturais ou de personalidade. Assim a
experiência passada não é que não seja fator interveniente, mas não suficiente
para o reducionismo da percepção à memória. A propósito, ver a parte do volume
1 consagrada à percepção, dos já citados Kretch e Crutchfield, especialmente
capítulo V.
O que se invalidou em laboratório ao
longo do século XX, foi a pressuposição dos tempos de Freud de que entre duas
percepções o aparelho perceptivo deve se neutralizar totalmente, de modo que a
junção dos percebidos numa experiência coerente não seria explicável pelo
próprio aparelho. Conforme Kretch e Crutchfield já estabeleciam na metade do
século passado, comprovou-se inversamente que entre duas percepções seguidas
não há neutralização alguma do aparelho, mas sim continuidade da qual se segue
a qualificação coerente do percebido.
Ao invés dessa relatividade adequada
aos resultados de laboratório, do corpuscular sensorial e organização do meio
perceptivo, que não é oposição simples nem ocorre entre organismo e
"maquinismo", mas sim organismo e meio, Derrida salta para outro
curso de pensamento. Começando pela atribuição de como na dicotomia de máquina
e organismo, Derrida atribuindo-a como pressuposta pela psicologia da
percepção, se tratariam de duas totalidades resultantes da lei da organização
como duas formas totais, emenda que pela mesma metodologia é "essa
organicidade" o que não consta no que se diz inorgânico.
Estranho raciocínio. A organização
produz duas coisas como dois todos, mas não uma delas desde que dadas pela
organização ela mesma enquanto orgânica.
Porém como vimos a organização
integra aquela parte das leis perceptivas que justamente por serem estruturais-figurais
atravessam a oposição de organismo e máquina.
A mais simples percepção existente é
a de uma névoa luminosa sem qualquer diferenciação interna, obtida pela
iluminação por igual de um hemisfério oco, semelhante a uma cabine telefônica,
a que o aparelho perceptivo do sujeito da experiência ali postado está
restrito.
Produzir diferenciação lateral da
luz dentro do hemisfério não faz qualquer alteração perceptiva. O sujeito
continua vendo unicamente a névoa luminosa sem diferença, ainda que um lado
esteja de fato mais escuro que o outro, havendo pois assimilação
homogeneizadora dos dados perceptivos num só. A projeção de um contorno, como
uma linha vertical, mesmo muito tênue, central, faz com que a diferenciação dos
lados escuro e claro não só se torne visível, como ainda mais contrastante do
que de fato é a diferença lateral de itensidade da luz.
Naturalmente os receptores
sensoriais são sempre afetados pelo
mesmo estímulo, mas a organização do todo muda pela variável estrutural do
contorno. Não ocorre que o sujeito apenas perceba, além do que já via antes, uma linha a mais,
como de fato é apenas o que está vendo, e sim que todo o percepto muda em
função da projeção da linha central.
O logocentrismo como unidade do
"ocidente" e toda a interpretação antropológica da sucessão de
estados primitivo, bárbaro e civilizado, depende pois de uma teoria redutora da
percepção à meória do signo inconsciente, portanto de fundo idealista, que hoje
já está desacreditada.
Na verdade o que há de estranho no
raciocínio de Derrida em "Papel Máquina" é que ele inverte a intenção
do próprio argumento. Quem precisa da não oposição de organismo e máquina -
assim também abstraindo o meio - é o que
Derrida está criticando como as teorias intencionalistas, de Austin a Searle. E
nessa crítica, em "Limited Inc".,
Derrida não estava errado. Porém
já ali mostrava-se o problema, pois não é preciso reduzir a linguagem a
decifração totalmente independente da interlocução, para recusar que a linguagem possa ser "parasita" em
relação a nada além do que ela mesma - de modo que um romance de Dostoievski seria menos
exemplarmente linguagem do que o "sim" dos noivos por ocasião do
casamento.
O que prejudica a compreensão
derridiana em Papel Máquina parece ser a junção apressada da pesquisa de
laboratório em psicologia da percepção, e teoria assim designada humanista da
época de proeminência do funcionalismo, na qual se pode alinhar fenomenologia
intencional e gestaltismo. Porém a
junção não é a priorística. O laboratório está muito mais relacionado ao que o
século XIX designava "fisiologia", a biologia dos funcionamentos
sensoriais relacionados ao cérebro, do que a uma das escolas de psicologia, e
todas tendo que utilizar os mesmos conhecimentos assim obtidos.
A posição de Heidegger nesse mapa
epistemológico é singular. Por princípio ele está alinhado com a frente
"humanista", e não obstante os seus protestos contra qualquer redução
antropológica do historial, bastante relacionável à ciência social
funcionalista. Mas devido à grande influência que exerceu como existencialista,
sim, mas crítico da fenomenologia
puramente intencional de Husserl, muito se pode rastrear de heideggeriano em
praticamente todas as rupturas que precipitaram a proeminência do
estruturalismo.
Além disso, o pós-estruturalismo,
como temos visto, operou a junção de Heidegger e Freud a partir da teoria dos
traços mnésicos. Lyotard em Heidegger e os judeus, torna isso bem evidente. O
foco dessa junção que pretende porém algo mais, como uma teoria exclusivamente
semiótica, é Nietzsche utilizado pelo viés do transcendental kantiano,
focalizando-se a temática do sublime para uma abordagem que permitiria
associar, pelo viés do desejo/potência, a estrutura e sua gênese no
Inconsciente.
Mas o destilado seria ainda assim a
crítica política eficaz da dominação "ocidental". Ou seja, o que foi
perpetuado da oposição estritamente funcionalista da gemeinschaft
("comunidade") tradicional e geselschaft ("sociedade")
apenas moderno-ocidental como regime de legalidade racional.
Em Heidegger essa oposição é básica.
Ele pode ser um crítico precisamente da fantasia da dominação
"ocidental" como metafísica, o tema comum aos pós-estruturalistas.
Desse modo não se pode fazer uma crítica do capitalismo ou de qualquer aparato
de Poder como, bem inversamente, irracionalidade
anti-"social" do ponto de vista da organização democrática. Nem se
pode reunir o capitalismo à mera mentalidade oligárquica não apenas
moderno-ocidental.
O acúmulo de informações convergente
a tudo isso que ficava proibido, se tornou proeminente após os anos cinquenta
como ao período em que apenas a reconstrução do pós-guerras estava evidente.
Nesse período pois, para o bem e para o mal, estabilizou-se a interpretação de
que o desenvolvimento como exclusivamente
modernidade e ocidentalização, não era substituição do tradicional pelo
burocrático, mas transição de um a outro, e de que, assim o desenvolvimento
tornava a ser matéria política ao invés de determinismo inexorável.
O negócio de exportação de capitais
foi importante nessa consolidação, pois requisitava a esperança das margens em
sua industrialização autônoma. Com ela, porém, uma cortina de fumaça se lançava
contra o acúmulo das evidências contrárias ao que tenho designado o consenso do
Corporate State como de um domínio brando e progressista, internacionalismo
integrador que nem seria propriamente imperialista mas da expertise
tecno-estatal. Assim o cenário bipolar da "guerra fria" entre Leste
soviético e Oeste americano era ele próprio neutralizado como referencial de fato
cisório da unidade discursiva "logocêntrica"
(moderno)-ocidental.
Paralelamente os avanços na
pesquisa operacional em ciência social, exemplificável pelo engajamento de B.
Wooton na sociologia do crime resenhado
em Bottomore ("Introdução à sociologia"), ou pelo abandono da
dicotomia de sociedades com ou sem estado resenhado em E. Willems
("Antropologia social"),
estavam invalidando muito da oposição funcionalista universalizada, de tradição
e modernidade.
Assim como os gêneros beat e pop
americanos solviam as características de diferença identitária entre grupos sociais e etnias, e dossiês como de
David Halberstam ("The Powers That Be") Kurt Mirow ("A ditadura dos
carteis"), Claude Julien
("L"empire americaine") e
René Dreyfuss ("1964"), avançavam entre os anos setenta e oitenta a
evidência anti-weberiana do capitalismo para-legal ( ao inves de legal),
passional (ao invés de racional) e intervencionista (ao invés de burocrático),
cujas relações com o Estado de direitos civis eram de predação ou domínio e não
de convergência genético-estrutural.
O cenário da descolonização
afro-asiática se tornava o de guerras traumatizantes pela total contrafacção ao
discurso do consenso, à medida que os capitais para industrialização na margem se comprovavam
apenas um negócio sujo de dívidas fraudulentas, com os potenciais de indústria
sendo de fato dominadas por multinacionais, com
aparatos de força imperialista e ditatorial severamente envolvidos.
Ainda assim, o papel da "teoria" opositiva oriunda
do funcionalismo, mesmo em suas vertentes ostensivamente estruturalistas, foi o
de impedir radicalmente as mudanças necessárias ao cabo de sucessivas invalidações
históricas das premissas. O limite foi aliás expresso, como no já citado
Lyotard motejando o dossiê Farias a propósito das relações de Heidegger com o
nazismo. O que viesse da parte do "acontecimento" seria mera
"efetividade" e o que importava era a "memória" homogeneizadora
estruturante do igualmente totalizante "discurso".
Hoje um exame da construção do
"consenso do corporate state" se faz necessário. A emergência do tema
"pós-moderno" desde os anos oitenta manteve-se inteiramente favorável ao consenso, na época
em que se tratava de defesas à Linda Hutcheon e ataques à Jameson e Eagleton,
porém ambos os lados mantendo as premissas do discurso. Este que pretendendo-se
originário do inconsciente ou da "existência", seria a gênese
redutora do político mas não ela mesmo política.
A superação histórica do consenso
do corporate state não aconteceu de fato, mas por ter se presentificado a
dominação info-midiática que mudou a estrutura da questão cultural, como que
mecanizando o consenso, ao invés de pela
simples transformação material desde a "globalização" dessovietizada,
o que teria forçosamente tornado necessário o equacionamento das evidências
contrárias resultando por exemplo na continuidade de publicaçõe de dossiês
quando mais se está necessitando deles - algo nesse sentido foi esboçado por W.
Canno a propósito da União Europeia e as emergentes economias de mercado
extremo-orientais. Maiores contribuições à auto-compreensão da superação dos
limites funcionais-estruturais do discurso tem se somado, naturalmente, porém transformações
efetivas continuam sendo aguardadas.
O exame que aqui iniciamos tornou
manifesto, até agora, aquilo que nesse plano de construção desmente as
oposições muito ostentosas no plano da manifestação. A escandalosa convergência
de Heidegger e o pós-estruturalismo não chega porém a coibir a irredutibilidade
das proveniências, de antes e depois das duas guerras.
Na crítica anti-metafísica de
Heidegger, o elemento teleológico da
ontologia aristotélica é reinterpretado, como vimos, em função da harmonia
pré-estabelecida das noções intercambiáveis, da produção à perfeição, enérgeia
e entelequeia. Mas de modo que se torna
possível conjecturar sobre se a
leitura de Aubenque dessa ontologia como de fato fracassada, Aristóteles não
podendo não reconhecer que aquilo que ele constatou como Saber substancial foi apenas a
impossibilidade da essência ser toda em sentido próprio, não é contrária à
intenção de Heidegger.
Aparentemente ao inverso deste, que
lida com a pre-sença em termos da temporalidade finalizadora do sentido
engajado na historicidade, e realização sempre renovada do modo de ser,
Aubenque se expressa em termos de "cisão" intransponível da essência
a partir do intervalo potencial, pelo que o de Aristóteles seria sempre um
mundo inacabado como este nosso. Temporalidade finita à Heidegger e metafísica do inacabamento à Aubenque,
parecem conceitos contrastantes e no entanto conciliáveis. Por aí entendemos a
oportunidade do aristotelismo na era da Evolução.
Se a pre-sença é o que realiza a finitude dos processos de sentido assim
como temporalizadora, vimos que ela não pode realizar "para si" (como
compreensão objetiva a partir de si) a finalização final de si, e isso pelo
mesmo motivo que Aubenque designou a cisão da essência consigo mesma neste
mundo sublunar. Se houvesse o ato puro, a essência não "seria" na
acepção de ser-"aí". Ela sempre já teria sido. O fixismo de
Aristóteles pode ser abstraído em razão do intervalo inexpugnável,
impreenchível, entre o ato e a potência.
Ele faz lugar para a variação interna ao sistema, e assim também para a ciência
enquanto essa atividade construtiva do homem, que não é
"conhecimento" naquele sentido que só pertende a Deus.
Aubenque e Heidegger só precisam
considerar que a teologia de Aristóteles
é marginal à sua metafísica,
assim como este mundo relativamente ao ideal do Motor Imóvel. Mas aqui temos,
ademais, o motivo da conjuntura, em que a pre-sença já sempre está. A
teleologia é temporalizadora no sentido da finalidade porque há uma totalidade
(Gewissen/ Ética).
A articulação de teologia e ética
poderia parecer justamente o que é de todo ausente em Aristóteles. Assim
deduziria um leitor apressado de Pierre Aubenue. É justamente o contrário. A
totalidade teológica do mundo, a que se
endereça a pesquisa do homem já piedoso e não de um qualquer, sempre só pode ser pensada como está sendo,
pelo ser do "humano". Este cujo pensamento mais próprio não é
"sophia"/"theoria" sem que ela mesma o delimite como
intelecto da "prhônesis", aquela qualidade do pensamento de que
depende a possibilidade da ética. Ou seja, a
"prudência" que só ao homem interessa entre deuses e demais seres viventes
quaisquer. Em que, portanto, o Ser não
se desvela sem do mesmo modo acobertar.
Mas assim,
como, senão por uma série de distorções consideráveis, desse fixismo
perfeitamente insólito, que faz lugar ao pensamento da evolução e de fato é a
gradual aproximação da essência a si, como de cada ser a Deus, do menos ao mais
perfeito, da vocação da pedra ao seu lugar natural até a multiplicidade motora
dos animais e o ser racional do homem, se faria uma ciência da evolução
puramente biológica, assim como ela é? Ou seja, por mutações inerentes aos
corpos em sua multiplicidade constitutiva antes que alguma totalidade essencial
de si a si mesmos. Já por uma ciência que desde Galileu desfez a conjuntura do
universo centrado e inaugurou a independência da física como ciência.
Ora, a interligação desses dois
fatores permanece matéria de especulação, certamente, porém a independência
mesma é o fato capital, sendo ela relativa justamente à metafísica. Até a
modernidade, como se sabe, as ciências não eram independentes da metafísica que
prescrevia o quid est de qualquer matéria pensável, não podendo assim
haver pesquisa experimental-observacional de fenômenos determinados por uma
especialização em nível de objeto.
A dependência ante-moderna de todo
saber à metafísica, não foi devido a qualquer realidade do mundo Antigo, mas à
subordinação dos farrapos a que se viu reduzida a cultura antiga helenística, a
partir não só da queda do império ocidental, mas da perseguição do cristianismo
dogmático - que perseguiu igualmente ou com maior furor às seitas cristãs não
subsumidas ao mesmo dogma imperial que dominou pelos mil anos de feudalidade. O
retorno dos textos da cultura antiga na baixa idade média, a partir da retomada
do contato com o Oriente, onde haviam sido conservados por escolas de tradutores
especialmente na Síria, não é porém o fator decisivo do fim do feudalismo na
cultura. Não obstante ter sido o referencial medianeiro de que o tempo se
utilizou como fator de contraste de sua
própria novidade "racional", o fator decisivo é a série de conhecimentos
novos, revolucionários relativamente às antigas crenças e não só à bíblia,
oriundos das práticas de navegação e progressos na medicina a partir da
pesquisa fisiológica. Que assim é podemos demonstrar por isso que nenhum dos
progressos bem nítidos verificados na baixa idade média, como no uso da lógica,
na ótica e nas matemáticas, resultaram no franqueamento do limite dedutivo, não havando método experimental antes do
Renascimento. A "experiência" científica não é simplesmente o ater-se
à observação comum. Pelo contrário, é o que rompe as impressões ingênuas do
mesmo modo que o telescópio ao fazer ver as imperfeições na superfície dos
planetas, ao invés da pressuposta perfeição esférica que até aí conferia a
esses seres, conforme Aristóteles o status de divinos, ou ao menos perfeitos
enquanto celestes conforme o geocentrismo bíblico que com ele se harmonizava.
A propósito Bréhier recolheu o
pitoresco testemunho de Montaigne: "Conta-se que um recém-chegado que se
nomeia Paracelso, mudou e reverteu toda a ordem das regras antigas. E a mim
contaram que na geometria (que se passa por
alto grau de certeza entre as ciências) se encontram demonstrações que
inevitavelmente subvertem a verdade da experiência: como Jacques Peletier me
disse pessoalmente que ele havia encontrado duas linhas se aproximando uma da outra para se juntar, e
que ele verificara contudo, até ao infinito jamais poder chegar a se tocar...
Era considerado pirronizar, desde há mil anos, colocar em dúvida a ciência da
cosmografia, e as opiniões com que cada um por si podia concordar: era heresia
afirmar a existência dos antípodas. Eis em nosso século uma grandeza infinita
de terra firme... que veio a ser descoberta."
Bréhier comenta bastante bem a
Montaigne como adepto do ceticismo
ora redescoberto na Europa, porém
adaptado ao tempo na forma de um pirronismo cristão, que tão exemplar é da
Renascença, voltado antes contra as sutilezas dialéticas que se pretendiam
científicas do que contra a honesta crença que não se apoia senão na fé e nas
razões do coração. Conforme Bréhier, citando o pitoresco francês antigo,
"a crítica de Montaigne não porta sobre os resultados positivos das
ciências, mas sobre seus pretendidos primeiros princípios e sobre a certeza dos
que procedem de uma carantonha ("troigne") muito imperiosamente magistral...".
Ou seja, conforme Bréhier a crítica
de Montaigne porta, sim, sobre pretensos saberes deduzidos dos fundamentos
metafísicos, quando nenhum deles permitiria descobrir as realidades que
agora são conhecidas: "ruína do
geocentrismo, crítica dos princípios de Aristóteles, inovações médicas,
invenção das assintotas, descoberta do continente americano..." todos
esses fatos mostrando "que a razão não atinge pois, inversamente ao que
antes se acreditava, princípios fixos e imutáveis sobre os quais se fundaria
uma ciência definitiva...". As matemáticas, astronomia, medicina,
filosofia, estavam se transformando, mas o que o Renascimento reteve não foi a
renovada fé no saber a partir de conteúdos mais sólidos, e sim,
inversamente, o que se devia apreender
da queda tão ruidosa das tradições inexcedivelmente consolidadas.
Assim a lição de Montaigne: " é
penoso fixar limites ao nosso espírito". Sua mobilidade feita de curiosidade
e contínuo apetite convém paradoxalmente com sua impotência quanto a atingir de
pronto qualquer verdade, e se é por contínuas tentativas que alguém chega a
algo que se mantem, isso é apenas pretexto para mais tentativas alhures
recomeçadas.
A geometria de Euclides e a
descoberta das Américas são certamente duas ordens de saberes não redutíveis a
uma causalidade única como seria, digamos, a reserva das atenções a este mundo
a partir de interesses "novos" e
bem burgueses. Além disso, ao menos pelos dois séculos seguintes a
tônica não foi o ceticismo montaigniano, mas aquela mescla de ciência
experimental e elucubrações metafísicas tão típicas dos textos de Newton e
mesmo do deísmo Aufklaerung. Mas o essencial é que a autonomização das ciências
foi continuamente progressiva até a independência do objeto que se verificou
após Kant. Ora, o que caberia indagar aqui é em que um "pensamento"
da Alétheia não poderia se reencontrar nessa independência do objeto, que se
coloca continuamente em questão e que se autodelimita fenomenicamente, por
isso mesmo em ruptura com a metafísica e não apenas por questões de
conteúdo.
Inversamente, na fenomenologia de
Husserl vemos a pretensão de uma nova metafísica na acepção de algum centro
censor das ciências, que a cada uma prescreveria de antemão como à ontologia do
seu objeto, de modo que a especialização se subsume sob o irritante epíteto de
" ciência regional" . Não poderia haver uma psicologia autônoma, que
desmentisse - como é fato conspícuo - o caráter inato e primitivo de certas
"intuições" categoriais.
É certo que a controvérsia que parte
da fenomenologia volta-se contra uma pretensão que não é da ciência em si, mas
de uma metateoria "positivista" da universalidade. No interior dessa
polêmica Heidegger é um tanto ambíguo. Certamente ele é contra o positivismo,
porém não sabemos se seguindo Husserl na prática de uma terminologia do
"regional". Vimos contudo, como se posiciona relativamente à
História, e como decorre de sua posição "historial" um a priori
indesejável às ciências humanas que na sua independência são reduzidas a mera
técnica - com total indiferença relativamente à heterogeneidade de sua
metodologia e crítica interna.
Derrida se expressa nisso a favor de
Husserl, com certeza. Ele não quer pois a Gramatologia, para a qual almeja
entretanto o status de ciência positiva, como alguma "ciência regional
entre outras" , mas sim como aquela
em que se trataria da condição de possibilidade de qualquer ciência. (op. cit.
p. 104)
O estruturalismo inteiro se coloca do
mesmo modo contra as ciências humanas por não se restringirem ao que seria essa
condição de possibilidade, pressuposta estrutural como da qual derivaria
a própria independência do objeto. Não podendo, pois, haver uma ciência dos
fenômenos como "humanas" ...
Em todas essas posições, o que há de
comum é a posição da unidade antropológica do "ocidente", elevada a
pressuposto onto-lógico da História. Mas como seria de se esperar, já por
aquilo que tenho designado o quarto componente a sobrepor-se no trilema de
Munchausen, na decorrência de se obstar que o próprio trilema é um
transcendental restaria a impossibilidade de decidir sobre que
"transcendental" é o verdadeiro - de Kant ou Husserl, Heidegger,
Apel, Freud ou Derrida, etc.. Não há
tampouco um estruturalista que concorde com outro a propósito de que vem a ser
a estrutura única da cientificidade. Além da concordância sobre que a estrutura
não é apreensível pela consciência imediata em que ela mesma se atualiza, não
há um só mas vários modos de se definir a estrutura fundamental em função de
que elementos seleciona - a produção
material ou o Édipo, o Ser (Saber) ou a Escritura, etc.
Assim aqui poderíamos indagar qual
"logocentrismo" é o verdadeiro, para contribuição à causa da unidade
ocidental. Entre Heidegger e Derrida há concordância sobre a origem platônica
da metafísica, mas do postulado da unidade desta em função da origem é logo
acrescido da necessidade de explicar o percurso. Por que não há uma só, mas
várias ontologias a partir da discordância sempiterna quanto à verdade do ser
do ente?
Na explicação a propósito reside pois
a versão do logocentrismo, ao mesmo tempo uno e múltiplo. Situamento conceitual
do passado imemorial como da cena grega inaugural, e interpretação metateórica
do percurso, prescritiva de toda ciência da história em função da restrição
deste a Ocidente e ocidentalização.
Entre Derrida e Heidegger, a
metateoria do passado absoluto, abertura imemorial (inconsciente) da memória
(consciente), conduz porém a dois diagnósticos perfeitamente opostos um ao
outro, e que não poderiam ser mais contrastantes, a propósito do mal distópico
da história. Se o mal é sempre o mesmo, contaminação das origens a partir porém
do que aí mesmo se reserva, em si ele não se define como tal. Para Heidegger o
mal é a técnica e a máquina, mas para Derrida na técnica como na máquina é que
se encontra a salvação.
Para ambos, o sujeito que sofre o mal é
a diferença ameaçada, e pela técnica ou contra ela, o mal é a anulação da
diferença como um tipo de etnocentrismo avassalador. Nas origens, pois, o que
reside é a possibilidade de pensar que o homem é sempre e somente igual a si
mesmo. E a diferença, a estrutura, não é humana. Mas para Heidegger, ela é o
meio da humanidade "historial", cujo destino é assumir a diferença no
reencontro das origens. Para Derrida, a humanidade é a própria alienação
metafísica, e a tarefa revolucionária é desalienar a técnica.
Porém se para ambos trata-se de uma
só e mesma origem da distopia recalcadora da diferença, a Grécia antiga, vemos
assim a contradição comum.
O Ocidente como destino da
técnica, é por um lado o único não
etnocêntrico dentre os povos que, cada um, mantinha a diferença a salvo apenas
por efeito de ricochete, a partir da limitação do saber, já que conforme o
preconceito da antropologia "moderna", toda etnia coloca fora de si o
estatuto do não-humano.
E por outro lado o Ocidente só é
esse único capaz de pensar a diferença e propriamente conceituá-la,
porque ele é a origem do pensamento da universalidade do Homem, na antiga humanística grega - segundo a qual,
bárbaro não é quem não tem lei, mas quem pensa que alguém não tem. Em todo
caso, a diferença é a lei. Se houver singularidade, é porque houve um destino
da própria diferença tal que um povo, uma "história"-acontecimento,
esteve em condições, em posição estrutural,
de suscitar uma lei compreensiva do singular. O ocidente não é a
distopia sem ser a salvação, a liberdade, a evolução da legalidade. O historial heideggeriano e as idades da vida
derridianas, variam, são a diferença atuante na heteronomia de si mesma, porém
nunca singularmente. Não há heterogeneidade "local".
Agora podemos retornar à nossa
questão da controvérsia Strauss-Derrida. Em Strauss, o que inicialmente
enunciei como a paralogia geo-ego-lógica, a contradição do auto-enunciado do
Ocidente como Sujeito da História, tem a enunciação mais límpida. Arqué e
Telos, a estrutura torna-se autoconsciente no saber ocidental da Antropologia
Estrutural, mas como o segredo da combinatória por trás de qualquer sistema
concebível da cultura. Assim, na origem agora não do saber, mas da cultura,
estava o mais simples sistema concebível, como a mais coercitiva das regras de
parentesco que restringia pois, o mais estreitamente, as possibilidades de
escolha matrimonial. Porém a estrutura, sendo a combinatória relativamene a
qual o sistema é apenas uma possibilidade entre as demais, precede a origem factual, e, arcké absoluta,
logo se revela na heteronomia dos sistemas que de um povo a outro vão inventar
modos de tornar a regra menos rígida - por exemplo, a compra da noiva.
Androcentrismo universal, em todo caso o que se troca neste mundo da cultura
são sempre são mercadorias, palavras e mulheres. São sempre signos.
O que Derrida critica no esquematismo
straussiano arqueteleológico poderia ser colocado aristotelicamente em termos
de confusão das séries causais, formal e final. Mas
"aristotelicamente" como o que ocorre ao mesmo Aristóteles... Ora,
Derrida pretende desfazer o etnocentrismo straussiano que reserva à origem a
perfeita inocência da lei. Ao ver de Strauss, o parentesco obriga, mas não à
violência, como a de classe. Inversamente, Derrida faz ver que a guerra dos
nomes próprios entre os Nhambiquara - uma menininha rancorosa da outra com quem
brigara, por vingança revela ao etnógrafo o nome secreto dos demais da tribo,
que o rito impede ser conhecido - desmente por si só a interpretação de Strauss
de que os Nhambiquara, ao contrário dos anais já prescritos por outros etnógrafos, são bons,
gentis e inocentes nessa acepção de serem destituídos de violência possível
- uma vez que não conhecem a escrita.
Derrida ironiza, pois, esse tipo de
absolvição encarecedora: eles são bons, porque ternos e incultos animais...
Fora da letra, porque fora da civilização, Ora, a questão é que a linearização
que em Derrida faz as vezes da escrita por si em Strauss, como o agente da
distopia, não parece ter acrescentado um grão de vontade além dos já conhecidos
sistemas de dominação palacianos que precedem a fonetização alfabética.
Por que seria tão diferente a dominação
ocidental? Certo, ela quer fazer-se pela interioridade, como do ser dos entes,
etc. Porém a procedência do cristianismo não é "metafísica" grega...
Na "Farmácia de Platão", afinal, a contradição se expressa como tal.
A cena do Fedro, em que a escrita é expulsa pelo rei sábio como perniciosa
invenção de um deus equivocado, como o deus da equivocação em si como deus da
Escritura, apenas racionaliza a ambiguidade radical do desejo de negar-se a si
mesmo como desejo, ambiguidade que é porém o radical universal do mito da
escritura.
Não portanto apenas grego, mas
também oriental, do Egito à Mesopotâmia, onde quer que um panteão o tematize,
todo deus da escrita é secundário, mensageiro secretário. Todo logos é filho do
seu pai, como o deus da escritura o é do Deus maior do panteão, como a sombra o
é da luz, e a palavra o é da verdade, a letra o é da voz, em destinando-se o
filho, reprodução o pai, a reproduzi-lo e nada mais ser que a mais fiel
semelhança a ele.
Todo logos tem assim sua razão de
ser, fora de si e ao mesmo tempo sendo ela o que o faz bastar-se a si, como
critério de acusação a toda veleidade de sua auto-suficiência. Todo logos é
tudo e nada, dentro e fora, etc. - e Platão escreve apenas as palavras de
Sócrates, nada de si.
Mas se assim é, em que a
linearização da escrita importaria à "história da vida" como
possibilidade da metafísica, do saber, e da auto-consciência da diferença como
da Máquina, a Escritura? Em que a metafísica
não é apenas a racionalização do mito -
e como tenho feito ver, em Platão e Aristóteles não de modo tácito e sim
expressa e voluntariamente, sendo o mito a justificação transcendente do Poder
aristocrático, aquele mesmo que entre filho e pai instaura o parentesco ao deus
da linhagem desde o feito originário dos heróis acima da história, como em
Aristóteles, personificações dramatúrgicas da teologia universal? Em que o
Ocidente é o determinante, tanto mais quando se trata da possibilidade de se
escapar ao etnocentrismo?
A
lacuna da emergência do conceito de vontade na economia da metafísica,
ironicamente esta que, se assim se coloca, como "economia", é para si
o esquematismo do desejo, não é para Derrida algo apreensível em termos de
crítica possível à sua compactação do logocentrismo ocidental na unicidade da
cena platônica da expulsão da escrita, no Fredro.
A ciência do logocentrismo, em
Derrida, parece ser sempre o avesso da vontade, como o que deve recalcar
precisamente o desejo se este não pode se desvencilhar do caráter imotivado do
significante. E é o que impediu a Derrida e a todo pós-estruturalismo como
filosofia do maquinismo, a apreender a realidade da máquina que hoje é a
comezinha intrusão via "personal computer", recalque da autonomia da pessoa,
avassalamento da legalidade, fim da escrita privada, etc. Derrida jamais
antecipou nem por hipótese, a possibilidade do seu banguela apertador de botões
vir a estar sendo comandado pela máquina dirigida para esse fim, intrusada por
atuações fascistas ao invés de ter se tornado o campeão da autonomia
individual. O que não seria difícil antecipar, já que mesmo não havendo ainda o personal computer,
a questão é em si mesma a do condicionamento prévio das escolhas. A máquina de
Derrida desconhece a logomarca.
A diferença semiótica só o é
relativamente a outra diferença. Para si o signo como diferença de outro
signo, é sem diferença qualquer, a
autonomia, a atividade pura. O desejo "se" maquiniza, não é desejo "de" nem "por",
não tem relação "com", sendo
antes a função exclusiva do seu próprio objeto imanente. E não é a toa que o
mecanismo como o tempo do signo, em Derrida é o oposto da vida, não obstante
sendo o que age, do que se produz acontecimento, vida, etc. A máquina não é
política, não é capitalística, não é função de mercado nem meio de circulação
social nessa - portanto - "filosofia" do maquinismo. Se tudo isso é
maquinizado, a máquina a tudo preexiste por igual, como regime de signo
escrito, longe do conflito, alteridade e
interação.
Em Heidegger, a função
unificadora do "Ser" como estrutura da atribuição, já enfatizamos
bastante. Na verdade deveríamos aqui corrigir o termo "atribuição" e
grafar ao invés "referência". Se há um sentido pelo qual ambas as
palavras significam o mesmo, em Heidegger há contudo um uso tal que
"atribuição" é o modo metafísico da "referência".
Mas torna-se complicado apreender
como, da difererença dos regimes de referência, entre magia, Alétheia e
metafísica, entender como Heidegger pensa aquilo em que por vezes se demora
como ilustração algo poemática da aristotélica multiplicidade dos sentidos do
Ser. Pois, em Aristóteles, essa multiplicidade é categorial, dependendo da
categoria primeira, a energeia/entelequeia de que decorre a ousia como posição
na estrutura teleo-cosmológica envolta por Deus, motor imóvel. Assim aqui a
dúvida é se em Heidegger a diferença
ontológica, uma vez que inerente ao Ser, são os modos da referência ou as
categorias.
Sendo as categorias, elas seriam
porém existenciais, não ao modo de Husserl , a partir da posição da ousia como
produção do tempo finito -inacabado. O tempo-espaço é a abertura ontológica da
diferença, ao invés de constitutivo lógico embora transcendental.
Uma vez porém que a multiplicidade
dos modos de referência é ilusória, caso se trate destes, só a Alétheia é mesmo
um modo da referência em sentido próprio, se enquanto tal ela deve apreender-se
como desocultação.
Em todo caso, quando se trata da
questão de por que o Ocidente é o lugar da metafísica, se ela não diz nada além
da exposição, Heidegger é bem mais coerente. A unicidade do platonismo como
condensação metafísica do Ser pelo ente, não anula a intromissão de mais
elementos na composição "historial". A ciência assim como a
compreendemos, em termos de um empreendimento do homem dominando a natureza,
não é possível na Grécia antiga. Um elemento a mais é necessário, para da adequação identitária da ideia,
função do Agathon, decorrer a certeza absoluta do Homem na luz natural como da
razão.
Já vimos que Platão e Aristóteles não
permitem nunca subscrever essa certeza. Ela é realmente possível, a partir da
natureza transcendente do Ser, porém não
realizável justamente pela posição do ser humano no sistema cósmico, em Platão
mais simplesmente conforme o mito da eternidade da alma. Heidegger mostra assim
como o que ele designa "cultura" se introduz na História a partir de
Roma, enquanto, repetindo, a convergência harmoniosa das autoridades religiosa
e civil. Porém é o cristianismo que introduz o elemento necesário para que a
cultura seja de forma a propiciar a emergência da ciência.
Esse elemento é o Deus enquanto
onipotente, conforme a fé cristã. A interpretação da energeia
aristotélica em temos de ato é ao ver de Heidegger obra do cristianismo, se ela
implica uma verdadeira doutrina autônoma. O aristotelismo se tornou uma
filosofia da causa, justamente porque o Deus da graça cristã, sendo onipotente,
abole todo intervalo potencial em sua criação: "eis porque Deus,
metafisicmente pensado, se nomeia o summun ens. A supremacia do seu ser
porém consiste em que ele é o summum bonun. Pois o bonun é causa,
notamdamente enquanto que finis, a causa causarum." (p.. 334)
O
"ato" que traduz a energeia é portanto "causa", e
Deus sendo a causalidade das causas final e primeira. A formulação do
aristotelismo cristão, Deus est summum bonun, é "a expressão mais pura
para a causalidade própria ao real puro", não sendo ética nem valorativa.
A partir da transformação do real em criação de Deus, o homem pode se comportar
confiante na realidade do mundo.
"Logo não é somente conforme a crença que o homem se comporta face a Deus
e ao mundo criado por Deus. O homem se comporta face ao real igualmente em
virtude do lumem natural". O ato
causativo sendo Deus, realidade, a relação do homem com a natureza em termos de
saber se possibilita somente agora como "certeza"
("certitude"). (p. 341,2)
Se Heidegger já havia introduzido a
sua noção de cultura como o que emerge na romanidade, é só com o cristianismo
que a cultura "começa historialmente enquanto estrutura da humanidade
certa de si mesma, almejando apenas sua segurança." (p. 340)
A essa altura já se está na era de
Descartes. Nesse contexto criacionista cristão que progride, "a cultura enquanto tal adquire o
prestígio de um 'objetivo' ("but"), ou, o que significa a mesma coisa
quanto à essência, ela pode doravante ser instituída sobre o conjunto da
Terra." A igreja cristã a partir
desse momento pode se colocar na defensiva frente ao início da laicização
científica, mas o seu ato decisivo é
tornar-se "um cristianismo da cultura". Agora, ao invés da igreja precisar submeter a
cultura, é esta que "se esforça por integrar ao seu mundo próprio o cristianismo".
A "cultura" ocidental
laicizada e possivelmente científica,
enquanto porém o produto da cristandade, é assim definida: "a
certeza de si da humanidade que se tornou segura do seu agir".
Aqui seria importante a questão dessa inusitada concepção de cultura. A princípio
podemos notar que não obstante seu aparente etnocentrismo, ela permite objetar à censura de Lyotard a
Heidegger, a propósito do que teria sido o esquecimento, por parte deste, do
"esquecido" - o judeu, que como alvo do preconceito europeu é no
entanto uma das origens da cultura europeia. Lyotard não faz assim porém tanto
uma acusação como se poderia precipitadamente acreditar, quanto uma defesa,
frente à crueza dos fatos apresentados pelo dossiê Farias demonstrando a
participação de Heidegger na política do nazismo.
O teor da critica lyotardiana que
deve funcionar porém como defesa, é como segue. Heidegger é efetivamente um
hegeliano, como europeu típico, que só se lembra da parte de origem judaica do
Ocidente para lidar com o problema na base da atribuição da culpa ao oprimido
injustiçado. O judeu devia se embonecar e se cosmopolitizar, desistindo de sua
singularidade indesejada, se o que ele quer é permanecer na sociedade europeia,
não judaica.
Porém o que Heidegger pensa, não do
mesmo modo que Hegel, é o mesmo que o judeu, esse "esquecido" na
forma de sua originalidade - que é afinal a provedora da sua parte na origem
ocidental, ao invés de algum cosmopolitismo que pudesse ter abraçado. Ou seja,
o esquecimento em si mesmo como a mola
inconsciente da assim designada "história". O mesmo que Freud e o
Kant pensador do Sublime descobriram.
Por outro lado, de fato os judeus
obtem uma vantagem sobre Heidegger, que comprova que o esquecimento deste é tão
ativo, europeu e sintomático, quanto aquele que ele mesmo credita à
metafísica relativamente ao Ser. A
saber, que há uma fonte da ordem, como do Ser, que não integra porém a História
do Ser, e é aquela fonte o Deus hebraico, ordem pura, como o Ser heideggeriano,
um modo de vida que porém é nada além de sua significação, como "seu"
mundo - ao invés do inabalável como tal instinto da espécie animal.
Ora, podemos notar que se Heidegger
afirmava que era o cristianismo o que se devia considerar tão incongruente com
a filosofia como o círculo é relativamente ao quadrado, ele na verdade não se
contradizia ao postular a origem da ciência naquilo que habitualmente se
designa a filosofia cristã medieval. Posto que esta ele demonstrou não
originalmente cristã, mas o vínculo da tradução do aristotelismo grego.
Em todo caso, mesmo que aí haja um
ponto controverso, o importante é que Heidegger não deixou de pensar o
criacionismo do Deus absoluto, que é tanto princípio cristão quanto das
escrituras judias. Porém o importante quanto à imiscibilidade à história do Ser
enquanto unicamente "ocidental", greco-europeia, vem a ser assim essa
noção de "cultura", ensejada a partir da romanidade como locus em que
a tradição religiosa ela mesma vem ao estatuto da autoridade civil.
Aparentemente Heidegger viu na
romanidade como na Urbe alicerçada na grande sistematização administrativa
ensejada pelo direito romano, a raiz da geselschaft ocidental, que entretanto
só o cristianismo encetou como trajetória da verdade, no rumo da
modernidade, a partir da interpretação
criacionista do aristotelismo.
Assim ele não poderia pensar, na acepção própria da rememoração historial,
nada que estivesse de fora da "cultura". Por outro lado, a Grécia
está fora da cultura como ante-romana, mas por aí é que podemos entender até
mesmo a propalada ligação de Heidegger com o nazismo, se ele não quer de fato
ser o defensor da Geselschaft, mas sim o pensador da originareidade da Gemeinschaft.
Ora, todos sabem que o conceito
autêntico daquilo que nós, mas não Heidegger, designa cultura, é em Heidegger o
de Volk, o povo. Não há porém uma fórmula única do Volk além de sua
nacionalidade, como mentalidade e modo
de vida próprios, singulares relativamente às demais. Por esse lado também,
Heidegger não poderia pensar os judeus sem trair o princípio de própria originalidade deles a que nós,
mas não Heidegger, designamos cultural, a qual Heidegger designa popular sem
porém generalizar.
Bem inversamente a Lyotard, pois,
minha convicção é de que Heidegger jamais esqueceu os judeus enquanto
precisamente singularidade de modo de vida total. Ele integrou o nazismo supondo que pudesse ser um
autêntico nacionalismo nesse sentido da totalidade, o que porém revelou-se
impossível - mas talvez a partir do predomínio no partido, das correntes
contrárias aos propósitos heideggerianos de autonomia nacional, as quais tinham
por objetivo o expansionismo imperialista belicista. Ou talvez Heidegger
estivesse convencido de que o expansionismo era inevitável num pressuposto
cenário de conflagração já efetiva pelo domínio do mundo, mas não quisesse
reduzir o destino "alemão" a um biologismo racial.
Não se equacionou até agora, no
problema do nazismo heideggeriano, a romântica ligação amorosa com Hannah
Arendt, documentando Kristeva porém que ela mesma o acusou posteriormente de anti-semitismo, de vez que
ele afinal recusou romper sua união matrimonial com Elfried. A própria Kristeva
destaca a incongruência da acusação de Arendt, visto que ele estava na ocasião
se relacionando com ela, uma judia. Privilegia-se as relações Heidegger-Husserl,
que se são de tão intensa quanto de dissimulada rivalidade do discípulo ao
mestre, geralmente se utiliza como protocolo da acusação contra Heidegger.
Porém aqui o pivô é evidentemente bem outro que a questão racial.
Já o pensamento heideggeriano do
Volk, enquanto conceito que acima da
singularidade é sempre o polo oposto ao que designou "cultura", a
nosso ver a geselschaft impessoal, seria
exemplificável apenas pelos seus conhecimentos da singularidade grega, não
havendo interesse aparente na antropologia de outros povos.
Mesmo aqui vimos que se ele
considerou sempre Homero e os dramaturgos uma fonte legítima de interpretação
da mentalidade "folk", fez porém lugar à singularidade do Saber como
exclusivo correlato do "pensamento". Manteve entretanto a unidade do
Volk, ao perseguir constantemente algum esclarecimento sobre o que na
mentalidade "folk" do grego Volk" permitira o destilado
filosófico. Porém podemos nisso considerar o problema do heideggerianismo, uma
vez que ele devia assim considerar ao mesmo tempo a unidade e a
heterogeneidade, a convergência e a ruptura, entre filosofia e mentalidade
autenticamente "gregas".
///
Segundo Heidegger, como vimos, a
cultura enquanto designação do processo historial a partir de Roma, tem sua
consolidação com o cristianismo feudal. Ora, ao ver de Heidegger, "semelhante efetuação da colocação em
segurança ("securité"), semelhante instalação do real na confiança
("sureté"), ensejadas pelo criacionismo judeu-cristão, só podem
influir de modo determinante sobre a marcha da história da humanidade dos
Tempos Modernos, porque no início
anunciador dessa história a relação do homem com o real se modifica nesse
sentido pelo que a verdade enunciada sobre o ente se torna assim certeza e que
ela, desde então, desenvolve a pleniude de sua própria essência enquanto
verdade normativa."
A normatividade do Real é pois o modo
da ciência ocidental conforme Heidegger,
ao invés da relativização da certeza a partir da determinação empírica,
e "teórica" nessa nova
acepção, da metodologia
experimental. Com efeito, para esta
ruptura Heidegger não tem qualquer referencial "historial". Se ela se
inicia modestamente na limitação do hipotético, aporta a melhor esclarecimento
na terminologia do falseável. Em todo caso, aquilo para o que ela não tem
princípios enquanto "teoria" é justamente a ontologia do Real, e
nisso podemos ver que a significação do
termo "teoria" inverte-se completamente, de Platão e São Tomás a
Galileu e Popper, como da metafísica à Science.
Podemos conjecturar que o elemento
específico da ciência contemporânea não deve ser determinado relacionando-se à
certeza sem que se precise o campo de sua referência possível. A metafísica
grega não tem menos certeza do que a Escolástica cristã. Mas seria apressado
deduzir, uma vez que somente a referência desta última tem a ver com o mundo
natural posto que criado por Deus, este é o único referencial da certeza quanto
ao imanente.
O mundo natural criado conjuntamente
por Deus e a "matéria" que se comporta de modo autônomo segundo
leis próprias a cada fenômeno, são
bastante irredutíveis do ponto de vista epistemológico. E mesmo se o
homem na cultura começa por dever reunir o disperso, premido pois, por
instigação não científica, descobre ao longo do tempo que a ruptura só se
aprofunda porque o que estava na origem é de fato irredutível e se mostra
sempre mais incontornável.
Assim, mesmo a objeção de que a
teoria, por meio da hipótese e falseamento, justamente tem na verificação a
tendência ao limite, embora não seja "verificável" na acepção de não
mais falseável, não logra reduzir a ciência a um novo tipo de metafísica. Tanto
se pode continuar tentando pelo cristianismo como pelo orientalismo, como se
fez recentemente. A irredutibilidade se
mostra por isso que, independente da ignorância dos especialistas, não há nem
pode haver a ciência especializada da totalidade, de modo que as fronteiras
entre as especializações não são de objeto sem ser metodológicas, como de
domínio. Procede-se como se a física fosse bastante para a tentativa, mas
ocorre de não ser, se o que está em questão é a possibilidade da ciência em
geral.
Mas a pergunta pela causa na emergência
da "cientificidade" permanece subjacente a um certo modo de visar a
história, de modo que nela não há interação, digamos, evenemencial, mas apenas
o processo inerente ao conceito como se fosse
à própria conceptibilidade.
Nesse procedimento, já vimos que
Heidegger antecipou criticamente um
outro modo de se interpretar a conexão de Aristóteles com a ruptura
expressamente pós-aristotélica da ciência experimental. Aquele pelo qual a
independência da matéria e não a idealidade causal é o que se tornou
interpretado tardiamente como "aristotelismo", por uma tradição que
desse modo possibilitou a forma da ciência moderna como algo não constante na
mentalidade grega antiga.
É certo que Heidegger referencia
explicitamente, nesse trecho do Nietzsche 2 (p. 328), apenas a interpretação
vulgar de Aristóteles como alguém que deslocou as ideias platônicas do céu às
coisas elas mesmas. Sua objeção, como vimos, é de que nessa interpretação não
haveria nada de oculto na verdade como "des-ocultação", ao inverso do
que se pode considerar do nexo de Aristóteles com a "A-létheia"
pré-platônica. E desse modo Heidegger afirma que o pensamento da Energeia, como
o que de fato permite considerar assim, implica inversamente que Aristóteles
não faz a physis depender de nada além de sua própria origem.
Ou seja, de forma perspicaz,
Heidegger exprime sua crítica ao positivismo, sinonímia da ciência. Pensamento
que se limita pela certeza e nada supõe de encoberto no que descobre, como
possibilidades ulteriores de concepção, se dizendo o mais material e fiel às
coisas. Mas na verdade dependendo da instância sobre-natural e puramente
idealizada em que reside o Agathon do platonismo.
Podemos considerar que essa é uma
crítica por igual do materialismo, sem temer nos estarmos apressando. Na origem
em que permanece a physis pré-platônica está a auto-interpretação necessária do
Logos. Não se trata de um dizer indemonstrado. A "Alétheia" que se
demonstra enquanto possibilidade da verdade,
se expressa como diferença ontológica, de modo que nenhuma totalização
pode se justificar quanto ao ente, somente enquanto variável da estrutura do
Ser. E se tudo o que se conhece na assim designada história das ideias se deixa
apreender como uma totalização do ente ou esquecimento do ser, esta é também
uma possibilidade estrutural do Ser e só assim se torna possível apreender a
totalidade imanente do "historial" que destitui a dispersão das
posições metafísicas históricas e impede que se as continue tratando como se fossem meros acidentes numa sucessão
puramente contingente.
A estrutura transcendental não se
reduz a visão de mundo na acepção da idealidade, mas como a aristotélica
Energeia / Entelequia (produção/ perfeição) inter-relaciona a semântica à
pragmática do modo de vida.
A nossa questão nesse ponto não
será o questionamento do transcendental heideggeriano, já podendo ser
considerado suficiente o que até aqui desenvolvemos nesse sentido. Importante é
ficarem bem esclarecido o seguinte. A totalidade estrutural implica considerar
heideggeriana uma perspectiva como a que R. D. Laing expressa em "O eu
dividido" (Petrópolis/RJ, Vozes, 1987) , apresentada contudo na linguagem
do "ato intencional",
existencial como ligação de
inerência entre o homem e "seu" mundo. Assim formando uma totalidade,
ambos coexistem necessariamente, sem dissociação possível, a menos que se trate
do diagnóstico da esquizofrenia, e então esse sendo o definiendum
clínico da doença. (p. 18)
O que aqui designamos uma totalidade
estrutural como do Ser é, variável entre as demais, Laing considera pois um ato intencional que inicia uma delas e
impede que a sequência coerente dos
entes predicáveis por ela seja comensurável a qualquer outra. Isso não seria
problemático apenas se considerássemos o ponto de vista singular ou contextual,
e então seria estritamente válido, mas
trata-se de uma posição metodológica. Assim o que a meu ver é o problema,
exemplifica-se pela assunção de Laing segundo a qual, entre um ato intencional
que inicia a escolha de ver o outro como pessoa, e o ato intencional que inicia
a escolha de vê-lo como organismo "há duas Gesgalts experimentais: pessoa
e organismo".
É pois metodologicamente que se
instaura o que considero a aporia, na ambiguidade pela qual trata-se do
mesmo modo de uma propriedade da psicologia do homem comum. Enquanto num
plano ético de relações interpessoais seria realmente violência inaceitável
imputar a "a" o que é o ponto de vista, as ações ou os termos
expressos de "b", é claro que supor
como duas totalidades imiscíveis a "pessoa" como ser de sentido e o
organismo cerebrado é um dualismo inaceitável na perspectiva científica, sim,
porém não sendo esta algo numa estratosfera sem relação com qualquer realidade.
Mas Laing, consciente disso como não
poderia deixar de estar, replica que "não existe dualismo no sentido de
coexistência de duas diferentes essências ou
substâncias no objeto, psique e soma", quando afirma que as duas
instâncias imiscíveis em termos de duas
"Gestalts experimentais". Como poderia ser pensada por nós a
interligação, que é porém o que mais deveríamos apreender se nosso propósito é
estar garantindo conceitualmente a gênese do sentido? Mesmo a hipótese da
esquizofrenia não ser de origem psicológica, mas orgânica, até agora não pode
ser descartada.
Na intepretação de Heidegger sobre o
aristotelismo, como base de sua própria concepção existencial, há portanto uma
ambiguidade que decorre da abstração dos importantes tópicos da terminologia
aristotélica do motor imóvel e da matéria. A tradução de energeia / entelequeia
em termos de produção e perfeição une modo de vida e significado, porém parece
abstrair o devir ao invés de injetá-lo, na medida em que o modo de vida pensável
é a função do significado e não o inverso.
A consequência mais adversa decorreu
na absorção política do existencialismo, a partir dessa ambiguidade que se
reflete numa incapacidade notável para fazer entender o que realmente pensa do
que é o principal do seu discurso, a "pessoa". Pois argumentar que há
instrumentação conceitual diversa do ponto de vista metodológico, entre
ciências naturais e humanas, significa apenas que problemas e objetos são
conceituáveis de modo imanente. Não se seguindo daí porém que não haja devir do
próprio objeto na história dos conceitos, onde vão estar tematizáveis as
inter-relações em nível maior, de princípios que são em cada época os cardeais.
Tampouco significa que o sujeito da crença num princípio é a função deste, ao
contrário do pressuposto existencialista pelo qual a existência do
"seu" mundo de significado atribuído por ela mesma, e a da
"pessoa", dependem exclusivamente uma do outra, durando
conjuntamente.
Que não há devir pensável na Gestalt
inteligível, pode-se ver pela concepção de Laing de que "a primeira visão
que temos de uma coisa determina toda a nossa subsequente maneira de com ela
lidar". (p. 19) Esta é pois uma generalização totalmente indevida da lei
perceptiva que governa figuras ilusórias como aquelas que podemos ver de um
modo ou de outro, como nos célebres exemplos da imagem em que pode ser visto um
pato ou um coelho e a de uma mulher jovem ou uma mulher velha.
Ora, a generalização indevida é
prejudicial não só por que visa reduzir a pessoa a estereótipo, o que já vem
sendo há muito criticado, não logrando pois atingir o nível da personalidade.
Quanto a isso, podemos já apreender a confusão, uma vez que o estereótipo
figurativo, se de um "mundo", é e não é relativo a um "eu"
singular. Assim a expressão confusa de Laing: "Somente o pensamento
existencial procurou combinar a experiência original de cada um em relação
aos outros no mundo de cada um, por meio d eum termo que reflete
corretamente esta totalidade" de pessoa e mundo, sendo o termo a
"existência do homem, o seu ser-no-mundo". (p. 18, grifo meu).
Mas também, se é assim, deveria
conduzir a perspectiva existencial a uma liberdade total dos mundos possíveis,
como dos pontos de vista singulares. Bem inversamente, mantendo de modo contraditório a "esquizofrenia" no
diagnóstico da doença, pratica a pre-determinação política do bom e do
ruim quanto à personalidade já apenas - ao que parece - coletivamente
pré-determinada. Decorre a irritante oposição do sujeito
"desencarnado", como sujeito anormal, e do sujeito
"encarnado" como normalidade tal "sabe que é substancial"
tendo "a sensação de ser corpo", e sensação tão "biologicamente
viva e real" quanto as expressões de Laing
a propósito da fisiologia, cuja crueza não seria necessário reproduzir
aqui.
Ocorre pois no existencialismo a
inversão da defesa ética da privacidade apesar de a princípio podermos tê-la
suposto coerente com ele. A partir dessa
contradição manifesta, seguiram-se "políticas" radicais,
setorizadas, que se voltaram contra as
pessoas reais como mulheres, negros, homossexuais, etc., que não se coadunavam
com o estereótipo de si pre-fabricado por tais grupos, acusando-as de
abstraírem as condições reais do assim pressuposto como tal corpo próprio,
situado conforme a igualmente pressuposta como tal condição.
A "pessoa" "situada" dos existencialismos
militantes é apenas tudo aquilo que se pode aprender numa cartilha - como do ser negro, ser mulher, etc. Assim
como se demonstrou para o discurso nazista, a "lógica" é a
caracterização de tudo em branco e preto, cem ou zero, quando na realidade
poucas circunstâncias cabem em extremos assim.
A
incompatibilização dessas "políticas" que visam apenas redução do
político a uma ética distorcida, para lá de duvidoso, com a legalidade
democrática em prol dos direitos humanos enquanto plataforma objetivável da
contestação real, é total, sendo o que se tornou o alvo preferido do rótulo de
"desencarnado".
Seguidores de Habermas como Seyla
Benhabib não são os únicos nessa vertente que é
designada "existencial", não obstante serem aí bem destacados
exemplares, desde o final dos anos noventa localmente podendo eu testemunhar
pessoalmente o caos da ilegitimidade tanto dos movimentos sociais quanto das
instituições públicas, a que conduziram tais orientações. Afinal nada
incompatíveis com a opressiva dominação do estereótipo info-midiático
congruente ao neoliberalismo econômico, pior que qualquer ditadura antes
conhecida no tocante ao desrespeito da privacidade e direitos constituídos. O
que não surpreende, já que não existe o "ser humano" ao ver do
estereótipo, além do seu igual de panelinha.
Porém o pós-estruturalismo como opção contrária é igualmente inconsistente.
Se a esquizofrenia é aí a singularidade ilimitada, trata-se de puro idealismo
igualmente totalizante e esteretipado. A oposição obsoleta de gemeinschaft e
geselschaft radicaliza-se a ponto de
Foucault, ignorando as provas contundentes de que o crime não é prioritamente
praticado por pessoas pobres, supor que a oposição de pessoas pobres a
criminosos é um erro induzido pela burguesia de modo que o criminoso é um
proletário.
A oposição de gemeinschaft e
geselschaft orienta pois tanto os existencialistas como o pós-estruturalismo,
ainda que por interpretações contrárias, assim como as de Lukács e Althusser
quanto à ideologia: "coisificação" do que é humanamente identitário,
ou "humanização" identitária do que é puramente objetivo. Em todo
caso, a oposição atinge à ciência correntemente praticada, como de todo um
positivismo oitoscentista "burguês", o que já há muito não é
aceitável pela evidência de que não se trata de qualquer todo homogêneo, fora
do devir, independente da pluralidade teórica e metodológica.
Por fim, a projeção de um super-poder
planetário, ignorando de todo o business de "divertimento" midiático,
foi por Foucault atingir a organização da saúde enquanto desse modo
"científica". Assim auxiliou ele bastante aos cortes neoliberais com
o compromisso social, de modo que vai ao médico hoje em dia não quem precisa,
mas quem pode pagar - esquecendo a classe dos psicóticos opressores que a
doença não é isolável. Mas se o lembramos ripostam os foucaultianos que essa
descoberta foi o trampolim da paranóia controladora a que reduzem a organização
social legal contemporânea. Como vimos, defendendo porém bastante
anacronicamente que as aristocráticas monarquias da época clássica, os séculos XVII
e XVIII, eram muito clementes com os assim designados desajustados. O que uma
leitura de Maurice Dobb contradiz frontalmente,
como até a História da Loucura do próprio Foucault.
Em todo caso, a crítica de Heidegger
à ciência restrita a positivismo se vincula ao argumento paralelo à sua
interpretação de Aristóteles, que vimos estreitamente relacionada à
hermenêutica de Ser e Tempo. Este se conclui desde o parágrafo 77 do volume 2,
com uma auto-defesa que se utiliza dos aristocráticos termos do Conde de York,
ele mesmo apresentado como o melhor enunciador das ideias de Dilthey. Aqui o
elogio de Aristóteles vai de par com o de Platão (op. cit. p. 210). Servem eles
de veículo à palavra de ordem da ciência
que o conde preconiza, contrariamente à correntemente praticada. Os princípios
defendidos aí são a redução da ciência à pedagogia ao invés de sua automomia
sistemática, e a auto-reflexão como meio primário de conhecimento, a análise
sendo apenas o instrumento. (p. 206, 7). A ambiguidade existencial que acima
consideramos, torna-se aqui exemplificável.
A auto-reflexão do conde
heideggeriano é individualizante, porém o indivíduo não pode ser jamais
considerado um "eu" da "consciência" dita "em
geral", a "Bewusstsein
"como estado de vigília ou auto-apreensão como singular, somente da qual
poderíamos iniciar qualquer extrapolação à personalidade singular. Mas sim,
heideggerianamente sempre só como Gewissen, ou consciência moral. Logo, a
auto-reflexão só pode ser inteligível se o resultado é um estereótipo coletivo,
da etnia, casta ou condição qualquer
determinada como uma estrutura sócio-historial
do Ser - enquanto para Husserl a mesma redução daria como resultado
categorias lógico-transcendentais, igualmente hostis à psicologia.
A raiz da oposição de gemeinschaft
(comunidade primitiva) e geselschaft (sociedade moderna legal) explica o que
assim se configura. Ainda que oriunda da ciência social em torno da centralidade do "tipo
ideal" à Weber, como na terminologia específica, que vem ao que parece de
Tönnies, a oposição foi um verdadeiro princípio epocal. Na psicologia e
especialmente na psicanálise, a interpretação do comportamento infantil era
modelada pela informação do comportamento de assim classificados povos
primitivos oriunda da antropologia.
Wallon ("As origens do caráter
na criança") atribui a linguagem pré-egológica da criança à imitação,
argumentando que esta é a fórmula mais adequada para interpretar o que ocorre
na típica arte de máscaras de tribos africanas. Já
vimos o bastante a propósito com relação a Freud.
Mas o importante aqui é notar a
então atribuída psicologia própria da gemeinschaft primitiva, em termos de seu
situamento como "pré-egológico" -
assim como o estado de crianças civilizadas antes dos três anos ou da
psicopatologia qualquer.
A carência de ego desenvolvido não é
assim um simples estado de indeterminação quanto ao sentido. É certo que sua
interpretação depende da escola de psicologia de que se trata, com a variante
psicanalítica. E também que as situações concretas estudadas evidentemente não
são as mesmas numa tribo "selvagem", numa criança normal ou num doente mental ocidentais. O que é
interpretado em comum são os esquemas orientadores da ação. Sempre se preconizam
fases do desenvolvimento, e, além disso, uma pre-disposição do sentido próprio
a cada fase, a qual sendo irredutível à normalidade dotada de ego, é então
alter-orientada. Desde Melanie Klein a predisposição fásica pode remontar aos
primeiros instantes da vida, ou mesmo ao que seria o sentimento de unidade
total intra-uterino em relação a que o nascimento é uma ruptura traumática.
Ou melhor, é orientada de um modo
que, expressando a inexistência da atribuição da individualidade separada da
alteridade, subsume-se inteiramente a esta última. Assim Wallon ("La consciencia y la vida
subconsciente", Buenos Aires, Editorial Kapelusz, 1948, p. 37, 8): "A
afirmação do eu implica a oposição do não-eu. Não pode chegar a ser afirmação
da pessoa senão por oposição ao outro, ao social, como diz Janet. Tem, pois por
condição, a vida coletiva, mas aparentemente, não existe nos animais que
existem em esado gregário ou em sociedade. Ainda em povoações humanas em estado
primitivo, em que as funçõe mentais não se expressam mais que no quadro de
concepções e práticas rituais, em que os ges tos expressivos de cada um não são mais que um elemento das
cenas coletivas que tradeuzem e dramatizam
as emoções comuns, segundo toda verossemelhança, os sentimentos de
diferenciação pessoal se mantem em estado rudimentar".
E a psicologia infantil também
demonstra que "a oposiçaõ do eu e do não-eu não é uma condição exigível
para toda manifestação de consciência". Uma menina castiga sua boneca por
culpas que atribui porém a si mesma, enquanto uma outra bate na amiguinha mas
se queixa incontinente de que esta lhe bateu. Estados de dupla personalidade ou
ação sob hipnose - quando o agente não é capaz de se recordar do que ou porque
fez contudo tendo agido de modo inteiramente eficaz - são invocados como
exemplos de ausência da condição de subjetividade. Quanto a esta, enquanto
normalidade do sujeito epistêmico - cujas funções incluem a produção científica
- é ela mesma pois função do
desenvolviemento social.
Esse estereótipo primitivo pré-egológico,
capaz apenas de gestos coletivos, como
de alguma generalizável condição originária em que hoje já não cremos muito,
era contudo interpretável de maneira plausível como se fôssemos mais coerente
com sociedades de castas do que com
aquelas em que temos a oportunidade de desenvolver nossa personalidade pessoal,
e sobretudo a consciência desta sendo algo sempre dependente de circunstâncias
especiais.
Porém ao contrário dessa previsão, o
estudo dos conflitos sociais em sociedades não moderno-ocidentais não é
infrutífero. Não se comprova que esteja tão coletivamente de acordo, um
elemento da casta discriminada - tão severamente na Índia pré-nacional que
um vassoureiro lá devia agitar a
vassoura e gritar sempre que alguém de casta superior passasse perto,
prevenindo assim a possibilidade de
contato a fim de não ser cupabilizado por facilitá-lo, sendo
inteiramente proibido. Marshal Macluham observou com impressionante lucidez
como o business de mídia moderno opera um retrocesso pré-egológico total. Mas
devemos notar que - por isso mesmo,
sendo o business do alto capitalismo desenvolvido - um tal estado é
conceituável na psicologia, não necessariamente caucionando classificações de
antropologia social.
Vincula Heidegger, como vimos, uma tese da distorção
do aristotelismo como meio pelo qual este foi adscrito à história da
metafísica, a qual não se termina na modernidade pelo advento da ciência
positiva, ao modo de um processo interrompido e jamais retomado. Mas sim é o
que possibilita e embasa a independência das ciências como unicamente a
objetificação do ente.
O esquecimento do ser que a
metafísica inaugurou com o platonismo
vem à completude nas ciências positivas da modernidade por isso que nelas nem
mesmo se conserva a necessidade de mencionar o Ser, ainda que na paralogia
metafísica decorria apenas, na disposição temática do Ser, a totalização do
ente. E a possibilidade dessa anulação total, como vimos, Heidegger situou na
interpretação cristã do aristotelismo tomista, como interpretação conceitual
que, fazendo lugar à onipotência do Deus criador, dela decorreu a mais
inabalável confiança já experimentada pelo homem na realidade imutável e
objetivável do seu mundo.
Naquilo que designamos a sua
tese da distorção, conforme a qual só por deturpações explicitáveis da tradução
latina é que Aristóteles se integrou na
história das sucessivas posições metafísicas após Platão, Heidegger tornou
irredutíveis Platão e Aristóteles, mas de modo que o segundo não é ignorante do
primeiro. E sim retoma a autenticidade grega do pensamento da
"Alétheia" por uma crítica consciente do que a metafísica enseja. Um
materialismo aristotélico como propedêutica não "esquecida" mas
perfeitamente rastreável da ciência positiva não é que seja de todo falso. Mas
a interpretação autêntica de um vir a ser inautêntico, como de um Aristóteles
que apenas aperfeiçoa Platão mesmo que fosse pelo enunciado da inversão
materialista do idealismo platônico. Restaria esquecido o Ser, como a estrutura
"historial" da História, na
própria lembrança da unidade histórica de Ocidente moderno e Grécia
Antiga.
Examinando essa unidade porém, Ernst
Bloch desloca a geografia "historial" do heideggerianismo. Autêntico
ou não, o vínculo entre um possível materialismo aristotélico e a ciência
moderna existe, é comprovável por documentação conservada, mas não pertence à
história do Ocidente. Nem decorre, digamos, por um vínculo suprassumido na
síntese Iluminista ou primeiro plano da cientificidade plenificada ou
"modernidade", como era o
tomismo medieval na visão heideggeriana.
Segundo Bloch , em seu "Avicena e
a esquerda aristotélica" (Madrid, Editorial ciencia nova, 1966), seria
inverossímil que o Oriente-próximo
apenas conservasse intactos, sem nada poder acrescentar de seu, os textos da
Antiguidade clássica filosófica, que ao retornarem daí ao Ocidente na baixa
Idade Média puderam fecundar uma nova cultura científica. Tanto no
Oriente-próximo, entre a Síria, a Persia e o mundo árabe que então se estendia
até a Espanha, não houve qualquer inexplicável inércia humana como incapacidade
de produzir visões próprias dos textos que se propagavam; quanto os resultados
dessa produção bem nutrida, formando uma linhagem aristotélica de todo independente
da que o Ocidente consolidara em São Tomás, tornam-se preponderantes na ruptura
pós-metafísica da ciência de um modo direto e bem depois de Descartes ou mesmo
de Galileu, como o fermento do próprio Auflkaerung setescentista.
Entre Heidegger e Bloch, em comum
constatamos a ligação de Aristóteles e a modernidade da ciência. Mas não se
trata do mesmo contexto de interpretação aristotélica. Conforme Bloch, o
referencial importante, a ponte que liga diretamente o peripatetismo grego antigo
e o Iluminismo contemporâneo, é a obra de Avicena.
Bloch situa primeiro o universo
histórico em que a produção de Avicena pôde vicejar na altura do ano mil. Uma síntese
da antiga religião da luz iraniana, da cultura árabe e da filosofia aristotélica,
é atual pelo século VIII, na Bagdad do califa Al Mansur. A síntese permitia conservar a lucidez
conceitual da filosofia grega, justamente porque o culto da luz persa pregava,
conforme Bloch, " a crença de que através da razão ativa e das instituições
sociais poderia o homem prestar a melhor ajuda ao espírito do bem" contra o espírito das trevas. (p. 15)
Bloch ressalta assim que este ambiente
histórico se caracteriza por reunir o apego do livro ao do comércio e do
ambiente cosmopolita de mercado. Na Síria manteve-se uma riquíssima cultura dos
finais da Antiguidade, e médicos sírios cristãos existiam já antes da conversão
islâmica do oriente, mesmo após continuando a traduzir os filósofos gregos em
árabe.
A Pérsia rural obteve surpreendente
expressão letrada quando acolheu os últimos filósofos gregos que haviam sido
expulsos por Justiniano - lembrando que este, imperador em Bizâncio, decretara
o fechamento das escolas filosóficas de Atenas em 529 ac. Não obstante, já
entre os governantes sassânidas que protagonizam essa acolhida se fez ouvir a
oposição obscurantista - o mesmo Cosroe I que a autorizou, após se dotar do
nome teológico de Nuschirván (o imortal) passou a oprimir as seitas
naturalistas e comunistas, devido à pressão da casta sacerdotal que se
notabilizava por um ritual supersticioso bastante sombrio, avesso à velha
religião da luz típica da zona rural.
A mentalidade liberal típica do
califado de Al-Mansur em Bagdad, assim como em Basra e na Bujara em que nasceu
Avicena, testemunha entretanto da permanência dos cultos da luz, como da
cultura anterior à prédica do Corão. O califado de Al-Mansur "florescendo como sede da mais avançada
civilização de sua época, assim como de uma afirmação da cultura mundana frente
à ortodoxia inimiga da razão", a mentalidade liberal aí emergente se
propagou logo por todo o imenso território da conquista árabe, ao longínquo
extremo ocidental ibérico, em Córdoba, assim como em direções opostas, à
Índia e ao Sul da Europa.
A filosofia, pois, segundo Bloch,
"não está em território islâmico assim como alguma exótica planta de
inverno. Justamente nele tendo a sua tradição greco-síria. Tudo isso explica e
envolve essa peculiaridade dos mais assinalados pensadores islâmicos, que os
faz serem antes médicos que monges, antes naturalistas do que teólogos".
Ao contrário do Ocidente, onde
inclinações científico-naturais eram tidas por anormais, predominando antes a
teologia, na escolástica árabe é a ciência natural e não a teologia que
predomina mesmo quando se está a interpretar os trechos do Corão. Conforme o
costume histórico local, o califa gosta
de enfeitar o seu poderio com a ciência que ele patrocina, desdenhando qualquer
das veleidades de um papa.
Al Mansur inicia pois, um meio de
estudo e pesquisa que culmina numa mentalidade atribuidora de um caráter
absoluto à ciência. Nesse meio Aristóteles foi consagrado mestre absoluto da
Razão, e a religião, assim como a pregação maometana, arrolada na classe dos
mitos da educação infantil assim como tudo o que pode se veicular por
parábolas. A consagração do mestre aqui é pois bem irredutível ao atributo
ocidental de "praecursor
Christi". De nenhum modo um precursor maometano, Aristóteles em pessoa
devia ser considerado "a encarnação genuína da razão humana", como
para Avicena. (p. 18)
A
ressalva da singularidade desse meio como de preservação do influxo
iraniano pré-islâmico é importante. Nessa circunstância, quatro vertentes se
consolidaram com o advento do islamismo.
Uma vez que o islamismo árabe,
similarmente à escolástica ocidental, tem por um princípio bastante popular a
superiorioridade do conteúdo da fé relativamente ao da razão, por não ser o
conteúdo da fé acessível ao conhecimento natural, nessa vertente da religião
oficial tudo que possa ser considerado fruto raciocínio conforme a evidência
natural não é que deixasse de ter
validez, mas se considerava de comezinha inferioridade a conteúdos de
"verdade" sobrenatural. Esse princípio da fé suprarracional, conforme
Bloch, é congruente à ortodoxia islâmica e
ao medievo ocidental desde o evangelho irracionalista de Tertuliano ao
aristotelismo subordinado à fé, de São Tomás.
Inversamente, onde se preservou a
preminência do influxo naturalista pré-islâmico, produziu-se uma unidade
substancial entre os conceitos de conhecimento religioso e luz racional suprema, não havendo nada
superior à natureza. Os irmãos puros de Basra e os Sufies de origem hindu,
ambas as seitas que influenciam Avicena, muito relacionaram o neoplatonismo com
a antiga religião da luz, e do helenismo preservaram também o impulso gnóstico
da salvação pelo saber.
Os dois movimentos do emanatismo
plotiniano, o afastamento em direção ao mundo e o regresso ao uno, cuja relação
com as hipostasiadas inteligência, alma e matéria se figurava pela relação da
fonte de luz com suas estações de reflexão cada vez mais longínquas, formavam o
núcleo do ensinamento do livro de viagens à luz originária, dos irmãos de
Basra, ensinando o caminho de regresso. Os sufies praticavam a resolução da fé
positiva na contemplação interna do todo-uno. Ambas as orientações consideravam
a religião como graus na pedagogia da verdade espiritual, que porém, se
considerados apenas por si mesmos, tornar-se-iam "ofuscações da luz,
países falaciosos". (p. 20)
Essas formulações espiritualistas
que, eivadas de neoplatonismo, conservavam a velha concepção do Irã
pré-islâmico, em si nada tendo de contrário à pregação religiosa, favoreciam
paralelamente movimentos de radical afastamento da fé por conduzirem em todo
caso a um rechaço da classe sacerdotal como veículo da verdade real adequada à
mente adulta, limitando-a a uma tarefa propedêutica. Ao inverso da unidade de
fé e saber que liberava contudo totalmente a este último, a atitude destes
místicos era radicalmente anticlerical, expressando-se em movimentos populares
contra a nobreza e a classe sacerdotal, mas também aglutinando na classe
dominante uma oposição duradoura contra o islamismo.
Derviches como Abu Said pregavam
assim a destruição dos templos da religião oficial como a consumação da obra
sectária, ao mesmo tempo que um obscurantismo contrário à razão: "enquanto
a fé e a incredulidade não sejam um e o mesmo, nenhum homem chegará a
converter-se em um verdadeiro muçulmano". (20)
Enquanto Algazel protagoniza a
deriva desse misticismo a um obscurantismo da pura fé, tão inteiramente
contrário ao saber positivo, que até a obra de Avicena sofreu as consequências,
não obstante Algazel ter sido seu iniciador na filosofia quando exercia a
docência em Bagdad.
Nessa deriva o obscurantismo místico
se fazia aliado da ortodoxia contra a razão, contaminando a seita dos sufies a
que Algazel se filiou tardiamente.
Influenciou ele assim a mudança de orientação sufie, que se tornou
anti-intelectualista, ortodoxa e transcendente. Conforme Bloch, ensinava
"o renegado da filosofia assim surgido", ao contrário da tarefa propedêutica da fé
relativamente à plena luz da razão, que o sol ao levantar-se suplantava
Saturno, o planeta das cavilações, do estado desperto e da ciência. O sol sendo
o Corão, saturnais ou malditas deviam ser consideradas as doutrinas racionais
que então se condensavam na obra de Avicena: a eternidade da matéria, a
inviolabilidade das leis da causalidade, a impossibilidade da ressurreição dos
mortos. (p. 22)
Podemos conjecturar que aquilo que se
esboçava, nessa guinada do misticismo à ortodoxia, era um jesto de autodefesa, se
lembrarmos que nos outros meios em que dominava ao invés da antiga cultura
nacional, a nova classe sacerdotal maometana, na frente ampla alternativa, dos
livres pensadores à mística não-ortodoxa, "quando um místico se passava
por sutil ao deduzir as consequências da fusão com o divino, comprova-se que
travava conhecimento com o verdugo".
(p. 21)
Em todo caso, Bréhier relativiza um
pouco essa convergência tranquila do misticismo não-ortodoxo, oriundo da fusão
greco-sírio-persa da filosofia com o culto local remanescente, documentada por
Bloch.
Para Bréhier, se a conquista árabe
impõe o Corão e sua exegese aos países da velha cultura helenística, Síria,
Egito e Persia, e se nestes até o século VI
eram vistos filósofos ocupados em
comentar Platão e Aristóteles, a sorte das influências recíprocas em matéria
intelectual vem de par com o modo mesmo pelo qual se organizou o governo do imenso território conquistado. Os árabes o
ocupavam militarmente, porém localmente sendo poucos e guardando os quadros administrativos e
sociais já existentes, o império se partilhava em soberanias
independentes, de modo que o califa em
Bagdad, por exemplo, observa em seu serviço "toda a organização financeira
e política das antigas soberanias persas". (op. cit, p. 543)
Similarmente, convertidos ao islamismo
e escrevendo em árabe, os filósofos muçulmanos que não são sempre de origem
semítica encontram parte de seus métodos e temas de meditação tanto em obras
gregas como de cristãos nestorianos e tradições do Mazda persa, amalgamadas ao pensamento hindu conforme o
misticismo dos sufies.
Até aqui, temos apenas apenas uma
introdução que esclarece bem o que já vimos com Bloch. Mas na perspectiva de
Bréhier, as relações de teologia, misticismo e filosofia são algo diversas.
Não considera Bréhier que o
Corão possa ter suscitado qualquer "teologia dogmática análoga à que
dominava na Europa", por várias razões. E principalmente porque a maioria
das controvérsias teológicas ocidentais
vinham de questões que o maometismo descarta implicitamente, como as controvérsia trinitária, cristológica
e da graça. Afirma apenas a suprema unidade de Deus e o estatuto de Maomé que,
como seu profeta, consuma as obras de Abraão e Jesus.
Reflete a teologia do Corão segundo
Bréhier apenas sobre duas questões. A negação da multiplicidade em Deus, de que
decorre a controvérsia a propósito dos seus atributos como bondade, sabedoria e
justiça, alguns negando-os simplesmente
e outros considerando-os apenas maneiras ou modos de ser sob os quais a
essência divina torna-se aparente, porém
nada acrescentando a ela ainda que não sendo de todo negados. E negação
de todo poder outro relativamente ao de Deus, decorrendo os problemas do livre
arbítrio e da necessidade natural determinista.
A reprovação da tese do livre
arbítrio provocou a dissidência motazilita de Wazil, em inícios do século oito,
que o afirma visando evitar creditar o mal a Deus, mas assim também concedendo o progresso moral
do homem, permitindo atribuir um estado intermediário entre o crente ímpio e o
justo, como do crente pecador.
O indeterminismo foi porém o princípio da
religião contrária às tradições pagãs da filosofia grega.
Assim vemos, pelo destaque de
Bréhier à Escola de Acari, preconizando um atomismo regido exclusivamente pela
vontade de Deus, a sua perspectiva do Alcorão como teologia ela mesma
conciliatória de fé e razão: "Nesse atomismo, que é para a glória de Alá,
nada se acha que lembre o racionalismo de Epicuro" (p. 546).
Na perspectiva de Bréhier, ao
inverso do Ocidente, onde a conciliação é a obra capital da filosofia, na
cultura árabe a influência helênica é que é contrária à teologia, estudando ele
Al Kindi, Al Farabi, Avicena, Algazel (Al Gazali) e na Espanha, Averrois. Ora,
aprofundando a oposição dessa perspectiva a uma interpretação como a de Bloch,
Bréhier concentra-se no fato de que, nutrindo-se da abundante colheita dos
tradutores sírios e nestorianos dos filósofos gregos, e posteriormente, da
escola patrocinada pelo califado em Bagdad, a cultura árabe se utiliza
entretanto de um modo sui generis desse material. Concentra a partir
daqui Bréhier toda a relevância temática da determinação do destino do Ocidente
pela conquista árabe, na recepção oriental de Aristóteles, a qual, porém, faz
ver que "foi dominada por dois tratados a ele falsamente atribuídos".
Trata-se, primeiro, da obra
designada "Teologia de Aristóteles", em que extratos das Enéadas de Plotino
são prefaciados por uma explicação da doutrina que nomeia em vez do uno, Deus,
e à matéria, "natureza",
conservando a inteligência e a alma, correspondendo aos quatro fatores porém as
quatro causas de Aristóteles: final, material, formal e eficiente. E o segundo tratado, intitulado "Livro
das Causas", é na realidade a
tradução do "Elementos de
Teologia", do igualmente neoplatônico Proclo.
A essas obras assim aparentemente
consideradas espúrias, ao invés de possivelmente orientação de escola, a
interpretação árabe reúne da filosofia grega aristotélica segundo Bréhier
apenas os livros delta da Metafísica, três do De Anima, e oito da Física, que
versa sobre a inteligência motora dos céus. Ao ver de Bréhier porém, "não se pode conceber nada de mais
diferente, sob certo aspecto, do que o espírito de Aristóteles e o do
neoplatonismo: de uma parte, um empirismo racionalista, uma técnica lógica, uma
orientação positiva; de outra parte um tipo de mitologia de forças espirituais
onde o universo aparece banhado e que se atinge por intuição" (p. 547)
Não há nem pode haver, portanto,
qualquer nexo da transmissão da filosofia, entre o oriente e o ocidente na
perspectiva de Bréhier, bem inversa assim à de Bloch. Se o trecho a propósito
se inicia com a consideração de que "os destinos do Ocidente durante a
Idade Média foram em parte determinados pela conquista árabe", ao menos
quanto à questão intelectual podemos considerar que se trata de uma ironia, à
parte a evidência da dominação territorial e do que dela se seguiu.
Ou ao menos, se alguma convergência
não pode ser negada, a partir da reintrodução dos textos gregos no Ocidente
traduzidos do árabe a partir dos trabalhos nesse sentido iniciados em Toledo no
século XII, assim como da familiaridade dos pensadores ocidentais com as obras
dos filóofos do oriente, Bréhier a descarta completamente da orientação
propriamente filosófica. Esta cujo tipo se axiomatiza na refutação iniciada por
São Alberto Magno, o mestre de São Tomás de Aquino, e por este objetivada, da
atribuição oriental dos tratados neoplatônicos a Aristóteles.
Bréhier a localiza pois apenas, num
comentário ligeiro, entre o segundo dos
discípulos de São Alberto, Ulrich de Strasbourg, sendo o primeiro citado Hugo de
Satrasbourg. Ambos ainda mal conhecidos, porém
aquele se aproximando "bem mais que seu mestre do peripatetismo
árabe" e assim "iniciando o movimento místico que vai até Mestre
Eckart". (p. 585)
Ao dominicano Mestre Eckart, porém,
Bréhier observa, por um lado, como o espiritualismo mais profundo desde
Plotino, e assim algo só coerente com a trajetória do misticismo medieval
alemão, cujas formas literárias e índole geral contrastam fortemente com o
estudo universitário da filosofia , de modo que não se estranha a rejeição de
tantas de suas teses a partir da oposição que lhe moveram os franciscanos (p.
648).
Por outro lado, Bréhier
desenvolvendo os tópicos da mística de Eckart -
em que a negação da atribuição de existência como realidade autônoma,
tanto às criaturas quanto a Deus, embasa a mística do retorno delas a este só
existente - paralelamente, pois, ao
plotinismo.
A tônica da exposição de Bréhier
sobre Mestre Eckart é a radical oposição desse pensamento místico, não
diretamente dependente de Plotino mas em estreita afinidade com ele, à
trajetória do aristotelismo ocidental, que a essa altura já se tipifica em
torno do empirismo nominalista de Guilherme de Ockan.
Não haveria nessa espécie aqui, nessa
abstração da diferença ente espírito e matéria,
um motivo da continuação da interpretação materialista de Aristóteles
que o Oriente aviceniano introduzira, conforme Bloch? Ou ao menos, uma
continuação da via naturalista e racional de que essa interpretação depende?
Mas nessa trajetória muito excêntrica do aristotelismo ocidental, Bréhier vê apenas a história da consolidação
da política universitária papal, que Aristóteles protagoniza como "a história da cristianização de
Aristóteles" que se torna o que a Histoire principia a expor.
A princípio, São Alberto Magno e São
Tomás de Aquino são os iniciadores injustiçados, mas se depois eles são
recuperados e se tornam, de excluídos a cânon juramentado, é porque desde o
princípio preocupavam-se em expurgar as interpretações inconciliáveis com o
dogma católico. Nesse início, pois, até eles estavam cientes de que o
aristotelismo, longe de servir à política universitária dos papas, ameaçava vir
a er grande obstáculo". Bréhier não
deixa de comentar assim que o próprio Alberto Magno denunciara "as
influência da física aristotélica sobre as ideias heterodoxas de David de
Dinant" (p. 570).
A
exposição aí informa pois, o curso dos acontecimentos, desencadeado pela
reintrodução dos principais textos aristotélicos no Ocidente, desde a proibição
de se ler Aristóteles, exceto as obras lógicas e a ética, até a permissão de
editar obras expurgadas de conteúdos contrários à fé, e, em 1255, a inclusão curricular de Aristóteles
nos programas das Faculdades de Artes, passando-se a condenar apenas a
circulação de interpretações do peripatetismo contrárias à oficial.
Porém não é bem assim que Bloch
referencia a alusão de São Alberto Magno
a David de Dinant. Relacionado à heresia panteísta de Almarico, São Alberto
atribuía a ele a concepção de que "Deus, hyle e mens una sola substantia
sunt", enquanto São Tomás julgava "stultissime possuint deum esse
materia prima". Mas se a igreja sabe bem que essa não é heresia igual a
dos visionários, por sua concepção da matéria inerente ao espírito, conforme
Bloch, "em David de Dinan o Espírito Santo trazia consigo elementos
surpreendentes. Antes parecia vir de Bagdad e Córdoba, de Avicena e Averrois,
do que do céu." (op. cit. p. 48)
Não houve consequências tangíveis,
certamente, entre David de Dinant e o Renascimento, devido ao trabalho
preventivo das fogueiras, porém só até
Giordano Bruno, quando os rigores da inquisição não se provaram bastantes para
impedir a marcha da revolução no saber.
Entre David e Bruno, Bloch situa
porém, muito antes desse período de trevas que impuseram o interregno do
silêncio, a obra do judeu espanhol Avicebron (Salomão Ben Gebirol) como ponto
de contato. Ele seria, ao ver de Bloch, a fusão dos dois destacados pensadores,
antes que estes viessem a expressar-se. A evidência que culmina nessa
expressão, pela qual "ao ser assim Deus, a matéria e o corpo
substancialmente um e o mesmo, e não sendo Deus outra coisa que a matéria
primeira, da qual tudo surgiu, na qual todas as formas se acham
compreendidas" é conforme Bloch que " também no ocidente a forma
havia perdido a partida frente à matéria".
Vemos pois que a interpretação de
Aristóteles por Bréhier é materialista,
ou ao menos, visando enquanto empirismo racional a uma orientação estritamente
positiva. Mas a seu ver essa orientação é oposta radicalmente à trajetória do
misticismo espiritualista em que ele situa a origem neoplatônica. A oposição
grosso modo de materialismo e espiritualismo constroi assim a dicotomia mais
intransponível entre Ocidente e Oriente. Versão tão familiar a toda
interpretação do desenvolvimento científico que podemos considerá-la um cromo
da "modernidade".
Bloch, inversamente, faz o
materialismo penetrar no Ocidente a partir do aristotelismo árabe que assim
procedeu uma interpretação original por um lado, fiel ao peripatetismo helênico
mais tardio por outro, mas enriquecida pela preponderância do neoplatonismo não
como algo espúrio e falaciosamente acrescentado. Mas sim por uma necessidade
inerente à ultrapassagem das dificuldades que a posição de Aristóteles
representa como filósofo da efetividade do ideal, da relação intrínseca de
forma e matéria. Necessidade que a filosofia árabe expressou claramente, e
enfrentou com lucidez conforme o que devemos averiguar à frente, na exposição
de Bloch a propósito da convergência conceitual de Avicena a Bruno.
Nessa convergência não há obstáculo
algum em acrescentarmos muito do Zaratustra nietzschiano, intuição que se não foi a de Bloch, permite
ele documentar muito oportunamente, como espero ser possível demonstrar.
Em
todo caso, Bloch assegura assim uma continuidade mais sólida ainda do
"Velho Mundo" consigo mesmo,
sem nada de verdadeira ruptura provinda da descoberta do "Novo
Mundo", do que o purismo ocidentalista de Bréhier logra obter. De resto, a
ancilose da especulação a Leste, tão logo os frutos de sua esquerda
aristotélica puderam ser colhidos na forma de uma verdadeira ciência
experimental favorecida a Oeste por um novo meio de expansão comercial
colonialista, permite fazer da versão de
Bloch um ocidentalismo ainda mais estratégico.
Não obstante, Bréhier retoma o mesmo
projeto unitário quando visa a modernidade como lugar de eclosão da
convergência de matéria e espírito, como se propriamente ocidental, de modo que
podemos com ele complementar certas intuições de Bloch. Isso, na medida em que
trata Bréhier o Iluminismo setescentista ele mesmo em termos de um ambiente
clivado por um misticismo melhor conhecido como pré-romântico. Considerado por
Bréhier entretanto algo novo, devido precisamente ao aspecto materialista que
já não se separa do espiritual por estar sendo este transformado em
funcionamento nervoso, podemos notar como aporta ao romantismo de Schelling, e,
por aí, evidenciar a relação que propomos
com a filosofia de Nietzsche.
Nessa trajetória do misticismo
materialista do Iluminismo ao Romantismo, introduz-se o uso da potência como força impulsiva que
embasa os primeiros conceitos de "inconsciente". As pistas que Bloch
nos permitem reunir são suficientes para tornar o influxo oriental um vínculo
documentável entre o aristotelismo e o nietzscheísmo pós-positivista, ainda que
não na versão tomista.
Na verdade, tratando do ponto de
vista histórico a unidade do Velho Mundo que Bloch tão bem tematiza, não deveria surpreender, se lembrarmos que o
neoplatonismo que serve aí de pivô coalesce na Roma helenística, ambiente fortemente
orientalizado, não sendo Plotino de procedência ocidental, mas egípcia, e tendo
ele viajado à Pérsia após o tempo do seu aprendizado com Amonio Saccas em
Alexandria. "Para abeberar-se nas fontes da sabedoria persa e hindu",
conforme Mondolfo; participando da expedição do imperador contra os persas,
segundo Bréhier.
O
fato é que somente após a viagem à Persia, Plotino encaminhou-se a Roma
para fundar escola, tornando-se então célebre e exercendo influência sobre o
imperador Galiano. A religião da luz persa é assim convergente aos conhecimentos
plotinianos mesmo antes que ela fosse o viés de sua aproximação à filosofia de
Aristóteles.
Se alguns consideram que o
neoplatonismo das Enéadas é mais um neoaristotelismo, Bréhier apresenta Plotino
em total afinidade à critica estoica do princípio aristotélico, que torna o Um
e o Ser sempre convertíveis. Afirmando o estoicismo, ao invés, que "o um é
princípio do Ser". ("Histoire de la philophie", Paris, Puf,
1989, p. 399)
Termos que bem poderiam ter servido
de inspiração ao postulado do "En" heideggeriano como princípio do
pensamento pré-socrático, desenvolvendo-se entre a "Physis", o
"Logos" e a "Alétheia", mas
abrangendo Heidegger nessa mentalidade também a Aristóteles.
Seria pois necessário indagar do
sentido da crítica que Bréhier torna coextensiva ao pensamento plotiniano. É
segundo este de fato um riposte a uma
filosofia que se quer na totalidade refutar, ou apenas a uma parte que para
melhor salvar o todo, se considera necessário corrigir?
Em todo caso, seria falso
atribuir a Aristóteles a ignorância da cisão platônica entre as ideias e o Bem
acima delas, como o princípio que a cada uma dota precisamente de sua
identitária unidade.
Assim o texto da República interdita
a interpretação bem moderna das ideias como cópias das coisas, ao invés de ser
o contrário, de modo que o platonismo obtem a fórmula tão almejada por
Sócrates, segundo a qual aquilo que se realiza no conhecimento se torna
moralidade espiritual. E não parece haver outro sentido para o estranho
empreendimento da postulação do Agathon superior ao próprio Ser enquanto
propriedade exclusiva das ideias.
Não obstante a teoria aristotélica
da abstração ideativa a partir do visível, não creio que Aristóteles houvesse
antecipado a representação ideísta moderna, isto é, aquela que requer uma explicação psicológica subjetiva
do conhecimento racional. Não creio ser forçado supor que ele também precisasse
obter uma garantia contra o fenomenismo em geral. A "hormé" é esse
princípio, sendo a "aspiração" dos entes a esse Bem ou Uno que é o
seu Deus Motor Imóvel.
A garantia da moralidade
intrínseca à ordem do saber não é menor em Aristóteles do que em Platão, mesmo
que já não se trate de anamnese. É por essa via da necessidade da obra
humanística, que torna a conjugar ética e política de modo a votar a autonomia
'sofística' delas à condenação política de classe, que o princípio além do ser
se apresenta como um modo de fazer do
ente qualquer a parte de um todo, funcionando como a explicação de como são
ligados.
Ora, pelo que informa de início o
próprio Bréhier, não obstante esse aspecto ficar em seguida algo encoberto,
podemos notar que a "visão do universo" plotiniana é mais que a de Aristóteles
cindida entre realidades distintas, se para este há apenas a divisão do sub-
e do supralunar na escala da proximidade
de Deus como da identidade dos seres. Conservando o referencial de concepções
comuns à época, Bréhier emparelha
Plotino ao pensamento de Posidônio, coerente ao enunciado de Moderato a
propósito da "tríplice unidade" de Deus, destino e natureza. (op.
cit. p. 398). O que obseda a todo o mundo de então sendo "a imagem fixa de
um cosmo único, finito e eterno, com sua ordem sempre idêntica a si
mesmo..." (p. 400)
Mas como tornar logicamente
consequentes unidade e triplicidade segundo a ordem dos princípios, de um modo
que se compreenda a razão de evitar a terminologia da convertibilidade a fim de
garantir o Uno como único referencial da realidade?
Bréhier crê lograr tornar consequente
assim, a sua introdução de Plotino. Vemos apenas a repetição da aporia, pela
introdução de um pensador contrário à Aristóteles por sua limitação de tudo ao
Um, como se este, como num positivismo avant la letre, fosse um princípio
estranho ao pensador da hormé, e a subsequente explicação das várias
hipóstases.
O meio termo plotiniano em Bréhier,
antes que Aristóteles, é o estoicismo, conforme a questão que este desenvolvera
dos modos de junção das partes de um todo material. O termo
"material" aqui me parece justo, uma vez que a questão, sendo
deslocada do finalismo ao determinismo, focaliza apenas o grau de realidade
do ente conforme o grau de união de suas
partes imanentes.
A hierarquia dos graus é
demonstrada pelos exemplos da pedra, da
coletividade, do corpo, e da ciência. Na pedra a junção das partes é apenas
juxtaposição; o corpo vivo mantem suas partes unidas pela tensão da alma, mesmo
sendo as partes indendentes uma da outra; nas coletividades como um côro ou um
exército há articulação segundo uma direção, e na ciência o grau de união das
partes é máximo porque elas não são de direito independentes. As partes da
ciência são teoremas, porém cada um contendo em potência todos os outros.
É somente por esse grau de unificação
a mais que se transita do corporal ao espiritual segundo o estocismo, conforme
Bréhier, que aqui não se preocupa com sua utilização da terminologia
aristotélica.
O importante a seu ver é o fundamento
hierárquico da teoria, uma vez que o que designei materialismo subjacente à
questão mesma supõe entretanto que a
simpatia mútua de partes é derivada relativamente à unidade que as contem, como
a das partes do corpo e a das partes do mundo supõe a unidade da alma que as
contem, a união dos teoremas de certa
ciencia pressupõe a unidade da inteligência que os compreende. Ora, por essa via tratando-se de um
espiritualismo racional, o estoicismo aporta entretanto à concepção de razões
seminais habitando a matéria e informando-a, justamente na via mesma pela qual
evita a convertibilidade aristotélica do ser e do um por fazer só deste o
princípio da realidade. É que a unidade ordenadora que faz da união das partes
algo mais que um todo puramente contingente, não deve produzir por outro lado
uma unidade formal e vazia, mas sim conter a realidade mesma que dela se
produz. A alma do ser vivo contem, pois, "em estado de razões seminais" todos os elementos do
corpo.
Plotino mantem dessa teoria o modo máximo
da união das partes como inteligibilidade única do princípio de realidade. O
estoicismo pensa a unidade resultando do
agente que penetra a matéria e mantem com sua tensão as partes unidas. Plotino
conceitua apenas a relação da ciência com o espírito em que reside sua
unidade, como o modo de junção
universal. A unidade aí é a do espírito que contempla o único objeto que é o da
ciência.
Tudo é um significa agora que tudo
é contemplação do modelo inteligível, e acima de todos, a origem sendo a
unidade mesma, que recupera em si os conceitos de bem e de finalidade acima do
ser dos entes. (p. 401)
Convem pois, segundo Bréhier,
exemplificando com a realidade da segunda hipóstese, inteligência ou Ser,
desdobrando-se do Um, não supor que a hipostasiação plotiniana tenha de fato um
caráter de predicação da multiplicidade do mundo. Mesmo que nela o que se deva
observar seja a multiplicidade das
ideias modelares do existente, e que não haja de fato ligação sistemática entre
os aspectos pelos quais Plotino a conceituou.
Na verdade, essa multiplicidade de
aspectos na caracterização da segunda hipóstase, se expressando entre as noções de uno extenso
e multiplicado, mundo perfeito em sua unidade independente que não se reduz a
abstração do sensível, ser ou essência, o ser em si mesmo, inteligência,
poderia também ser associada ao Uno. Quanto a este Bréhier não se faz de rogado
na distribuição de motivos, mas porque as várias atribuições seriam conforme à
conveniência da hipóstese com que cada um se relaciona em sua ligação ao um.
Ainda assim não se apreende bem o nexo.
O um é sem divisão, tudo o que existe, nada singularmente existente,
acima do ser como o Bem, mas o ser enquanto aquilo que algo é além de meramente
existir, Primeiro como anterior a tudo mas um como princípio unificador de
tudo, e bem a título de finalidade.
A partir dessa tomada de posição, em
todo caso, a exposição de Bréhier é eivada de motivos que aprofundam seu argumento da irredutibilidade
entre plotinismo platônico e pensamento aristotélico.
Três tópicos seriam interessantes
considerar. Primeiro, que a ênfase platônica no que Aristóteles designaria a
causalidade formal implica algo diverso de um determinismo científico, não
obstante assim parecer devido ao afastamento do finalismo. O ponto aqui é a
irredutibilidade da própria concepção de mundo, uma vez que Aristóteles pensa o
movimento circular do céu regido pela ação imanente da quintessência como
matéria sua, a qual move-se circularmente, isto é, do modo mais perfeito
possível.
Nada horroriza mais um platônico que
a quintessência aristotélica, segundo Bréhier. A irredutibilidade vem do papel
que a alma desempenha nos dois sistemas cosmológicos. Em Aristóteles, quase
nenhum, a alma sendo inerente apenas à compreensão das faculdades de ação dos
seres, em Platão sendo o principal. A alma do mundo move o céu, segundo Platão,
forçando contra a natureza ao elemento ígnio que o compõe voltar-se segundo o
movimento de retorno circular.
A predestinação das almas compõe
assim um teatro do mundo segundo Platão, algo que não convém de modo algum à
autonomia aristotélica, conforme Bréhier. A multiplicidade das ideias é apenas
sua entredestinação, "cada ser contem todos os outros, tudo está em
tudo" .
Não obstante, é o que permite ao
contrário de Aristóteles predicar o conhecimento do individual, uma vez que não
há realidade do ser além da anímica ou ideal. Esse conhecimento não é pois o
dos indivíduos dotados de variação como na teoria material de Aristóteles, de
modo que o conhecimento sendo do universal, abstrai a variação material.
Quanto a esta, do mesmo modo que
características individuais que só seriam explicáveis pela necessidade
material, como os equipamentos de defesa dos animais, existem apenas conforme
Plotino, apenas para mais rica realização do inteligível que a matéria imita,
ao invés de por algum tipo de acréscimo
que tornaria independente o mundo sensível. E assim Bréhier de certo modo
contorna o que considerou a multiplicidade de aspectos da teoria das ideias
plotiniana, centralizando a teoria da segunda hipóstese naquele pelo qual ela
é mundo perfeito em sua unidade
independente e não se reduzindo a abstração do sensível.
Ora, o segundo fator de destaque na
exposição de Bréhier, é a inspiração da cosmologia platônica em sua
irredutibilidade a Aristóteles, como o que permite compreender, pois, a
terceira hipóstase plotiniana, sendo a alma o reflexo do uno. Mas aqui Bréhier
faz notar como o caráter involuntário da ação ordenadora da alma relativamente
ao mundo sensível, já que se realiza automaticamente derivando-se da
contemplação anímica do inteligível, implica inversamente a originalidade de
Plotino relativamente a Platão.
Autonomia que faz de toda concepção
cultual plotiniana também um intelectualismo totalmente avesso à devoção
semítica, uma vez que o uno plotiniano tem como que uma vida independente que o
Bem platônico desconhece. O "um" plotiniano é conforme Bréhier, uma
potência de metamorfose a qual se reserva porém uma liberdade absoluta, que
pode pois existir à parte de qualquer ideia determinada. Não veríamos aqui uma
convergência com o Deus Motor Imóvel, que só se realiza no pensamento dele
mesmo?
Bréhier concentra sua interpretação
contudo, na particularidade pela qual a liberdade acima do ser como vida do "um" implica que ele
possa ser o que escolher ser. Um elemento voluntarista portanto se insinua, que
Bréhier sublinha estranho ao platonismo, mas que poderíamos realmente
considerar do mesmo modo relativamente a Aristóteles.
Ora, desse elemento se segue em
Bréhier apenas a ênfase, quanto à quarta hipótese, a matéria, na
irredutibilidade de Plotino ao aristotelismo. Nesse item que posicionamos como
o terceiro na nossa ordem expositiva, vemos pois que Bréhier seleciona os
aspectos da teoria plotiniana da matéria que possam ser contrastados à
aristotélica.
Plotino situa a matéria como algo
absoluto, não relativa à forma; como porém indeterminável, já que a forma não a
modifica substancialmente. A matéria não é nunca individualizada, a impressão
da forma nela é reflexa, como a luz sobre algo que não a retem, e essa
"impossibilidade de dizer eu", como de ter um atributo determinado,
conforme Bréhier, é o mal em si - o que, Bréhier não nota, foi porém o
atribuído como a absoluta perfeição do "um" em sua independência da
ideia determinada.
Enquanto atribuição da matéria, a ausência
de determinação é em todo caso o mal plotiniano, que assim não pode ser
atrbuído à alma, mesmo que também realidade reflexa relativamente à realidade
suprema do Um. Ao que parece, aqui o reflexo é reflexivo, o que não ocorre na
quarta hipóstase, esse sendo o mal em si, e não havendo nela a liberdade de
escolha atribuível ao Um.
Podemos considerar que nestes três
itens configurou-se uma verdadeira irredutibilidade entre por um lado
pensamento positivo cientificamente orientado aristotélico, por outro tendência
a um misticismo que permite agregar ao estudo do neoplatonismo um tópico
relacionado às suas relações com as religiões orientais? Bréhier tanto assim o
considera que ao desenvolvê-lo mostra que não se trata tanto do que do
neoplatonismo se seguiu em matéria de mentalidade religiosa, mas do que ele
importou dessa matéria em sua própria consolidação. Ou seja, o pressuposto
anti-criacionista da eternidade do mundo, do qual, pelo conhecimento das
relações simpáticas das partes, se poderia obter um tipo de magia atuando sobre
ele. Na intepretação de Bloch a
propósito, porém vemos algo mais profundo do ponto de vista da filosofia mesma
(...),
trecho do blog em elaboração
Podemos
considerar que nestes três itens configurou-se uma verdadeira
irredutibilidade entre, por um lado, pensamento positivo
cientificamente orientado aristotélico, por outro tendência a um
misticismo que permite agregar ao estudo do neoplatonismo um tópico
relacionado às suas relações com as religiões orientais? Bréhier
tanto assim o considera que ao desenvolvê-lo mostra que não se
trata tanto do que do neoplatonismo se seguiu em matéria de
mentalidade religiosa, mas do que ele importou dessa matéria em sua
própria consolidação. Ou seja, o pressuposto anti-criacionista da
eternidade do mundo, do qual, pelo conhecimento das relações
simpáticas das partes, se poderia obter um tipo de magia atuando
sobre ele. Ou, por outro lado, o criacionismo cristão perseguidor da
filosofia.
Aqui
há pois, uma inversão relativamente à concepção de Bloch. O
Oriente não sendo o referencial de conservação da orientação
naturalística e tendente à preservação da luz natural. Bem pelo
contrário, aparecendo como a fonte da perversão, na condição que
se deveria esperar do estado selvagem da mente, anterior ao conceito,
à lógica, à ciência e à mentalidade humanística. Em uma
palavra, a condição em que podem-se colocar os assim considerados
ritos primitivos, capazes de expressar apenas os baixos instintos.
O
que podemos designar a primeira oposição de Oriente e Ocidente, é
assim típica e anacrônica. Uma vez que significa a oposição de
primitivo e civilizado, designa por um lado a civilização como
legado do mundo grego que gerou a filosofia, por outro todo o resto
do mundo antigo na condição limitada à religiosidade e portanto
primitiva. Desse modo se abstrai o papel da influência da
Mesopotâmia e Egito na época do nascimento da filosofia, de onde
por exemplo se importa o mito da alma subjetivada conforme a
mentalidade do karma, desconhecido de todo na mítica homérica, o
que se verifica entre os pitagóricos. E se confundem as formas
altamente desenvolvidas de pensamento estatizado e letrado daquelas
proveniências, por exemplo a magia dos caldeus que influencia
Empédocles, com os ritos brutais "primitivos" - como se
os próprios gregos homéricos não praticassem sacrifícios humanos.
Concepção
assim tipificada, se encontra em B. Snell. Ele define pelo estilo
homérico "aquela luz de idealidade inerante à concepção
grega dos deuses", que em seu naturalismo, "possuem a
nobre simplicidade e a plácida grandeza que Winckelman considerava
como a essência do classicismo". (p. 38)
Se
conforme Hegel, a religião é o lugar em que um povo define o que
considera verdadeiro, Snell riposta que "quando Platão aponta
como verdadeiro o perfeito, 'a ideia do Bem', sobrevive nessa
afirmação o pensmaento fundamental da fé nos deu ses do Olimpo".
(p. 36) Mas assim, ajunta Snell: "E sobretudo, surgiu na Grécia
a ciência, fruto dessa confiança em que o nosso mundo seja racional
e aberto ao pensamento humano: assim foi que os deuses do Olimpo nos
tornaram europeus".
Hesíodo,
contudo, conserva elementos primitivos que não figuram em Homero,
"até mesmo certos mitos antiquíssimos provenientes do Oriente
(segundo descobertas recentes) como as histórias cruéis e pouco
edificantes de uranos e Cronos." Ao ver de Snell isso deve ser
explicado "quer porque essas antigas histórias de horrores se
tenham conservado por um tempo particularmente longo justamente na
Beócia" ou "porque Hesíodo os tenha conhecido pelo pai,
vindo da Ásia Menor". Em todo caso são apenas detalhes
fortuitos "essas monstruosidades das quais os gregos tão
rapidamente se livraram", de modo que "permanecem como
algo de estranho e desagradável " em Hesíodo, "que sob
muitos aspectos é imensamente mais racional do que o homérico".
Mas
a racionalidade elogiada como coerente à democracia, é apenas,
conforme Snell, a que se deve reencontrar na posteridade, com o
início da era helenística em que os gregos revelam o que é mais
seu em contraste com o paganismo oriental.
Nada
que lembre o étimo "demos". Mas ainda o clássico
naturalismo que permite à nobreza se perpetuar mesmo num regime
novo, e sobretudo quando, entre os poetas da escola alexandrina, na
contingência da mistura de culturas. A nobreza pode assim tornar-se
já não oposta à burguesia, se esta europeia. Calímaco sobressai,
pois, na cronologia snelliana, gabando-se de ter desinchado a
dramaturgia grega até aí eivada de motivos tonitroantes como Zeus
pai, seguindo o conselho de Apolo: "uma oferenda votiva deve,
quando possível, ser gorda; já a poesia há que ser delicada e
fina", mas do mesmo modo mantido o verdadeiro critério pelo
qual "os versos devem ser avaliados segundo a arte, não em
parasangas persas". (p. 120,1)
Segue
assim Calímaco ainda a Homero, a religiosidade grega genuína em que
"os deuses guiam o curso dos acontecimentos terrenos" sem
provocar nas pessoas "confusão ou medo", sobretudo sem
obrigá-las "a ajoelhar-se diante de sua esmagadora potência".
Assim podem os homens contemplar "com límpido olhar esse mundo
rico de sentido", em que "vale a pena estar desperto, usar
o senso e a inteligência". O que aí é "grega, ou melhor,
europeia", precisamente "o que falta aos chamados povos
primitivos" é exatamente essa "naturalidade" dos
deuses homéricos, que expurgaram de todo "o culto e as
práticas mágicas dos tenebrosos tempos antigos". Agora a Ásia
Menor, vista como berço da filosofia grega já é o bom lugar das
colônias em que a poesia homérica se remodelou "longe dos
centros religiosos da mãe-pátria", ligados ainda aqueles modos
arcaicos, talvez aqui Snell referindo-se aos tempos de trevas das
invasões dóricas (p.125)
Por
esse modo de ver, Snell aponta dois erros de filósofos. O de
Rousseau, querendo encontrar a natureza - ou a naturalidade - entre
os povos primitivos. Onde como vimos para Snell é justamente onde
nunca se verificam, ao inverso da insanidade desenfreada relacionada
ao obscuro mundo da magia primitiva - mesmo que da primitiva Grécia,
pré-homérica, de modo que não seria de todo "grego". E o
de Nietzsche, supondo a origem da dramaturgia pós-homérica
naquelas condições primitivas do culto dionisíaco. "Mas põ-se
de lado , assim algo muito importante", segundo Snell, refutando
Nietzsche. É que as formas sociais da época assim como a função
religiosa da dramaturgia, impunham limites tais que "jamais
teriam permitido que dos cortejos mascar ados, que existitam em todos
os lugares e em todos os tempos, e das festas populares religiosas
habituais em todos os povos primitivos", se alcançasse aquilo
que caracteriza a dramaturgia ática, aquilo "que lhe deu um
valor que supera seu tempo e suas limitações temporais..."
como o que lhe dá lastro "para que ainda hoje nos ocupemos
dela". Esse elemento do valor é a reflexão, o saber socrático
- e se Aristófanes localizou precisamente nele o elemento que, com
Eurípides, acabou a tragédia, ao ver de Snell é porque "estava
ele inserido na tragédia desde seu nascimento". (p.124)
Assim
é precisamento ao contrário de Nietzsche que se deve concluir: a
dramaturgia ática "elevou -se ao grau da alta literatura quando
se desvencilhou dos antigos laços do culto, quando todo o aparelho
mágico de coros caprinos e procissões fálicas desapareceu"
perante esse "conteúdo" proveniente de um mundo
culturalmente irredutível. (p. 124)
Não
significa que o teatro assim surgido fosse profano, mas sim
relacionado a um mito cujo sagrado, enquanto homérico, é
justamente o mais sensato e racional, e de modo que - eis a tese
importante de Snell - a esses deuses o homem poderá e quererá
imitar. Então o divino grego se realiza precisamente na e como a
humanidade do homem.
A
esse quadro de Snell que cobre dos tempos homéricos à aurora do
helenismo, cuidadosamente deixando nas trevas exteriores tudo que
não é grego na qualidade do que não tem a razão natural, Bréhier
semelha responder com o quadro obscuro que pinta a propósito dos
finais da Antiguidade.
A
predominância da religiosidade oriental, dentre as quais a cristã
se por ocidente se entende qualitativamente a grecidade na mesma
acepção de Snell, resulta, no século IV dc., num estado tão
desonroso ao intelecto, como se pode demonstrar pela série de leis
que se promulgam proibindo ou regulando a adivinhação, depois
contra a astrologia e filosofia, mágicos e pagãos em geral.
A
questão nesse trecho sobre as relações entre “o neoplatonismo e
as religiões orientais” que caracterizam o ambiente tardo
imperial, não é a oposição cristã aos cultos pagãos. Mas sim
que, não sendo pelo seu absurdo, tais superstições foram
perseguidas pelos poderes públicos porque “todo mundo as temia
uma vez que todo mundo, cristãos e pagãos, gente do povo e gente e
gente esclarecida, acreditavam na eficácia delas e tinham medo”
(op. cit, p. 414). Já nada era considerado pelo viés natural. Tudo
se devia a influências mágicas, nenhuma ação que não fosse por
irradiações, que conhecesse obstáculos ou limitação pela
distância. Não é que se ignora, mas que se quer ignorar, assim
como evitar, toda transmissão mecânica de forças.
A
cor era considerada argumento suficiente para refutar a física
natural, sendo qualidade pura. Bem inversamente à magia ser uma
exceção, a ação natural das coisas entre si não era considerado
senão um caso particular da magia universal.
Além
do cristianismo, a influência de seitas oriundas de Egito e Persia
era notável, se bem que conforme Bréhier, os famosos Oráculos
Caldeus fossem apenas uma simples exposição versificada do
platonismo.
Mas
nenhum desenvolvimento filosófico era feito realmente sem a
concomitante participação em seitas religiosas, assim como Mondolfo
também documenta. Se o “filósofo” especulativo do classicismo
ateniense fora deslocado pelo “sábio” do autoconhecimento,
naqueles primeiros séculos macedônicos, o mundo da romanidade
conhece apenas o santo. Pouco a pouco o dualismo de esclarecimento
grego e religiosidade pagã cede a um ambiente supersticioso tão
propício aos charlatões como se exemplifica pelo registro de
Luciano, escrevendo sobre as odiosas maquinações de “Alexandre de
Abonotica”, um dentre eles.
Para
o próprio Plotino, Bréhier afirma que considerava o meio material
antes obstáculo do que necessário à captação da luz. Assim vemos
como o escopo de sua exposição da filosofia a Leste, mesmo
conservando o nível excelente habitual, tem como viés o continuum
do que poderíamos designar orientalidade, independente do
referencial geográfico. Registra Bréhier que para Avicena,
atinge-se melhor a verdade depois da morte ou dormindo, pelo sonho,
do que em estado de exercício efetivo do raciocínio.
Inversamente a um ambiente
propício à racionalidade como o que vimos Bloch esboçar, Bréhier
limita a filosofia a Leste a um idealismo circunscrito à teologia e
superstição, com exceção apenas para um tipo de interesse técnico
que não era estranho à romanidade. A propósito ele registra a
Perspectiva, estudo de ótica de Algazen, que exercendo grande
influência sobre os latinos do XIIº século, permanece clássico
até hoje, com linhas gerais as mesmas que as de Vitelo.
A
apresentação dos filósofos é feita de modo a confirmar a
impressão de continuidade. Em Al Kindi e Avicena se destaca o que
parece o arabesco na transcrição da teoria intelectiva
aristotélica, pois multiplica-se a Leste os dois intelectos passivo
e ativo, com a concepção do intelecto “adeptus” (adquirido)
como o resultado da intelecção pelo homem.
Aqui
não seria interessante registrar os detalhes da variação entre os
dois pensadores a propósito, mas sim que resultando do foco na
compreensão da “quididade”, como objeto cognoscível ideal,
segue-se que a problemática é algo limitada á teoria da definição
e lógica. A metafísica é assim restrita, emanativa por um lado e
teológica por outro. Deus é o um tanto nele mesmo quanto na unidade
do ente em seu ser, de modo que se compreendendo ele compreende cada
criatura em particular. Há porém um interessante locus do interesse
medicinal, pelo que se concebe o situamento cerebral de faculdades
intelectuais humanas.
Em
todo caso, assim Aristóteles não se apresenta como meio da
filosofia árabe, ao inverso de Bloch. Bem inversamente, para Bréhier
ele aí é fator de inquietação, e somente na filosofia de
Averrois, por ser contrária à interpretação de Aristóteles por
Alexandre de Afrodisia, ocorre um aristotelismo que é materialista
na acepção de empirista. Bloch não só considera o aristotelismo
uma influência generalizada, como a atribui porém a um
aristotelismo mediado pela interpretação alexandrina.
Quanto
a uma confluência das apresentações de Bréhier e Bloch, temos a
referência à fábula intitulada “O vivente, filho do desperto”.
Para Bréhier, que não registra relação da fábula com a filosofia
de Aristóteles, o interesse dela é apenas expor a ascensão do
conhecimento, desde o sensível ao inteligível, figurado por um
nascido da terra numa ilha desabitada, que por si mesmo atinge a
ideia de Deus. A fábula é atribuída a Abubacer (Ibn Tofail), do
mesmo modo que vemos em Bloch, mas Bréhier a faz ser figuração de
“O Regime do Solitário”, de Avempace, em que se apresentam os
vários graus pelos quais um homem só, independente de toda
influência social, chega a se identificar com o intelecto ativo e a
se tornar membro de um Estado perfeito onde não se necessita justiça
ou medicina, que são necessárias contudo apenas em Estados
imperfeitos como os que conhecemos, onde é preciso lutar contra o
mal. Acima das ideias abstratas da matéria que define a filosofia –
aristotélica, como se sabe – Avempace exorta a atingir as formas
inteligíveis, independentes da matéria por si mesmas e não por
ação da inteligência, as quais se reduzem finalmente à unidade.
Ou seja, ao ideal platônico.
Ora,
em Bloch a fábula “O vivente, filho do desperto”, é a
transcrição de Abentofail, mas de um trecho do “Philosophia
Orientalis”, de Avicena, em que se faz a alegoria do aristotélico
“intelecto agente’, aí designado o “desperto”. Como Avicena
é anterior de mais de um século a Avempace, o provável é que
Bloch esteja mais certo a propósito. À frente voltaremos à
exposição de Bloch, aqui sendo oportuno ainda ressaltar seu
desacordo profundo nesse aspecto, relativamente a Bréhier.
Em
Bréhier, a hierarquia intelectiva desde a abstração sensível até
o intelecto em ato, conforme Al Farabi, é demarcada como um tipo de
oposição de baixo e alto que poderia fazer lembrar o de servo e
senhor. O sistema cosmológico mesmo produz, desde o Um eterno, “a
processão dos intelectos e das esferas celestes com suas almas, cada
intelecto produzindo por sua vez um intelecto subordinado, uma esfera
e uma alma motora...” até a esfera lunar em que os árabes fazem
localizar o “intelecto ativo” da filosofia aristotélica.
Bloch,
inversamente, para quem o mistério do “intelecto ativo” é
apenas a relação do que dá o conhecimento com o “passivo’ que
é capaz de conhecer, informa que Avicena e a filosofia árabe
transformam um pouco o aristotelismo nisso pelo que para Aristóteles
não devia haver uma unidade da razão humana, como seria uma relação
homogênea de ambos os intelectos em todos nós. Aristóteles, pois,
é quem não se agradava de uma tal unidade, posto que para ele os
escravos não eram homens senão em aparência, sendo na verdade
utensílios falantes, e, ademais, “chamava escravos a todos os
nascidos fora da Grécia”. (op. cit. p. 32) Mas mesmo entre os
gregos não concebia ele sequer a razão ativa como algo comum.
Apenas “muito por cima, a uma enorme altura, como um elemento do
espírito divino”.
Assim
Bloch exclama “Quão diferente parece, inversamente, o caráter não
individual da razão ativa em Avicena, e por meio dele, em Averrois”.
Bloch considera-os definindo “a razão ativa como a determinação
espacial de uma unidade do intelecto humano”, isto é, universal a
todos nós. Não obstante o caráter fantástico da teoria, que faz o
intelecto ativo comum a todos por ser lunar, e assim, influenciando a
todos por igual. A materialização do intelecto ativo é bem
coerente com a tese considerada a Oeste como a heresia fundamental,
da potencialidade ativa. Em Avicena, trata-se da matéria universal
pré-qualificada, de modo que os tipos de movimento que realizam o
ato, se tornam tipos de matéria.
A
importância que Bloch concede à conservação da fábula do
“Vivente, filho do desperto”, não se reduz à expansão que dos
meios árabes alcançou o Ocidente na forma de traduções
relacionadas ao ambiente Aufklaerung.
Mas,
ao par dessa prova da influência oriental na laicização
cientificista ocidental, concerne ao tópico das relações entre
filosofia e religião.
A
alegoresis, que se define pela conversão de alegorias religiosas em
conceitos filosóficos, (op. cit. p. 22) procederia dos meios
neoplatônicos e místicos que assim pretenderam salvar a religião,
colocando-a sob a capa de envoltório alegórico da verdade
científica. É exemplificada entre os cristãos por Orígines. Mas
na fábula de Avicena, a alegoresis neoplatônica é subvertida,
racionalizada pois, para ilustrar a superioridade, não a
coincidência, dos conteúdos da fé e do saber.
Aqui
poderíamos considerar o uso nietzschiano do nome Zaratustra, como um
outro meio de subversão da alegoresis? Em todo caso, o procedimento
parece poder ser classificado como tal. Zaratustra-alegoresis, não
há ruptura total para com a fábula na exposição da filosofia, e
há procedência oriental da junção. O enunciado nietzschiano do
fim da dominação teológica do saber, pois, não conduz senão para
mais uma figura religiosa, a de Dionísio. A Grécia não está senão
expressa por um procedimento não-grego, relacionado à raiz iraniana
do pensamento oriental, onde a alegoresis ela mesma se pluraliza na
intenção de uma “gaia ciência” liberta como filosofia da
potência.
Ora,
é precisamente a concepção transformada da potência, que vemos
Bloch endereçar a partir da fábula, em que Avicena procede sua
interpretação da versão de Alexandre de Afrodisia a propósito de
Aristóteles. Aí, segundo Bloch, se postula uma força universal
semelhante à força vital, em tudo presente, uma vez que Deus se
torna ele mesmo o céu, soma theion, corpo celeste. Atinge-se pois o
êxtase do céu, como força atuante na natureza, êxtase na matéria,
e Bloch faz dessa concepção o que se conserva em Bruno como
igualdade de força e forma. Assim como da matéria universalis de
Avicebron e da matéria viva de Averróis, faz derivar a potência
ativa de Leibniz.
Estes
resultados são pois desenvolvimentos da questão posta pela relação
de matéria e forma assim como conceituadas por Aristóteles.
Estraton seria o pioneiro na linhagem da materialização da
entelequia (…)
trecho
em elaboração
O
ponto crucial é a ativação da potência, inversamente à
contraposição ao ato conforme a interpretação da matéria
passiva. Assim, porém, teríamos o inverso de uma platonização
total do aristotelismo, pois já não podendo a matéria ser
inerpretada como khôra. Mas a ativação material corresponde sim a
um prosseguimento da alegoresis, porque se a obtem pela identificação
da matéria a Deus.
Não
ocorre que Bloch ignore a posição passiva da matéria em
Aristóteles, salvo enquanto sujeito da aspiração à forma. A seu
ver, a hormé aristotélica equivale à materialidade do eros
platônico. Em todo caso, as alusões de Bloch
ao que poderia ser uma concepção ativa lembram o logos spermatikos
do estoicismo: "Como bem se pode ver, o conceito aristotélico
de matéria conota certamente o muito importante traço essencial da
possibilidade objetiva, ainda que não, ou todavia não, o de
fermentação e gravidez, o de autoprodução e mesmo inconclusão
dessa possibilidade". A transformação original de Avicena
relativamente à doutrina aristotélica, não obstante coerente às
perspectivas de Estraton e Alexandre, começa por conceber a matéria
como eterna e incriada, uma vez sendo causa de todas as coisas, e
assim não dependendo da forma para existir.
A
oposição de Averrois a Avicena, reportada em Bréhier, relaciona-se
a que este responde à questão de como a forma é engendrada na
matéria, a partir de um "dator formarum", à semelhança
do demiurgo platônico. Aqui a perspectiva de Bréhier sobre o
idealismo aviceniano de todo contrário ao materialismo não poderia
ser mais clara.
Ao
ver de Avicena, a natureza - isto é, o mundo material - age apenas
por combinação recíproca dos quatro elementos, frio e calor, seco
e húmido. Mas se existe o novo, não seria apenas como demonstrado
pela geração espontânea, e sim em qualquer geração, nem poderia
se explicar apenas pela natureza, sendo evidente a necessidade de um
agente que intervem como inteligência exterior e superior a ela.
Averrois
critica Avicena nesse ponto, pois assim cada ser seria um agregado
de dois seres produzidos por dois agentes distintos. Concebe ao
invés, que a forma substancial é introduzida na matéria por uma
outra forma que já existe nela, assim o homem engendra o homem, sem
necessidade de um demiurgo. Averrois assoma como bem menos idealista,
já que é um corpo, por suas qualidades ativas, o que é apto a
forma substancial em outro. Outrossim, essa concepção que Averrois
designa "geração unívoca", é bem aristotélica.
Porém
conforme Bloch, a teoria do "dator formarum" foi logo
alterada por Avicena, de modo que passou a limitar-se a ação divina
a simples conceção e conservação da existência, de modo que
nesse ato puro não se acham contidas as essências que ant es es
tavam dispostas ou mesmo pre-formadas à existência na possibilidade
objetiva da matéria.
Na
concepção de Bloch, na perspectiva de Avicena o divino "ato
puro incorpóreo" de Aristóteles se torna um simples "fiat"
na forma, de conformador se convertendo em assinalador de algo que
por si mesmo e sem sua ajuda está maduro para o seu desenvolvimento,
e a totalidade das essências, aliquidades e entidades formais, não
se move nele", estando pre-figurada na matéria universal
concreta.(p. 37) É a teoria da disposição que tipifica a
concepção de Avicena, como a referência, ou conveniência, da
matéria a uma forma específica.
Sendo
a matéria desse modo pré-qualificada, como aptidão propriamente
material à forma, Avicena classifica formas de matéria utilizando
os tipos de movimento que definira Aristóteles, local, qualitativo
e transformação orgânica: "desse modo", aduz Bloch, "o
conceito de forma dissociada tem que forçosamente se volatizar: já
em Avicena, sem chegar a Averrois", a realidade eficiente da
forma se congemina parcialmente à matéria. (p. 38) E "em sua
doutrina dos elementos, Avicena chama a forma 'fogo imanente' ou
'verdade ignea' da matéria. Não há um salto muito grande, pois,
desta modificação da relação matéria-forma à quase total
imanência configurativa ou 'natura naturans' de Averrois."
Terminologia que todos
conhecemos de Spinoza. Mas na exposição de Bloch, a concepção
averroísta não é bem aristotélica, e sim estoica. A matéria
contem em si germens vitais, e o movimento é atribuído à matéria,
enquanto Aristóteles o atribui à entelequia. Porém a máxima
averroísta tem sabor bem aristotélico: generatio niil aliud est
nisi converti res ab eo, qu od est in potentia ad actum", ou
seja, "toda geração de alguma coisa não é senão a conversão
de sua potencialidade em ato".
Segue-se
o ponto importante na exposição de Bloch, condensando a motivação
da epígrafe do seu livro: "La evolución es 'eductio es
formarum ex materia". Atribuída em folha de rosto a "Avicena
- Averrois", o trecho que estamos considerando a especifica como
parte do "Destructio destructionis", de Averrois. A máxima
reza pois, que a evolução é extração da forma ínsita à
matéria.
O
comentário de Bloch a propósito se complementa mais à frente,
mostrando que nessa concepção materialista mas não mecanicista, o
sentido da matéria "é rica em movimento e formas,
desenvolvendo-se qualitativamente sobre uma base quantitativa"
(p. 58) Uma vez que a realização dos entes é em movimento,
durando enquanto eles são, o movimento segue sendo uma "entelequia
incompleta". Se "a entelequia que se cunha em cada caso se
concebe como incompleta, todavia, como forma sujeita a um processo
sem terminar e, ao mesmo tempo por isso como sucessão de formas
experimenais, extraídas da matéria", tudo "em virtude do
dynamei on, o ser em potência" (p. 59)
Assim,
em processo ou dialeticamente, tanto podemos entender a evolução
num sentido clássico fixista, como gradação ascendente da
perfeição nos gêneros biológicos, como num sentido transformista
e moderno, porém filosoficamente interpretável: "Desta
maneira, o mundo humano e físico produz em si o efeito de estar
avançando ainda até sua própria maturidade, realização e
explicação. Sua matéria é a que se aperfeiçoa e tem a faculdade
de se aprefeiçoar incessantemente em direção à sua forma de ser
essencial, e a plenitude absoluta de ser se anuncia, estando contudo
pendente enquanto possibilidade real, e só desse modo, ao que se
sabe ("per supuesto').
O
importante na tese de Bloch é que o ser em potência, o modo do
possível, "funciona" continuamente, isto é, "em
virtude da possibilidade objetiva real, cujo substrato está contido
pela matéria da existência na sua
totalidade,
que está contudo inconclusa
dentro dos seus horizontes". Uma
tese que parece com o que vimos em Nietzsche a propósito do eterno
retorno como infinito, e que
assim relança
incansavelmente suas realizações,
sem com isso abolir a
lei do querer mais, natural da potência tanto como o querer viver,
isto é, a evolução.
Quanto
ao que vimos Averrois postular como tese dos "germens vitais',
formas ínsitas na matéria, seria necessário registrar a
coincidência ao conceito de "logos spermatikos" ou "razões
seminais" do estoicismo. Assim também a aparentemente
misteriosa expessão de Avicena sobre o "fogo imanente" ou
"verdade ígnea da matéria". Conforme a citação de
Sêneca em Mondolfo, "São dois os princípios para todas as
coisas, o ativo e o passivo", como matéria e espírito ou Deus.
Porém, Siriano ajunta que " a caua ativa... esta é inseparável
da matéria, segundo os estoicos", Diógenes, que "a
matéria prima subjacente às qualidades é eterna e não admite nem
aumento nem diminuição, mas admite divisão e mescla das partes",
e Estobeu, que "a matéria encontra-se sempre em uma específica
forma e qualidade".
Aduz
Mondolfo Cícero comentando os estóicos, e informando sobre o
princípio causal ou ativo, Deus, ou espírito, que sendo fogo e
calor que preenchem toda a natureza "neles reside a força de
toda procriação e causa de todo nascimento". Ao contrário do
fogo comum que destrói e consome, "aquele fogo corpóreo"
é "vital e salutar, tudo conserva, alimenta faz crescer,
sustenta e dota de sensibilidade". E cita Mondolfo também
Aécio: Deus "é a razão seminal do mundo... fogo artífice que
se dirige à geração do mundo, contendo em si as razões seminais,
segundo as quais se geram por predestinação todas as coisas
singulares." ("O pensamento antigo. São Paulo, Mestre Jou,
1973, p. 102, 3)
Nessa
doutrina reside um verdadeiro materialismo interpretável, como
também afirma Bréhier na "Histoire de la philosophie",
citando Reinhardt, para quem na fórmula do antigo estoicismo "a
razão é orgânica; aí o orgânico é racional". Posto que,
como faz ver Bréhier, o fogo puramente espiritual ou Deus não é já
por princípio uma razão, mas sim uma força orgânica, "vis
vitalis', conforme Sêneca, "zotiké dynamis". (op. cit.
p. 350) Contudo, Bréhier também se expressa em termos de que, “é
pela força” ou “tensão”(tónos) indo do centro à periferia e
desta ao centro, “força que é ao mesmo tempo um pensamento e uma
razão, que Deus contem o mundo”. A tensão vital como princípio
da física estoica visa explicar o que pressupõe como a unidade,
seja a de cada ser particular ou a do mundo. (p. 276)
Com
efeito, não obstante as divergências quanto a essa explicação,
que em Aristóteles faz apelo à teoria do lugar natural, parece-me
haver uma convergência notável de estoicismo e aristotelismo, assim
como se pode notar entre as noções respectivas de acontecimento e
ato.
Se
Aristóteles vê realizado pelo ato a substância atribuível (a
árvore é verde), a proposição estoica é centrada na ação (a
árvore verdeja) definida como "acontecimento". Mas assim
ambos na verdade concebem a ousia predicável como acontecimento ou
verbo, ao invés da ideia platônica nominal.
Em
Aristóteles o ser atribuído não é separado da atribuição em que
ou como é pensável. Se não há predicação impensável, segue-se
que a predicação não é o limite da proposição que,
inversamente, é prova a existência substancial, conforme a
demonstração do princípio de indentidade aristotélico contra os
sofistas. Mas se aí com frequência o que se considera é apenas a
demonstração da identidade da essência, a interligação de ato e
potência na posição sublunar do sistema da existência, como do
pensável, pode ser lido à estóica. Algo similar a Heidegger, o
existente sendo o verbo como ação em que se realiza o existente.
Assim também o estoicismo conceitua o correlato do acontecimento
como o “sentido”, lekton, também designado “incorporal’
como atributo proposicional, puramente intelectivo, assim também
noções como vazio tempo, lugar.
A
entelequeia aristotélica em Heidegger se lê, pois, a meu ver, como
o sentido, o lekton estoico. Mas assim Heidegger mais atravessa a
oposição de matéria e forma do que poderia ser considerado um
materialismo.
Quanto
a este, a sucessão na linhagem que Bloch considera a partir da
filosofia a Leste, chegando a Bruno, Leibniz e Spinoza, já vimos
que corresponde com excessão do primeiro ao que Heidegger arrola
como estação da metafísica que conduz a Nietzsche. A matéria é
pois, a seu ver, um conceito metafísico, que do mesmo modo que a
idea, não reconduz à aletheia como Ereignis ou "acontecimento
apropriador" do sentido, que Heidegger considera porém ser
efetivamente o caso em Aristóteles.
Bréhier
("La théorie des incorporels dans l'ancien stoïcisme",
Paris, Vrin, 1987), nota que entre Aristóteles e os estoicos, a
irredutibilidade é flagrante justamente nisso pelo que para o
primeiro a definição é da essência de um ser, enquanto os
estoicos não consideram que o pensamento lógico atinja o ser, mas
apenas os acontecimentos ("les faits", p. 30). Por outro
lado, também quanto a Avicena, Bréhier observa a negação da
possibilidade humana de um conhecimento das essências. Por meio do
intelecto agente, que a nós permite abstrair o universal como formas
inteligíveis do percebido, e operar lógica e reflexivamente, só
atingimos porém o que Aristóteles designa os "próprios".
Isto é, atribuições que mesmo não sendo a definição da
essência, portam sobre características exclusivas do gênero, por
exemplo sendo um "próprio" do homem rir, ou aprender
gramática, etc.
Porém
o que vimos com Heidegger, é a interpretação algo justa de que em
Aristóteles, a essência independente da definição, como a
substância na efetividade, este homem, esta árvore, é o que Bloch
sublinhou como entelequia inconclusa. Nas palavras de Heidegger,
produção, movimento como modo de ser tendente à perfeição como
ao fim, porém não podendo nunca realizá-lo de todo para-si.
Algo
que também devemos notar quanto ao comentário de Bloch ao que
considerou a relação estreita de Avicena e Averrois, é o que
semelha uma contradição. Pois, a princípio, tratou-se como
observamos, de que a matéria foi visada como ela mesma deificada,
eternizada. Mas assim vimos tratar-se da natura naturans - que depois
se converte em natura supernaturans e supernaturada como ao que se
aporta por meio do "problema da evolução" (p. 38).
Ao
atingir esse ponto, porém, Bloch considera que relativamente a
estas, como o que decorre da "eductio formarum ex materia",
trata-se do que prescinde de qualquer conceito ulterior, como da
forma espiritual - a qual também já não flutua livremente pelo
espaço. Eis porque, segundo Bloch, a ortodoxia islãmica condenou
Avicena e Averrois, queimando-os em efígie, isto é, às suas obras,
assim como fez a inquisição cristão materialmente com Giordano
Bruno.
Há
também uma ambiguidade entre a inclusão das formas na
matéria, como supressão de sua passividade, de modo que a potência
se torna ativa, seja por ser diposição das formas (Avicena),
suporte delas como germens vitais (Averrois), ou trânsito delas como
forças (Bruno); e latência, que
seria porém um modo de entender a disposição como conceito
aristotélico. Ora, ao conceber
a necessidade desse conceito de latência, na verdade Bloch se faz o
continuador da "esquerda aristotélica" como linhagem
materialista de interpretação do peripatetismo. A
ambiguidade se deve apenas a que ele mantem a sinonímia da
disposição, quando de fato está predicando o que desiga uma
segunda transformação da
passividade material em atividade,
irredutivel a todas estas.
A
"segunda transformação"
tem lugar somente agora, à
luz da dialética de Hegel mas já
interpretada à
Marx, de modo que possa se
modular como matéria apta à evolução biológica. O limite que se
assinala até mesmo em Bruno, como
obstáculo que não permitiu até aqui levantar-se o véu
do evolucionismo mesmo na
longa decorrência de um
conceito não mecanicista nem idealista de matéria,
Bloch designa
"a idolatria circular"
do céu (p. 64). A concepção
do cosmo fechado mesmo que já com Bruno se tivesse predicado o
universo infinito. Trata-se,
pois, da concepção que Bruno também exemplifica, da matéria do
universo como já totalmente feita,
realizadas todas as suas possibilidades,
do contrário pensando-se que não estaria completa,
assim não sendo perfeita.
Atua
na concepção estática de Bruno, a influência ainda de Ptolomeu,
ampliada pelo "posset", o conceito teológico do "poder
ser" que conforme já Nicolau de Cusa, corresponderia a um
"poder ser" absolutamente completo que assinala a perfeição
de Deus.
Inversamente, argumenta Bloch,
é preciso complementar ao ativo e disposicional da matéria, o
caráter antecipatório e latente, como fecundidade pela qual a
matéria pode se manifestar de formar sempre novas, ou seja, conforme
a um conceito evolutivo em sentido moderno. Se pelo limite observado
antes não houve cocneito adequado ao "nascimento do novoi a
partir da possibilidade objetiva real, a partir da matéria enquanto
substrato dessa possibilidade", o remédio viria somente de um
autêntico "materialismo histórico-dialético", não porém
o então vigente "a Leste", segundo Bloch, isto é, o
soviético, que a seu ver havia se trivializado. Mas sim aquele que
se manteria relacionado ao horizonte do futuro. Em todo caso, "seu
conceito de matéria dialética com toda a energia potencial de sua
vitalidade, está e estará sempre em d´ivida de gratidão com
Aristóteles e com as seuelas ainda não terminadas da esquerda
aristotélica." Bloch se utilizando para esta última designação
relativamente a Aristóteles, de um procedimento de analogia com a
conhecida expressão "esquerda hegeliana".
Na
reconstituição de Bloch, a "esquerda aristotélica" é
pois, como vimos, a linhagem que da escola peripatética deriva de
Estraton e Alexandre de Afrodisia, representada na filosofia do
Oriente próximo especialmente por Avicena e Averrois, e por aí
influenciando o Ocidente como liame dos modernos materialismo e
cientificismo. Resta assim examinar os dois itens correlatos a essa
tese histórica. O trajeto do aristotelismo numa ambientação assim
tão multifacetada temporal e conceitualmente, por um lado. Mas
também o modo de ligação à modernidade propriamente.
Quanto
ao primeiro ponto, o desenvolvimento da exposição de Bloch permite
observar que a linhagem da "esquerda aristotélica' deve porém
de fato muito a Plotino. O que poderia parecer surpreendente, como
vimos pela atribuição neoplatônica da matéria como o mal. Mas
Bloch ressalta a propósito, o conceito plotiniano de "hylé
noetiké", ou "theia hylé, matéria espiritual ou
deificada, das Eneadas II, 4, 1;5, que é considerada bem o contrário
"das trevas da matéria comum" (p. 86, 7).
A
influência desse conceito pesa sobretudo na letra do "Fons
Vitae" de Avicebron, que o traduziu como "materia
universalis". Como vimos acima, Avicebron é considerado por
Bloch como o meio termo de fusão entre David de Dinan e Bruno. Bloch
não considera pois o neoplatonismo do ponto de vista de um idealismo
platônico radicalizado.
Em
Plotino, a matéria "experimentou surpreendente enobrecimento",
segundo Bloch, "ao combinar-se com o segundo nível do universo
plotiniano", o "nus" ou espírito universal que
corresponde como vimos à segunda emanação, a hipóstase do Ser,
ideias ou inteligência.
Aqui
a coincidência que observei antes, entre o vazio de determinação
da matéria como mal e o Uno, não notada por Bréhier, é
tematizada, porém como o que motiva esse novo conceito. Plotino
alude assim ao fato de que quando avistamos a forma da coisa
singular, temos por escuro o que fica por baixo. O mundo inteligível
é materializado uma vez que o uno se particulariza em formas
específicas, mas assim não se confundindo com o mundo sensível, a
matéria inteligível que singulariza já não se separa da
substância iluminada, como do Ser que reflete o Um.
Ora,
a materia universalis em Avicebron, desemboca na esquerda
aristotélica, segundo Bloch, "abarca tanto a matéria corpórea
como a inteligível, constituindo finalmente o substrato da coerência
do universo unitário". Assim segundo Bloch, ao menos a
princípio o conceito não tem dívida propriamente com o
neoplatonismo ou com a dualidade de matéria e forma aristotélica.
Porém o Fons Vitae se expressa em termos desta última, razão pela
qual São Alberto Magno o intitulou "De materia et forma".
Para
Bréhier, esta obra de Avicebron é um tratado que de fato, mesmo que
negue a noção aristotélica de matéria sem forma, define a
hierarquia da perfeição dos seres conforme o grau de disposição
de sua matéria à união com a forma. Essa é a aplicação do
princípio neoplatônico de que quanto mais perto da origem, mais as
coisas estão unidas, quanto mais longe, mais dispersas. Assim,
Avicebron concebe o grau mais baixo como a dispersão das coisas
sensíveis, separadas umas das outras; o mais alto como a união de
tudo na realidade suprema ou "um"; e entre ambos o nivel da
inteligência que contem todas as formas porém singularizadas.
Assim, julgando pela aptidão à união com a forma, o Fons Vitae
hierarquiza os níveis de perfeição, começando pelo estudo do mais
baixo, a matéria corporal; depois as substâncias espirituais
intermediárias ou almas; o nível das substâncias simples ou
inteligência. E a materia universalis, que convem à forma
universal, sendo o grau mais alto e perfeito grau do ser.
Bréhier
nota aí a consequência de uma teoria do conhecimento bem
neoplatônica, pela qual as formas estão na inteligência bem unidas
entre si e à inteligência mesma, por uma união espiritual
essencial, não circunstancial como a união das partes do corpo.
Assim o neoplatonismo pode afirmar o conhecimento humano, pois o
conhecimento em si não se sobrepõe à realidade, é sim a
inteligência mesma como um dos níveis emanativos do universo.
É
interessante notar como Bréhier se esquiva à constatação de que
esse é um traço aristotélico e não possivelmente platônico em
Plotino, já que para Platão o inteligível não é a inteligência,
sendo aquele as ideias que existem separadamente, em si mesmas.
Considera Bréhier que Plotino é ainda assim platônico, porque ele
estaria seguindo nessa doutrina não a teoria das ideias do Timeu,
mas sim a doutrina do Bem constando na República. Pois o Bem
conviria ao mesmo tempo à inteligência e ao inteligível.
Porém
como se poderia considerar convergente com Platão a tese da
inteligência ou ser ideal como emanação do Um de modo que
para concebê-la é preciso conceituar um movimento duplo, de
afastamento e de retorno relativamente ao Um? Movimento que não
parece compatível com a identidade, o imediatamente pensável, das
ideias em Platão. Tão pouco coerente como se pode observar esse
idealismo radical, até pela renúncia testemunhável de que a khora
seja pensável, renúncia de que ele afinal necessita para postular o
reflexo sensível do único real, a ideia inteligível.
Mas
ao ver de Bréhier, aí só se poderia notar uma oposição a
Aristóteles, pelo fato de que neste a dualidade de gênero e
espécie exclui o indivíduo do caráter do pensável, restrito ao
universal. Enquanto Plotino, por postular a independência das
hipóstases, concebe a individualidade existente no próprio mundo
inteligível. Conforme Bréhier coloca esse ponto, Plotino pretende
assim não avançar sobre o concreto ou contingente, mas
inversamente, evitar a consequência da negação aristotélica do
conhecimento do individual, pela qual de fato haveria mais na
matéria, a variação e a realidade do singular, do que na essência.
Em
todo caso, para Bloch, o conceito original de materia universal em
Avicebron, se não deve diretamente nada ao neoplatonismo ou a
Aristóteles, "revela" contudo "um parentesco objetivo
com o peripatético Estraton e especialmente com a Stoa, na qual é
em conhecida a perdurável influência de Estraton" (p. 88).
Vemos aqui documentada a convergência de estoicismo e aristotelismo.
Não obstante Mondolfo registra que se o aristotelismo foi uma das
poucas escolas que mantiveram a linha ortodoxa na era imperial, se
bem que apenas na forma de comentários à obra do mestre, na qual
Alexandre de Afrodisia em torno de 200 dc., tanto se destacou, afinal
só o neoplatonismo se encarregou dos estudos aristotélicos ao longo
do século III.
A
convergência ao aristotelismo de Estraton seria pois o mais
importante em Avicebron, não obstante o peso do emanatismo
neoplatônico em seu sistema, conforme Bloch. Não nota este assim a
importância de Aristóteles que vimos documentada na escola do
próprio sistema emanatista. É notável ainda, quanto a Avicebron,
segundo Bloch, que ele introduziu o conceito de vontade de Deus como
causa transcendente, imaterial, na ordenação entretanto material
das essências posicionadas por obra dele.
Quanto
ao segundo item que ficamos de examinar, é ele o relativo ao que
Bloch considerou a influência na modernidade da “esquerda
aristotélica” desenvolvida na filosofia medieval a Leste. Quanto a
qualquer vestígio disso em Bréhier, pode-se duvidar, pois como
vimos, em praticamente ponto por ponto Bréhier se opõe à
interpretação materialista de Bloch a propósito da filosofia do
Oriente próximo. Podemos quanto a isso até oportunamente
acrescentar o contraste quanto a Al Gazali (Algazel).
Acima
o vimos, com Bloch, ao modo de um místico que renegou seus
princípios como mestre de filosofia, transformando o sufismo numa
proveniência obscurantista contra a ciência natural. Quanto a
Bréhier, testemunha: “é difícil definir a atitude própria de
Gazali”. Cita assim uma referência de Bauemker: “ele não
pertence a nenhuma seita: ele é achara entre os acharitas, sufi com
os sufis, filósofo com os filósofos”, e por sua “Destructio
philosophorum” (“Tahâfut el Falásifah”) ele teria querido
apenas “se garantir contra o ódio dos teólogos, que tem sido
sempre os inimigos dos filósofos”. Nessa obra, acrescenta Bréhier,
trata-se da exposição de Aristóteles, mas para refutá-lo,
especialmente quanto à tese da eternidade do mundo, posto que ela se
opõe a liberdade de Deus, impondo sujeição à uma ordem
determinada.
Bréhier apresenta Algazel,
pois, como um cético criticista do conhecimento, fosse ou não um
adepto consciente do pirronismo. Mas Bréhier é favorável a essa
hipótese: “incerteza dos sentidos que se contradizem e são
contraditados pela razão, incerteza da razão cujos princípios,
assim como julgam os sentidos, poderão ser julgados por sua vez por
princípios que restam desconhecidos, eis a velha argumentação dos
céticos gregos, que se encontra em outros pensadores árabes.” (p.
552,3).
Porém
Bréhier não julga do mesmo modo à destruição da metafísica
proposta por Heidegger, sendo nessa acepção somente que o ceticismo
considera criticamente a pretensão de validez da filosofia. Além
disso, o ceticismo não vota politicamente contra a filosofia
inversamente ao que faz com a retórica por sua propaganda como arte
de domínio total da opinião na cidade. O que o ceticismo faz é
acrescentar à habilidade humana de invenção de dogmas, a
contingência da Skepsis, o “exame” do seu conteúdo que
equivale ao que hoje designamos costumeiramente análise do discurso,
acrescida porém da fricção dos discursos de que resulta a
categoria do indecidível.
Nem
nota quanto ao ceticismo grego, que ele propugna uma positividade da
ciência empírica, aquela que assoma como coleção estável de
observações feitas em comum, a propósito do nexo de antecedentes e
consequentes como o de sintoma, doença e tratamento, na medicina,
designada ciência real por ter um objeto independente, a saúde.
Assim o ceticismo aporta a uma metacrítica, composta de dois itens.
O círculo da prova – para provar a teoria é preciso um critério,
mas para ter um critério é preciso a teoria. E o impensável na
linguagem quando o objeto não é independente – para que se possa
pensar que a matéria é ensinável é preciso pressupor as noções
de professor e de aluno da matéria que porém dependem, para
existir, dela ser ensinável.
O
teor da destruição da metafísica por Heidegger, como vimos, também
aporta a uma metacrítica, porém de todo outro teor, uma vez sendo
estrutural. Há pois a estrutura quaternária que o Nietzsche 2
expõe, da qual resulta um determinismo paralógico de todo
pensamento humano pelo qual nós sempre expressamos o ente quando de
fato endereçamos um discurso sobre o Ser. Mas nesse trecho Heidegger
parece extrapolar tudo o que vimos a propósito do condicionamento do
saber pela metafísica, uma vez tendo o saber sido alguma vez
expresso em sentido autêntico, na base do pensamento da Aletheia. A
estrutura subjaz ao que parece, a qualquer enunciado atribuitivo dos
entes, posto que ele recalca o que além de si resta por pensar, como
por Ser.
Já
desenvolvemos suficientemente, repetindo, nossas reservas a esse
determinismo ocidentalista, que compacta da própria Grécia uma
binareidade duvidosa em torno da verdade, como discurso unívoco,
para o bem ou para o mal, do Ser. Ele ignora Gorgias, não porque
seja de todo detrator da sofística, pelo que vimos do Nietzshe 2, e
sim porque a tipifica protagoreanamente – ao invés de examinar o
“tratado do não-ser”.
É
interessante que não sendo sofístico, já por praticar a epocké
quanto à veleidade de ser “teckné” da retórica, o ceticismo de
Sexto Empírico considera-se similar ao tratado do não-ser de
Gorgias, conservado no “contra os lógicos” – que não é
contra demonstração de validez de formas ou regras de raciocínio
assim como aquela pela qual não se podem comparar elementos que já
colocamos em classes diferentes, mas sim apenas contra a pretensão
de um critério da verdade em si.
Porém
apoia os críticos de Protágoras, posto que ele afirma que o homem
é a medida das coisas. Mas se um homem negar ser a medida, ele seria
e não seria a medida. E além disso, um louco seria a medida do
mesmo modo que um são. Ora, Sexto afirma que os céticos jamais
duvidam da sensação própria, a qual nunca se reduz ao estatuto da
opinião mutável, e como vimos, é pela semiótica do observável
que afirma a constituição da ciência e da sociedade possíveis.
Na
verdade, independente da negação do critério, a concepção de
linguagem de Sexto é quase similar a de Gorgias, mas enquanto este
supõe que a espessura da linguagem é seu caráter autotélico
incoativo à pragmática, como vimos Sexto atinge a própria
semântica, ao demonstrar o termo impensável como o “ensinar” de
pseudo-disciplinas que não tem de fato objeto pragmático, ou
semiótico, independente. Há portanto dois tipos de signo, um que é
apenas índice do pensável, mas não de fato pensável, como os que
se utilizam no discurso metafísico, e aqueles que usamos
habitualmente, rememorativos de nexos consequentes observáveis
enquanto o são.
Ora,
a relação entre ceticismo e modernidade devia ser reconsiderada. A
princípio, a coincidência é total, já que se trata da crítica da
metafísica em nome da ciência apenas do observável, antecipando
assim o conceito kantiano de fenômeno.
Por
essa via, aportamos a uma crítica possível da perspectiva de Bloch.
Pois o que ela afirma, ao reconstituir o caminho da fábula do
intelecto agente entre Oriente e Ocidente, é que o misticismo
iraniano da luz, tendo sido convergente ao invés de outros
misticismos, à conservação da perspectiva científico-natural a
Leste, está na raiz do Iluminismo ocidental cuja dependência da
influência oriental assim se documentaria. Mas o que realmente se
verifica como Iluminismo não é um aristotelismo, e sim o ceticismo
em sentido estrito – não deturpado pelos que erroneamente o
atribuem como negação da ciência possível.
Aqui
devemos nos deter algo mais. Como vimos, um naturalismo filosófico a
Leste é a descoberta de Bloch, contrastante de todo com a concepção
de Bréhier pela qual a mistura oriental determinou o fim da
filosofia na baixa antiguidade, pelo limite místico-teológico do
pensamento a Leste. Bloch documenta entretanto bastante bem sua
concepção, de modo que resulta, inversamente, o desenvolvimento
pós-imperial a Leste, na recusa do preconceito aristocrático e na
interpretação materialista do aristotelismo.
Quanto ao trajeto dessa
interpretação tratada como “esquerda aristotélica” ao
ocidente, como em David de Dinant e Giordano Bruno, não se trata
apenas de coincidência, nem se limita ao trânsito propriamente
medieval ou renascentista da filosofia, em que se documenta um
conhecimento geral das fontes aviceniana e averrroísta a Oeste. Mas
sim, especificamente, da tradução da fábula que já estudamos, “O
Vivente, filho do desperto”, aportando ao Ocidente. A princípio
sob o título “Philosophus autodidactos” (1671), como precursora
da Ilustração, e em pleno Iluminismo, traduzida ao alemão por
Eichborn como título O homem natural.
O
pivô é a independência da razão relativamente a qualquer condição
iniciática tradicional. Se o escopo da fábula é porém pelo
exemplo mostrar que a razão que se atinge verdadeiramente é êxtase,
comunhão com Deus, a “porta do sagrado” que se franqueia numa
autêntica fusão, e em tudo que se vê se descobre agora a essência,
ressalva Bloch: “Pois bem, visto o que antecede, tampouco o êxtase
enunciado por Avicena se nos aparece já tão desprovido de intenção
esclarecedora nem tão afastado do naturalismo.” O Sagrado “cuja
porta franqueia o estático de Avicena, de modo algum se aloja numa
transcendência não-natural, mas sim que é Alá como fluído
penetrando a natureza mesma e, na culminação desta, a abóbada
estrelada” (op. cit. p. 25) O panteísmo monista de Avicena e
Abentofail muda em muito o aristotelismo politeísta. A doutrina de
Deus como corpo celeste implica assim a independência da natureza
correlata a qual o êxtase é na além da senha da atenção
desperta.
Ora,
como desse modo conciliar ceticismo anti-metafísico iluminista e
panteísmo místico? O Aufklaerung, bem contrário ao século de
Spinoza, aporta somente ao deísmo da religião natural que
justamente não predica senão as leis da reta razão empírica.
Por
outro lado, podemos questionar a inflexão cética como apropriada ao
ambiente da ciência moderna. O Iluminismo aportou justamente desde
Kant e os pós-kantianos, ao Sujeito pensável como a ruptura mais
indeslocável de antigo e moderno, já que a partir daqui o
referencial do fenômeno se torna a subjetividade como possibilidade
do sentido.
A
subjetividade já não é o pathos cético, que não pode predicar-se
seja como corpo ou espírito, se ambos são conceitos metafísicos,
que encerram dificuldades próprias – o corpo, uno e
tridimensional; o espírito, universal e particular, etc. É sim o
horizonte da certeza possível, como certeza de si, uma vez que
justamente o homem natural que se descobre aí não é a
universalidade do intelecto em ato, esse equivalente da
indubitabilidade da sensação própria, mas sim a oposição
interpretada como do pré-lógico primitivo ao lógico e
civilizado. A evolução é a prova de si mesma, como certeza de ter
acontecido, ciência do estado oposto, primitivo, como a que atende
à necessidade de explicação da gênese assim constatada imanente.
Entre imaginação e conceito, há pois uma história, ao contrário
da oposição absoluta que postulava o texto sextiano.
Mondolfo
(“ O infinito no pensamento da antiguidade clássica, São Paulo,
Mestre Jou, 1968), defendendo a tese da Grécia infinitista à
Nietzsche, aporta à negação dessa ruptura profunda. Limitando-a
ao humanismo renascentista, constata as fontes na Antiguidade
clássica. A imanência aí é apenas do divino na alma humana –
mas justamente, na glosa dos poderes desse ser em que Deus habita,
Mondolfo arrola a transmissão dos conhecimentos conquistados “na
infinitude do tempo futuro ‘para a eternidade’”, sem muita
consciência da evolução transformadora da história como a
mensagem de todo modernismo.
Atribui
como Nietzsche, às “relações dos mistérios dionisíacos e
órficos, pela experiência mística do êxtase e do entusiasmo que
identificam o homem com Deus, as crenças na imanência do divino,
que torna o mortal um ser capaz de imortalidade e de beatitude
infinita”. Assim é o mesmo em Platão e Aristóteles, cuja
inspiração recolhem Campanela, Ficino e outros importantes
referenciais renascentistas. (p. 528, 9)
Aqui
o que viemos indagando a propósito das fontes do conceito
nietzschiano de potência em seu paralelismo à terminologia
aristotélica ressalta claramente. Citando o trecho do Protréptico
em que Aristóteles justifica a ciência como permitida ao homem e
não hybris, justamente por ser teologia, aduz Mondolfo que assim o
velho conceito condenatório do que excede a medida se inverte. O que
desse excesso decorre não é “a infelicidade sem limites, mas a
beatitude que surge do sentir o próprio ser divino no ato de
afirmá-lo mediante a especulação do eterno, ou seja, da causa que
move por um tempo infinito, e deve por isso ter sempre em ato
potência infinita”. (p. 531)
Se
houve ruptura, foi relativamente às concepções obscurantistas que
opõem o humano e o divino, mas ela não é restrita à modernidade,
que apenas a retoma, na origem estando pois os cultos gregos
orgiásticos em que a verdade se atinge pelo êxtase. Assim, porém,
não se referencia em Mondolfo a ruptura da subjetividade fundadora,
que impõe justamente a cultura como finitude, como o que é apenas
histórico e situado. Isso que evidentemente o Renascimento
desconhece de todo.
O
kantismo, que implica pensar ao menos a ruptura em nível de
fundamento, Mondolfo posiciona como derivando de uma assunção
cética – portanto ela também antiga. Aquela que se depara com as
antinomias insolúveis da própria razão. Não nega que há uma
transposição, porém limitada do seguinte modo. Primeiro, reconhece
que nenhuma escola filosófica antiga chegou a indagar “se as
contradições imputadas aos sentidos não pertencem à própria
razão, e se não se torna por conseguinte necessária uma crítica
precisamente desta”, mas faz exceção nisso à escola cética.
Quanto a esta pois, “já na Antiguidade se levanta para atribuir à
própria razão estas contradições” que Kant estipulou na forma
das antinomias. Porém, a partir daqui, se é preciso convir que “a
única direção do pensamento antigo que chegou a considerar as
antinomias como condições intrínsecas da razão se deteve no
umbral do problema kantiano”, resta contudo “o fato de ter
conduzido a filosofia até esse umbral”. Eis “já um mérito do
qual tem direito de participar de algum modo, juntamente com David
Hume, que despertara Kant do seu sonho dogmático. ” (p. 566. 7)
Mas
o limite kantiano não franqueia por sua vez, o umbral da história,
que resolve num cosmopolitismo abstrato, ignorante do processo da
língua, e, assim, da acepção contemporânea do Sujeito pensável –
como o que requer uma teoria própria. As objeções de Herder e Jean
Paul a Kant foram historicamente decisivas.
Pode-se
questionar que justamente o ceticismo renascentista teria uma
resposta para isso, a partir da restrição de Montaigne ao “Moi”.
Mas esse neoceticismo semelha mais uma neosofística nisso pelo que a
restrição justamente é o enunciado que coíbe ao subjetivismo
qualquer status de cientificidade. Por outro lado, quando um século
depois a Europa se acomoda com os novos conhecimentos e especialmente
supera o espanto dos antípodas, tornando-se dócil ao imperativo do
reordenamento planisférico, o empirismo científico já não se
restringe ao falibilismo de constantes, e se alçou ao nível da lei.
A restauração classicista do intelecto puro que decorreu na era de
Descartes foi porém passageira, ultrapassada no ponto que parecia o
do êxito, o criticismo kantiano.
Um
outro modo de colocarmos o problema que estamos considerando, flui
dessa irredutibilidade que podemos perceber entre uma trajetória
linear do êxtase à ciência empírica, e a oposição que o momento
de máxima afirmação desta última enuncia.
A
princípio, a oposição rousseauísta e pré-kantiana entre o
sentimento originário e a razão derivada, de modo que se um homem
jamais conhecesse qualquer estado de guerra ele não aportaria algum
dia à segunda. Assim um êxtase como conceito que poderia unir
Platão e Aristóteles aos mistérios orgiásticos parece algo
forçado, mas, se Mondolfo é nisso paralelo a Bloch, de qualquer
modo é um êxtase cujo móvel divino personifica desde a origem a
Razão. Aquilo mesmo que o século Iluminista põe em xeque.
Logo
depois, a oposição geral, que enquanto pós-kantiana exemplifica-se
bastante bem na terminologia de Schelling, entre dogmatismo e
criticismo. Antes que demonstração do caráter suficiente do
kantismo como tarja da modernidade, vejamos como Schelling o
introduz: “Acredito, ao falar do princípio moral do dogmatismo,
encontrar-me no centro de todo delírio”. Uma vez que ele usa o
termo Schwärmerei, uma
visada histórica conduziria a nuançar a fronteira entre os dois
séculos. (Os pensadores, São
Paulo, Abril Cultural, 1973, p. 197)
A
designação vem do pré-romantismo como
ambiente rousseauísta, e nessa acepção é traduzida do seguinte
modo por Bréhier: “O Schwärmerei ou iluminismo, que
Kant deplora tão
frequentemente, compreende tão bem a seu ver a mística platônica
quanto as visões de Swendenborg”. (texto
de internet, “história da filosofia” século XIX, p. 285)
Bem
ao inverso de Voltaire, “crendo
numa relação exata e natural entre nossas faculdades e nossas
necessidades, vê-se agora um contraste entre as faculdades
transcendentes, que são o lote de um pequeno número de homens, e a
razão comum; traço
de demarcação entre iniciados e profanos”. Maçonaria, sociedades
místicas e teosofia, de Mme. Guyon a Jacob Boehme como referenciais,
representam o complexo de
crenças relacionadas à convição de uma força ou cadeia universal
que une os seres e coíbe assim, como algo dotado de sentido, a
concepção de porções de realidade distintas. Relacionando-se
a ideias de Proclo e Berkeley, conforme Bréhier, a força universal
todo penetrante inspira o conceito de Mesmer do magnetismo animal, e
a cosmogonia de Restif de La Bretonne, que com Buffon imagina os
planetas em torno do sol como seres
vivos que originam espécies que, derivando umas das outras, aportam
ao homem.
O
Iluminismo schärmerey
é portanto o contrário do Iluminismo aufklaerung, aquele sendo
iluminação mística, este luz da razão natural. A
oposição nasce, pois, de um conceito extático de verdade, que
expressa os sentimentos humanos, à
limitação objetiva do
raciocínio. Rousseau
encarece suas ilusões. Bem inversamente a obstáculos
transitórios, elas são o antídoto do vigário contra as mentiras
dos filósofos. Inversamente
ao que se poderia supor, “Quem
raciocina é já um cético” - na expressão conclusiva de Bréhier
a propósito do que decorre
da expressão da tendência em moral, como em Hutcheson e Burke.
Postula-se o sentimento e a consciência como órgão da verdade
inacessível à dúvida, a
moralidade como revelação, de
modo nenhum como conveniência do
humano discurso aos apetites.
Novalis
não é estranho ao círculo. Convém contudo não exagerar na
dedução do parentesco ao
romantismo. Assim também,
convém
não se fiar muito na pejorativa origem kantiana da terminologia, que
foi lançada especificamente contra o
visionário Swendenborg, com
a intenção de provar o limite objetivo da razão. Entre
o momento pré-romântico e o romanticismo, há uma irredutibilidade
de ânimo, ou mais, esta se
divisa na corrente geral anti-objetivista.
Novalis valoriza
os jesuítas enquanto Hoffman os ataca frontalmente,
porém em nome de uma
espiritualidade ainda mais exaltada.
A
irredutibilidade que Bréhier
não nota especialmente,
está, pois, entre um protesto contra a razão fria, oriundo de
uma mistura confusa de natureza sentimental e revelação
espiritual
por um lado. E oriundo da base bem estabilizada como
subjetividade transcendental quando se trata do pós-kantismo. O pivô
dessa ultrapassagem é a “intuição intelectual” que o
transcendental objetivo kantiano limita a Deus – seria
a apreensão de si mesmo como transcendental. A partir de Fichte
porém, fez-se ver que toda intuição é de um eu que se
auto-apreende intuindo, de modo que o limite empírico, dedutivo
desde a evidência da passagem do tempo, da auto-apreensão subjetiva
kantiana, foi assim
transposto.
Ao
utilizar o termo Shwarmerei
no contexto que visamos, como
“delírio” Schelling
aparentemente faz uma ironia. Se
ele é tão frequentemente relacionado
ao misticismo de d’Olivet, Saint Martin, Swendenborg e outros, aqui
ele precisa com clareza o que o
torna irredutível a todo passado da
razão: “Retorno à divindade, fonte primordial de toda existência,
unificação com o Absoluto, anulação de mim mesmo – não é esse
o princípio de toda filosofia delirante, que simplesmente foi
explicitado, interpretado e envolto em imagens de maneiras diferentes
por pensadores diferentes, segundo afeição de seu espírito e de
seus sentidos? O princípio para a história de todo delírio místico
pode ser encontrado aqui.”
Ou
seja, o princípio pré-criticista, que em
Schelling não é apenas
desconhecimento da dependência do objeto à razão que o
constitui numa experiência possível, mas desconhecimento do que
demonstra a
experiência da “intuição intelectual”, a
evidência do eu absoluto
ao eu que
existe, sem mediação
qualquer necessária, sempre já
aí e de modo nenhum descartável dele.
Ora,
Spinoza é aqui o exemplo desse desconhecimento, assim como do que
ele significa.
A
evidência não pode ser negada, e
por aí a contradição do
princípio ético presente no
spinozismo como afirmação
do absoluto. Toda
afirmação de um Absoluto exterior ao eu, Schelling
faz ver que é um paradoxo
inultrapassável, posto que é ao mesmo tempo anulação do eu e
feita pelo próprio eu. Mas como pode o eu anular-se
a si mesmo, se na anulação nada resta além da ação do próprio
eu?
“Dificilmente um místico
poderia ter prazer no pensamento de estar devorado pelo abismo da
divindade, se não tivesse
posto, no lugar da divindade, o seu próprio eu”.
Por
outro lado, Spinoza apenas designa ao Absoluto exterior a si, que
o anula pois, o que concebe
de si por si: “de onde mais
poderia ele ter tirado a ideia dessa intuição, se não de sua
intuição de si mesmo?” (p.
198)
O
móvel dessa anulação paradoxal é ainda a
salvaguarda do eu, posto que afirmando o Absoluto exterior, neste
nada resta de outro – assim
como o que o eu não quer para si mesmo, a constatação da
alteridade a si. Ele
prefere, pois, afirmar o Absoluto exterior a si como
finito, de que nada por sua
vez é exterior uma vez que
infinito, antes que
confrontar a permanência do eu onde porém não é o eu que está
enquanto objeto do pensamento do próprio eu.
Assim Schelling critica sutilmente Shakespeare: “To
be or not to be – esta pergunta seria inteiramente indiferente para
minha sensação, se simplesmente eu pudesse pensar um não-ser
total”. Mas ao invés, sei
que se o que penso é não-eu, sou eu porém que penso. (p.
199)
O
texto de Schelling avança à
afirmação fichteana da consciência do Eu como oposto do não-eu,
porém essa consciência não é originária
como a ideia do Absoluto realizada, ao invés de na exterioridade, em
nós mesmos como o que não
tem mediatez, o que é existente plenamente,
sem qualquer predisposição além do seu ser. Ou
seja, a consciência efetiva é derivada como negatividade daquilo
que na “intuição intelectual” alcançamos como Absoluto
interior.
O
momento da razão como auto-consciência e moralidade, efetividade, é
assim
derivado da negação
que se segue à intuição
intelectual do eu absoluto, anulação que é porém retorno ao eu
relacionado à efetividade. Somos porém, nem só um nem só outro, e
o eu da
efetividade é um polo relacionado ao eu
absoluto.
A
propósito, é interessante
sublinhar a referência de Schelling à observação de Spinoza sobre
que “nossa mente, na mesma medida em que se conhece sob o aspecto
da eternidade, tem necessariamente o conhecimento de Deus.” Ela
ressoa como inversão do princípio de Al Farabi, pelo qual Deus,
conhecendo sua essência, conhece todas as coisas, na sua unidade
absoluta e no detalhe infinito de sua multiplicidade.
Em
Schelling poderíamos complementar
o que Bréhier permite reconsiderar do trajeto de Bloch. Não há uma
continuidade explícita, se
por um lado o materialismo da ciência Aufklaerung
nada conserva da
inserção do todo, e por
outro lado onde uma reação conservadora do todo se verifica, ela é
contrária ao Aufkaerung, como via exclusivamente mística.
Mas
nesta via mística, ao que
parece a sobreposição por
Bréhier dos dois sentidos
opostos do mesmo termo “iluminismo” visa
sugerir que também
é algo novo, assim
tornando-se compreensível o que pareceu inicialmente confuso como a
mistura de natureza sentimental e revelação espiritual. A
novidade aí é o sentimento, subjetividade nesse sentido
pré-romântico, no lugar em que habitualmente se coloca
a inferioridade da criatura relativamente a Deus, isto é, na tópica
da pregação religiosa, como
demonstração da obrigatoriedade moral.
Decorrendo
pois que em
qualquer “iluminismo”, na
origem está a natureza, o
que só é conforme a um empirismo da ciência moderna.
Se
em geral, porém, o que Bloch quis demonstrar foi a preservação do
princípio da esquerda
aristotélica de que toda a força de
Deus reside na natureza, então Bréhier quanto a isso conviria com o
trajeto de Bloch. Este que
porém não poderia se manter, como se pode ver, sem dialética da
aufhebung, do contrário não
haveria um momento moderno, puramente empírico, da ciência.
Assim
conviria também Bréhier de
algum modo com Bloch, na sua
interpretação de Schelling, não muito meritória, como a
princípio apenas uma espécie de transposição do fichteísmo a
uma naturphilosophie teosófica que, ao ver do próprio Fichte,
apenas faz
retorno a um dogmatismo anterior a Kant. (Bréhier,
história da filosofia, texto de internet, p. 419)
A
trajetória convém
ao que vimos em
Bloch, a partir do vínculo que
Bréhier estabelece de
Schelling com Bruno e Spinoza,
mas como elos numa corrente
de influências místicas,
que ao ver de Bréhier tem a peculiaridade de parecer
bem retardada, já devendo ter ocorrido muito antes, enquanto
transformação da filosofia da natureza em teosofia, o
que vem a ser inexplicavelmente
realizado só
em
Schelling a partir do influxo
da mística pré-romântica, especialmente de Saint-Martin.
A
exposição de Bréhier não concede assim
de modo algum centralidade
ao
problema subjetivo que qualquer leitura de Schelling demonstra.
A transformação importante
a seu ver, da filosofia da
natureza em teosofia, é
reportada com minúcia, e
insere o tema da potência como um
núcleo conceitual
schellingniano. Ora, o que
faz espanto a Bréhier, é pois que de
uma teoria das razões
seminais como de “germens
invisíveis, indestrutíveis e imutáveis” que habitam corpos
materiais mudando continuamente, teoria
que remonta da Renascença à
alquimia medieval e Antiguidade, tenha
vindo a se desdobrar
só agora,
desde o pré-romantismo e
especialmente Saint-Martin,
um espiritualismo pela segregação dessas
forças que habitam a a
matéria, como puramente espirituais, com
um vida autônoma. (p. 417)
Ou
seja, que da filosofia da natureza como postulação das razões
seminais se tenha feito uma teosofia assim definida. Schelling
portanto, que é a evolução dessa teosofia, aparece de um modo
atrasado na história à
Brehier. Ao
que parece, a seu ver tal
evolução é apenas o
enunciado explícito do que longamente foi praticado como a
interdição da objetividade
concreta ao saber como vida do espírito, o que em plena era
iluminista o pré-romantismo schwärmerei repetia com
o exílio do
racionalista Nicolai
decretado pelo rei da Prússia, enquanto
o congresso maçom de 1782 condenava o Aufklaerung e o deísmo
racionalista da
religião natural que nele se
baseava.
Realmente
não se teria
aí novidade alguma, se à
Bloch víssemos antes, ao
contrário, da teosofia surgir um materialismo que é exclusivamente
filosofia da natureza ao
invés de ciência puramente
empírica. O problema real
contudo continuaria inexplicado, que
é o da afirmação dessa ciência na história. Pois,
a dialética de Bloch, que faz a duplicidade teosófico-natural
fecundar o Aufklarung
puramente natural, não tem referência alguma ao momento da
negatividade, ainda que seja
evidente haver aí uma antítese.
E
– principalmente
- o
pensamento
de Schelling, centrado
como é na interpretação
da potência, restaria
intematizado
enquanto uma filosofia da
evolução que
parte da ruptura essencial do Sujeito na história. Vemos
pois o resultado curioso pelo qual o
interesse na reconstituição do que
Bréhier trata em termos de “teosofia” de Schelling, ressalta
apenas de um exame que visa a trajetória da esquerda aristotélica,
tese porém que não é a sua, tanto
mais que ela não se quer como o
trajeto de
um anti-cientificismo.
Aqui
nosso interesse na
reconstituição de Bréhier
é pois o
que pode demonstrar na
relação da filosofia da potência entre Aristoteles, Schelling e
Nietzsche. Nessa
sequência, vemos que se
Bréhier permite notar uma convergência notável entre os dois
primeiros, a ruptura
demarcável de Nietzsche para com todo espiritualismo não
vai a ponto de subtrair-se ao
que puder ser estabelecido como determinante na transformação que
se segue desde o pré-romantismo. Inversamente, ele
faz retornar vários aspectos ligados ao rousseauísmo
(…)
(...)
===
Nessa
altura do nosso exame a questão histórica da
filosofia
de
Schelling como estabilização de
um pós-kantismo que assim revelou-se, mais do que apenas o arroubo
crítico
de Fichte a kant, integra-se na confluência de duas questões
paralelas.
Primeiro,
o tema
propriamente deste estudo, que
é continuação do blog “filosofia da potência”,
enquanto
pesquisa
da
possível ligação entre
o uso variado
desse termo de Aristóteles a Nietzcshe, cujos
resultados vimos extrapolarem
a cisão de antigos e modernos a partir da reinserção aristotélica
no
evolucionismo contemporâneo. Mas
na via dessa
extrapolação, aportamos à tese de Bloch sobre a esquerda
aristotélica, ou materialismo a
Leste, que derivado de Aristóteles informa o curso do empirismo
materialista pós-feudal, a Oeste, de
Giordano
Bruno à Aufklaerung.
Nessa
tese de
Bloch,
pois, encontramos
um significado transformado da oposição aristotélica do ato e da
potência. Ou,
ao menos, transformado relativamente à interpretação idealista que
o medievo ocidental consagrou com o tomismo. Quanto
a isso vimos que há certa margem de originalidade na interpretação
a Leste. O
sentido do Deus motor imóvel se mescla a intuições do Um
plotiniano. O intelecto agente se torna proveniência da esfera
lunar, mas assim generalizando
a adequação a ele a todos os seres humanos, desfazendo
o aristocratismo aristotélico que reservava a disposição
de o receber apenas
a
gregos, e
na
posição de senhores.
A
tese de Bloch, como vimos, é
contraposta à de Heidegger a propósito da origem da possibilidade
da ciência moderna. Também para Heidegger ela vem do aristotelismo,
mas apenas enquanto reforço do cristianismo na
escolástica, e o Deus criador critão
como a
mensagem da segurança máxima da
estabilidade do mundo
ao sujeito.
Na
concepção de Bloch, a Leste o aristotelismo favoreceu a perpetuação
do naturalismo científico. Pelo
que o
próprio conteúdo religioso mais
antigo, a
religião da luz natural persa que o islamismo suplantou, foi
convertido
pela figura da “alegoresis” – procedimento pelo qual se
transformam em conceitos filosóficos
o
que a princípio eram conteúdos religiosos
– na
doutrina da religião
como envoltório de
verdades naturais que cabem porém à ciência explicitar.
A
perspectiva de Bloch desloca pois a linearidade geográfica
requisitada pela heideggeriana
História do Ser como da metafísica enquanto esquecimento da
hermenêutica pré-socrática, assim como, porém, do aristotelismo
autêntico que não seria metafísico. Mas
concordando
com Heidegger,
já que aquilo que se propaga a Leste como aristotelismo seria
igualmente
anti-metafísico,
ao
contrário do que habitualmente se atribui ao Estagirista.
Não
obstante, as noções de contrariedade à metafísica em Bloch e
Heidegger não coincidem precisamente. Pois,
para este, a reversão da interpretação tomista e metafísica de
Aristóteles não poderia ser apenas mais uma totalização do ente,
mesmo
que
na enformação
material e/ou
científica,
e sim a transposição da substância como
energeia
traduzindo-se na semântica do produzir, não
suprimindo porém a abertura
da interpretação.
Ora,
entre a energeia e a hermenêutica a relação permanece algo
obscura, se
em Aristóteles o termo existe para provar
a teoria conclusiva
da
definição. Exceto
por isso que subsumindo-se à ideia
de produção,
a energeia seria entelequia (perfeição) ou
a priori do seu movimento natural, apenas
de algo variável, relativo
à
circunstância potencial.
Assim
a “matéria” conduz porém ao oposto do cientificismo, à
analítica da pre-sença.
Assim
compreendendo
intercepta Heidegger a oposição que vem se traduzindo
habitualmente de ato e potência, energeia e dynamis, a
qual recobre conforme Aristóteles, a distância entre a forma
imutável e a matéria variável. Mas
sem conceituar
explicitamente à
segunda, posto que o
étimo
“produção” só traduz “energeia”,
não
havendo desenvolvimento do problema da língua quanto à “dynamis”.
Repetindo,
pode ser que
na
energeia como produçaõ
se subentenda a dynamis,
já que se
o produzir da obra sugere um devir, na
medida em que estamos posicionados num mundo sublunar, na distância
maior possível ao Deus motor imóvel que circunda o universo devido
à física geocêntrica do aristotelismo, e sendo Deus energeia sem
dynamis, então
a
necessidade
da
produção em
devir
é o
que Aristóteles mesmo situou
na terminologia da “potência”.
Bloch
mostra assim porém que a Leste essa mesma relação de
“ato” e “potência”
foi assimilada como o preponderante do sistema, ao
invés da primazia
do “ato”.
Portanto
ao contrário do idealismo que se deixa apreender já na tradução
da energeia por “ato”
como
sublinhou Heidegger. Mas
assimilada desse modo, o que resultou foi a transformação
da potência como da
matéria, suprimindo-se a noção de passividade, e tornando-se
conceituada em termos de potencialidade ativa. Deus
é assimilado ao céu, e
nesse estatuto é
corpo
celeste, desfazendo-se
a oposição platônica
de
ideal e material em nível
mesmo
de filosofia primeira.
A
recepção ocidental, entre
David de Dinan e
Bruno,
da
esquerda aristotélica a Leste, resulta na transformação do
conceito aviceniano de matéria universal pré-qualificada na
alegoria da matéria como mãe da forma. Em
Avicebron, a forma se interpreta com vontade, e em Bruno como força.
A
partir daí a filosofia
pós-feudal a Oeste
torna preponderantes
as concepções de mundo auto-produzido, natura “naturans” ou
supernatureza como
a que produz a fenomênica ou “naturada”, até
a via apetitiva do leibnizianismo.
O
cientificismo Aufklaerung do século XVIII, como revolução
epistemológica que superou a dominação metafísica do pensamento
como
a
interpretação da primazia ontológica da forma sobre a matéria,
estaria assim explicado pelo
que precede.
Porém
a história da filosofia justamente nesse ponto exibe algo mais que
Bloch não intercepta,
a saber, o transcendental que
a partir de Kant desloca
a dualidade conceitual de matéria e forma pela
enformação apenas fenomênica da natureza. Pretendendo-se
o continuador do que seria o materialismo aristotélico iniciado
a Leste, mas agora adaptado ao evolucionismo e à dialética
marxista,
Bloch não relaciona a história das ideias a esse ponto capital. Ao
que parece, solve-a num positivismo algo contraditório, já que
este, se autêntico, rejeita o passado
filosófico para interpretar-se como o galgar do pensamento ao
estágio puramente científico, “experimental”.
Ou
seja, não tendo a observação da natureza
material
como corolário de um pressuposto
espiritual, como o que a relaciona ao princípio da forma. Um outro
modo de se expressar
seria, justamente, que na matéria da ciência positiva a ação está
inteira, não há dynamis.
O
cenário histórico da sociedade científica e industrial poderia
sugerir a irreversibilidade dessa ruptura, mas como salientamos,
desde
a época de Nietzsche em diante houve
uma intensificação das relações de evolucionismo científico e
curso das ideias, que resultou num “evolucionismo”
filosófico, interpretação conceitual do significado da evolução
natural.
Aqui
descobrimos dois itens de influxo aristotélico no pós-positivismo,
a terminologia nietzschiana da potência e
a questão da teleologia. Estes
itens podem ou não estar expressamente relacionados a Aristóteles,
independente do fato de atribuirmos
a relação, porém
com
Heidegger e Bloch o aristotelismo tendeu a uma reinterpretação
influente e expressa, que
a polêmica de Arendt e a mais recente expansão
dos estudos de Pierre Aubenque podem demonstrar como incontornáveis
à compreensão da época ainda atual.
Nesse
desenvolvimento contudo, em que os estudos sobre
Nietzche
tem importante papel, a
influência aristotélica extrapola o
problema científico da natureza evolutiva, e abarca o problema ético
de
uma política humanista confrontada a opções deterministas como o
marxismo e o neopositivismo. Mesmo
assim a teleologia mantem-se como elo entre ambos, pois o problema
ético desse modo ampliado, abarca a
temática da planetarização da
sociedade industrial como
ao destino da humanidade.
Mas
retornando
à questão propriamente
historiadora,
o
oposto do
modo
como Bloch ligou a
alegoresis
aristotélica
a
Leste e o Aufklaerung ocidental
como
ruptura cientificista da história -
inclusive
documentando a tradução como
“naturmensh” da fábula aviceniana do intelecto agente - é o
que vimos
em Bréhier. Este
situa a revolução coperniciana da filosofia em sua posição
própria
de acontecimento principal na
transição
ao período contemporâneo que o século XIX inicia.
Assim
porém, Bréhier devia ver em Schelling um retardo na
linhagem que continuaria, compreensivelmente, a
partir de Kant, desde
Fichte a Hegel, para
ser retomada após
o interregno positivista,
na crítica das ciências, neokantismo e fenomenologia hermenêutica,
entre a época de Nietzsche e o século XX. Pois,
a
natureza se tornou exclusivamente correlato da pesquisa científica,
assim não totalizável senão
como parte do problema do conhecimento – não, portanto, “em si”.
A
“teosofia” de Schelling, que
se expressa a princípio numa filosofia da natureza que
não se resolve no transcendental, mas avança à
interpretação totalizante do sentido de elementos assim mesmo
pre-dispostos,
comunica-se
com o movimento místico de desvio não só do ethos, mas da
metodologia propriamente científica. A
qual segundo Bréhier
vem
se
desenvolvendo
de Descartes a Newton como singularização de
porções fenomenicamente distintas da
natureza.
Poderíamos
propor que ao ver de Bréhier, Schelling perpetua o pré-romantismo,
enquanto ainda não completa a passagem
ao evolucionismo, quando se trata já, em plena época
romântica, dessa completude.
Assim
como do reordenamento epistemológico total que assim se seguiu, no
bojo de transformações políticas e sociais tão profundas a ponto
de conceituarem a liquidação do “antigo
regime” e introduzir, como horizonte do político ou como realidade
já conquistada, a
realidade atual da cidadania nacionalmente constituída.
Mesmo
não ignorante da evolução, Schelling visa algo como um cosmos
pré-ordenável, e o seu aristocratismo é conspícuo. Bréhier
não se dota assim de meios pelos
quais pudéssemos compreender a retomada dessa
mesma combinação de fatores
por
Nietzsche, ainda
que adaptada à radicalização do cientificismo
no meio tempo do positivismo.
Como
ressaltei antes, há com efeito algo de inquietante na evidência
ensejada
pela
leitura de Bloch, da
necessidade de
atribuirmos
ao
nome de
Zaratustra
o
procedimento da
alegoresis. Pois
sugere uma transposição
proposital do
que agora podemos designar uma autêntica filosofia da potência
desenvolvida
a
Leste, mas
com propósitos diferentes.
Ao
invés de abstrair como
Bloch a
questão das relações de mecenato de filosofia naturalista e
califado enquanto poder independente da classe
sacerdotal do islamismo,
para apenas sublinhar a conveniência mútua desse patrocínio
conforme
a época e o lugar,
Nietzsche
faz
a propaganda da
restauração da hierarquia de castas como
o meio não degenerescente da cultura e do homem.
Ao
que agrega um
locus de centralidade ao tema do super-homem como evolução adequada
à
potência enquanto
super-natureza.
O
que não elide a
justeza de sua
interpretação como
conceito político
de
liderança por
vir, se o conceito de potência em
Nietzsche
está
contextualizado na problemática da polaridade de atividade e
passividade, a
qual serve à legitimação do domínio de
casta como tipo da dominação mais elevada, a do gênio.
Assim
vemos que tanto pela polaridade quanto pela remissão
da
“natura naturans” à “Vontade de Potência”, cuja
exemplaridade desde
a natureza do ser vivo
é o próprio ser humano que,
exclusivamente, cria os
valores
no mundo da cultura, os
temas da alegoresis zaratustriana
na
verdade estão mediados pelos
termos cuja origem
haurimos em nosso exame do pós-kantismo.
Ora,
o problema que
a meu ver é o básico a considerar quanto
à estabilização do pós-kantismo pré-positivista, é o
paradoxo pelo qual Kant foi recebido. A cisão de noumeno e fenômeno,
a
coisa em si incognoscível e a matéria da experiência, revela-se
problemática em nós mesmos enquanto ambos ao mesmo tempo. Mas
Kant nunca pretendeu que nos desconhecêssemos inteiramente enquanto
existências em si mesmas.
Além disso, por essa nossa intercambiação entre os
dois mundos, por assim expressar, resulta
que o objeto é explicitado em sua demonstrabilidade cabal apenas
pelo sujeito que requer ele mesmo a explicitação.
O
pós-kantismo não
recua propriamente do transcendental, uma
vez que a “crítica da Razão” como
pretensão do saber noumênico não
admite já ser
ignorada. Restando
porém como a tábua de salvação de
qualquer tarefa do pensamento futuro, ao
contrário da solvência absoluta da filosofia perante o triunfo da
ciência positiva como
se verificaria de Hume a Comte, Spencer e
Stuart Mill,
o primeiro Wittgenstein
e Carnap entre outros “positivistas”.
O
pós-kantismo não recua pois, ou ao menos não quer assim, não
obstante os que acusam Schelling de uma guinada pré-crítica e nada
além disso. Mas
começa, ao que se costuma atribuir – não obstante Philonenko ter
concedido nisso prioridade a Schelling – na
reserva de Fichte à negação por
Kant de
que pudéssemos nos intuir a nós mesmos como locus
do transcendental que somos enquanto referenciais da atuação
racional do mundo criadora do sentido a partir da fenomenalidade da
experiência. A
essa intuição ela
mesma transcendental
se designou intuição intelectual, e ao ver de Kant só um intelecto
arquétipo, como o seria o de Deus, poderia tê-la.
Pois
intuiria ao mesmo tempo que o mundo dos objetos, as categorias
puramente racionais que os ordenam enquanto atuantes da intuição
mesma na qual eles são dados
na duração ou experiência desse
intelecto.
Seria
o Deus criador, criando. Ao
invés, mesmo
que em nossa experiência
o
que estejamos atuando seja o Cogito, o Eu Penso transcendental, não
nos tornamos “sujeitos” só por isso, mas apenas
podemos ter a ideia de nós mesmos por inferência e empiricamente,
a
partir da nossa constatação da sucessão temporal do antes e do
depois, como testemunhas permanentes dela.
Assim também não há nenhuma variação “subjetiva” na
objetividade universal do Cogito.
A
afirmação da intuição intelectual em Fichte, nisso
ao contrário de Kant,
resolve-se numa filosofia da consciência que demonstra
para cada ato de posição de um objeto, a ação de um eu
auto-consciente
de si por e para quem o objeto é posto enquanto integrante da
experiência.
Está
claro que desde o criticismo kantiano, fora de alguma experiência
de
um sujeito intelectivo não existe o objeto, a coisa em si que
pressupomos estar subjacente a ele enquanto definível
categorialmente não sendo cognoscível por isso mesmo que
independente das categorias em que possivelmente o apreendemos nesse
status de objetividade.
Mas
assim Fichte postulou a dualidade do Eu e do Não-Eu, o que põe e o
que é posto, deixando ambos
de
coincidir na própria experiência, e
por isso é que se requer um ato especialmente orientado de suspensão
de cada objeto que pomos pensável, para lembrarmos do nosso Eu
enquanto
(auto)-consciência atualmente
pensante.
Essa
orientação é designada “doutrina da ciência”.
Independente
da dificuldade de se decidir entre os estudiosos de Schelling a
propósito de se este começa como fichteano conforme
Philonenko, ou pelo contrário, conforme
Bréhier, como
crítico de Fichte que depois, se dedica-se por um tempo a ele, logo
retorna ao impulso inicial místico que
destoa da intenção da “doutrina da ciência”
, o
que Schelling realmente objeta a Fichte, como podemos compreender, é
que assim o
paradoxo
do dualismo kantiano não é de fato resolvido.
Ele
fica no limite da consciência, quando o problema é colocado por
isso que esta é um dos lados do dualismo,
estando do outro o objeto, fenômeno ou não-eu,
e mesmo assim, ela
é o
todo que o cria e explica.
Já
um outro
viés de crítica
a
Fichte,
conforme
reportado por Benjamin, é o
que expressaram
os
românticos
de Iena, aos
quais
Schelling esteve,
sem
dúvida, pessoalmente
ligado em seus inícios. Conforme
a orientação da doutrina da ciência, devemos suspender o
objeto que pomos a cada vez que pensamos algo, e alcançar a
consciência que o está pondo.
Mas
assim, conforme a objeção, o que resultará não é o
que Fichte pensa como
a certeza sempre continuada quanto ao objeto, enquanto, se nada
demonstrável
de
si mesmo ou de
um
mundo de que proviria,
plenamente
correspondendo à verdade do pensado.
E sim uma ambiguidade incontornável depois das primeiras suspensões,
pela qual não saberemos já se estamos pensando
depois do pretérito-pensado ou antes do futuro- por-pensar. Ou
seja, a transparência do objeto pretendida por Fichte à consciência
que assim se faz de todo clara para si, se turva inteiramente na
opacidade do signo como do
que se
pensa ou
se faz o pensamento.
Vemos
que a intenção que se expressa plenamente pelo modo como o
pós-kantismo se estabiliza desde Schelling, já está de algum modo
presente na
resolução fichteana de redesignar os correlatos de razão e
fenômeno em termos de eu e não-eu (“moi” e “non-moi”).
Porém
é só Schelling que realmente expressa aquilo de que se trata, ou
seja, a percepção de que o dualismo kantiano não basta a si mesmo
na medida em que aquilo que ele próprio está expressando em termos
de Real, não
é o incognoscível em que
não
mais devemos nem podemos pensar. Mas sim um
Absoluto
que reúne o noumeno impensável, seu fenômeno pensável, a
Razão que torna pensável, e nós mesmos enquanto
viemos a ser criticistas conscientes. Ou de outro modo expresso,
viemos a ser auto-conscientes, desde um Real que assim colocou a
ordem dos fenômenos na qual está inclusa esta auto-descoberta na
História.
É
algo corrente atribuir o pós-kantismo como, mais simplesmente, a
eliminação do noumeno como da coisa em si, ou,
ao menos, disso num estatuto que não decorre de nós mesmos enquanto
sujeitos da experiência na qual é forçoso que a princípio nos
desconheçamos, de
modo que possamos lidar com os objetos como que por si mesmos. Em
todo caso, vemos que o Absoluto subentende a realidade de um nível
da experiência pré-criticamente
designada “sensível”. Desde
Kant tendo ocorrido a enformação transcendental da própria
sensibilidade a partir dos a prioris de tempo e espaço.
O
que importa, contudo, é que desde Schelling o dualismo que Fichte
agudamente demonstrou
como de sujeito e objeto, dualismo
que vimos persistente
mesmo num aparato de redução transcendental da coisa ao fenômeno,
se
torna pensado como ele mesmo Real, e não apenas decorrente de como
as coisas aparecem entre os
dois
degraus da consciência, por assim dizer.
Nesse
estatuto de realidade e
não de conceito do entendimento,
posto que aquilo
que o
absoluto enuncia na própria crítica absoluta da razão é o
dualismo de
sujeito e fenômeno,
o
dualismo se torna
oposição,
par
de opostos. E
aqui encontramos a origem do situamento da polaridade fundamental,
que desde a dialética hegeliana se afirma como incontornável ao
pensamento contemporâneo.
O
início da carreira de Schellling como introdutor de uma
“naturphilosophie”, corresponde à tentativa de solver a aporia
do
dualismo paradoxal kantiano pela
demonstração da universalidade da oposição, e
assim ela deveria ser demonstrada na própria natureza.
Porém
já antes de Hegel o termo “aufhebung” - a famosa “suprassunção”
do étimo alemão que significa ao mesmo tempo superação e
conservação – foi
por Schiller atribuído ao modo como Schelling tratou a polaridade.
Ou seja, assim como na postulação do Absoluto como processo em que
realmente se resolvem os dois termos, a
polaridade se põe para ser resolvida por um terceiro termo que reúne
a ambos os opostos.
Porém,
não devemos desde
agora avançar
ao hegelianismo de modo a mostrar em que ele retoma dialética,
e criticamente com relação a Schelling, a aufhebung para
de fato se tornar
uma Filosofia
da História como até aqui nunca se havia feito. Mas
sim retroceder ao modo como Schelling postula o Absoluto, a partir de
termos explicitamente aristotélicos, e
por aí inserindo primacialmente a questão da potência como
resolução da aporia do Absoluto, se este enquanto tal não poderia
precisar de exteriorizar-se num processo ainda que universal.
Vemos que de fato
essa aporia apenas repete em outro nível o paradoxo do dualismo
kantiano, e é o situamento transcendental ele mesmo que vem sendo
criticado como presa do assim designado trilema de Munchhausen – o
famoso barão da estória que entre outros feitos fantasiosos, teria
intentado alçar-se aos céus segurando-se pelos próprios cabelos.
Ao postular algo =x como instância a priori ou transcendental, ou
ocorre uma petição de princípio, ou o argumento é interrompido
pelo meio, ou ocorre uma regressão ao infinito.
Porém o problema que
venho designando o da inexauribilidade do romantismo (=
pós-kantismo), é que neste o transcendental deixou de cingir-se à
postulação da instância =x/transcendental, para endereçar-se como
resposta à questão da historicidade, ou reposição mesma do
problema ontológico enquanto o da historicidade em que se realiza o
real como o pensar. (...)
A identidade
de romanticismo e pós-kantismo se pode ver pelo motivo da
historicidade que naquele transforma inteiramente o conceito de
cultura. O conceito vem sendo alterado desde que já não pode se
limitar à generalidade opositiva de ausência e presença, a partir
da restrição classicista da forma ao modelo greco-romano, na
imanência do sentimentalismo pré-romântico. Assim como na da
pluralidade ora importante da proveniência histórico-social,
transcendendo as classes localmente instituídas para abranger a
situação na escala inter-continental que cinde natureza
primitiva/indivíduo/povo e civilização ocidental/sociedade/lei.
Mas com o
Romantismo a alteração se aprofunda consideravelmente e já se pode
falar em transformação de época. A pluralidade da proveniência se
fez mais presente e imediata, transformando-se na precedência da
língua nacional sobre todo fenômeno de sentido. A língua como meio
de sentido abrange pois a mentalidade concreta, como crenças e
costumes fixados no léxico. Mediados como são pela religião e
valores éticos, de fato dependem estes da “hagiografia” ou
criação estética que os transformou um dia em imagem
passionalmente constituída daquela verdade que seria a mentalidade
corrente ao invés da razão científica.
Tudo isso é
evidentemente em devir, e a fixação não decorre de um modelo puro
do entendimento, mas sim da miscigenação como processo histórico
do qual decorreu a estabilização de um “povo”
(etnia/nacionalidade). Assim o termo romance vem de romanço, as
línguas que em cada nação europeia precede a atual, tendo sido o
resultado da fusão de culturas do povo bárbaro local e romana assim
como da correspondente língua germânica com o latim, a qual ocorre
no medievo.
Mas desse modo já não
subsiste um Cogito que nos explique, uma vez que a subjetividade
pensante não se resolve numa generalidade mas na língua assim como
em significados possíveis a partir dela – relação que é em
geral a mesma heideggeriana entre o Ser e os entes.
Onde o
Romantismo é mais importante historicamente, é ali mesmo onde a
língua se revela uma problemática política, a partir da imposição
por dominação imperial, de modelos que não expressam o significado
localmente veiculado. Assim o Brasil é exemplo conspícuo, pois
constituindo-se como nação somente na altura do Romantismo europeu
com que estabelece interlocução cultural por ser ocidentalmente
integrado, a expressão cultural da nova nação encontrou
imediatamente oposição política de partidos colonizadores ainda
atuantes, os quais pretendiam que não podia existir uma literatura
brasileira se vertida na língua portuguesa. O conceito de língua e
interpretação, como exemplarmente em Schleiermacher, revoga o
conceito de língua restrita a conjunto de regras universais, que até
aí colocava apenas a questão da origem universal. Lida,
inversamente, com o conceito de língua como constelação de
significados, por isso estritamente nacional, sendo a semântica
histórica – logo, localmente - constituída.
Ora, desse modo
emerge pioneiramente o Sujeito pensável, não como no Cogito
cartesiano ou kantiano, sujeito apenas de fato, mas de direito. Ou
seja, requerendo uma teoria do sujeito para apreendermos como os
significados são constituídos numa experiência localizada,
individuada, numa história pessoal a partir de um estado não já
“racional” como no gozo das capacidades que só o processo de
constituição completo pode facultar termos como adultos, historica
e intersubjetivamente atuantes a partir da legalidade instituída na
reciprocidade dos direitos e deveres, assim como na igualdade do
status perante a lei. Esta que põe agora questões
cientificizáveis, posto que não derivando da generalidade da origem
modelar, mas constituindo-se num processo intrínseco ao da
particularidade em devir que é o da língua nacional.
A miscigenação
é a regra, porém assim o que ela põe é a exceção, não podendo
ser reduzida ao esquema de modelo e cópia, já que a assimilação
de um signo é ela mesma o problema histórico. Ao invés de
assimilação, decorre pois a interlocução de algo com algo de
outro que já existe previamente, da qual resulta um sentido não
previsto em qualquer dos dois registros precedentes, assim como na
formação subjetiva em que a língua está continuamente se
atualizando e transformando. Os dias da dominação brutal do
colonialismo escravista estavam contados. Estimava-se que a
auto-consciência do particular estava agora vindo a ser como um
fenômeno de evolução universal.
Mas assim, os
problemas que se colocam de interpretação, formação, conceituação
linguística, história, estética, etc., se tornaram autônomos
relativamente à filosofia como possibilidade de explicação só a
partir da generalidade postulada na origem. As realidades que assomam
agora como tantos objetos das novas “ciencia humanas”, se tornam
conceituáveis para uma tarefa do pensamento renovada pela
tranformação do Real em devir: história social e evolução das
espécies.
A Naturphilosophie, de
Schelling, foi uma primeira tentativa do filósofo em fornecer uma
imagem da natureza integrada por esses novos objetos, ao mesmo tempo
que animada pela dinâmica das polaridades, tal que se poderiam
conceituar os grupos fundamentais de fenômenos enquanto polaridade
regida por uma síntese. A caracterização da polaridade se fez por
tentativas sucessivas, desde oxigênio e combustão, até a mais
estável, da polaridade elétromagnética. Exemplo do que designei um
grupo fundamental é na polaridade de oxigênio e combustão. O
oxigênio como princípio, se cinde na natureza em respiração
(vegetal) que o restituição e alimentação (animal) que o
corrompe. Os corpos vivos ou organismos são portanto a síntese.
Mas desse modo a
polaridade vai expressar o que na subsequente “filosofia da
identidade” Schelling estabeleceu como a cisão de sujeito e objeto
numa síntese que seria a identidade. Bréhier fala a propósito dos
elementos da polaridade em termos de “excesso” de sujeito ou de
objeto, sendo o que faz tender para um ou outro polo, ao invés de
duas realidades separadas realmente contraponíveis.
As questões com
que os comentadores de Schelling se deparam nessa transição da
filosofia da natureza à da ideintidade, a qual, como já vimos,
aporta a um período posterior em que a terminologia do Absoluto se
reveste da questão da liberdade criadora, escapando ao
necessitarismo inicial, são várias, o desacordo é notável, porém
não sendo oportuno desenvolver aqui.
O que não podemos
deixar de observar, é, primeiro, que a interveniência da
terminologia de Fichte entre ambas, utilizada por Schelling, sendo de
difícil interpretação posto que ao mesmo tempo se dizendo uma
aplicação possível da oposição de Moi e Non-Moi e uma
substituição pelo objeto como natureza, da transcendentalidade do
sujeito, já interpõe algo de original. Sendo o anúncio de se
conceituar uma gênese da consciência. Mas assim, como vimos, não
sendo a consciência o locus apropriado do desenrolar da oposição
numa síntese da auto-consciência filosófica, e sim o Absoluto, que
Schelling nomeia também o Um ou Deus.
Assim como a Leste o
aristotelismo materialista Bloch fez ver estar contextualizado por um
geral situamento neoplatônico dos temas, em Schelling o vemos
explicitar-se. A relação do Um, Absoluto ou Deus, com o que dele se
desdobra em termos de realidade e idealidade, assim como entre
objetividade fenomênica e autoconcepção transcendental, utiliza-se
indubitavelmente da terminologia neoplatônica das hipóstases. Mas
invertendo bastante o sentido da processão desde o uno, posto que a
alma não se coloca como o mais afastado e sim como a destinação ou
sentido do processo em que o Absoluto mesmo é.
Assim porém, o
segundo item importante na nossa consideração é a inserção
nocional da potência na sucessão das expressões filosóficas do
schellingnismo. Ora, a potência se coloca em dois sentidos na
terminologia de Schelling. Ora naquele que Bréhier privilegia, a
acepção de faculdades, nas quais se expressa ou se organiza
objetivamente o Absoluto. Por um lado, peso e luz, polaridade cuja
síntese é o organismo; por outro, saber e ação, cuja síntese é
a arte.
Nesta decorrência,
da arte se desdobra uma filosofia da história. A mitologia a
princípio, expressou num simbolismo sistemático a oposição de
infinito ou ser, real, e finito ou significado, ideal. O cristianismo
emerge como o triunfo do infinito. Mas assim pode-se profetizar uma
mitologia por vir que conciliará a ambos, as três sendo potências,
na acepção de faculdades expressivas do todo.
Ora, um outro sentido
da potência em Schelling é o que importa mais à nossa questão do
seu aristotelismo, pois se trata não tanto de potência como de
potenciação. Philonenko, na História da Filosofia de Chatelet, é
quem insiste mais nesse aspecto. A potenciação é pois, não tanto
um vir a ser a partir do Absoluto, mas o modo pelo qual o Absoluto
pode por numa realidade que ele faz derivar, qualquer vir a ser que
assim se restringe imanente aos constituintes dela.
A potenciação é
pois o modo pelo qual o Absoluto faz derivar a realidade na cisão do
pensável, assim realizando-se como real e pensável. Ou seja, o
emanatismo plotiniano é reinterpretado por Schelling, utilizando-se
da terminologia de Aristóteles da potência como locus da matéria
ou realidade efetiva do mundo em que a realidade tem trânsito
temporal e espacial. Aristóteles, portanto, por sua vez a sério
lido como bem o oposto de qualquer postulação de pura “atuosidade”
- o termo que Schelling utilizou em seu parâmetro crítico na
redação do seu texto de ácida crítica a Hegel. Não creio que
Schellling tenha sido totalmente feliz nessa crítica, ainda que isso
não dependesse de sua filosofia ser ou não superior à de Hegel
conforme nossa inclinação judicativa. Não obstante, ele é aí
bastante claro na deriva aristotélica (…)
ATENÇÃO ESTE BLOG FOI SABOTADO POR BANDIDOS DESGRAÇADOS QUE COSTUMAM ESTAR FAZENDO A MESMA OPERAÇÃO CONTRA A INTELIGÊNCIA POR APENAS IMPUNIDADE DE NOJENTOS GOVERNOS FASCISTAS
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Leia também meus outros blogs assinados ("eliane colchete"), e pela Quártica editora, de minha autoria: "O pós-moderno, poder, linguagem e história"; "Filosofia, ceticismo, religião - com um estudo sobre Diógenes Laércio"; "Contos do Espelho"; "Contos da Musa Irada"; mais títulos em parcerias.
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Atenção: este blog protesta contra o banditismo generalizado que tem sido imposto por todo tipo de fraude, opressão de atendimento ao público especialmente por parte de firmas de telecomunicações, abuso de poder econômico, genocídio escravista, já há vinte anos, por cumplicidade dos governos da globalização/neoliberalismo econômico - FHC, PT, o vice do PT, Temer, este que extrapolou todos os limites do respeito ao ser humano tendo passado a escravizar os milhares de servidores públicos dos estados ao longo de 2016, maquinando roubar o pagamento dos salários da saúde, escolas faetecs, e demais categorias, além de já ter roubado o necessário para funcionamento dos hospitais públicos, escolas, etc.; nenhum ato do governo Temer pode ser atribuído a qualquer relação com minha pessoa, meus estudos e meu pensamento, configurando-se ao contrário como de total oposição à minha pessoa.
Este blog conclama à justiça pública que se encarregue de enquadrar as propostas indecentes (inconstitucionais) de Temer ou de quem quer que seja, quanto a salário e aposentadorias, de modo a afastar o banditismo como de Temer dos cargos do governo, e meramente manter vivos os funcionários públicos que dependem dos seus salários e a população que depende dos serviços públicos;
Conclama também à justiça que se encarregue de limpar computadores pessoais, contas de internet e residências, da ação de invasores bandidos que estão fazendo cárcere privado da vida de pessoas idôneas. Mais uma vez reitero que nenhuma licença me foi pedida ou por mim concedida para qualquer intervenção na minha conta de internet, blogs, computador pessoal ou para espionagem, escuta ou visibilidade do meu apartamento, assim como manipulação de minha imagem ou obstáculo à minha circulação na cidade. Todas estas ações configuram crime de invasão de privacidade, assédio, cárcere privado, tortura psicológica, desrespeito total a todos os direitos humanos, roubo de propriedade intelectual, etc., não importa a identidade de quem as pratica, conforme previsto pela legislação constitucional. A identidade dos fautores deve ser investigada para serem objeto das punições cabíveis, e de modo a sabermos também quais as utilizações ulteriores como para que proveitos foram feitas do assédio constante - sobretudo, sabermos como é feita a nojenta neutralização dos comandos do nosso computador, a partir da sabotagem remota que os altera. Consideramos a esta violência contra nossos direitos responsabilidade policial e de justiça.
É urgente que as pessoas que pagam impostos sejam protegidas dos contingentes gigantescos que estão à margem da legalidade devido a políticas demagógicas de total irresponsabilidade e indiferença pelos direitos humanos, assim como de indivíduos delinquentes de quaisquer origens sociais cuja ocupação única tem sido a patologia social promovida pelos capitais ilegais do abjeto abuso que se designa "globalização" ou neoliberalismo econômico. A fraude dos fridman e haekel, habermas e foucaults, que devemos enfatizar mesmo que sobre o que já é de apercepção trivial: não conduz a nada além de caos financeiro/banditismo generalizado, conforme a situação presente, assim apenas comprovando a importância da organização política da sociedade independente da economia, organização a que se designa Estado.
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atenção, este blog está revisado; qualquer erro de ortografia ou desvio de sentido deve ser creditado a bandidos sabotadores já denunciados, que esperamos ser de responsabilidade policial apurar a identidade, sobretudo apurar como os comandos do computador do usuário proprietário da conta, que sou eu, são anulados para aparecer o que é colocado como sabotagem pelo(a) (s) bandido (a) (s), bem como identificar quem tem a responsabilidade pela integridade do documento a partir da propriedade da conta, cabendo ao sabotador tanto como ao responsável as penalidades de abuso dos direitos de propriedade, integridade psicológica, etc .
O abuso aqui denunciado é extensível a qualquer usuário, configurando aberração da legitimidade assim como avassalamento conspícuo dos mais básicos direitos humanos; também prejudicando a todos os que podem se beneficiar da integridade deste documento que perfaz um estudo de interesse internacional.
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